• Aucun résultat trouvé

Defining Types of Key Fields

Dans le document SORT Language (Page 134-137)

A demanda por um espaço cultural que proporcionasse melhores condições de trabalho e evitasse indisposições com a direção da Escola Polivalente teve o apoio dos moradores, através do abaixo-assinado, e seu atendimento foi aguardado com expectativa pelos integrantes dos grupos culturais locais.

A AMESA estava aí e na época, as casas eram feitas de madeirite. A gente pensava “se pedir de concreto ela não vão dar”, porque estavam fazendo de madeirite, então pede o galpão de madeirite. E aí veio o Cine-Teatro. (...) A gente não esperava que viesse essa coisa grandona do jeito que veio, a gente

62 Jacira de Jesus Costa, membro do CAMA – Centro de Arte e Meio Ambiente e colaboradora da FUNCEB lotada no Espaço Cultural Alagados. Entrevista cedida à autora em 15 de maio de 2009, no Espaço Cultural Alagados.

63 Jacira de Jesus Costa, na entrevista citada anteriormente.

64 Sue Ribeiro, teatróloga e professora de teatro em Alagados durante a década de 80, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Entrevista cedida à autora em 12 de maio de 2009, na Secretaria de Cultura Estadual.

86 queria um galpão de madeirite, só para ensaiar. Como veio esse monstrão, a gente não atentou para a questão da administração.65

Em 28 de janeiro de 1982 foi inaugurado o Cine-Teatro Alagados, um espaço cultural com formato tradicional, palco italiano, camarins e uma sala para oficinas. A sala principal, equipada com dois projetores de filmes de 16mm, dois de 35mm e tela de cinema de 4x8m tinha capacidade para 250 espectadores.

O informe publicitário relatava as melhorias já feitas no bairro e anunciava a inauguração do Cine-Teatro como uma espécie de fechamento dos trabalhos:

O Governo do Estado, através da Setrabs/Amesa, entrega, hoje, o primeiro cineteatro em Alagados, de uma série de outros que serão implantados nos bairros periféricos de Salvador. Um cineteatro que será também, clube social e centro de múltiplas atividades artístico-culturais. Essa guinada da história de Alagados só foi possível graças à força de trabalho do Governo Antônio Carlos Magalhães, que, com mais essa obra, está transformando a Velha Alagados numa nova realidade com um final feliz.66

Segundo alguns dos entrevistados, a construção de um edifício tão imponente, considerando o padrão construtivo do bairro na época, surpreendeu os moradores e, em especial, os grupos que haviam se mobilizado para apresentar tal demanda ao Governo. Segundo Wanderlei Moreira (Metrô), “muitas pessoas se sentiam até intimidadas mesmo de entrar... Mas depois iam, entravam e tal”.67 A construção, em alvenaria, foi a primeira da área hoje conhecida como Final de Linha do Uruguai com este material, realizada pela então AMESA no momento em que a área se consolidava, com a construção dos barracos-padrão ou embriões, feitos de madeirite.

A arquitetura do Cine-Teatro (figura 4) não sugere que seja um espaço cultural; pela fachada do edifício, poderia tratar-se também de um posto de saúde, delegacia ou qualquer outro prédio público. Além da despreocupação com a qualidade estética do edifício do Cine-Teatro e com sua inserção naquele ambiente, o projeto apresenta alguns aspectos que determinam, em princípio, limitações ao uso. O modelo escolhido de palco, do tipo italiano, delimita de

65 Wanderlei Moreira, liderança do movimento cultural do bairro e coordenador do Espaço Cultural Alagados entre 2007 e 2009. Entrevista cedida à autora em 03 de setembro de 2008, no Espaço Cultural Alagados.

66 Jornal Correio da Bahia, 28 de janeiro de 1982 (informe publicitário).

67

87 forma estanque os lugares do artista e do público, dificultando a realização de espetáculos com propostas mais ousadas, no sentido de possibilitar que os espectadores se sentissem também sujeitos da cultura. O foyer, espécie de ante-sala que dá acesso à sala de espetáculos, é diminuto, impedindo a concentração do público antes e depois dos espetáculos e dificultando a realização plena da sociabilidade que envolve uma ida ao teatro ou ao cinema.

Figura 4 – Fachada do Cine-Teatro Alagados

Fonte: Jornal A Tarde, 10 de março de 1987.

Independente de sua forma, o Cine-Teatro foi recebido por grande parte dos moradores como um presente, como fazia supor o Governador Antonio Carlos Magalhães em seus freqüentes discursos de inauguração de obras em Alagados. Para muitos dos moradores o Cine-Teatro com acesso gratuito possibilitou seu primeiro contato com o cinema e outras artes.

Joselito Crispim, diretor do Grupo Cultural Bagunçaço, conta brincando que “houve uma moda de inverno nos Alagados por conta do ar condicionado do Cine-Teatro”.

Nesse período que criaram o teatro, foi a primeira vez que eu fui ao cinema. Eu lembro que tinha um tio meu que era meio andarilho, vivia sempre fora e apareceu naquela época trazendo umas botas gaúchas, daquelas. Lembro que eu botei aquela bota gaúcha, porque ir ao teatro, ao cinema, era a coisa mais espetacular do mundo (...) e lá vou eu de calça e bota pro teatro, pra uma fila que não tem mais tamanho, pra assistir Os Trapalhões.68

68 Joselito Crispim, Arte-educador e diretor do Grupo Cultural Bagunçaço. Entrevista cedida à autora em 08 de maio de 2009, na sede do Grupo Cultural Bagunçaço.

88 Mestre Pedro Pé-de-Ferro, diretor da Academia de Capoeira Filhos do Sol Nascente, que hoje ocupa as ruínas do Cine-Teatro, relata as suas impressões da época em que o espaço estava em funcionamento.

No começo era tudo bom, né? A comunidade ficou muito contente com isso. Todos participavam, vinham participar. (...) Eu sempre vinha, fazia show, vinha representar com o grupo de teatro, com o grupo de capoeira... Eu sempre era chamado, sempre bem visto como é até hoje. (...) Isso aqui ficava cheio de gente, tinha a parte que o pessoal apresentava, o pessoal gostava muito, sempre tinha gente aqui dentro. Até Michael Jackson [um capoeirista do bairro fazia cover do artista] tinha aqui dentro, que apresentava e o pessoal gostava muito.69

Ronaldo Bonfim, antigo bilheteiro do Cine-Teatro, hoje funcionário da CONDER (empresa que absorveu os funcionários da HAMESA quando de sua extinção), relata com entusiasmo suas impressões sobre o funcionamento do Cine-Teatro Alagados:

Ah, era porreta, era bacana! As atividades eram música, teatro, cinema... Mas cinema principalmente. De terça a domingo tinha cinema, todos os dias, as nossas folgas eram segunda-feira. (...) O pessoal amava, rapaz! Todas as sessões eram cheias, casa cheia. (...) Lotava, lotava! Isso aí [apontando na direção do Cine-Teatro] era uma farra! Isso aí ficava cheio! Quando era dia de sábado e domingo a comunidade vinha toda. E de outros lugares, Lobato, Massaranduba...70

Se é verdade que a forma condiciona os usos dos espaços, é a sua gestão que determina se esses usos poderão ou não ser subvertidos, transformados em outros de acordo com os interesses e necessidades dos públicos. Assim, a apropriação efetiva de um edifício público depende em boa medida da sua gestão. Nesse aspecto, o Cine-Teatro teve uma atuação um tanto controversa.

É importante lembrar que, passados dezoito anos da inauguração do Cine-Teatro, a memória de cada entrevistado reescreve essa história de uma forma, o que dá certa imprecisão a alguns detalhes. Como não foi possível confrontar as entrevistas com dados documentais da época, optamos por destacar essas imprecisões quando ocorrerem.

69 Mestre Pedro Pé-de-Ferro, diretor da Associação de Capoeira Filhos do Sol Nascente, que desde 1991 ocupa as ruínas do antigo Cine-Teatro Alagados. Entrevista cedida à autora em 08 de maio de 2009, no Cine-Teatro Alagados.

70 Ronaldo Bonfim, funcionário da CONDER e morador do bairro, foi bilheteiro do Cine-Teatro Alagados. Entrevista cedida à autora em 25 de abril de 2009, no Espaço Cultural Alagados.

89 Dois depoimentos de ex-participantes do grupo Explosão e Aventura sobre a participação do grupo na inauguração do Cine-Teatro demonstram como a história hoje é contada de forma diferente por cada testemunha. Segundo Jacira Costa, “no primeiro momento foi muita felicidade, a gente viu nosso sonho realizado. Veio todo mundo. Nós fomos apresentados como os responsáveis”.71

Já Isael Barros relata que “no dia da inauguração, nós, inclusive, em protesto não entramos”.72

As informações sobre as relações institucionais em torno de Cine-Teatro são, talvez, as que mais apresentaram contradições, se tomarmos as falas dos entrevistados de diferentes grupos e os relatos publicados pelos jornais. Em alguns depoimentos a então AMESA aparece como único agente do Estado a se relacionar com o Cine-Teatro, centralizando desde o custeio e manutenção até a programação. Outras vezes, a Fundação Cultural foi citada como colaboradora quanto à programação, tanto por matérias anteriores à inauguração do Cine- Teatro como em depoimentos sobre as atividades já da fase de decadência. Outras entidades vinculadas ao Governo Estadual, como a Superintendência de Desenvolvimento de Comunidades, o Instituto do Patrimônio Artístico Cultural e o Movimento de Ação Integrada Social – MAIS (administrado pela primeira-dama do Estado), também foram citados como responsáveis pela gestão do espaço cultural, mas essa citação não foi recorrente, o que faz crer que tenham sido articulações não concretizadas ou então muito fugazes.

Em seu primeiro ano de funcionamento, 1982, o Cine-Teatro teve dois gestores diferentes, que ficaram no cargo por um curto período. Já em abril de 1983, o ator Leonel Nunes foi convidado pelo então presidente da HAMESA (a empresa havia mudado de nome e objetivos em março do mesmo ano), Luiz Gonzaga, para trabalhar em Alagados, coordenando não apenas aquele Cine-Teatro, mas também outros espaços que o Governo acabara de implantar

71

Jacira de Jesus Costa, membro do CAMA – Centro de Arte e Meio Ambiente e colaboradora da FUNCEB lotada no Espaço Cultural Alagados. Entrevista cedida à autora em 15 de maio de 2009, no Espaço Cultural Alagados.

72 Isael Barros, educador e primeiro coordenador do Espaço Cultural Alagados. Entrevista cedida à autora em 02 de setembro de 2008, na Associação dos Moradores do Conjunto Santa Luzia.

90 em alguns bairros populares de Salvador – a saber, Beiru, Sieiro, Liberdade e Plataforma73 – e na cidade de Lauro de Freitas.

No entanto, a relação com o movimento cultural já existente no bairro de Alagados demandou a maior atenção do coordenador a este Cine-Teatro, pois, diferentemente do que ocorreu nos outros bairros, a construção do Cine-Teatro em Alagados foi fruto de uma demanda dos grupos locais e gerou entre estes grandes expectativas quanto ao futuro de sua atividade.

Quando ingressei no Cine-Teatro de Alagados a minha primeira proposta foi abrir o espaço para os artistas da comunidade, que até aquela altura frequentavam apenas o Cine-Teatro para assistir aos filmes programados semanalmente. Isso era muito pouco, pois o Cine-Teatro, dotado de um bom palco e espaço para desenvolver atividades culturais, não era cedido à comunidade. As dificuldades sempre foram de ordem política, pois a comunidade rejeitava a forma como os governantes atuavam. O teatro foi construído e assim achavam que a comunidade estaria satisfeita em ficar assistindo filmes e mais filmes, sem poder desenvolver nenhuma outra atividade.74

Para alguns grupos e artistas que não estiveram ligados ao movimento em prol da construção de um espaço cultural em Alagados, a possibilidade de se apresentarem eventualmente naquele palco atendia às suas necessidades, mas para os membros dos grupos Sapinho Colorido e Explosão e Aventura, formados a partir do PRODASEC, a impossibilidade de participação na gestão do espaço frustrava suas expectativas.

Antes de inaugurado o espaço, o Jornal Correio da Bahia, cujo conteúdo equivalia ao de uma publicação oficial do Governo, pois o veículo é de propriedade da família do então governador, afirmava qual seria o papel do Cine-Teatro: “Ele dará condições para que haja um maior desenvolvimento cultural em Alagados, onde já funcionam alguns grupos de teatro e de dança”.75

73

O próprio Leonel Nunes quando entrevistado não conseguiu se lembrar de todos os bairros contemplados com esses espaços.

74 Leonel Nunes, ator e coordenador do Cine-Teatro Alagados entre 1983 e 1986. Entrevista cedida à autora por e-mail, no dia 27 de abril de 2009.

91 A intenção de abrir o espaço para os grupos locais era sempre reiterada no discurso oficial, conforme outra matéria, publicada com dois meses de funcionamento do Cine-Teatro, que apresentava o relatório do andamento das intervenções do Governo Estadual em Alagados: “[o Cine-Teatro] dentro em breve não exibirá somente filmes: será também o palco para a apresentação dos 32 grupos de teatro, de música e de dança que existem no bairro e que até hoje ensaiam e se apresentam nas igrejas, escolas e ruas”.76

Após cinco meses de atividades no Cine-Teatro, uma nova matéria relatava o excelente resultado de público obtido no período:

Inaugurado há cinco meses, o Cine-Teatro Alagados já se consolidou como opção de lazer para a população da área. Nesse período ele foi freqüentado por cerca de 40 mil pessoas, a maioria criança e adolescentes. (...) Nas terças, quartas, quintas e sextas há duas sessões, às 17 e 20h. Nos sábados e domingos, são quatro sessões, a partir das 14h.77

De acordo com essas informações, o Cine-Teatro teria realizado, em cinco meses de atividades, cerca de 320 sessões, tendo uma média de 125 espectadores a cada sessão, ou seja, 50% da lotação do espaço (que era de 250 espectadores). O grande número de sessões e o fato de terem sempre “casa cheia” foram afirmados também por vários dos entrevistados. Mesmo assim, a matéria revelava a preocupação dos gestores em adequar a programação aos interesses dos moradores.

Os filmes são trocados semanalmente e a preferência é dada aos filmes nacionais. Dentre os 20 já exibidos destacam-se “Pixote”, “Os Saltimbancos Trapalhões”, “Chuvas de Verão” e “Tenda dos Milagres”. A programação deste mês inclui “O Cortiço” e “Coronel Delmiro Gouveia”.

Para atender melhor à população, a Amesa está realizando uma pesquisa de opinião junto aos moradores de Alagados, e caso se torne necessário, vai redirecionar o funcionamento do Cine-Teatro. Também estão sendo mantidos contatos com a Fundação Cultural do estado e com outros órgãos, visando a apresentação de espetáculos de música, dança e teatro.78

76

Jornal Correio da Bahia, 25 de março de 1982.

77 Jornal não identificado, sem data de publicação. Recorte encontrado nos arquivos do Espaço Cultural Alagados. Na matéria há referência à data de sua publicação, cinco meses após a inauguração do Cine-Teatro (provavelmente, no mês de junho).

92 Durante dois anos, 1982 e 1983, o Cine-Teatro exibiu sessões diárias de cinema, além de trazer para o bairro espetáculos destacados da cidade e de abrir espaço para a apresentação de alguns grupos locais79. A programação era elaborada pela então AMESA, que contava com uma pequena equipe responsável pela rede de espaços culturais. Além dos filmes referidos na matéria citada acima, nas entrevistas foram frequentemente citados os filmes d‟Os Trapalhões e também filmes da Xuxa, além dos títulos internacionais, de super-heróis, como Superman e Conan. Jacira Costa, que integrou o grupo Explosão e Aventura, faz uma ressalva quanto à críticas dos grupos locais às atividades do Cine-Teatro:

Mesmo a gente não tendo acesso, é bom dizer que as atividades culturais eram quase diárias. E tinha público, era interessante. Eles traziam muita coisa do circuito comercial, principalmente cinema. No final ficou mais projeção de cinema. Isso agradava a população local. Nos dois anos que eles ficaram, fizeram muitas coisas.80

No entanto, o acesso à cultura que o Cine-Teatro proporcionava aos moradores de Alagados, mesmo tendo sido sempre gratuito, era limitado à esfera da fruição e de conteúdos pré- determinados. O morador tinha o direito de entrar e assistir o que estava sendo exibido. Para os grupos locais, formados pelos novos sujeitos culturais do bairro, que já haviam constatado, a partir da participação no PRODASEC, sua capacidade de realização, apenas este acesso era muito pouco.

A atuação do Estado frente ao território popular de Alagados, através do Cine-Teatro ali implantado, não se fazia dentro da lógica da cidadania, mas sim na do atendimento, propondo uma programação fechada, sem possibilidades de participação. Alguns dos entrevistados, inclusive o próprio Leonel Nunes, revelam que houve tentativas de diálogo entre o então coordenador e os grupos que tinham interesse em participar da gestão do Cine-Teatro, mas as propostas não foram viabilizadas.

Tinha uma relação [com Leonel e a AMESA], mas era complicada, (...) a gente até tentou e eles também, só que não conseguiram, porque era acima

79

A matéria de jornal anteriormente citada relata que, ao menos até seu quinto mês de funcionamento, o Cine- Teatro oferecia apenas sessões de cinema, no entanto, alguns dos entrevistados se referiram à realização de shows e espetáculos de teatro, dança e capoeira no espaço.

80

Jacira de Jesus Costa, membro do CAMA – Centro de Arte e Meio Ambiente e colaboradora da FUNCEB lotada no Espaço Cultural Alagados. Entrevista cedida à autora em 15 de maio de 2009, no Espaço Cultural Alagados.

93 deles, o poder era mais diretamente do Governo na época, o Governo na época era de ACM. Não se tinha diálogo, era contra o diálogo. Então, Leonel até tentava, mas a gente via que não dava pra ter diálogo, porque era um diálogo fechado, de comando... (...) A gente podia discutir a programação. Só a programação. Depois de discutida com a gente passava por outro processo lá, que era “isso aqui não pode, isso aqui não pode” e quando via já vinha de novo remontada.81

Para os grupos locais, formados a partir da experiência com o PRODASEC, o erro já havia sido cometido desde o princípio da construção do espaço, quando se determinou que caberia à HAMESA, além de construir, administrar o Cine-Teatro. O histórico elaborado por Wanderlei Moreira (Metrô), que integrou o grupo Sapinho Colorido, revela esse posicionamento:

A partir desta tomada de decisão foram estabelecidos os conflitos de interesse, pois, a HAMESA, não tinha o conhecimento necessário para atuar na área artístico-cultural. Sua atribuição era realizar obras, logo a administração do uso do equipamento foi um desastre. Durante este período, houve administradores totalmente despreparados para se relacionar com os moradores das comunidades, ocasionando o afastamento e, até, a proibição do acesso a grupos, artistas e representantes da comunidade, inclusive os protagonistas da ação sócio-cultural, responsáveis pelo processo inicial de reivindicação do Cine-Teatro Alagados (MOREIRA, 2007, s/p).

A partir de 1984, a HAMESA teve dificuldades em manter a programação, que deixou de ser regular e acabou por ser suspensa. As obras da empresa em Alagados estavam sendo concluídas e o escritório de campo também se esvaziava. A coordenação se retirou do espaço, deixando apenas dois funcionários que abriam e fechavam o Cine-Teatro. Apenas três dos funcionários lotados no espaço eram moradores do bairro: o bilheteiro Ronaldo, o servente Francisco e o operador Eurico. A guarda do Cine-Teatro ficou a cargo dos dois primeiros, que, diante da ausência do Estado e da população local, que nunca conseguiu se apropriar daquele espaço, realizavam festas privadas, com finalidade comercial.

O Cine-Teatro só não tinha fechado porque nós ficamos um bom tempo com ele. Eufiquei com ele até 86. Eu tomava conta com outros colegas. A gente usava o espaço pra final de semana fazer shows, fazer danceteria. Era isso que a gente ganhava. Não perdemos o emprego, continuávamos recebendo, porque a gente era funcionário da HAMESA (...). A gente vinha eventualmente, não trabalhava. A gente ficou usando até 86. Usava como morador, não como funcionário.82

81 Jamira Muniz, educadora, atual coordenadora do Espaço Cultural Alagados. Entrevista cedida à autora em 11 de maio de 2009, na Escola Comunitária Luiza Mahin.

82 Ronaldo Bonfim, funcionário da CONDER e morador do bairro, foi bilheteiro do Cine-Teatro Alagados. Entrevista cedida à autora em 25 de abril de 2009, no Espaço Cultural Alagados.

94 As festas, com som mecânico, aconteceram seguidamente nos finais de semana, quando os funcionários tiravam as cadeiras do Cine-Teatro, transformando a sala de espetáculos em pista de dança. Ao fim de cada festa, os funcionários repartiam a arrecadação.

Outro relato de uso privado – e ilegal – foi feito pelo Jornal Tribuna da Bahia, em matéria de 1987, sobre o estado de degradação do Cine-Teatro.

O Cine Teatro dos Alagados chegou ao estado deplorável em que se encontra depois da última campanha eleitoral, pois o espaço serviu de comitê político do candidato a deputado estadual Luiz Gonzaga, ex-presidente da Amesa, o que veio a acarretar muitos prejuízos ao Teatro e revolta dos

Dans le document SORT Language (Page 134-137)

Documents relatifs