Os dados sobre Davi (nome fictício) foram produzidos por meio de entrevistas conduzidas com a avó e com a professora, e através de registros observacionais da pesquisadora. No período em que o estudo foi realizado, o menino residia com os avós numa cidade serrana do interior do Rio Grande do Norte. Segundo a avó, Davi frequentava a creche onde a pesquisa foi conduzida há dois anos. Ele era atendido, a cada dois meses, por uma fonoaudióloga em uma instituição pública de um município vizinho. A família de Davi era de baixa renda. O pai
biológico era agricultor, a mãe era estudante, a avó era dona de casa e o avô, mecânico. A mãe, quando teve o menino, tinha 14 anos e sua gestação foi bastante complicada. A gravidez da criança, segundo dados fornecidos pela avó, foi muito conturbada. A mãe não tinha horários para dormir, frequentava festas e barzinhos, fumava muito, dormia mal e não tinha um bom relacionamento com o pai da criança – de acordo com a avó, eles brigavam muito e se separam depois do nascimento do menino. No decorrer da gestação, ela se internou várias vezes para não perder o bebê e tomou injeções como prevenção contra o aborto. Ademais, no decorrer da gestação, adquiriu toxoplasmose. Nessa fase, estava com seis meses de gestação e, no período, não tomou qualquer medicação para combater a doença. O parto da criança foi cesariano. A criança, ao nascer, não chorou e sua aparência era bem escura. O menino teve que receber estimulação para chorar. Após a criança completar um ano, a mãe biológica a deixou sob os cuidados da avó e viajou para Teresina/PI a procura de trabalho.
Com base na escala CARS, aplicada pela pesquisadora, pela professora do ensino comum, Maria Luísa, e pela avó de Davi, Margarida, o menino apresentava grau de autismo grave, evidenciado pelos 45 pontos da escala.
Nas relações pessoais, de acordo com a avó e a professora regular, o aluno às vezes demonstrava indiferença à presença dos demais, sendo necessárias tentativas persistentes para se conseguir a atenção da criança. Permanecia, na maior parte do tempo, isolado, engajado em brincadeiras estereotipadas e não sociais. Esse comportamento era observado quando o menino parecia não se interessar em brincar com os colegas de sala. De fato, a avó salientou que Davi não interagia com crianças que moravam em sua rua. Limitava-se a brincar com uma tia que tinha, na época, dois anos de idade. Em crianças com autismo, evidencia-se um prejuízo na capacidade simbólica e no desenvolvimento de atividades lúdica, resultando em um brincar estereotipado, sem variações – que se expressam por atividades repetitivas e monótonas (LEITE; ABRÃO, 2015). Nessa direção, Cipriano e Almeida (2016) destacam que os sujeitos com TEA podem apresentar comportamento característico de rigidez, repetição de movimentos e escolhas e apresentam um brincar com baixo potencial imaginativo.
Em termos de linguagem, não se comunicava verbalmente e tinha dificuldades de ser compreendido de forma não verbal. Algumas vezes, no decorrer da pesquisa, o aluno emitia gritos estridentes quando queria algo e não conseguia se expressar. Especificamente sobre a linguagem, Backes, Zanon e Bosa (2013) apontam que as crianças com TEA podem apresentar atrasos na aquisição dessa habilidade. Esses mesmos autores destacaram algumas pesquisas que apontam a linguagem oral como a habilidade mais prejudicada pela regressão, afetando cerca de 20% dos sujeitos com TEA. Esse retrocesso está associado à perda de habilidades sociais.
Vale destacar que a presença de déficit no desenvolvimento da linguagem e habilidades comunicativas nos sujeitos com TEA é evidente desde os primeiros meses de vida (NUNES, 2016).
No que se refere ao uso do corpo, o aluno exibia movimentos estranhos com os dedos, beliscava o corpo ou batia intensamente a cabeça na parede. Os episódios de autoagressão eram mais frequentes quando desapontado. Nessas ocasiões, era impulsivo e colocava-se em situações que poderiam ser perigosas, como jogar cadeira, mesa e tudo o que encontrava pela frente. Apresentava movimentos repetitivos, corria várias vezes na mesma direção por alguns minutos e balançava-se por um longo tempo. As estereotipias motoras são frequentes no autismo. Nesse contexto, o CID 10 (apud BARROS; FONTE, 2016) aponta as estereotipias motoras como uma categoria nosográfica, que se manifesta com movimentos intencionais, repetitivos, estereotipados, ritmados, desprovidos de finalidade e sem relação a um transtorno psiquiátrico ou neurológico identificado. Baseando-se nesse pressuposto teórico, compreendem-se como comportamentos estereotipadas no autismo: reproduzir um padrão fixo de atividade, movimento ou vocalização; permanecer sem pausas num tempo próprio fora do domínio exterior; e, aparentemente, não ter um objetivo determinado ou não responder a algum estímulo do meio (BARROS; FONTE, 2016).
Em termos comportamentais, apresentava dificuldade em dormir e, quando acordava de madrugada, sentia muita dificuldade em voltar a dormir. Segundo a avó, o menino dormia entre 7 e 9 horas diárias. Os Distúrbios de Sono (DS) têm sido amplamente discutidos na literatura de autismo. Para Nunes e Bruni (2015), o DS é caracterizado como a dificuldade de iniciar ou manter o sono e é comum se manifestar nos sujeitos com TEA. O DS se manifesta por um determinado período e os sujeitos com insônia demonstram resistência para dormir. No decorrer desses episódios da latência do sono, acontecem despertares noturnos. A prevalência de insônia nesses sujeitos tem sido associada a maior frequência de estereotipias e piores escores de gravidade. Esse comportamento é registrado, segundo os autores, com maior frequência nas crianças menores.
O comportamento diário de Davi era assistir a seus programas favoritos na televisão, os desenhos animados. Com relação à sua alimentação, ao seu apetite, a avó descreveu-o com um apetite excessivo, tinha que fazer de tudo para retirar as coisas que ele não podia comer da geladeira. De acordo com Caetano e Gurgel (2018), as crianças com autismo podem ser acometidas de uma série de transtornos gastrointestinais, como a diminuída produção de enzimas digestivas, inflamações da parede intestinal e permeabilidade intestinal alterada.
Davi parecia não compreender a rotina escolar e as regras desse ambiente. Ele tinha preferência pelos carrinhos e gostava de enfileirar e empilhar cadeiras (em forma de trem) ou mochilas, na sala de aula. Tipicamente se zangava quando tentava tirar os colegas das cadeiras para empilhá-las.