É um erro imaginar que a literatura sexual parou de ser produzida na Idade Média, tanto por causa da grande população religiosa, quanto por causa da repressão da própria igreja. Pelo contrário, esse tipo de literatura continuou a florescer e grandes clássicos datam dessa época.
Foi durante esse período que se desenvolveu a noção da luxúria, um dos sete pecados capitais da Igreja Católica, que “consiste no apego aos prazeres carnais, corrupção de costumes; sexualidade extrema, lascívia e sensualidade”15
. Dentro dela estão perversões sexuais, como a pedofilia e o sadismo, e, para os católicos, ela pode levar à prática de outros pecados menores ou trazer consequências ruins, como a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. No entanto, o que existia era basicamente a ideia da luxúria e o combate a ela era mais uma teoria do que uma prática rígida.
A literatura refletiu as múltiplas nuanças dessa nova ideologia da carne. Quis-se mostrar que a luxúria conduzia o mundo, superando a gula ou a ambição, e que escarnecia de todos os obstáculos. Numerosos escritos incitaram o povo a se preservar de suas armadilhas, ou o divertiram à custa daqueles que, pregando contra a luxúria, como monges e devotos, a ela cediam segundo a ocasião. Com o pretexto de denunciar os luxuriosos, suas malícias e seus prazeres, a Idade Média cristã se permitiu assim licenças extremas em seus fabliaux, contos rimados recitados pelos menestréis em público. (ALEXANDRIAN, 1994: 35)
O contexto religioso da Idade Média mostra certa indulgência da igreja com os pecados relacionados ao sexo, como a homossexualidade e a masturbação – considerados pecados menores – e também o estímulo à ideia de que o orgasmo feminino era uma coisa boa e necessária para facilitar a procriação. Além disso, até o século XII – quando o celibato se tornou obrigatório, o que teve resistência de vários padres que continuaram tendo vida sexual ativa –, o casamento era permitido para os padres. Vários fabliaux falam desses padres que não seguiram a nova norma e continuaram fornicando, principalmente com mulheres casadas.
A ampla circulação dessa matéria erótica e licenciosa inscreve-se dentro de um contexto em que a Igreja passa a exaltar os benefícios da mãe natureza, favorecendo, em última instância, uma concepção mais física e mais espontânea da sexualidade e o direito ao prazer. A valorização da natureza emerge em contraposição a algumas heresias que eram contrárias à procriação. (DANTAS, 2013: 3)
Nesse contexto, é normal imaginar o surgimento e o florescimento de diversas histórias licenciosas, usadas para divertir e estimular quem as lesse ou ouvisse. Muitos eram os que as escreviam, mas poucos são considerados, até hoje, clássicos. Entre os
fabliaux, alguns dos mais conhecidos foram La Male Fame (A mulher má) – que mostra
maneiras como mulheres adúlteras conseguiram sair ilesas quando flagradas –, Do anel
que tornava os membros grandes e rígidos, do menestrel Haisiaux, os de autoria de
Montaiglon, como O debate da cona e do cu, o Dit* das conas, De putas e fornicários, Do
fodedor, Do criado das doze mulheres, Daquela que se deixou foder sobre o túmulo do marido e etc., entre muitos que divertiam a população medieval.
Para além do erotismo, os fabliaux constituem verdadeiros registros dos hábitos cotidianos dos habitantes da cidade e do campo, sobre os quais os documentos oficiais que chegaram aos nossos dias, voltados para as classes dominantes, calam. Com eles, acompanhamos o dia-a-dia dos burgueses, comerciantes, camponeses, padres e cavaleiros: o que tinham à mesa, o modo de preparar a comida, as tarefas domésticas, a intimidade do casal, o trabalho no campo e na cidade, modo de vida do comerciante, os novos ofícios, os tipos de comércio, as feiras, etc. A sexualidade livre e desinibida tal como representada nos fabliaux medievais constitui um marco na literatura erótica, deixando um importante legado para a literatura europeia dos séculos posteriores. (DANTAS, 2013: 8)
Apesar dessa moderada liberdade sexual, a mulher medieval precisava seguir normas rígidas. Era a época do feudalismo e mulheres da classe nobre representavam somente bons casamentos e a posse de novos feudos. Ela não podia escolher um marido e devia a ele sua servidão e obediência, sem questionamentos ou indisciplinas. É nesse cenário que surge o amor cortês, buscando tornar o amor uma virtude comparável à honra, buscando tornar a mulher amada um ser superior e, portanto, digno de respeito. Vale ressaltar que a amada deveria ser casada com outro homem.
Segundo as regras do amor cortês, o trovador se apegava a uma senhora casada, que sua condição tornava inacessível, tanto mais que muitas vezes ele mesmo era de condição modesta. No começo, ao vê-la ou ouvi- la, sentia-se atingido pelas flechas do cupido: era o enamoramento, sempre produzido pelos olhos ou pelos ouvidos e que, no caso de amor à distância, podia se verificar por uma desconhecida jamais encontrada, da qual ele ouvia contar maravilhas. Desde então, entrava no joy, alegria do desejo que o elevava a uma exaltação a um só tempo deliciosa e desesperada. Graças ao joy trilhava o caminho do bem; tornava-se adepto do erotismo puro (fin’s amors). Dali passava ao estado de suplicante (precador), o que quer dizer que ele se declarava: a dama podia deixá-lo suplicar três vezes antes de responder. Se ela consentia em adotá-lo como amante aceito (entendedor), fazia-o no decorrer de uma cerimônia íntima
em que ele se punha de joelhos, mãos juntas; ela se inclinava então para lhe dar um beijo de confirmação. (ALEXANDRIAN, 1994: 42)
Antes de se chegar ao ato sexual em si, os então amantes passavam por várias etapas que serviam para testar o homem e ver se ele era digno daquela senhora, se possuía a cortesia exigida de todos que buscavam o amor cortês. De fato, o ato sexual era adiado ao máximo, com medo de que o desejo terminasse depois dele.
Entre os autores desse tipo de obra se destacam alguns, como André le Chapelain, que escreveu obras como De Amore, que tanto se inspira, quanto contradiz a Ars Amatoria de Ovídio – que circulava na Europa na época – e o romance Flamenca, onde um marido ciumento tranca uma mulher na torre e a missão de um amante, cavalheiro cortês, é: primeiro, passar por todas as fases de testes para se tornar um amante e, depois, libertá-la de seu enclausuramento.
Na Idade Média também floresceu a poesia lírica sexual. As suas principais formas de expressão eram os rondós16, baladas17, lais e virelais18, que possuíam uma grande riqueza de vocabulário e formaram um novo gênero de textos, as soties amoreuses ou sotte
ballade19. Entre os autores mais ilustres está Eustache Deschamps, que escreveu poesias como Aleluia de amor, vilerai, Balada do mendigo de amor, Lição de música e Le miroir
de mariage20 – inacabado por causa da morte de Deschamps. Outro escritor de soties foi Henri Baude, que escreveu uma série de rondós sexuais. Também Jean Molinet, grande poeta francês, que também se dedicou e se divertiu ao escrever versos com temática sexual, como em Le Chapelet des dames, onde descreve algo que viu em um dia de maio em uma capela, Ballade sur la maladie de Naples, primeiro poema francês sobre a sífilis, que começava a se manifestar no país, e Complainte d’ung gentilhomme à as dame, sobre o mesmo tema. Muitos outros também escreveram as soties, mas inúmeras eram anônimas.
No Trecento – isto é, no século XIV, onde se confundem a Idade Média agonizante e o Renascimento em formação – Giovanni Boccaccio foi o
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Rondós: forma fixa de poesia, com composição musical seccionada, estruturada a partir de um tema principal e vários temas secundários, sempre intercalados pela repetição do tema principal. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Rondó. Acessado em 03/11/2014.
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Baladas: história apresentada em forma de poesia musicada. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Balada. Acessado em 03/11/2014.
18 Lais: Longos poemas líricos, compostos por 12 estrofes ou pares de estrofes, todas elas diferentes musicalmente, com exceção da primeira e da última. Virelais: são aparentados com as baladas, mas mais curtos, com temas mais leves, onde o amor desempenha o papel principal. Disponível em
http://albertoviana.net/classicos/compositores/machaut.htm. Acessado em 03/11/2014. 19 Sotie amorosa ou Balada do tolo.
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primeiro a transformar a licenciosidade ingênua e brutal dos fabliaux num erotismo refinado. (ALEXANDRIAN, 1994: 54)
O clássico Decameron, escrito por Boccaccio, é o que colocou o autor no hall dos grandes escritores. O livro começa falando da peste e de seus efeitos devastadores sobre a cidade de Florença, o medo, a desolação da população. Nesse contexto, sete mulheres e três homens, com seus empregados, saem da cidade e vão para um palácio no ponto mais alto de um vale, longe de todo aquele caos. Para se distraírem durante o tempo que ficarão lá, resolvem contar histórias durante o dia.
Segundo Alexandrian (1994), o livro traz algumas grandes inovações. A primeira delas é que o livro não é desordenado, as histórias obedecem a efeitos de simetria, contraste e progressão dramática e, além disso, cada dia traz um tema preciso – exceto no primeiro e nono dias. Outra inovação é o fato de que os contos licenciosos são contados por homens e mulheres de distinção. Também nos diz que mais uma novidade é que o erotismo do livro nem sempre é cômico e, em alguns momentos, chega a ser trágico. Apesar disso, o livro foi ignorado pelos letrados, de início, sendo adquirido somente por “nobres amadores”. Boccaccio conseguiu um êmulo, outro italiano, Franco Sacchetti, autor das Trecento Novelle, conjunto de trezentas novelas sexuais, muitas delas cômicas.
Um dos últimos livros eróticos da Idade Média foi The Canterbury Tales, escrito por Geoffrey Chaucer, primeiro narrador livre na Inglaterra. O livro conta a história de vinte e nove pessoas que, enquanto estão em uma hospedaria de Southwark, em Londres, decidem fazer uma peregrinação a Canterbury, durante a qual contam histórias para combater o tédio da viagem.