Atualmente, as condições do mercado de trabalho que prevalecem em sociedades de desenvolvimento tardio como o Brasil são caracterizadas por setores mais dinâmicos e modernos da economia, gerando uma estrutura de emprego altamente heterogênea e que exige dos ocupantes desses cargos uma capacidade técnica e intelectual diferenciada, resultando, assim, em elevadas taxas de subemprego, desemprego e baixos salários, para os que não se enquadrem em tais requisitos.
Segundo Kato e Ponchirolli (2002), o aumento do desemprego no Brasil tem como uma das causas fundamentais os fatores estruturais, mais precisamente, o baixo crescimento, educação insuficiente e legislação inflexível. Para os autores, a educação insuficiente é responsável direta ou indiretamente pela baixa qualificação da mão-de-obra e pelos altos índices de desemprego no Brasil, pois, à medida que as empresas se modernizam e aumentam a complexidade da tecnologia utilizada, maiores aptidões técnicas e pessoais são exigidas. Dessa forma, cada dia mais pessoas são consideradas desqualificadas para os cargos disponíveis nas empresas.
Com base no fato de que a educação pública no Brasil apresenta índices de qualidade baixíssimos e o alto grau de instrução exigido pela nova forma de trabalho é privilégio de poucos brasileiros, a tendência é que, cada vez mais, as atividades organizacionais sejam realizadas por estrangeiros ou mesmo por robôs, e, na pior das hipóteses, que as grandes indústrias fechem suas sedes do Brasil e abram em locais com mão-de-obra qualificada e barata.
Nos municípios que compõem o litoral piauiense, a realidade é ainda mais grave, pois faltam empregos nos três setores, mesmo para os profissionais considerados qualificados, que se veem obrigados a sair de suas cidades para trabalhar em outros locais, pois dificilmente conseguirão ocupações à altura da sua instrução na região. A falta de interesse das grandes empresas nacionais e internacionais em se alocarem no litoral do Piauí deve-se principalmente à péssima condição estrutural, como transporte ineficiente, mão-de-obra, em sua maioria, desqualificada, não incentivo dos governantes, dentre outros fatores, mostrando que a realidade local tende a piorar caso não seja tomada nenhuma providência cabível. É preciso esclarecer que a falta de trabalho formal não é uma característica específica do litoral, mas de todo o Estado do Piauí, contribuindo, dessa forma, para que o mesmo esteja entre os três Estados mais pobres do Brasil, como dito anteriormente.
Diante da baixa participação de parte da população piauiense em empregos assalariados no setor capitalista de produção, outras formas de organização da produção, subordinadas ao sistema capitalista dominante, se apresentam como uma alternativa importante de emprego, em alguns casos permitindo combinar atividades domésticas e produtivas. Serviços pessoais, comércio ambulante e produção artesanal são algumas das atividades usualmente realizadas fora das relações capitalistas de produção, propriamente ditas.
É o caso dos artesãos do aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí que, devido a alguns fatores, incluindo a baixa escolaridade, mostrada no Gráfico 2, não conseguem espaços no mercado formal e passam a trabalhar na informalidade como maneira de sobreviver e de sustentar sua família.
Gráfico 2: Grau de escolaridade das artesãs do aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí
Fonte: Pesquisa direta (2014)
De acordo com o gráfico, 8% são analfabetas, 68% das artesãs entrevistadas possuem o ensino fundamental, e apenas 23% possuem o ensino médio completo. O baixo grau de escolaridade das artesãs e o alto índice de desemprego, atrelados à capacidade técnica de produção adquirida na própria comunidade ou, mesmo na sua família, foram as principais razões que fizeram com que parte significativa das artesãs passasse a utilizar o artesanato como fonte de renda.
Algumas causas da baixa escolaridade das entrevistadas estão relacionadas à falta de escolas na região e à necessidade de realizar os afazeres domésticos ainda na adolescência. Muitas delas foram mães e donas de casa muito jovens, o que as forçou a abrir mão dos estudos para cuidar dos filhos e do marido. Além disso, por se tratar de uma região pobre e com ocupações com baixos salários, todos precisavam trabalhar para ajudar na renda da família, surgindo daí o interesse pelo artesanato, pois lhes permitia ajudar nas despesas domésticas sem precisar sair de casa.
Para Viera e Loiola (2014), holisticamente falando, é comum a baixa escolaridade entre os artesãos, e essa é uma das principais causas deles recorrerem ao artesanato como fonte de renda, comprovando que a produção artesanal, por ser um trabalho manual e não requerer nenhum grau de instrução, ainda é uma solução temporária para o alto índice de desemprego em locais de baixo nível econômico.
Quando questionadas a respeito dos valores cobrados pelos produtos, as presidentes das associações afirmaram que as duas formas mais comuns de formação de preços usadas pelas artesãs são as dicas dos instrutores do SEBRAE e, principalmente, suas próprias opiniões a respeito do assunto, normalmente baseadas no tempo gasto para produzir cada peça. Esse segundo caso pode ser um exemplo de problemas que a baixa escolaridade pode acarretar para as artesãs, pois definir preços de venda vai muito além do que uma simples análise do tempo de produção.
Segundo o SEBRAE (2014, p.5), “[...] a composição do preço depende de diversos fatores, como os custos diretos e indiretos, as práticas da concorrência, o comportamento dos consumidores e o valor agregado do artesanato”. Afirma ainda que o artesão deve se preocupar com a definição do preço de venda, uma vez que a imagem da empresa e a percepção da qualidade dos produtos pelos clientes tem uma relação direta com o valor cobrado pelo produto, não podendo ser muito barato, pois pode demonstrar qualidade inferior, tampouco caro demais, para não seja visto como produto destinado a um público seleto.
Diante dessa realidade, observa-se que, mesmo na informalidade, a falta de uma maior instrução das artesãs pode lhes causar prejuízo, principalmente no que se refere à comercialização dos seus produtos, pois como, na maioria das vezes, elas não possuem conhecimentos básicos de gerenciamento de negócios, dificilmente conseguirão fazer uma análise eficientemente aprofundada de preços dos produtos, tipos e quantidades das peças produzidas, estratégia de venda, dentre outras características essenciais para o sucesso de uma empresa.
Mesmos os cursos disponibilizados pelo SEBRAE para auxiliá-las nesse processo de gestão são prejudicados pelo baixo nível de escolaridade das trabalhadoras, pois os ministrantes precisam usar uma linguagem apropriada e que seja compreendida por todas, podendo resultar na falta de informações, algumas vezes essenciais para os resultados positivos das alunas. No entanto, é preciso considerar que as artesãs possuem capacidade empírica, relacionada à vivência da prática artesanal na família ou na comunidade, o que faz com que elas consigam tomar decisões, de certa forma, satisfatórias.