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Comparaison avec une méthode de squelettisation

5.3 Extraction des contours de traits dans les dessins

5.4.1 Comparaison avec une méthode de squelettisation

Além do baixo grau de escolaridade, observou-se, também, durante a aplicação dos formulários, o predomínio significativo de mulheres, tanto no setor produtivo quanto administrativo, no aglomerado de artesanato da região Norte do Piauí.

Com a Revolução Industrial, as mulheres passaram a ser responsabilizadas pelas atividades domésticas e cuidado dos filhos, para que os homens pudessem realizar o trabalho nas indústrias e fábricas. Essa realidade contribuiu para que as donas de casa se dedicassem com mais afinco aos trabalhos artesanais, principalmente no provimento de vestimentas para toda a família.

Sabe-se, entretanto, pelos registros históricos, que houve uma revolução no mercado de trabalho, e hoje é difícil, ou mesmo impossível, se achar funções destinadas exclusivamente para os homens. No entanto, o fato da mulher continuar sendo a principal responsável pelas tarefas domésticas, representando uma sobrecarga para aquelas que realizam atividades econômicas, pode ser usado como justificativa para a dificuldade que elas têm de se dedicar totalmente ao trabalho e, por consequência, serem vistas como trabalhadoras de segunda categoria. Segundo Bruschini e Lombardi (2001), a maternidade é um dos fatores de maior interferência no trabalho feminino, resultando na redução do número de filhos por família, na maternidade cada vez mais tardia ou mesmo na escolha de algumas mulheres de não gerarem filhos.

A responsabilidade pela guarda, cuidado e educação dos filhos na família limita a saída da mulher para o trabalho remunerado, sobretudo se os rendimentos obtidos são insuficientes para cobrir custos com formas remuneradas de cuidado infantil. Contudo, quando a necessidade econômica é tão premente que inviabiliza o exercício da maternidade em tempo integral, como nas famílias pobres ou nas chefiadas por mulheres, outros arranjos, como a rede de parentesco, inclusive os filhos maiores, ou redes de vizinhança, poderão ser acionados para olhar as crianças enquanto a mãe vai trabalhar. (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2001, p. 165) Ainda segundo as autoras, apesar da dificuldade que as trabalhadoras possuem em cuidar dos seus filhos, a pressão econômica estaria exigindo das casadas e das mães a procurarem empregos, havendo, assim, um crescimento constante do trabalho das mulheres com essas características. A diversificação das pautas de consumo, gerando novas necessidades e desejos, o empobrecimento da classe média e a necessidade de arcar com os custos de educação e saúde, devido à precarização dos sistemas públicos de atendimento, são fatores determinantes

deste aumento da mulher no mercado de trabalho, não se podendo, contudo, deixar de citar a expansão da escolaridade, à qual as mulheres vêm tendo cada vez mais acesso.

Nota-se, porém, que a inserção das mulheres no mercado de trabalho, em muitos lugares, ainda é caracterizada pela precariedade que atinge uma parcela significativa de trabalhadoras. É comum observar que algumas atividades realizadas por elas ainda não são valorizadas ou não estão inseridas nas estatísticas econômicas, por não serem reconhecidas perante a sociedade. Sem esquecer os salários, que ainda são menores do que dos homens que realizam a mesma função. Muitas dessas atividades são feitas no interior de suas residências e praticadas de maneira paralela às atividades domésticas do cotidiano, no intuito de acrescentar à renda familiar, e até mesmo buscar forma de sustentabilidade. Dessa forma, é cada vez mais comum as mulheres buscarem meios de colocar no mercado produtos que eram produzidos por hobbies ou lazer, muitas vezes colocando em prática ofícios que aprenderam com suas mães ou outros membros da família. O artesanato é uma das formas encontradas por essas mulheres que buscam uma fonte de renda alternativa, através do trabalho manual realizado em seus próprios domicílios (Figura 10).

No caso do aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí, é visível à importância que o artesanato tem na vida das artesãs da comunidade local. A associação deu oportunidade para que elas tivessem um local para expor e vender seus produtos, aumentando assim a obtenção de renda, além de melhorar sua capacidade inovativa, graças à troca de informação com outros membros formadores das associações das quais fazem parte.

Figura 10 – O trabalho feminino no aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí – Associação de Trançados da Ilha de Santa Isabel – Ilha Grande - PI

Fonte da fotografia: Tirada pela própria autora

As mulheres da comunidade exercem um papel fundamental na produção do artesanato local. A delicadeza e os diferentes tipos das peças, principalmente dos bordados, podem ter sido as principais razões para o predomínio feminino nas aglomerações, uma vez que a região possui características provincianas, e o machismo ainda prevalece com muita força. No Piauí, o trabalho artesanal sempre foi visto como atividade que a mulher realizava em sua residência, juntamente com o trabalho doméstico, ocupando espaços de tempo considerados “livres”, pois eram horários em que não estariam realizando atividades que, por serem mulheres e donas de casas, eram obrigadas a fazer, como tarefas de limpeza, preparo da comida e cuidado com as crianças.

A questão das relações de gênero deve ser ressaltada, e, nesse sentido, lembramos que um dos principais limites para a conquista da igualdade de condições para as mulheres se refere ao processo de naturalização das competências femininas. Isso significa que todo o trabalho relacionado ao mundo privado, doméstico, no ato de cuidar de casa, dos filhos, incluindo os trabalhos de limpeza, é considerado decorrente de qualidade das mulheres, e não de qualificações, fazendo parte do que se convencionou chamar de “natureza feminina”. (CUNHA;VIEIRA, 2009, p. 266)

Esse acúmulo de funções domésticas (cuidado da casa e dos filhos) com atividades remuneradas a domicílio (costura, bordados, artesanato em geral,

confecções) tem sido encontrado no mundo todo, assim como no Brasil, e vários textos focam esse tema: Peck (1992) mostrou o trabalho a domicílio de imigrantes russas e vietnamitas para a indústria de confecções na Austrália; Seligardi-Sampaio e Pinheiro (1994) e Pinheiro e Selingardi-Sampaio (1994) identificaram o trabalho feminino a domicílio, em especial de costura e bordados, para a indústria de confecções em Rio Claro, São Paulo; Matushima (2005) mostrou o trabalho a domicílio de também de confecções em Ibitinga, São Paulo; Carneiro (2013) identificou a atividade domiciliar na produção de redes de dormir na cidade de Jaguaruana, Ceará. O que acontece no Piauí, portanto, não pode ser considerado como um fenômeno exclusivo do lugar, mas as condições de pobreza das artesãs e a precariedade das organizações produtivas imprimem ao aglomerado em exame feições bastante marcantes.

Infelizmente, o que se vê na região litorânea do Piauí é que essa prática ainda é passada de geração para geração, reproduzindo um quadro constante de pobreza e precarização das mulheres. É comum encontrar jovens em idade de formação escolar cuidando de filhos e de suas casas e tendo o Programa Bolsa Família e o artesanato como fontes de renda, sem nenhuma perspectiva de mudança. Devido à forma como esse tipo de ocupação é visto pela sociedade piauiense, o valor dado ao artesanato regional nem sempre condiz com a realidade, sendo muitas vezes desvalorizado e pago preços inferiores ao que realmente valem.

Sobre a pergunta referente à existência de tarefas específicas para cada sexo, com exceção da associação de trançados da Ilha Grande de Santa Isabel, na qual os homens são responsáveis apenas pela colheita da matéria-prima, e da CAMPAL, nenhuma outra possui associados do sexo masculino, sendo todas as atividades, inclusive as de gestão, realizadas por mulheres. No entanto, devido à dificuldade da colheita das palhas e ausência de associados homens, a maioria das associações compram os insumos utilizados na produção, de moradores da própria comunidade ou de outras localidades, mesmo sendo encontrados em grande quantidade na região.

É preciso esclarecer que, mesmo sem nenhum curso de capacitação, e utilizando apenas o conhecimento tácito, passado de pai para filho, as pessoas que fazem a colheita do produto se preocupam com a sustentabilidade, pois têm consciência de que dependem das plantas para o sustento de sua família. Esses trabalhadores, apesar de não fazerem parte, de forma direta, do aglomerado

produtivo em estudo são considerados essenciais para a existência do mesmo, pois sem matéria-prima não existiria produção. Os responsáveis pela colheita podem ser considerados trabalhadores autônomos, visto que, até o momento da pesquisa, não eram empregados em nenhuma organização formal ou informal, trabalhando por conta própria e arrecadando 100% do que vendia.

Dentro das associações, as artesãs possuem um bom relacionamento, cooperando umas com as outras e trocando conhecimentos constantemente, sempre em busca da melhoria das peças produzidas. As presidentes das associações foram eleitas pelas associadas e têm as funções de: organizar a produção das peças que irão participar das feiras e eventos; receber e distribuir entre as associadas o trabalho quando há encomendas; recolher e direcionar o valor arrecadado com as artesãs para manutenção da sede; comprar a matéria-prima que deverá posteriormente ser distribuída entre as associadas; organizar os cursos com o SEBRAE quando houver necessidade; participar das feiras e eventos, principalmente, fora do Estado, como São Paulo e Recife, dentre outras.

As presidentes afirmaram que, além de gerenciar as associações, trabalham na produção das peças e não recebem nada além do que produzem, ou seja, não possuem salários por serem responsáveis pelas funções administrativas que exercem, com exceção do presidente da CAMPAL, que o recebe um valor mensal pelo cargo. As respostas mais comuns a respeito dos motivos que as levaram a assumir a presidência estão relacionadas ao fato de elas terem sido as fundadoras das associações e se sentirem responsáveis pela melhoria de vida das outras associadas e da comunidade da qual fazem parte, através do artesanato.

As artesãs trabalham dentro de casa, ou em suas próprias calçadas, sentadas em cadeiras ou mesmo no chão, não tendo nenhuma separação entre o local de trabalho e o espaço doméstico. As moradias são normalmente pequenas, sem muita estrutura, sendo a maioria conjugada com as vizinhas, impedindo a circulação de ar, agravando ainda mais o calor, além da pouca iluminação (Figura 11).

Figura 11 – O trabalho feminino no aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí – Associação Maria dos Agaves (Parnaíba-PI) e Associação Nova Vida de Carnaubal (Luis Correia-PI) , respectivamente.

Fonte da fotografia: Tirada pela própria autora

Observa-se diante dessa realidade que, apesar das artesãs precisarem do valor arrecadado com o que produzem, a paixão pelo artesanato e a vontade de se sentir útil não só dentro de suas casas como também para os outros membros de sua comunidade são motivos primordiais para continuarem tendo o artesanato como ofício. A falta de estudo e o fato de terem que ficar em suas residências cuidando dos filhos e do marido não serviram de desculpas para essas mulheres que, utilizando do seu conhecimento e de sua disposição física para trabalhar, ajudam no seu sustento e de sua família.