1. Gestion de projet
1.4. Déroulement des attaques
Mostramos aqui alguns dos principais conceitos e avaliações daquilo que está sendo conhecido como a pós-modernidade. Conceitos esses dados por Bauman (1995), que prefere denomina-la “modernidade líquida”. O sociólogo polonês distingue dois tipos de mundos modernos, caracterizados como a “modernidade sólida” e a “modernidade líquida”. A primeira representa a era dos produtores, a última a dos consumidores. Ou seja, relações sociais, de produção e de consumo, em diferentes contextos em todas as sociedades do mundo. Para Bauman, na modernidade sólida a desventura mais temida era a de se conformar, enquanto que na modernidade líquida é a de não se adaptar a esse novo estilo de vida. Este último período é marcado por incertezas e por mudanças, em um nível global e de uma forma sistêmica, sendo marcado também pela liberdade dos indivíduos em buscarem sempre novas experiências. Nessa mudança de estágio da modernidade...
O “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças
106 que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na agenda política. Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividades humanas, de outro (BAUMAN, 2001, p. 12).
O termo “líquido” utilizado por Bauman se refere à fluidez das relações e à velocidade como que as coisas mudam. Algo difícil de prever e de controlar. Não existe mais a rigidez, não tanta assim, mas presente nos tempos da modernidade sólida. Com os rumos tomados pelo capitalismo e com outros fenômenos do mundo moderno, como a globalização, as pessoas viajam pelo mundo, adquirem e expandem a sua cultura, começam a comprar mais, consumir mais, passando a ter identidades consumistas fragmentadas, assim como as empresas multinacionais invadem outros países. Além disso, a mídia, como a televisão e o cinema, é formadora de opinião e fonte de marketing e de vendas. A vida das pessoas se torna volátil, dinâmica e insegura dentro de uma modernidade fluída.
Podemos dizer que Bauman procura distinguir o mundo moderno através de dois períodos: um no início do modo de produção capitalista, em uma época voltada para produção, sendo esta a modernidade sólida; a outra, a época recente, que passou por mudanças a partir da segunda metade do século passado, é a modernidade líquida, caracterizada, entre outros aspectos, pelo consumo e pela fluidez nas relações sociais. Bauman usa esse codinome em virtude de perceber a sociedade contemporânea similar ao estado liquefeito das coisas, voláteis tais como são as relações sociais, relações de produção e de consumo do mundo moderno.
Para o autor, a modernidade sólida foi marcada por grandes revoluções e acontecimentos que ocorreram desde o início do século XV, dentre os quais estão incluídos a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Conforme a Idade Média vai ficando para trás, passam a emergir novos estilos de vida, uma nova padronização junto com o surgimento do capitalismo. Vem à tona o Iluminismo, os pensadores questionam as ordens antes vigentes e propõem um novo estilo de vida, com o desenvolvimento da ciência e não mais sob o controle quase que total da Igreja Católica, como ocorria antes. O homem não se considera mais dominado pela natureza. Em sua nova forma de ver o mundo, percebe que pode dominá-lo e ter liberdade para as suas escolhas e atitudes. Passa a surgir uma nova ordem, revolucionária na época. Uma ordem que tinha previsibilidade e a consistência das coisas, de todo o mundo social. Época que se perpetuou até a metade do século XX. A partir desse momento, com os novos rumos tomados pelo capitalismo e pela globalização, surge a modernidade líquida.
107 A modernidade líquida também é chamada pelo autor de pós-modernidade, e agora recentemente vem sendo denominada de mundo líquido pós-moderno. Este novo contexto no qual o mundo foi se transformando tem várias denominações, atribuídas por diversos pesquisadores, como a “hipermodernidade” de Lipovetsky e a “modernidade reflexiva” de Beck. Essa distinção entre a modernidade e a pós-modernidade é necessária para a compreensão dos novos rumos tomados pelo mundo em que vivemos e pelas formas emergentes de relações sociais e de transformações culturais no mundo líquido pós-moderno, assim como foi chamado por Zigmunt Bauman.
Uma dos maiores traços diferenciais da modernidade líquida é o consumismo em grande escala. Hoje estamos em um período em que o consumo ultrapassa a necessidade de se obter apenas as coisas que são necessárias. Hoje o supérfluo também se torna necessário para a satisfação pessoal e social, assim como para a otimização dos processos de produção e vendas do mercado. Em seus trabalhos, Bauman faz uma análise a partir da qual velhos ditos podem ser substituídos por outros, como, por exemplo, a ideia de que antes era necessário trabalhar para viver pela ideia de que hoje é necessário consumir para viver. Ou então, o antigo termo de René Descartes perpetuado na filosofia: “penso, logo existo”. Hoje podemos afirmar que “consumo, logo existo”. Em virtude desse consumismo e da fluidez das relações do mundo atual que Bauman atribuiu a denominação de “Modernidade Líquida”.
Na modernidade líquida, a coletividade abriu espaço para a individuação, para a emancipação e para a conquista da liberdade das pessoas. Uma liberdade ambivalente, como toda a pós-modernidade. As pessoas estão livres e ao mesmo tempo presas. Presas, dentre outras coisas, ao seu próprio medo. Esse é um dos temas principais das obras baumanianas. Também estão livres para escolher a sua própria religião, dentre uma gama de ofertas, ou até mesmo escolher nenhuma delas. Praticamente não existem mais laços e obrigações que prendam as pessoas, que forcem a fazer escolhas como antes, principalmente na sociedade do consumo. Porém, como vimos nos pressupostos bourdiesianos, o que age explorando essas liberdades são indústrias e instituições detentoras de monopólio lutando pela hegemonia do campo em disputa.
Para Bauman, a vida na modernidade sólida era estável, o trabalhador chegava do trabalho e sabia que provavelmente no outro dia estaria no mesmo lugar. Da mesma forma, naquele período da história eram estáveis categorias como trabalho, gênero, etnia e religião. Bauman via a modernidade sólida como burocraticamente organizada. Mas com as mudanças econômicas, políticas, e sociais, passou a emergir uma reinvenção compulsiva e obsessiva do mundo, o qual passou a ser volátil e incerto. O que vemos hoje é a necessidade de controle de
108 uma nova ordem social econômica, mas difícil de ser controlada pelo estado e pelas instituições. Dentro do universo religioso, notamos o surgimento de igrejas que já procuram não mais controlar, levando uma ordem, uma estabilidade, mas sim se adaptar à ordem vigente da pós- modernidade.
Hoje o mundo atual se tornou um mundo de consumo, onde tudo se torna descartável. Neste novo cenário de escolhas e necessidades, não são admitidos moradores-consumidores falhos. Quanto aos mecanismos que regem esta nova sociedade, concordamos com Bauman quando ele afirma que...
A sociedade de consumo tem por base a premissa de satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar. A promessa de satisfação, no entanto, só permanecerá sedutora enquanto o desejo continuar irrealizado; o que é mais importante, enquanto houver uma suspeita de que o desejo não foi plena e totalmente satisfeito. Estabelecer alvos fáceis, garantir a facilidade de acesso a bens adequados aos alvos, assim como a crença na existência de limites objetivos aos desejos "legítimos" e "realistas" - isso seria como a morte anunciada da sociedade de consumo, da indústria de consumo e dos mercados de consumo. A não satisfação dos desejos e a crença firme e eterna de que cada ato visando a satisfazê-los deixa muito a desejar e pode ser aperfeiçoado - são esses os volantes da economia que tem por alvo o consumidor. (BAUMAN, 2007, p.106)
Hoje em dia até mesmo os contratos de trabalho são diferentes de tempos atrás, muitos desses contratos são temporários, já que provavelmente nem a empresa e nem o empregado pretendem passar muito tempo juntos, em virtude, de um lado, da qualificação da mão-de-obra e de turbulências no mercado financeiro que geram demissões e, de outro, das opções postas no mercado, em alguns momentos fáceis de serem alcançadas, porém, havendo mais facilidade ainda de ser-se excluído delas. Além de um mundo globalizado, conectado pela internet, com novas formas de relações sociais, ocorreu também uma grande aceleração em processos de migrações pelo mundo. Em virtude deste novo contexto do mundo social, com crescimento da violência, desemprego e atentados em grande parte do mundo, houve uma preocupação excessiva com a vigilância. Nesse cenário, pessoas que não se adaptam aos parâmetros impostos pela sociedade são vistas como estranhas e, por isso, marginalizadas, excluídas de qualquer processo social. No mundo líquido pós-moderno...
Cada ordem tem suas próprias desordens; cada modelo de pureza tem sua sujeira que precisa ser varrida. Mas, numa ordem durável e resistente, que reserve o futuro e envolva ainda, entre outros pré-requisitos, a proibição da
109 mudança, até a ocupação de limpeza e varredura são partes da ordem. (BAUMAN, 1997, p. 20).
Para manter esta nova ordem, são necessárias exclusões, evitar imperfeições, tais como os maus moradores na sociedade. São lançados mecanismos que impedem as pessoas de entrar em shoppings, de entrar em lojas, de passar em roletas, de terem contas ou créditos aprovados. Para estar incluso na sociedade, é necessário não ser mais apenas um cidadão, e sim algo como um consumidor social. Sabemos que a exclusão social não vem de agora, mas de centenas e até de milhares de anos atrás. Como também sabemos que existem outras formas de exclusão, por exemplo, do direito a um bom serviço de saúde, educação e lazer adequado. Mas talvez o pior tipo de exclusão hoje em dia se dê pela impossibilidade de possuir tal objeto lançado à moda no mercado, cheio de fetichismos e tentações, até mesmo ultrapassando seu real valor e utilidade.
Partimos do pressuposto de que, na pós-modernidade, as pessoas passam a procurar as novas instituições do sagrado. Essas pessoas tentam não serem excluídas do mundo econômico e social, nem terem negados os seus desejos, já que a indústria do consumo, o marketing e a publicidade agem sobre o pensamento e as atitudes das pessoas. Sob os pressupostos bourdiesianos, essas entidades são formadoras de habitus, o qual é consequentemente reproduzido pelas pessoas na sociedade do consumo, sendo elas regidas pela necessidade de possuir e de renovar, assim como exigem os meios de controle e de produção da sociedade. Dessa forma, existem pessoas que têm determinados acessos, que vendem compram e lucram com a comercialização em massa, não só de bens materiais, mas também simbólicos.
Quanto à diferenciação das pessoas na modernidade líquida, Bauman utiliza os exemplos do “turista” e do “vagabundo”. O primeiro possui alto nível financeiro e social, pode comprar passagens pela internet e viajar pelo mundo, desfruta do melhor que a modernidade líquida oferece. Do outro lado, está o “vagabundo”. Com baixo padrão financeiro, sem uma adequada condição de vida, não pode viajar e nem consumir os melhores bens oferecidos no mercado e, além disso, pode passar ainda por processos de migração. Esses dois exemplos, praticamente opostos, são vistos por Bauman, respectivamente, como os vencedores e os perdedores do mundo pós-moderno.
A sociedade atual, pós-moderna e globalizada, é marcada pela exclusão de pessoas que não conseguem se adaptar às novas demandas do mercado e que são colocadas em um processo temporário de exclusão social, até serem excluídas de forma definitiva. Bauman descreve a sociedade atual como a mais segura que já existiu, levantando ainda mais a contradição
110 existente com o medo e a insegurança das pessoas. Porém, essa mesma sociedade é tida também como a mais insegura. Além disso, Bauman percebe a supervalorização do indivíduo como característica dessa sociedade e, de forma ambivalente, a vulnerabilidade desse mesmo indivíduo, assim como a sua fragilidade. Características de uma modernidade líquida, de um mundo globalizado em grave estado de crise, como afirma Bauman:
Hoje se formulam previsões apavorantes e fatalistas, e o progresso representa a ameaça de uma inexorável e inevitável mudança que não promete paz nem repouso, mas crises e tensões contínuas, sem um segundo de trégua, uma espécie de “jogo das cadeiras” no qual um segundo de distração pode levar à derrota irrevogável, à exclusão sem apelo. (BAUMAN, 2005, p.52 e 53)