As Formações Campestres do Cerrado englobam três tipos fitofisionômicos principais: o Campo Sujo, o Campo Rupestre e o Campo Limpo.
a) Campo Sujo – é um tipo fisionômico exclusivamente herbáceo-arbustivo, com arbustos e subarbustos esparsos cujas plantas, muitas vezes, são constituídas por indivíduos menos desenvolvidos das espécies do Cerrado sentido restrito. É encontrado em solos rasos como os Litólicos, Cambissolos ou Plintossolos Pétricos ou ainda em solos
profundos e de baixa fertilidade como os Latossolos de textura média e as Areias Quartzosa. Em função de particularidades ambientais, o Campo Sujo pode apresentar três subtipos fisionômicos distintos. Na presença de um lençol freático profundo, ocorre o
Campo Sujo Seco; na presença do lençol freático alto, ocorre o Campo Sujo Úmido e,
quando na área ocorrem microrelevos mais elevados, tipo murundus, ocorre o Campo
Sujo com Murundus . A Figura 22 mostra a fisionomia do Campo Sujo com os subtipos
e respectivas coberturas arbóreas. Quanto à vegetação, a família ma is freqüente é a Poaceae (Gramineae), destacando-se os gêneros Aristida, Axonopus, Echinolaena,
Ichnanthus, Laudetiopsis, Panicum, Paspalum, Trachypogon e Tristachya. Outra família
importante é a Cyperaceae com os gêneros Bulbostylis e Rhyncophora. Diversas espécies de outras famílias destacam-se pela floração exuberante na época chuvosa ou mesmo logo após queimadas que venham a ocorrer, como Alstroemeria spp., Gomphrena officinalis,
Griffinia spp., Hippeastrum spp. e Paepalanthus spp.. Também são comuns as espécies
dos gêneros Andira, Aspilia, Baccharis, Crumenaria, Cuphea, Deianira, Diplusodon,
Eryngium, Habenaria, Hyptis, Lippia, Mimosa, Polygala, Piriqueta, Syagrus, Vernonia e Xyris. A composição florística e a importância fitossociológica das espécies nos três
subtipos do Campo Sujo podem diferir se o solo for bem ou mal drenado, caracterizando a fisionomia da vegetação.
b) Campo Rupestre – é um tipo fitofisionômico predominantemente herbáceo-arbustivo, com presença eventual de arvoretas pouco desenvolvidas de até dois metros de altura. Abrange um complexo de vegetação que agrupa paisagens em microrelevos com espécies típicas, ocupando trechos de afloramentos rochosos.
Ocorre, geralmente, em altitudes superiores a 900 metros, em áreas onde ocorrem ventos constantes com dias quentes e noites frias. Sao encontrados em solos litólicos ou nas frestas dos afloramentos. São solos ácidos, pobres em nutrientes e a disponibilidade de água é restrita, visto que as águas pluviais escoam rapidamente para os cursos, devido a pouca profundidade e reduzida capacidade de retenção pelo solo. A composição florística, nessa fisionomia, pode variar em poucos metros de distância, e a densidade das espécies depende do substrato. Nos afloramentos rochosos, os indivíduos lenhosos concentram-se nas fendas das rochas, onde a densidade pode ser muito variável.
Figura 22 – Diagrama de Perfil (1) de um Campo Sujo representando uma faixa de 40 metros de comprimento por 10 metros de largura e 6 metros de altura (parte mais elevada), onde a seção (a) mostra a vegetação em local seco, (b) em local úmido e (c) em local mal drenado com murundus, com respectiva cobertura arbórea (2).
Fonte: Ribeiro e Walter (1998, p. 132).
Há locais em que praticamente domina a paisagem, enquanto em outros a flora herbácea predomina. Também são comuns agrupamentos de indivíduos de uma única espécie, cuja presença é condicionada, entre outros fatores, pela presença de umidade disponível no solo. Algumas espécies podem crescer diretamente sobre as rochas, sem que haja a presença de solo, como no caso de algumas Aráceas e Orquidáceas. A flora é típica e dependente das condições edáficas restritivas e do clima peculiar. Entre as espécies comuns existem inúmeras características xeromórficas como folhas pequenas, espessadas e coriáceas, além de folhas densamente opostas cruzadas, determinando uma coluna quadrangular (EITEN, 1978). As espécies mais freqüentes que compõem o Campo Rupestre pertencem às seguintes famílias e gêneros: Asteraceae (Baccharis,
Lychnophora, Vernonia), Bromeliaceae (Dyckia, Tillandsia), Cactaceae (Melocactus, Pilosocereus), Cyperaceae (Bulbostylis, Rhynchospora), Eriocaulaceae (Eriocaulon, Leiothix, Paepalanthus, Syngonanthus), Iridaceae (Sisyrinchium, Trimezia), Labiatae
(Hyptis), Leguminosae (Calliandra, Chamaecrista, Galactia, Mimosa), Lentibulariaceae (Utricularia), Lythraceae (Cuphea, Diplusodon), Melastomataceae (Miconia, Microlicia),
Myrtaceae (Myrcia), Orchidaceae (Cyrtopodium, Epidendrum, Habenaria, Koellensteinia,
Pelexia), Poaceae (Panicum, mesosetum, Paspalum, trachypogon), Rubiaceae (Chicocca, Declieuxia), Velloziaceae (Vellozia), Vochysiaceae (Qualea) e Xyridaceae (Xyris). A
Figura 23 mostra a fisionomia do Campo Rupestre e suas respectivas coberturas arbóreas.
Figura 23 – Diagrama de Perfil (1) de um Campo Rupestre representando uma faixa de 40 metros de comprimento por 10 metros de largura e 14 metros de altura, com respectiva cobertura arbórea (2). No detalhe, vegetação crescendo entre as rochas. Fonte: Ribeiro e Walter (1998, p. 134).
c) Campo Limpo – é uma fitofisionomia predominantemente herbácea, com raros arbustos e ausência completa de árvores. Pode ser encontrado em diversas posições topográficas, com diferentes variações no grau de umidade, profundidade e fertilidade do solo. Contudo, é encontrado com mais freqüência nas encostas, nas chapadas, nos olhos d’água, circundando as Veredas e na borda das Matas de Galeria, geralmente em solos Litólicos, Litossolos, Cambissolos ou Plintossolos Pétricos. Qua ndo ocorrem em áreas planas, relativamente extensas, contíguas aos rios e inundadas periodicamente, também é chamado de “Campo de Várzea” ou “Brejo”, sendo os solos do tipo Hidromórfico, Aluvial, Plintossolo ou Solos Orgânicos. O Campo Limpo apresenta variações dependentes de particularidades ambientais, determinadas pela umidade do solo e topografia. Na presença de um lençol freático profundo ocorre o Campo Limpo seco; na
presença de lençol freático alto, ocorre o Campo Limpo úmido e, quando aparecem os murundus, tem-se o Campo Limpo com Murundus, cada qual com sua fitofisionomia específica. As espécies comuns encontradas pertencem as seguintes famílias e gêneros: Burmanniaceae (Burmannia), Cyperaceae (Rhynchospora), Droseraceae (Drosera), Iridaceae (Cipura, Sisyrinchium), Lentibulariaceae (Utricularia), Lythraceae (Cuphea), Orchidaceae (Cleistes, Habenaria, Sarcoglottis) e Poaceae (Aristida, Axonopus, Panicum,
Mesosetum, Paspalum, Trachypogon). A Figura 24 mostra a fisionomia do Campo Limpo
com seus subtipos e respectivas coberturas arbóreas.
Mendonça et al. (1998) realizando estudos na região do Cerrado apresentaram uma listagem com 6.671 Taxa nativos, demonstrando a importância desse bioma. Essa listagem se deu em decorrência da compilação de listas pré-existente como as de Rizzini (1963b), Warming (1908), Heringer et al. (1977), Eiten (1993), Castro al et. (1992, 1994), Filgueiras e Pereira (1993), dentre vários outros estudiosos, e através de trabalhos realizados pelos estudiosos da EMBRAPA Recursos Genéticos e Biotecnologia, Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília e Reserva Ecológica do IBGE em Brasília-DF.
A fitofisionomia da paisagem do Cerrado, com diferentes formas e tipos, mostra a grande diversidade florística existente no bioma que, segundo Eiten (1994), só é superado em riqueza no mundo pela floresta pluvial tropical, demonstrando que o Cerrado merece ser mais valorizado.
Para melhor compreensão da fitofisionomia do Cerrado, Ribeiro et al. (1983) elaboraram uma chave para identificação dos tipos por eles descritos, onde as formas florestais foram diferenciadas por parâmetros de estrutura, altura média do estrato arbóreo, estratificação vertical, cobertura arbórea, caducifólia e posição topográfica. Nas formas savânicas e campestres consideraram, além desses parâmetros, as características de solo, destacando o grau de saturação de água e presença ou não de afloramentos de rochas. Essa classificação possibilitou a identificação dos tipos fitofisionômicos descritos acima, compondo uma caracterização paisagística dos Cerrados.
Figura 24 – Diagrama de Perfil (1) de um Campo Limpo representado em uma faixa de 40 metros de comprimento por 10 metros de largura e 6 metros de altura (área de topo), com cobertura arbórea (2), onde na seção (a) mostra a vegetação em local mais seco, (b) em local mais úmido e (c) em local mal drenado com murundus.
Fonte: Ribeiro e Walter (1998, p. 136).