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Démarrage et arrêt de httpd

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10.4. Démarrage et arrêt de httpd

A argumentação da perspectiva Histórico-Cultural assenta-se sobre uma das teses mais importantes de Vigotski: as relações sociais geram as funções mentais superiores dos sujeitos. As funções superiores são ações que se dão de forma indireta, ou seja, acontecem com a mediação de algo. Em nível psicológico, o mediador é o signo, esse é definido por Vigotski (2008a, p.32) como um estímulo artificial ou autogerado. A sua criação e utilização é a característica que distingue as funções mentais superiores das funções elementares, também presentes nos animais, como refere Vigotski (2008a, p. 33):

As funções elementares têm como característica fundamental o fato de serem total e diretamente determinadas pela estimulação ambiental. No caso das funções superiores, a característica essencial é a estimulação autogerada, isto é, a criação e o uso de estímulos artificiais que se tornam a causa imediata do comportamento.

Pereira e Lima Junior (2014) chamam a atenção quanto ao uso do termo “função” em Vigotski, o qual é compatível com a noção de “ação”, que se tornou o grande foco das pesquisas soviéticas. Os autores apontam ainda que

Tendo em vista a descrição dos fenômenos psicológicos em termos de funções mentais [...], fica claro que Vygotsky estava primeiramente interessado na análise do indivíduo em “atividade prática” (lembrar, raciocinar, etc.), e não em entidades cognitivas abstratas tais como “esquemas”, “modelos mentais” e outros construtos da psicologia contemporânea que supostamente existem “dentro da cabeça” do indivíduo, independentemente da prática humana. Nesta perspectiva, é preferível falar em lembrar ou raciocinar como algo que se “faz” do que falar em memória ou raciocínio como algo que se “tem” (PEREIRA; LIMA JUNIOR, 2014, p. 523).

Assim, as funções mentais superiores podem ser consideradas como condição e constituinte da atividade singularmente humana. Para Vigotski, essas funções não aparecem espontaneamente pela maturação biológica da criança, antes são construções que se dão pela interação com os outros e com a cultura. O título de sua obra “A Formação Social da Mente” deve ser entendido de forma literal.

A formação e desenvolvimento da mente do sujeito, que ocorre inicialmente de fora para dentro, é promovida pela atividade com uso de signos, estes são parte da construção histórica humana e possuem significados socialmente compartilhados. Estes significados irão ser partilhados interpessoalmente e reconstruídos internamente pelo indivíduo, nisto consiste o conceito de internalização, “a reconstrução interna de uma operação externa” (VIGOSTSKI, 2008a, p. 56). Não se trata apenas de assimilação ou acomodação de um novo elemento em uma estrutura, é uma reconstrução, algo que é construído novamente por meio de vários processos sociais e intelectuais.

Ao contrário de outras teorias, nas quais se atribui o desenvolvimento das capacidades humanas à maturação de estruturas naturais, na vertente Histórico- Cultural torna-se proeminente o papel das relações sociais como constituintes daquilo que é próprio e singularmente humano. Nessa linha de pensamento, Vigotski (2008a, p. 57-58) refere que:

Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica), e depois, no interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente para a atenção voluntária, para memória lógica e para formação de conceitos. Todas as funções superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos.

O autor exemplifica esse processo de internalização no desenvolvimento do gesto de apontar. Inicialmente o gesto da criança é simplesmente uma tentativa sem

sucesso de pegar um objeto colocado além do seu alcance, a manifestação corporal não tem caráter simbólico, são somente mãos esticadas no ar em direção ao objeto, com dedos fazendo movimentos que lembram o pegar para o outro. Essa atividade em busca de aproximação, que apenas faz parecer que a criança está apontando um objeto, caracteriza-se como uma função elementar, tal como as desenvolvidas pelos animais.

A situação muda fundamentalmente quando a mãe vem em ajuda da criança e interpreta o seu movimento como apontando alguma coisa. O significado do movimento malsucedido de pegar é estabelecido pelos outros como um gesto de apontar. Assim, a tentativa frustrada da criança causa uma reação, não do objeto que ela procura, mas de uma outra pessoa. Vigotski (2008a, p.57) indica que

Nesse momento, ocorre uma mudança naquela função do movimento: de um movimento orientado pelo objeto, torna-se um movimento dirigido para uma outra pessoa, um meio de estabelecer relações. O movimento de pegar

transforma-se no ato de apontar. Como consequência dessa mudança, o

próprio movimento é, então, fisicamente simplificado, e o que resulta é a forma de apontar que podemos chamar de um verdadeiro gesto.

Nesta perspectiva a cognição, a formação das funções mentais superiores, enfim o desenvolvimento do sujeito não é percebido como uma elaboração pessoal unicamente, dada pelo embate de ideias na mente de um indivíduo, são antes construções realizadas por meio da apropriação da atividade simbólica propiciadas pela interação com os outros. Nesse sentido, contrapondo a ideia de subsunçor da abordagem clássica de Ausubel ou a ideia de abandono de uma concepção pré- existente na mudança conceitual e ratificando a gênese social e mediada da consciência individual, Maldaner (2006, p. 148) afirma que

As primeiras ideias sobre as coisas e os fenômenos, as chamadas ideias prévias na linguagem construtivista, também são vistas como individuais próprias, mas derivadas da internalização das significações inicialmente mediadas e vivenciadas em interação com os outros.

É interessante notar que Vigotski desenvolve sua pesquisa sobre o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores principalmente com crianças, pois para compreender a gênese desses processos, é necessário focalizar o olhar em situações em que se possa verificar inicialmente sua inexistência, desenvolvimento e maturação, tal como ocorre no desenvolvimento infantil. Fontana (1996, p.18), discorrendo sobre o processo de formação conceitual na criança e o papel do outro aponta que “as diferentes estruturas de generalização desenvolvem-se na criança em suas interações verbais com os adultos, mediadas por um mesmo sistema linguístico”.

Crianças e adultos, nas suas interações, compartilham palavras que, em sentido prático, significam a mesma coisa, ou seja, possuem o mesmo referente, é isto que lhes permite comunicar-se. Contudo, a função que uma palavra desempenha na atividade mental da criança e do adulto não é a mesma. Os graus de generalidade utilizados por ambos são distintos. Sobre isto, Fontana (1996, p.19) aponta que

Ao utilizar a palavra nas suas interações com a criança, o adulto apresenta (deliberadamente ou não), graus de generalidade e operações intelectuais ligadas à palavra, que são novos para ela. Desse modo sua alocução verbal interfere na atividade da criança, embora ele não passe para ela seu próprio modo de pensar, nem possa "controlar" o modo de pensar dela. A mediação do outro desperta na mente da criança um sistema de processos complexos de compreensão ativa e responsiva, sujeitos às experiências e habilidades que ela já domina.

Desta forma, a interação da criança com os outros sujeitos irá possibilitar que novas funções possam emergir, ainda que ela não as domine de forma autônoma, poderá realizá-las de forma compartilhada. Esta compreensão de Vigotski é expressa em sua noção de zona de desenvolvimento proximal, que passo a abordar a seguir.