13. Fichier rc.firewall
13.2. Explication du rc.firewall
13.2.11. Démarrage de SNAT et de la chaîne POSTROUTING
Chegados até aqui e depois de muito se ter dito sobre educação, consideramos que muito há ainda para dizer, e essencialmente fazer, neste campo. Por aí andamos, a culpar tudo e todos da nossa má sorte, da incerteza da nossa condição, da falta de respeito que sofremos e dos ataques à nossa vulnerabilidade, mas na verdade nada fazemos. Assim nos caracteriza Miguel Torga: “que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão” (Diário X, p. 186). Parece ser este o nosso principal problema: a falta de respeito e crença em nós próprios. Por isso, tanto falamos em crise. A palavra atingiu um desgaste tal, que já nem sabemos se mantém o mesmo significado que lhe dávamos no início. Já nada sabemos. Fomo-nos perdendo aos poucos.
No entender de Vitorino Nemésio: “só com dizer ‘crise humana’, sentir humanamente a insegurança, se ataca o essencial” (Era do átomo. Crise do homem, p.105). Mas de que essencial fala o poeta? Eis a questão que tanto nos atormenta, ao ponto de nos deixar despidos no meio da estrada. Talvez precisemos de alguns minutos para nos contemplarmos. Para chegarmos à conclusão de que o essencial somos nós, com tudo o que nos acarreta, com tudo o que nos destrói. Tudo à nossa volta está impregnado de superficialidade, apesar das muitas palavras bonitas e dos muitos sujeitos bem- falantes que nos dizem que somos imprescindíveis. Que é com a nossa boa vontade e sacrifício que todos construiremos um futuro de qualidade. Que futuro? De quem? De qualidade ou com dignidade? Parece-nos que viver com dignidade acarreta um sentido mais humanista do que viver com qualidade. Um sentido mais pleno, mais ontológico do que é ser-se pessoa humana.
O humano parece ter atingido o limite do absurdo. Correndo o risco de nos colarem na testa o rótulo do existencialismo, não podemos deixar passar ileso este momento tão triste da existência humana. Como nos instiga Miguel Torga: “mas uma tal cobardia de avestruz nada resolve. Enterrar os miolos na areia e fingir ignorar a significação dos factos, negando-lhes a luz interior que os deve
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iluminar, acaba por ser mais doloroso do que enfrentá-los. É como assistir a um crime de costas voltadas” (Diário VIII, p. 10). De forma nenhuma assistimos a este cenário de costas voltadas. Custa perceber que o humano regrediu na forma de pensar e de agir. Compreende-se que se quebraram tantas fronteiras físicas, abrindo-se o mundo à comunicação, ao conhecimento e às relações rápidas e instantâneas; o que não se entende é que se tenham criado outras fronteiras que afastam cada vez mais os homens, abrindo espaço para o preconceito, para a indiferença e para a insolidariedade.
Estamos convictos de que a educação deve ter um papel fundamental neste estado caótico e hostil. Uma educação que faça transbordar um carisma axiológico efetivamente promotor de união e probidade. Sabemos o quanto se desinveste na educação neste país, criando impossibilidades de uma carreira académica para todos. Cada vez mais os mais fortes sobrevirão. Tanto se fala num sistema de equidade e igualdade de oportunidades, mas já criticava Nietzsche a igualdade por se constituir um véu que esconde a mediocridade do homem. Não somos iguais. No desporto também não. Nem todos somos talhados para a alta competição. Educar o jovem neste sentido é saber mostrar-lhe a realidade que o circunda, é ajudá-lo a perceber que cada um pode atingir a sua excelência dentro das suas qualidades e limitações. Fica aqui gravada a palavra de Agostinho da Silva: “e penso que todo o homem é diferente de mim, é único no universo; que não sou eu, por conseguinte, quem tem de refectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros” (Educação de Portugal, p. 9).
Não tenhamos medo de dar aos jovens a oportunidade de trazerem algo de novo a este mundo. Não nos sintamos ameaçados se formos suplantados pelo nosso discípulo. Não nos sintamos olvidados se chegar a hora de ceder o leme à geração que se segue. Preocupemo-nos em prepará-la bem para assumir os
seus encargos e as suas responsabilidades. Tentemos dar-lhe o melhor exemplo através de atitudes que demonstrem a nossa franqueza perante a vida. É disso que os jovens se lembrarão. Do nosso sorriso, da palmada no ombro, da palavra amiga. Por isso há que acabar com o choque de gerações, com a medição de forças entre o novo e o velho, com a desconfiança de que os novos nos surripiem o lugar, e abrir a porta gentilmente à novidade, ao epígono, à primavera e à beleza de um novo amanhecer. Atentemos no que Miguel Torga tem para nos dizer: “não há nada que ver: enquanto o mundo for governado por velhos, ai dos novos. Violências sobre violências, em nome do bom senso e da experiência. Como se o bom senso e a experiência, em termos existenciais, não fossem apenas a cinza da lenha ardida, a pelada do gato escaldado, com medo da própria água fria! O ímpeto do sangue moço apavora as artérias esclerosadas. Quem tem ferrugem na canalização não se pode dar ao luxo de ignorar a lei dos vasos comunicantes. Qualquer alteração do ritmo social…Por isso, a única maneira de evitar hemorragias desagradáveis, é impor sem contemplações um clima geral de hipotensão, onde, monstruosamente, os vinte e os oitenta anos pulsem à mesma cadência” (Diário IX, p. 96).
O medo sempre a imperar. A mostrar o rosto por detrás da cortina. A tolher a capacidade de nos libertarmos dos grilhões que nos provocam dor e nos impedem de pensar lucida e sabiamente. Hoje é tanto ou mais do que no tempo da inquisição e do Salazar. O capital da insegurança e do medo alimenta as indústrias de alienação, exploração, manipulação e exclusão. A juventude precisa de adultos que os responsabilizem e automaticamente os personalizem. Precisa de ser despertada e cativada. Precisa de um professor que não se imponha de forma autoritária, precisa de um treinador que acompanhe o uso do cronómetro com o afeto da palavra, precisa de pais que calorosamente apreciem a sua presença, afagando-a no regaço da compreensão. Por isso, quando se fala em crise na educação, há que fazer certas chamadas de atenção, que Padre Manuel Antunes não deixa passar em claro: “crise dos pais que se demitem do seu múnus pelas infinitas formas encontradas para alijar compromissos graves: satisfazendo todos os caprichos,
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dando à farta dinheiro para a carteira e uma chave da casa para o bolso no mais agudo da adolescência, permitindo todas as leituras, criando a ilusão de uma vida sem obstáculos, mendigando um afecto que se sente fugir (…); crise de certos professores que, em vez de o serem são corruptores: pela má conduta de que, por vezes, são vítimas aqueles mesmos a quem ensinam, por sectarismo e falta de probidade científica, por ausência de consciência profissional; crise desses educadores gerais dos povos que deviam ser os políticos como já com visão de génio o sentia Platão; crise de excesso de autoridade oficial com míngua de autoridade real não se dando ou não se querendo dar ao trabalho de pensar que para a juventude de hoje, formada por imagens e de mil maneiras desiludida e desmistificada, não contam prestígios nem ouropéis nem veneras nem pequenas ou grandes habilidades, mas contam apenas paradigmas vivos que mantenham, num universo de mentira, a pureza de intenções, a coerência de atitudes e a autenticidade do carácter” (Paideia, p. 269). Acrescente-se crise de certos treinadores que, em vez de se formarem na arte do treino, administram-no sem saber o que fazem, não respeitando, nem conhecendo o atleta que têm pela frente e não respeitando a sua integridade física e mental. Para este tipo de profissionais, o treino não se constitui como uma etapa de formação integral do jovem, mas uma forma de testar até ao limite as capacidades do atleta.
Por tudo isto, concluímos que é muito importante saber educar. Saber chegar ao jovem, chegar-lhe ao coração. Recebê-lo de braços abertos e abrir-lhe a janela do sonho e da inspiração. Saber inspirar é crucial. Perceber o olhar da criança sobre nós e dar-lhe esperança. Escutando-a e perceber os seus receios, as suas indecisões, as suas inquietações. Despertando-lhe a curiosidade, criar-lhe espanto com as possibilidades da vida. Como sustenta Hanna Arendt, “a educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem e chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo, deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a
possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum” (Crise na Educação, p. 53).
Resta-nos construir este mundo todos juntos: novos e velhos, pais e filhos, treinadores e atletas, professores e alunos. Sem covardia e dissimulação. Este momento é de todos, sem exceção. Vamos dar tudo o que temos dentro de nós, sob pena de um dia olharmos para trás e percebermos que podíamos ter feito as coisas de outra forma, com outra disponibilidade e outro sentido de entrega e devoção. Sobretudo tratar o tempo presente com consciência de que não nos devemos afastar dos problemas do país, exaltando o pendor participativo e crítico que nos pertence por hereditariedade biológica, cultural e histórica. Cremos que a educação, a vida e o nosso compromisso são em relação ao presente e não em relação ao futuro. Não temos nada que ver com o futuro, até porque ele não existe. Só existe o passado e o presente. Do primeiro devemos ter lembrança para compreender e fundar o presente. Se o presente for rico e enriquecedor, os vindouros terão um bom passado para alicerçar bem o seu presente.
Trazemos novamente ao diálogo Padre Manuel Antunes, pela lucidez, pelo carisma e pela sabedoria, alertando-nos para a importância da educação na edificação de valores que tragam à luz homens esclarecidos e cultos, com clarividência suficiente para contornar os tempos difíceis com engenho e arte: “a crise da educação é, hoje, em boa parte, crise de referência à instância suprema. Crise que reflecte uma crise mais geral de civilização e de cultura. Por isso, uma educação para amanhã não poderá deixar de enfrentar a questão dos valores como a questão fundamental. Por mais inovadas e inovadoras que se apresentem as técnicas pedagógicas e por mais que se insista nos factos revelados pelas ciências humanas e nas teorias que as suportam, a sua eficácia será duvidosa se essa questão não for dilucidada, isto é, ao menos posta com toda a clareza. Só assim o homem se sentirá implicado, envolvido, responsabilizado” (Paideia, p. 123).