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Correspondance Recent

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10. Correspondances Iptables

10.3. Correspondances explicites

10.3.19. Correspondance Recent

Não há pensamento onde não há liberdade. Os nossos oito séculos de opressão e de intolerância deram nisto: um povo cujos intelectuais raciocinam sempre a fazer figas.

Miguel Torga, Diário IV

No pensar de Leonardo Coimbra: “há liberdade numa sociedade quando esta possui, tem e cria uma base de acordo do tipo cultural definido e que se chama justiça” (O problema da educação nacional, p. 30). O problema reside precisamente na falta de justiça. Na incapacidade que revelamos de nos assumirmos e apresentarmos como somos. Vamos por aí, na maior parte das vezes desnorteados, sem horizonte à vista, pálidos, suspicazes, estéreis. Para suprir as nossas debilidades, copiamos os passos dos outros e para não termos trabalho em fazer tudo de raiz, adotamos a forma tosca de existir e viramos costas ao esforço e à persistência. Cedemo-nos sem olhar para trás. Rendemo-nos pronta e irremediavelmente.

Espelho–me no pensamento de Miguel Torga. Na realidade, vivemos de um só modo: com medo de pensar e deitar cá para fora tudo o que nos vai na alma, sob pena de nos atirarem para fora do círculo, de nos denunciarem, de nos apontarem o dedo, exercendo uma força tirânica sobre a nossa vontade, agravando o nosso desespero. Uma palavra em falso representa um olhar reprovador e um franzir de testa que faz evidenciar as rugas que durante anos se foram criando por malvadez e decrepitude moral. Rugas que se impõem por viverem num despotismo esclarecido – assim se creem! – detentoras de toda a razão e cátedra para poderem diminuir e fustigar quem à frente se lhes depara, obrigando à obediência de regras e leis pensadas em cima do joelho - leis desordenadas, falidas, vis e canalhas.

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A preocupação central que por aí impera não é definitivamente o humano, mas sim a destruição do humanismo. Assiste-se a um ensino decrépito, onde imperam a domesticação e o endoutrinamento do educando: “lançar nos espíritos vulgares uns tantos conhecimentos científicos, cujo valor e alcance filosófico não suspeitam, é fabricar esses pedantes cínicos que todos conhecemos, recitando fórmulas abstractas abstrusas sobre qualquer caso concreto, interessando profundamente a vida. Levados para um mundo oco de conceito, cuja realidade não farejam, aí vivem secos, afastados dos homens e da vida” (Leonardo Coimbra, Obras completas, tomo I, p. 129). Faz-se uma lavagem ao cérebro, com base na crença de verdades absolutas que amputam ao educando a capacidade de pensar por si próprio, criando-se e agindo de acordo com a sua sensibilidade e intelecto. Continuam os alunos sentados na sala de aula, ordenados e em silêncio, a escutar a voz do pedagogo que, sem descanso, despeja um elevado conteúdo de conhecimento e erudição.

Sobre este aspeto, surge à luz Manuel Ferreira Patrício: “dar uma aula é agir pedagogicamente. Se o agente educativo tiver uma visão larga da sua missão, dar uma aula pode ser agir antropagogicamente, tendo por fito melhorar o ser humano naqueles, e por aqueles, seres humanos ali presentes, e em parte consegui-lo. Tradicionalmente, dar uma aula é falar para uma turma ou classe e transmitir conhecimentos aos alunos que a formam. Esta é a forma clássica de ministração da aula. Vemo-la contestada desde há muitos séculos, por exemplo por Platão” (Condições e modalidades do agir, p. 38). Também a contestamos. Acreditamos num ensino que faça brotar de dentro do aluno a sensatez de uma intencionalidade no modo como vive no mundo e com o mundo: “cada homem, cada pessoa humana deve ser um carácter único e uno, próprio. Deve ser, mencionar-se “uma consciência moral”: não receptáculo de alheias idéias e sentimentos, mas a fonte criadora das suas próprias ideias e sentimentos. Educar deve conduzir a essa consciência moral. Educar deve conduzir à liberdade” (Manuel Ferreira Patrício, Pedagogia de Leonardo Coimbra, p. 107).

Pensemos então na questão que nos coloca Leonardo Coimbra: “os estudantes saem hoje, em regra, tristes, fatigados, sem a alegria de viver que é, no homem, a alegria de compreender, incapazes de reacções vitais, criadoras e entusiastas. Porquê?” Segue-se a resposta: “porque se está praticando uma verdadeira violência moral com essas vítimas, a flôr, o escol dum povo, e que amanhã deveriam ter as responsabilidades da vida social” (O problema da educação nacional, p. 41). Os alunos sentem-se desamparados, já não se vê entusiasmo no seu olhar quando entram na sala de aula. As preocupações invadem os seus pensamentos: a falta de dinheiro, a falta de esperança no futuro, o medo e a incompreensão da situação de um país que defende o crime, a corrupção e a leviandade moral. A diferença entre o certo e o errado é muito ténue, levando muitas das vezes à noção de que o vale tudo é uma norma para quem quer subir na vida. Formam-se chicos-espertos em detrimento de homens comprometidos, verticais e justos: “o chico-esperto infringe a lei como se estivesse a cumpri-la, como se fosse uma boa partida sem consequências de maior. Porquê? Porque, no fundo, a pequena transgressão que comete não faz dele um criminoso, apenas um ‘malandreco’” (José Gil, Em busca da identidade, p. 32).

A palavra de Edgar Morin não nos deixa repousar: “mas é no indivíduo que se situa a decisão ética” (Método VI: Ética, p. 29). Uma decisão que se pauta por uma escolha consciente e reveladora de ideais que se prendem com o respeito pela vida boa referenciada por Fernando Savater: “A vida boa não é algo de genérico, fabricado em série, mas só existe por medida. Cada um precisa de a ir inventando de acordo com a sua individualidade, única, irrepetível…e frágil. No que se refere ao bem viver, a sabedoria ou o exemplo dos demais podem ajudar-nos, mas não substituir-nos…” (Ética para um jovem, p. 144). Somos nós os percursores do falível trajeto que levamos a cabo. Reside em nós a capacidade de escolha, já que, uma vez mais para Edgar Morin: “A ética para si, no sentido em que implica lealdade, honra, responsabilidade, leva à ética para os outros” (Método VI: Ética, p. 100). Pois então responder nobremente aos desafios que nos são impostos, parece revelar a natureza ética que nos reconstrói por dentro, escalpelizando-nos e revelando-nos fulgurantemente.

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Levar o aluno, o atleta, o aprendiz, o educando a perceber o papel da educação, do treino e da competição na sua formação como seres humanos parece ser cada vez mais o alvo a atingir. Prende-se a formação do momento presente com a força e a vontade que revelamos perante os estímulos da vida e do dia-a-dia vivido com coragem e brilhantismo. No entender de Delfim Santos, “não é a educação que tem de subordinar-se à moral, mas esta é que é consequência da vida e da aprendizagem na vida” (Fundamentação existencial da pedagogia, p. 101). Uma aprendizagem vivida de coração aberto e plena no desígnio de entregar-se aos mais elevados valores existenciais, que façam vir à luz de cada pensamento, de cada palavra, de cada ação uma flâmula que torne clara e majestosa a razão de se ser nesta vida. Deste modo, não podíamos deixar de trazer ao diálogo Sir Richard Livinsgstone, que nos transporta uma vez mais para a esfera do humano e da sensibilidade humanista: “the most important task of education is to bring home to the student the greatest of all problems – the problem of living – and to give him some guidance in it” (Some thoughts on university education, p. 21). Educar para se ser nesta vida com integridade e justiça, realçando o homo humanus em cada um de nós é o cerne da formação na escola e no treino, que devem assumir-se como espaços de reflexão, de pensamento e de sabedoria, sempre a postos para conduzir o educando a uma con-vivência que se revele detentora do gesto justo e solidário.

Educar para a autonomia é dar voz à criação de intelectuais. De homens que desempenharão funções importantes como cidadãos comprometidos e participativos. Homens que se destaquem pela capacidade inventiva e eficiente de superar os reptos que lhes são impostos, sem fraquejar ou fugir dos problemas. Padre Manuel Antunes relembra: “O homem é um ser quase indefinidamente educável como é um ser quase ilimitadamente inventivo” (Paideia, p. 175). Homens que encontrem soluções para as mais variadas questões que lhes são colocadas com carisma e assertividade. Homens que pensem pelas suas cabeças e não se deixem seduzir pela esperteza e ambição desmedida. Enfim, a aposta centra-se na formação de seres humanos e não de homo mechanicus, que deambulam por entre a “multidão solitária”

referida por Padre Manuel Antunes na sua Paideia: “ A multidão solitária é um conglomerado ou um conjunto de homens unidimensionais numa sociedade multidimensional; de homens funções de uma rede complexíssima cujo valor é medido exclusivamente pela competência técnica e pela capacidade de manipular tanto as coisas como os seus semelhantes” (p. 191).

Por isso e segundo Coménio: “é de desejar que nenhum homem seja mudo, mas que todos sejam capazes de expor as suas necessidades a Deus e aos homens. Na verdade, o homem não foi criado para que fosse uma estátua muda, mas foi-lhe dada a palavra para que anunciasse os louvores do seu Criador e para que conduzisse, juntamente consigo, o seu próximo a participar da luz (com boas informações acerca de todas as coisas necessárias)” (Pampaedia, p. 72). Caminhar mudo e de encontro à tal multidão solitária é um risco que corremos. Um risco que nos levará de encontro à capciosa forma de viver - descolorida, estólida, charra e rude. A educação é uma relação amorosa entre aluno e professor, é diálogo, é fraternidade, é dedicação, é ajuda, é respeito, é honestidade. Por tanto, formar dentro destes preceitos humanistas é criar cidadãos conscientes e misericordiosos, que irradiam luz e compreensão pelo outro e pela vida. Agostinho da Silva sustenta o nosso sentir: “não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de o passar a cidadão” (Considerações, p. 68).

Formar livres-pensadores, homens fugitivos, que não se acomodem à cultura da subserviência e do despotismo dos senhores de baraço e cutelo é a missão de todo educador que percebe da essência da liberdade no humano. Revisitemos Leonardo Coimbra: “a educação, querendo formar o homem livre, tem de lhe dar a possibilidade de reflexão pessoal. Para isso precisa não o esmagar sob uma erudição sem sentido nem o perder na luta dos diferentes modos do pensamento humano, apenas incompatibilizados pelo

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desconhecimento do seu lugar hierárquico na cultura” (Obras Completas, Tomo I, p. 231). Por isso a reforma no ensino é premente. Dar cor e forma a um ensino que não se deixe achincalhar pelos ideais ocos de um mercantilismo crescente. Olvidamos que é com humanos que estamos a tratar e é com eles que vamos contar no futuro. Que tipo de homem andamos a formar? Que tipo de médicos, professores, cientistas, advogados, atletas e demais estamos a criar? Profissionais que só escutam as seguintes palavras-chave: corrupção, chico-espertismo, vaidade, ambição, dinheiro, fama, fortuna, mercado…? Profissionais que nos esquecemos de tornar humanos e que mais tarde cairão nas suas mãos nossos filhos e netos? Será que nessa altura se recordarão das poucas horas sobre ética que lhes foram ensinadas e que falam do homem como Pessoa Humana e não como rato de laboratório, cujas experiências ferem a sua vulnerabilidade e dignidade humanas?

Reiteramos o sentido da seguinte afirmação que Fernando Savater escreveu no livro Ética para um jovem dedicado a seu filho: “a única coisa que a ética pode dizer-te é que procures e penses por ti próprio, numa liberdade sem enganos: responsavelmente” (Ética para um jovem, p. 144). Por tanto, educar para a liberdade é educar com responsabilidade e em harmonia. É fazer realçar a nobreza de cada educando e lembrar-lhe os verdadeiros valores humanos. Educá-lo nesses valores e indicar-lhe o caminho da luz. Sem medo, pedantismo ou agressividade.

No entanto, a demência do ser humano parece dificultar as coisas. Cada um vive no seu casulo, com medo de ser incomodado e com medo do futuro. Não se sente reação, um estímulo, uma intrépida vontade de se ser. Cada um vive para si, considerando-se insubstituível e eterno no seu mister, renegando muitas das vezes a novidade e apartando-se dela com tremenda intransigência. Vejamos o sentido crítico de Miguel Torga no tocante à incapacidade para aceitar o rumo da vida humana: “o homem citadino não consegue continuadores. O político julga-se insubstituível; o literato cuida que depois dele ninguém mais saberá escrever; o industrial pensa que o seu génio empreendedor estancou as fontes da habilidade comercial. Só o camponês

deixa herdeiros. Exactamente porque nenhum homem da terra se considera uma excepção, pode ensinar naturalmente ao filho todas as aquisições da sua experiência, e torná-lo um igual e um sucessor.” (Diário V, p. 13). Remata Paulo Freire esta ideia com a seguinte afirmação: “a história não termina em nós: ela segue adiante” (Pedagogia dos sonhos possíveis, p. 40).

Nada nem ninguém é exceção. Todos desempenhamos um papel preponderante no cosmos. E quanto melhor levarmos a cabo a nossa tarefa, mais nos sentimos capazes de a transmitir às gerações futuras, sem hostilidade e impertinência. Todos aprendemos em conjunto e em conjunto somos. Falta esta força, esta construção, este entusiasmo. Por isso mesmo voltamos a Leonardo Coimbra e acreditamos que muito falta fazer quando falamos de educar o humano. Nas palavras deste irreverente paideuta: “o ensino actual é a mais perfeita máquina de autómatos. Sendo apenas ou técnico (no melhor caso) ou descritivo, é somente um ornamento da inteligência. A verdadeira educação deve ter em vista a criação do carácter, pelo acordo de todas as faculdades. Deve criar pensadores e não eruditos, cérebros instrumentos de conhecimento e não cérebros depósitos de erudição.” (Obras Completas, Tomo I, p. 129). Faz falta sentir de outro modo. Olhar nos olhos da criança e abraçá-la com afeto. Pôr-lhe a mão no ombro e incitá-la a construir o seu caminho com um raio de esperança na sacola. Falar com ela e contemplá-la com a mira no futuro. Só assim essa criança se manterá para toda a vida: impoluta, frontal, autêntica.

Com o intuito de desassossegar, aqui deixamos a seguinte provocação de Jorge Bento: “deve elevar-se o aluno, o aprendiz, o estudante, o atleta e o executante, à altura do saber e da inteligência, da excelência ética e estética? Ou devem o ensino e a formação descer à rasura da incivilidade e mediocridade, da indolência e do laxismo, da indigência cultural e moral? (Pelo regresso do desporto: ensaio epistemológico, p. 105). Certamente que esta questão dividirá a opinião de muitos pedagogos. Os tais que pensam que são exceção. Acreditamos na liberdade de ação e na capacidade criativa do ser humano. Sempre com o pensamento direcionado para a excelência,

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posicionamo-nos ao lado do educando e elevamos o seu caráter através de gestos e atitudes que o façam rumar honradamente pela vida fora. Entendemos ser esta a postura ética a adotar. De forma humilde, acima de tudo. Tal como a poesia que nos alumia o caminho, a mesma que é cantada por Miguel Torga no seguinte poema intitulado Medida:

Jogo contra o destino. Cada minuto, cada desafio. Livre neste baldio

Da liberdade humana,

Arrisco a consciência dos meus actos Na roleta da sorte.

O triunfo e a derrota não me importam. Nenhum triunfo vale o sol que o doira, E nenhuma derrota o é na morte Que temos certa.

Quero apenas fazer a descoberta Do que posso e não posso, Sem poder nada.

Aprendo a conhecer o meu tamanho Pela maneira como perco ou ganho.

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