Nos anos de 1970 se inicia na terapia ocupacional, em consonância com os acontecimentos históricos e sociais, a discussão da área social, quando alguns terapeutas ocupacionais passam a compreender seu papel político e social, exigindo a participação em projetos e em instituições que até o momento estavam longe das preocupações e da formação na área da saúde (BARROS et al., 1999). A preocupação que emerge desse momento histórico pelas questões sociais fez com que terapeutas ocupacionais questionassem as formas tradicionais de se conceber a profissão, promovendo assim a crise no campo da psiquiatria (hoje saúde mental) e no campo da neurologia ortopédica.
Nas décadas finais do século XX, em resposta ao processo de redemocratização do Brasil, reconheceu-se que as pessoas se organizam para os fazeres que são necessários à vida coletiva. Na literatura, a expressão terapia ocupacional social passa a ser adotada, apresentando uma abordagem que se interessa pelas multiplicidades e singularidades, as quais, segundo a produção da época, favorece a criação de espaços de encontro e trocas, sustentados pela comunidade de fazeres (GHIRARDI; RESTELLI, 2016). A terapia ocupacional social passa então a considerar o coletivo de forma fundamentada a partir das necessidades identificadas, de modo crítico e reflexivo, na atuação do terapeuta ocupacional, desde o final da década de 1970, em que:
Os processos de ação em terapia ocupacional social tornam-se espaços sociais de negociação cultural e relacional, de produção ou de facilitação de participação da pessoa na vida coletiva, na elaboração de projetos de vida e no sentimento de pertencimento e, não podem ser compreendidos através de separações e disjunções. (BARROS, 2004, p. 92).
Sobre as ações da terapia ocupacional, a autora as vê como “estratégias ou metodologia de mediação do conflito e de negociação cultural.” (BARROS, 2004, p. 92).
Discutindo as inquietações e os questionamentos dos profissionais, um estudo se refere aos marcos históricos da constituição do campo social e relata que os primeiros passos dos profissionais
aconteceram “(...) em resposta a eventos, contextos, percepções, de necessidades dos sujeitos e coletivos, e de uma leitura sensível, compreensiva e crítica de demandas coletivas, institucionais ou políticas.” (GALHEIGO; OLIVER, 2016, p. 49). Ao refletir sobre as posturas e ações requeridas pelo “novo” terapeuta ocupacional, a autora indaga:
Que contribuições este corpo de saberes e práticas com que trabalho pode trazer para a condição que à minha frente se coloca? Em que medida a ação profissional, em diálogo com o cenário social, cultural e político, pode colaborar no agenciamento de mudanças para as condições vividas por esses sujeitos e coletivos? (GALHEIGO, 2016, p. 49).
Vale refletir, entretanto, sobre que coletivo é esse que começa a ser construído para a terapia ocupacional, nesse mesmo período, Ghirardi e Restelli(2016) ao discutirem sobre o que compõe esse coletivo, afirmam que:
Novas fronteiras de assistência em terapia ocupacional decorreram desse movimento crítico, numa expansão do alcance profissional em práticas comprometidas com os fazeres que sustentam as dimensões sociais da vida, do convívio, das trocas, de encontros e desencontros que acontecem para além do universo da reabilitação. Práticas que abordam os fazeres da vida quotidiana, que sustentam formas de organização e de participação social, colocando entre parêntesis o que há de excepcional na vida de indivíduos e de grupos estigmatizados. (GHIRARDI; RESTELLI, 2016, p. 357).
Por outro lado, Ramugondo e Kronenberg (2005) defendem a ideia de que as populações3 são muitas vezes determinadas por aqueles que desejam definir coletivos para fins como a pesquisa, na distribuição de recursos ou serviços, em outras palavras, como cientistas ocupacionais, buscam compreender o que está envolvido na construção e sustentação da comunidade ou da sociedade na medida em que as ocupações coletivas são inclusivas ou não.
Com o intuito de impulsionar a discussão e a defesa de uma “perspectiva ampliada” para toda a terapia ocupacional, assim como para a especificidade da terapia ocupacional social (que tem se configurado pela sua abordagem teórica e metodológica, no trabalho com sujeitos, grupos e coletivos), Malfitano(2016) propõe uma discussão do contexto social como elemento que deveria estar presente em todas as ações da profissão, independente do grupo e da subárea em que esteja inserida. A autora acrescenta:
De que forma os terapeutas ocupacionais têm direcionado as suas ações? Esse profissional tem conseguido alcançar uma dimensão social e coletiva da vida das pessoas? Os terapeutas ocupacionais têm se dedicado ao desenvolvimento de ações que promovam formas de inserção e participação na vida social? Independentemente das problemáticas dos diferentes grupos? (MALFITANO, 2016, p. 117).
Estudos mostram que terapeutas ocupacionais, historicamente, sempre precisaram de ferramentas para desenvolver teorias e ações de forma sistemática e sólida, argumentando que apenas nas últimas décadas têm sido produzidos trabalhos aprofundados sobre a influência das questões sociais na participação ocupacional (GARLITO et al., 2015; MORÁN; CONCHA; HERNÁNDEZ, 2015). Isto posto, vale mencionar que existem elementos que constituem as práticas profissionais, os quais são modificados socialmente.
Para Kemmis (2005), as práticas profissionais são constituídas historicamente, além de incluírem características que são sociais e discursivas, as quais, segundo o autor, tornam-se
propriedade coletiva, e não apenas propriedade privada dos praticantes, vistas da ação técnica de
forma individualizada. Essas características vão se moldando por meio de tradições e histórias que situam as práticas de tal maneira que elas sejam herdadas, assim, as (os) praticantes podem cuidar desta herança, tornando-se desenvolvedores de práticas (KEMMIS, 2005). As práticas são moldadas pelos praticantes e pelas intenções, expectativas e valores a quem essas práticas destinam-se a servir (pessoas, grupos sociais e sociedades inteiras). O autor ainda assinala que;
Mudar a prática requer não somente mudanças nas ações de indivíduos, mas também mudanças nas dimensões sociais, discursivas e históricas em que as práticas são constituídas e reconstituídas, e como elas evoluem ao longo do tempo. Isso é inevitavelmente um processo político para além da responsabilidade de profissionais individuais que atuam sozinhos, embora cada um indubitavelmente possa contribuir para a evolução de práticas. (KEMMIS, 2005, p. 393).
Sobre o “saber-fazer” profissional, a linha do tempo construída por Galheigo et al. (2018) mostra que desde 1956, no Brasil, os referenciais teóricos metodológicos vêm sendo incluídos e substituídos conforme o contexto e as mudanças sociais, históricas e políticas para o país. Ademais, as autoras situam as atividades acadêmicas (estudo, pesquisa e extensão) como tendo um importante papel para a produção de novas perspectivas e tendências, e o “diálogo com reconfigurações no âmbito das políticas públicas, com recomendações de organismos internacionais e com a difusão de novas tecnologias e tendências produzidas nos cenários nacional e/ou internacional” (GALHEIGO et al., 2018, p. 724). Neste processo de problematização, construção e reconstrução dos modos de pensar e fazer profissional, as autoras afirmam que, “trata- se, portanto, de reconhecer que as perspectivas, referências, modelos e abordagens utilizados expressam modos de entendimento e ação da terapia ocupacional em consonância com sua época, que podem ou não ter continuidade no curso histórico da profissão” (GALHEIGO et al., 2018, p. 724).
Um exemplo disso, são diferentes entendimentos sobre a ocupação que aparecem em distintos momentos históricos (KIELHOFNER, 2009), condizentes com os paradigmas dominantes de cada contexto. A esse respeito Morrison, Olivares e Vidal (2011) propõem a Filosofia da Ocupação Humana como uma forma de analisar criticamente o conhecimento que se coloca em prática para a profissão e ciência ocupacional, considerando as epistemologias que podem dar corpo a um conhecimento contextualizado. Os autores citam Kielhofner (2009) para descrever os paradigmas que marcaram diferentes momentos históricos da terapia ocupacional por meio das concepções que se tinha da ocupação, “influenciando a prática, os valores, os objetivos, e as evidências científicas que tem sustentado o conhecimento da profissão.” (MORRISON; OLIVARES; VIDAL, 2011, p. 1). Na primeira concepção da ocupação no tratamento moral, denominada pré paradigma da ocupação, no final do século XIX, a visão de mundo dominante era marcada pela desigualdade de classes e pela Industrialização. Neste período a ocupação começa a ser formada como eixo central para a T.O., tendo o início da sua constituição no início do século XX e consolidação em 1917. As primeiras abordagens prosperaram significativamente “como parte de um grande grupo de pessoas que considerava a ocupação um agente de promoção, tratamento e restauração da saúde, Slagle, Tracy e Meyer, começam a dar a estrutura e o contexto dessa nova terapia, que teria um boom significativo durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial.” (MORRISON; OLIVARES; VIDAL, 2011, p. 7, tradução nossa).
A transição para a segunda concepção passa por mudanças que marcam o início do paradigma mecanicista como modo de legitimar a profissão com o uso de uma ocupação que precisava ser validada nas ciências biomédicas, centrada na funcionalidade, período marcado pelo neopositivismo. Posteriormente, a função dá lugar para o estudo da ocupação como um fenômeno individual e subjetivo, período marcado pela passagem da modernidade para a pós-modernidade como um acontecimento mundial (CARRASCO; OLIVARES, 2008). Neste momento temos a mudança para o paradigma interpretacionista, que traz para o debate as tensões/ conflitos da identidade para as/ os terapeutas ocupacionais responderem `as necessidades da saúde e qualidade de vida das pessoas. Ainda neste período, tivemos contribuições significativas de Mary Reilly e Jean Ayres, terapeutas ocupacionais que retomam os fundamentos iniciais da profissão com as primeiras teorias centradas na ocupação, dentro de um novo paradigma que resgata a ocupação como eixo principal da profissão (KIELHOFNER, 2009 apud MORRISON; OLIVARES; VIDAL, 2011). Outra importante contribuição foi de David Nelson, com reflexões sobre a ocupação, em especial quanto `a forma e ao desempenho ocupacional, a partir da Universidade do Sul da Califórnia. Ainda neste período se inicia o Doutorado em Ciência da Ocupação, naquela universidade, com influências do trabalho de Mary Reilly e Elisabeth Yerxa. No caso, a ocupação
humana é concebida como um fenômeno subjetivo e individual, com destaque para o desenvolvimento do Modelo de Ocupação Humana (MOH) e a continuidade nas produções da Ciência ocupacional, tendo a ocupação como um fenômeno cada vez mais complexo, como a proposta elaborada por Ann Wilcock (2006) sobre a natureza ocupacional do ser humano. O paradigma atual e social da ocupação, denominado pelos autores (MORRISON; OLIVARES; VIDAL, 2011), considera a ocupação como um fenômeno sistêmico, complexo, coerente com a justiça e o bem-estar das comunidades.
Para fortalecer essa perspectiva, teorias como da natureza ocupacional do ser humano de Ann Wilcock (2006), elaboradas a partir de reflexões sobre política, ecossistema e relação do ser humano e seu ambiente; a proposta do Modelo Kawa, de Michael Iwama (2005), que tece críticas aos modelos de prática que não apresentam um posicionamento epistêmico, culturalmente contextualizado e finalmente, os autores Frank Kronenberg, Salvador Simó Algado e Nick Pollard (2007), que propõem uma análise reflexiva de suas experiências como terapeutas ocupacionais, destacando a perspectiva político-social das e dos terapeutas ocupacionais.
É a partir dessa construção histórica, discursiva e coletiva, que pretendo contribuir, auxiliando no desenvolvimento da profissão. Assim, no próximo tópico, apresento estudos que se dirigem às práticas de terapeutas ocupacionais interessadas (os) e preocupadas (os) com questões sociais e coletivas.