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A compreensão da sociedade contemporânea de que a leitura pode favorecer a melhoria do leitor que, porventura, esteja em tratamento de saúde seja físico ou psíquico, nem sempre aconteceu em outros períodos. No decorrer da história, ocorreram vários momentos de desprestígio da leitura, situações em que esta foi vista como um grande perigo, como um veneno para as pessoas, conforme se pode observar nessa citação de Tissot:

[...] os inconvenientes dos livros frívolos são de fazer perder o tempo e fatigar a vista; mas aqueles que, pela força e ligação das idéias, elevam a alma para fora da mesma, e a forçam a meditar, usam o espírito e esgotam o corpo; e quanto mais este prazer for vivo e prolongado, mais as conseqüências serão funestas. (1775 apud ABREU, 1999, p. 10).

Ainda no século XVIII, acreditava-se que a leitura fizesse grande mal à saúde prejudicando os olhos, o cérebro, os nervos e o estômago. Em sua prática

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clínica, Tissot diz ter encontrado os mais variados e sérios distúrbios como perda de apetite, dificuldades digestivas, enfraquecimento geral, espasmos, convulsões, irritabilidade, atordoamento, taquicardia, podendo levar à privação de todos os sentidos. Maior cuidado e vigilância eram considerados necessários quando as leituras eram perigosas para a alma, ou seja, aquelas que ameaçavam a moral, sendo os textos literários e, principalmente, os romances, os mais ameaçadores, conforme Abreu (1999, p. 12), que ressalta: “O terreno da moral é contíguo ao da religião e nesse campo fortes empreendimentos foram levados a cabo no sentido de afastar os homens da leitura”.

Atrelado a isso vale ressaltar que a leitura traz consigo questões ideológicas importantes, a julgar pelas atitudes de representantes da sociedade no tocante à destinação dos livros que traziam conteúdos não desejáveis à sociedade. Ao analisar-se a história no período de 1950, toma-se conhecimento de que as escolas escolhiam o horário de maior expectativa das crianças e adolescentes, o recreio, para fazer grandes fogueiras para a queima das revistas em quadrinhos, um gênero literário que foi fortemente perseguido na época. O psiquiatra americano Frederic Werthan reforçou duramente a campanha contra a leitura das revistas em quadrinhos através do seu livro The seduction of the innocents, publicado com o apoio de organizações religiosas e educacionais, no qual, utilizando-se de rigor científico questionável, apresentou os resultados de seu trabalho afirmando que as crianças que liam as histórias em quadrinhos apresentavam fortes anomalias de comportamento: por exemplo, para ele, a leitura de Batman com seu inseparável amigo Robin, representava o sonho de homossexuais vivendo juntos e, desta forma, a criança, seguindo o exemplo dos seus heróis, se tornaria um homossexual. Vergueiro (2005) também confirma que a sociedade brasileira, naquela época, afastou, drasticamente, os jovens do acesso às revistas em quadrinhos.

Leitura e escrita vistas como instrumento de adultério também foram constantes na tradição literária sendo vistas por muitos como portadoras de um comportamento negativo e insano, como nos afirmam Lajolo e Zilberman (2009, p. 294): “impressionável Luiza, a prima de Basílio do livro de Eça de Queiroz publicado em 1878, chegou ao adultério, motivada pela sedução do parente, mas também enfeitiçada por romances de amor”. Vê-se, portanto, que a leitura produz um efeito, ainda que visto de maneira negativa.

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Afirma Manguel (1997, p. 41) que “toda leitura tem sua história, leituras possíveis em certas épocas não o foram em outras”, ou seja, lemos diferentemente um mesmo texto em épocas, momentos e condições diferentes. Assim, observando- se, também como referência, as últimas décadas, pode-se verificar as diferentes formas e modos de olhar o que seja leitor, leitura e livro.

Segundo Lajolo e Zilberman (2009), é possível afirmar que a história do leitor começou com a expansão da imprensa e se desenvolveu com a ampliação do mercado do livro, a difusão da escola, a alfabetização das populações urbanas, a valorização da família e da privacidade doméstica e a ideia de lazer. Ela teve início, na Europa, aproximadamente, no século XVIII, numa época em que a impressão de obras escritas deixou de ser um trabalho quase artesanal dos tipógrafos e gerenciado pelo Estado  que, até então, por meio de alvarás e decretos, facultava, ou não, o aparecimento dos livros , e se tornou uma atividade empresarial baseada nos moldes capitalistas, ou seja, dirigida para o lucro. Este objetivo começou a se realizar, plenamente, a partir do surgimento de uma clientela capaz de consumir o produto, pessoas que dominavam a habilidade de ler, o que adveio por meio do fortalecimento da escola e da obrigatoriedade do ensino.

Foi no seio da família que se intensificou o gosto pela leitura, por ser esta uma atividade adequada ao contexto de privacidade próprio à vida familiar. Por outro lado, o saber ler passou a ser uma habilidade necessária à formação moral das pessoas, principalmente entre os grupos religiosos interessados no conhecimento e na difusão da Bíblia.

A atitude individual ou coletiva, silenciosa ou em voz alta, a leitura do folhetim semanal ou das Sagradas Escrituras invade o lar burguês, integrando-se ao cotidiano familiar e passando a constar das representações imaginárias da classe média, traduzidas por pinturas e fotografias. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2009, p. 16).

No processo de construção da leitura, no ato de decodificação dos signos, da transmissão da informação e do conhecimento pela oralidade, na passagem da leitura intensiva para o uso também da extensiva, ela alcança a contemporaneidade como o ato de apropriação da informação, de compreensão do significado e do sentido do texto utilizando-se o livro como suporte no seu desenvolvimento.

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Os estudos da língua sofreram alargamento, na atualidade, ao se articularem a outros domínios do conhecimento como a psicologia, psicanálise, a semiologia que deram novos campos de estudo do objeto leitura, numa ação afirmativa e interdisciplinar sobre os signos, a linguagem e o mundo. (BARRETO, 2006, p. 31).

Na Europa do século XVII, livros publicados já textualizavam o leitor. No Brasil, onde os esforços se mostraram visíveis na ficção romântica, somente por volta de 1840, o Rio de Janeiro, sede da monarquia e onde surgiram as tipografias, livrarias e bibliotecas como instrumentos para a produção e a circulação da literatura, passa a mostrar traços necessários para a formação de uma sociedade leitora. Naquele momento em que o capitalismo treinava seus passos, com a expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos, que desejavam um mercado cativo, mas em progresso, a escolarização se apresentava ainda precária, porém, já havia um movimento visando a melhoria do sistema.

O livro, objeto material através do qual a literatura existe e portador de um conteúdo transcendente, o texto, não recebe a atenção devida pelos estudos literários, segundo Lajolo e Zilberman (2009), o que não acontece somente no Brasil. No entanto, na literatura, pode-se encontrar elementos históricos que facilitem a compreensão deste processo.

A difusão do livro se deu quando Gutemberg, por volta de 1450, apresentou, na Alemanha, o primeiro exemplar impresso da Bíblia, um acontecimento decisivo para a sua popularização porque este deixou de ser produzido artesanalmente e passou, sobretudo depois do século XVIII, a ser fabricado em grandes quantidades. Como nos apresentam, ainda, Lajolo e Zilberman (2009), “o livro suporte físico de um saber, mas também objeto industrializado submetido a compra e venda, vale dizer mercadoria, é parte integrante e até essencial, dos mecanismos próprios do capitalismo”. Assim, ao se transformar em propriedade privada, assume marcas da sociedade burguesa: os contratos de edição e impressão, os meios de distribuição e venda, as regras de tradução e condensação formam operações de dimensão econômica de um processo que finaliza no objeto livro. Ainda em relação ao livro impresso, geralmente visto como material litúrgico, no passado, a partir das novas tecnologias ele passou a ser visto com desconfiança em função da ideia de seu breve desaparecimento.

No processo de formação leitora, é necessário destacar a importância do livro didático, por sua história e importância para a formação de uma sociedade

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leitora, por ser ele uma das condições básicas para o funcionamento da escola, espaço social onde a leitura sistemática e planejada é iniciada. Ele traz consigo duas perspectivas distintas: de um lado é considerado literatura de menor importância, “texto para ler e botar fora”, conforme destacam Lajolo e Zilberman (2009, p. 120), e, por outro lado, é a que traz maior lucro para as editoras, pois, por não serem os livros conservados pelos leitores, devido ao seu prazo de validade, estão sempre presentes nos catálogos mantendo vivo o ideal de consumo adotado pelo capital.

O livro didático tem sua importância na história da leitura visto que ele, talvez mais do que outras formas de leitura, contribui diretamente para a formação do leitor e, embora não seja tão amigável e sedutor como as publicações destinadas à infância, como os livros coloridos e bem ilustrados e as histórias em quadrinhos, a sua influência é vital no processo de formação da leitura, estando presente na vida dos alunos em todas as etapas de escolarização.

O livro didático primo pobre de ascendência nobre, é poderosa fonte de conhecimento da história de uma nação, que por seu intermédio, dá a entender que rumos seus governantes escolheram para a educação, desenvolvimento e capacitação intelectual e profissional dos habitantes de um país. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2009, p. 121). A leitura foi produto de consumo do clero, da burguesia e dos ricos, que passavam as informações necessárias aos seus seguidores por meio da oralidade, na retórica do discurso, através dos seus gerentes, e era, também, instituída como uma forma de salvação, pois a Bíblia era monopólio da Igreja, assim, desde o aparecimento do alfabeto, a prática da leitura está associada à emissão sonora do texto, como destaca Chartier:

A leitura em voz alta tinha dois propósitos, uma função pedagógica: demonstrar que era um bom leitor exibindo o domínio de retórica e de falar em público, e um propósito literário: ler em voz alta era para um autor colocar um trabalho em circulação, publicá-lo. (1999, p. 20). Até o século XV, vários tipos de material foram utilizados para a leitura e a transmissão de informações, tais como o papiro, o linho, o algodão e o pergaminho, porém, após o século XV, a melhoria da qualidade do papel fez a diferença neste processo. Na Europa, por volta de 1450 a 1750, respectivamente, o surgimento da imprensa tipográfica e a publicação da primeira enciclopédia na França, como afirma

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Burke, a imprensa impulsionou a confluência dos diferentes tipos de conhecimento e agiu como elemento de transformação social, o que provocou mudanças significativas na forma de produzir, expressar, apresentar, disseminar e recuperar a informação.

Refere Chartier (2001, p. 86) que, no “estilo antigo a leitura é reverência e respeito pelo livro porque ele é raro, porque está carregado de sacralidade mesmo quando é profano, porque ensina o essencial”. Mas, com o surgimento da imprensa, a multiplicação dos livros e o excesso de informação impõem uma nova maneira de ler. Passa-se de uma leitura intensiva para uma leitura extensiva, de passar os olhos, realizada de forma rápida, uma leitura de poder pular as páginas, de referência.

Contudo, ainda segundo Chartier, a civilização da imprensa não está restrita somente a Gutemberg, pois, no início do século XIII, os textos já eram impressos usando-se caracteres de metal e, na China, neste mesmo período, eram usados os caracteres de madeira  que mantinham uma forte ligação entre o manuscrito e a publicação  e os blocos gravados  que provinham de modelos de caligrafia , sendo a demanda de mercado facilmente atendida e ajustada, devido à durabilidade dos blocos de madeira que facilitavam a impressão e a cópia de milhares de exemplares solicitados.

Através dos elementos passados pela história, é possível observar como a leitura, a escrita, a forma de se comunicar, na perspectiva de continuidade e de fortalecimento da cultura, a cada época se reinventam e podem ser bem utilizadas nos dias atuais nos diversos formatos e de diversas maneiras, contribuindo, de forma significativa, com a sociedade.

[...] O homem é essencialmente cultural [...] sua existência depende do que ele produz, isto é, da sua civilização, entendida como a construção de seu próprio curso, com suas invenções e criações, com seu processo educativo que permite repassar às novas gerações o conhecimento socialmente produzido. (ESPINHEIRA, 1995, p. 11).

Assim, a leitura alcança a contemporaneidade também como uma arte de cuidar, baseada no relacionamento interpessoal de ajuda e confiança, o que será tratado no capítulo a seguir, que traz os conceitos e objetivos da biblioterapia como uma técnica que utiliza a leitura no auxílio ao tratamento de pessoas que tiveram, por algum motivo, a sua liberdade limitada.

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