Caos Equilíbrio
Os ritos de iniciação correspondem a integração e a constituição da pessoa como um ser coletivo, em sua família estendida corresponde a expectativas ancestralmente construídas, não como fado, mas como herança e compromisso de realização entre um grupo e seu espaçotempo de formação.
Em uma Dialética da encruzilhada – onde não se elimina nem sintetiza as origens, mas que resulta na ênfase e no processo – dialogicidade
“Tão pequeneninho, na beira do rio, morrendo de frio, sem saber nadar... a, a, a, a, a, eu quero atravessar.” Coco de Roda – Mestre Nico
A partir destes estímulos investigativos fui apoiar-me no pensamento de Leda Maria Martins que nos inaugura com seu olhar a Oralitura da Memória230, em que diz “o corpo, lugar da memória”, em sua perspectiva o corpo é o que primeiro inscreve a palavra e a atualiza. Inscreve o sujeito e a cultura em uma dada espacialidade que se territorializa, mas é descontínua, contextualiza uma temporalidade acumulativa e fluida. Como tal, a performance atualiza os diapasões da memória, lembrança resvalada de esquecimento, tranças aneladas na imposição que borda os restos, resíduos e vestígios em novas formas expressivas. O corpo em performance restaura, expressa e, simultaneamente, produz esse conhecimento, grafado na memória do gesto.
A performance do corpo, lugar da sabedoria, é a palavra grafada que ecoa como voz cantante, como expressão contígua que “fertiliza o parentesco entre vivos, ancestres e quem ainda vai nascer.”231
Pensando nesta memória do gesto, é possível recorrer à substância social da memória, de Ecléa Bosi. Quando se refere à práxis coletiva, a autora recorre às reflexões
230 MARTINS, 2001: 61-86.
elaboradas por nossa consciência, que não é individual, é formada pela relação dialógica e dialética, por uma ética do diálogo, que segue por influencias externas, valores coletivos que se configuram como uma convergência de várias correntes de pensamento.
“(...) Uma memória coletiva se desenvolve a partir de laços de convivência
familiares, escolares, profissionais. Ela entretém a memória de seus membros, que acrescenta, unifica, diferencia, corrige e passa a limpo. Vivendo no interior de um grupo, sofre as vicissitudes da evolução de seus membros e depende de sua interação.”232
Porém mesmo que muito que deva à memória coletiva é a pessoa que recorda. Ela é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ela, e só para ela, significativos dentro de um tesouro comum mais abrangente. A Roda de Capoeira é o nosso grande fenômeno exemplar para entendermos a corporeidade afrodescendente no Brasil. O encontro de praticantes que se organizam em torno da Tradição atualizada, os elementos que a compõe são os berimbaus, gunga, berra-boi e viola, ou gunga, médio e violinha (as variações mudam conforme a
interpretação famíliar); pandeiro de couro; agogô; reco-reco e em algumas construções foram incluídas o atabaque. Que apesar de Carlos Eugênio Libano, Liberal, Jair Moura, Fred Abreu233 aprendi com Mestre Gato Preto, com seu filho Hugo, ou Gato Góes e
também com Contramestre Pinguim, que os elementos mais antigos na Capoeira são os berimbaus, que justamente fazia o contraponto com o Candomblé ao utilizar os berimbaus como a voz do antepassados, enquanto o Xiré de Candomblé compõem sua orquetra com os tambores (atabaque, ilú, caixa, conga) como sendo a voz dos
ancestrais antigos e primordiais. O berimbau é a voz do Egun-gun, por assim dizendo, como um antepassado recente, de memória afetiva dos últimos tempos, não
conduzem rituais de encorporação, entretanto pode compôr uma orquestra em rituais de encorporação, conduzidas geralmente por atabaques, congas, ilús. Estes
antepassados evocados pelo berimbau são irmãos longínquos e mestres emblemáticos, mas também generalizados como energias que abençoam a prática; os atabaques são as vozes de energias fundadoras, personificando o gênero (masculino/feminino) em
232 BOSI, 2002: 331-333
sua forma esculpida e decorada, seus sons evocam elementos da natureza
humanificados, como os guias encantados234 e os que são ancestrais de existência mais antigos, primordiais, ligados à manifestação dos que são os elementos da natureza (céu, terra, água e ar), como da natureza humana (arquetípicos, est-éticos, míticos). Estes elementos que a compõem, mas não funcionam como um impedimento formal, tal qual julgaram algumas leituras estruturalistas , eles funcionam como composição, formam uma orquestra em que seus integrantes à completam. Mas jamais podem funcionar como impedimentos por uma suposta “pureza”. Digo isso porque este discurso apropriado por parte equivocada de pesquisadores submete a Capuera a uma cristalização na qual ela mesma nunca almejou, e pelo contrário, sua principal
epistemologia é a do improviso. Ela por si só surgiu da malandragem da sobrevivência, do equilíbrio precário. Assim podemos conceber então a Capuera em um encontro de palmas ritmadas acompanhando um jogo de dois brincantes.
Também consideramos o Xirê de Candomblé, a Gira da Umbanda, a Roda do Toré, da Jurema, dos Encantados, da Ayuaska... o movimento circular é presente e estruturante. O sentido anti-horário é instaurado, como em um vórtice provocado pela energia movimentada a partir do corpo.
Bailante sempre, o ritual afroameríndio é circular e é bailado, é performático na medida em que o corpo se torna símbolo. A caracterização, a vestimenta, os adereços, esta intrinsecamente implicada pela condição de sua existência. Lembrando Oliveira quando fala que a existência depende das condições para que ela possa se expressar. Sendo assim, cada manifestação coletiva de culturas negras afro-ameríndias guardam em si a memória destes corpos, regionalmente implicados pelo meio em que estão inseridos. Podemos ler enquanto performance mas antes de tudo são mecanismos de manutenção\atualização permanente destes grupos e comunidades familiares.
O mexicano Gonzáles Rey235 ao discorrer sobre a subjetividade em uma perspectiva
dialética justifica a compreensão da construção de representações simbólicas que formam a subjetividade e associa o dinamismo contextual, com formas de
organizações sociais complexas e variáveis espaços de ação. Propõe uma ruptura com a
234 Em pernambuco chamam Mestres, na amazônia é chamado Encantado, no sudestre é chamado Guia...
cultuados na Encantaria, na Umbanda, na Jurema, no Kardecismo e no Kardebanda... são parentes muito antigos, que ligam-se pela Ancestralidade ao médium que o(a) encorpora.
dicotomia do social e do individual. Para ele a subjetividade nos mostra o potencial concreto capaz de compreender a produção de sentidos a todos os processos e formas de organização da atividade humana, dos processos macrossociais até os microssociais e os individuais.
A subjetividade é um sistema permanentemente em processo, mas com formas de organização que são difíceis de descrever e que, portanto, epistemologicamente, não são acessíveis à descrição. Isso foi certamente expressado pela representação que Freud fez sobre a psique. A subjetividade é da ordem de constituído, mas representa uma forma de constituição que, por sua vez, é permanentemente reconstituída pelas ações dos sujeitos dentro dos diversos cenários sociais em que atuam.236
Ao anunciarmos uma perspectiva crítica de olhar para a corporeidade do negro no Brasil não podemos perder de vista as implicações da dominação e da opressão do Sistema do Capital, CMI – Capitalismo Mundial Integrado.237
Pude observar que Braunstein e Pépin apontam a cultura greco-ocidental como assimiladora perante as quais impôs sua supremacia através da dominação e, sendo assim, é contraditória ao resumir o formato de uma cultura ocidental “pura”, tal qual julga os defensores da filosofia iluminista. Os autores consideram restrito considerar a herança cultural da civilização moderna limitada aos gregos e latinos, uma vez que eles mesmos já haviam sido constituídos por amalgamas de povos de diferentes localidades em África e em proximidades do Oriente Médio. Como enfatizam que eles próprios souberam absorver, fundir e transformar todas as influências vindas dos quatro cantos do Mediterrâneo. Para eles a visão que teremos do nosso corpo, a maneira de nos servirmos dele e de o sentirmos, será consequência desse patrimônio recebido do fundo dos tempos. Neste sentido, o corpo de cada pessoa detém uma parte da memória universal. A sua história no seio de uma cultura torna-se inseparável da história da totalidade dessa cultura. Assim, compreender o que a pessoa sustenta obriga a descodificar o processo cultural no qual ela se construiu.
O corpo pode ser simbolizado como ponto de apoio desse eixo da reflexão que liga, simultaneamente, o passado e o futuro, o profano e o sagrado. É preciso talvez rever também o pressuposto que uma herança extrai necessariamente os seus bens daquilo
236 REY, 2004:123-126 237 OLIVEIRA, 2003: 17.
que precedeu temporalmente. A transmissão nem sempre se efetua de maneira cronologicamente linear.238