Chapitre I La revue de littérature
1.4 Le transfert de connaissances
1.4.4 Culture et transfert de connaissances transnational inter-organisationnel
Compostos espiros, segundo a IUPAC, são aqueles que contém dois ou mais anéis com um átomo em comum, não ligados em ponte. Os espiro heterociclos estão presentes em muitos produtos naturais biologicamente ativos, como por exemplo, a anosqualina (108), a futoenona (109), a interiorina A (110), a stefarina (111), a pronuciferina (112) e a (-)-aculeatina A (113) (Figura 20).131a-e
Figura 20: Alguns exemplos de espirocicloexadienonas biologicamente ativas.
Estes compostos são particularmente atraentes como blocos de construção no desenvolvimento de novos candidatos a fármacos, principalmente por apresentar uma composição atômica bem distribuída no espaço (devido à presença de um carbono sp3 que pode ser quiral ou não) quando comparados a outros sistemas
aromáticos, aumentando as chances de um efeito específico no sítio ligante do receptor avaliado.132 Adicionalmente, compostos espiros são agentes potenciais na
criação de novas bibliotecas de sistemas cíclicos, já que nas últimas décadas esta classe de heterociclos foi pouco explorada na literatura, com poucos relatos destas estruturas investigadas como precursores de fármacos.133,134
Na literatura prodemos encontrar exemplos da síntese de compostos espiro. Por exemplo, em 2005, Curran e colaboradores relataram a síntese de espirocicloexadienonas por meio de uma reação de ciclização de radicais arila.135 Em
compostos espiros, a partir de bis(biaril)acetilenos por meio de uma reação de ciclização eletrofílica promovida por iodo.136 Em 2010, Shklyaev e colaboradores
descreveram a síntese de aza-espiros a partir de uma reação multicomponente entre o trimetóxibenzeno, aldeído isobutílico e cianoacetatos.137 Entretanto, as abordagens
mais gerais utilizam a oxidação fenólica, mediada por iodo hipervalente, como etapa chave para síntese destes heterociclos.138
Em 2014, nosso grupo descreveu uma nova abordagem para para síntese de espirocicloexadienonas halogenadas e não halogenadas, utilizando adutos de MBH como substrato. Trata-se de um método simples e que permite obter uma biblioteca de compostos com uma gama diversificada de padrões de substituição, apenas controlando os substituintes presentes nos adutos. Além disso, todos os átomos do aduto estão incorporados no derivado espiro, o que demonstra alta economia de átomos, um dos critéris essenciais para aa química verde.139
Devido ao número limitado de publicações correlacionando espirociclos como potenciais inibidores da AchE140 e à luz desta nova classe de compostos presentes
em nossa biblioteca, descrevemos neste capítulo os resultados da otimização na rota de síntese e da avaliação de compostos espirocicloexadienônicos como inibidores de acetilcolinesterase. Ensaios in silico de alguns compostos espirocicloexadienônicos no sítio ativo da AchE nos permitiram visualizar uma sobreposição significativa destas estruturas à estrutura da donezepila docada no sítio ativo da enzima. Sendo assim, decidimos avaliar uma gama de compostos espirocilos com diferentes substituintes frente à inibiçao da atividade catalítica da enzima AchE.
4.2 Objetivos
Este capítulo tem por objetivo avaliar o perfil biológico das espirocicloexadienonas frente à inibição da enzima acetilcolinesterase, assim como o estudo cinético para determinação do mecanismo de inibição.
4.3 Resultados e discussão
4.3.1 Síntese das espirocicloexadienonas.
A síntese das espirocicloexadienonas foi realizada de acordo com um protocolo descrito, em nosso grupo, por Martins e colaboradores.141 A rota sintética e
seus rendimentos estão resumidos na Tabela 3. A síntese dos adutos de MBH (70a-
70k) seguiu as condições reacionais descritas por Coelho e colaboradores.142 Estes
adutos foram convertidos em seus respectivos α-aril-β-cetoésteres (114a-114k) por meio de uma reação de Heck, utilizando o catalisador de Nájera, com rendimentos que variaram de bons a excelentes. Por fim, o tratamento dos cetoésteres (114a-
114k) com bis(trifluoroacetato)feniliodeto(III) (PIFA) em uma reação de oxidação
fenólica seguida da ciclização intramolecular, forneceu as espirocicloexadienonas (115a-115k) com rendimentos moderados a bons (51-81%). Vale ressaltar, que a bromação prévia do p-iodofenol antes da reação de Heck permitiu duplicar o rendimento reacional global relatado por Martins e colaboradores.141 Na sequência
descrita previamente por Martins e colaboradores, a etapa de bromação era realizada após a reação de Heck, gerando assim uma mistura de compostos -cetoésteres mono e dibromados em rendimentos moderados. Com antecipação a etapa de bromação no p-iodofenol fomos capazes de obter os espirociclos (115a-115k) em rendimentos globais que variaram de 26 a 59%. Os rendimentos globais para a metodologia descrita anteriormente por Martins e colaboradores variaram de 11 a 35% e rendimento.
Tabela 3: Síntese dos adutos de MBH, ceto-ésteres e espirocicloexadienonas com
seus respectivos rendimentos
Entrada R Adutos
de MBH (%)a
-cetoesteres (%)a Espirocicloexadienon
as (%)a
1 C6H5 70a, 90 114a, X = H, 88 115a, X = H, 75
2 4-CH3O-C6H4 70b, 69 114b, X = H, 70 115b, X = H, 69
4 3,4,5-(CH3O)3-C6H2 70d, 75 114d, X = H, 65 115d, X = H, 70
5 3,4-(CH2OCH2)-C6H3 70e, 70 114e, X = H, 70 115e, X = H, 78
6 2-C4H3S 70f, 95 114f, X = H, 93 115f, X = H, 54
7 C9H19 70g, 90 114g, X = H, 73 115g, X = H, 73
8 C6H5 70h, 90 114h, X = Br, 82 115h, X = Br, 81
9 4-CH3O-C6H4 70i, 69 114i, X = Br, 73 115i, X = Br, 38
10 3,4-(CH2OCH2)-C6H3 70j, 70 114j, X = Br, 65 115j, X = Br, 70
11 3,4,5-(CH3O)3-C6H2 70k, 75 114k, X = Br, 67 115k, H = Br, 51
(a) Rendimentos referentes aos produtos isolados. Reagentes and conditções reacionais a) 4-Iodofenol ou 2-Bromo-4-iodofenol, Et3N, catalisador de Nájera, DMF, 110 oC, 3 h; b) PIFA, CH3CN (anidro), -10 oC, N2, 10-15 min.
A formação dos espirociclos teve sua confirmação estrutural realizada por meio de análises de espectros de RMN de 1H, 13C e espectrometria de massas. Nos
espectros de RMN de 1H observamos o aparecimento de um singleto integrando para
dois hidrogênios na região de δH = 3,22 ppm, sinal esse característico aos hidrogênios
metilênicos (Figura 22). Adicionalmente, adotando composto 115e como modelo, após etapa de ciclização há o desaparecimento dos sinais referentes ao hidrogêno alfa-carbonila (tripleto) e os dois hidrogênios benzílicos (dubleto de dubletos) nas regiões de δH = 4,5 e 3,23 ppm respectivamente, ademais, os sinals correspondentes
grupo piperonil do aduto podem ser observados entre δH = 6,70 e 7,6 ppm (Figura
21).
Figura 21: Espectro de RMN de 1H para a substância 114e (400 MHz, CDCl 3).
Figura 22: Espectro de RMN de 1H para a substância 115e.
4.3.2 Atividade in vitro na inibição da AchE
O efeito das espirocicloexadienonas (115a-115k) na atividade da acetilcolinesterase foi validado utilizando-se o método de Ellman (Esquema 31).143 O
método se baseia no acompanhamento da reação de hidrólise da acetiltiocolina (ATC) (116) e formação do ácido 5-tio-2-nitrobenzóico (121) por espectrofotometria UV-Vis a 415 nm. Este composto é originado da reação entre a tiocolina (117) e 5,5-ditio-bis- ácido-2-nitrobenzóico (119) (DNTB)
Esquema 31: Hidrólise da acetiltiocolina pelo método de Ellman.
A donezepila (a 20 nM) foi utilizada como controle positivo. Os experimentos realizados em 3 replicatas e o percentual de inibição determinado. Os compostos
115a, 115g e 115k apresentaram percentual de inibição para AchE de até 80%. Por
outro lado, os compostos 115h, 115i e 115j não demonstraram efeito inibitório na máxima concentração testada (100 uM). Os valores de IC50 para os compostos 115a-
115k foram calculados utilizando-se o software GranphPad Prisma (San Diego,
California, USA). A Tabela 4 mostra as concentrações obtidas.
Tabela 4: Inibição in vitro da AchE pelas espirocicloexadienonas e seus valores de
IC50 correspondentes (analisar Figura 3 para mais detalhes).
Compostos R X IC50 SD (M)*
115b 4-CH3O-C6H4 H 1.12 0.009
115c 4-O2N-C6H4 H 3.31 0.027
115d 3,4,5-(CH3O)3-C6H2 H 0.24 0.002
115e 3,4-(OCH2O)-C6H3 H 0.12 0.002
115f 2-C4H4S H 0.48 0.004 115g C9H19 H 9.25 0.075 115h C6H5 Br - 115i 4-CH3O-C6H4 Br - 115j 3,4-(OCH2O)-C6H3 Br - 115k 3,4,5-(CH3O)3-C6H2 Br 12.67 0.1030 Donepezila - 0.003
*Valores correspondentes a média o desvio padrão para os experimentos em replicata. (-) Não determinado.
De acordo com os dados da Tabela 4, grande parte dos compostos testados foram efetivos, com valores de IC50 variando de 0,12 a 12,67 uM. Estes resultados
sugerem que a presença do anel aromático como substituinte na posição alfa ao enol- éter é importante para o efeito de inibição, uma vez que o composto 115g foi menos efetivo ao compararmos com os espirociclos não bromados 115a-115f. Já a presença de um átomo de bromo na posição alfa carboxila (115h, 115i, 115j e 115k) resultou na perda total ou redução considerável da atividade inibitória. Para os compostos não bromados, com grupos aromáticos como substituintes, aqueles que apresentam grupos doadores de densidade eletrônica parecem contribuir para o aumento da atividade inibitória, como observado para os compostos 115d (IC50 0,24 uM) e 115e,
o mais potente, com IC50 de 0,12uM.
4.3.3 Estudos cinéticos para espirocicloexadienona 115e
De posse de resultados promissores para os testes de inibição enzimática, decidimos explorar o perfil cinético dessa classe de compostos. Escolhemos a espirocicloexadienona 115e como inibidor modelo, conduzimos um estudo cinético para avaliar o efeito da concentração do substrato em variadas concentrações de
dados. Um modelo matemático que correlaciona a taxa de formação do produto [P] com a concentração do substrato [S] de acordo com a Equação 2.
𝑣 =𝑑[𝑃] 𝑑𝑡 =
𝑉𝑚𝑎𝑥. [𝑆] 𝐾𝑚 + [𝑆]
Equação 2: Modelo matemático de cinética enzimática de Michaelis-Menten
O modelo assume que o substrato se liga a enzima formando um complexo enzima-substrato com rápido equilíbrio com a enzima, e então o produto é liberado.144
O parâmetro KM (constante de Michaelis) (Figura 23) fornece informações acerca da
afinidade enzima substrato. Valores baixos para a constante indicam alta afinidade da enzima pelo substrato, enquanto valores altos indicam pouca afinidade catalítica. A velocidade de reação é diretamente proporcional a concentração da enzima em todas as concentrações do substrato, ou seja, se a enzima tem sua concentração diminuída pela metade, o valor da velocidade da reação inicial assim como o Vmax são
reduzidos também pela metade.
Figura 23: Curva de saturação enzimática de Michaelis-Menten.
É interessante denotar, que em baixas concentrações do substrato a equação de Michaelis-Menten fornece uma curva linear, porém a medida que se aumenta a
concentração a curva toma forma hiperbólica. Por consequência, adotamos a metodologia da linearização da equação de Michaelis-Menten145 através do método
de Lineweaver-Burk.146 O plot gráfico da sua equação, ou representação de duplo
recíproco, se tornou uma forma recorrente na literatura para expressar os dados de cinética enzimática.
O método também é dirigido através dos dados da hidrólise da ATC, onde é analisado o efeito da concentração do composto mais ativo 115e em diferentes concentrações com relação a atividade catalítica enzimática.
Com o aumento da concentração do substrato, os sítios catalíticos da enzima são saturados e a velocidade de reação chega ao valor máximo. A equação de Michaelis-Menten expressa esse comportamento através de uma hipérbole, relacionando a taxa de formação do produto com a concentração do substrato. Sendo assim, utilizou-se a linearização da equação de Michaelis-Menten através do método de Lineweaver-Burk (Equação 3). 1 𝑉𝑚𝑎𝑥 = ( 𝐾𝑚 𝑉𝑚𝑎𝑥) . 1 [𝑆]. 1 𝑉𝑚𝑎𝑥
Equação 3: Equação de Lineweaver-Burk.
A constante de Michaelis-Mentem (Km) e a velocidade máxima (Vmax) podem
ser determinadas através do consumo do substrato pela AchE utilizando a Equação
3, onde o inverso da velocidade de reação (1/V) é plotado contra o inverso da
concentração do substrado (1/[S]). A curva então obtida para atividade da enzima AchE na ausência e presença de 5 diferentes concentrações do composto 115e está ilustrada na Figura 24.
Figura 24: Gráfico de Lineweaver-Burk para atividade enzimática da AchE (1/V
versus 1/[S]) em uma gama de concentrações do substrato (0,01 a 0,075 nM) para o composto 70e (0 a 0,1 uM).
Como pode-se observar (Figura 24), a interceptação do eixo x ocorre em diferentes pontos, correspondendo assim a diferentes valores para a constante de Michaelis (KM). Também é observado que ao passo em que as concentrações do
substrato inibidor aumentam, os valores de 1/V também aumentam. Portanto, o composto 115e age como um inibidor misto na enzima, já que temos variações nos valores para a constante de Michaelis e de 1/V. Abaixo, ilustramos o mecanismo de ação para inibidores mistos.
Figura 25: Representação do mecanismo de interação entre o inibidor misto 115e
com a enzima AchE.
4.3.4 Docking molecular147
Para entendermos o perfil de interação do composto mais ativo com a acetilcolinesterase, estudos de docking molecular foram realizados utilizando o software AutoDock Vina com a estrutura cristalina da AchE da Torpedo California e seu complexo com a donezepila obtidos do banco de dados PDB (1EVE). Primeiramente, o docking da donezepila na estrutura cristalográfica da AchE foi revalidado no intuito de relativizar nossos estudos (Figura 26A). A donezepila ocupa ambos os sítios da AchE (Figura 26B): O grupo benzil interage com o resíduo Trp84 (no sítio ativo catalítico), enquanto os grupos metoxil interagem através de ligações de hidrogênio com o resíduo Trp279 na área periférica do sítio ativo.148
Figura 26: (A) Representação do ligante: donezepila no sítio ativo (verde) e estrutura
cristalina da donezepila (amarelo); (B) Donezepila no sítio ativo da AchE.
As espirocicloexadienonas 115a-70k foram então docadas no sítio ativo da enzima e suas afinidades de ligação foram resumidas na Tabela 4.
Tabela 4: Resultados do docking molecular das espirocicloexadienonas 115a-115k no sítio ativo da AchE (PDB:1EVE).
Compostos Afinidade de ligação (kcal/mol) Donepezila -10.9 115a -9.7 115b -9.7 115c -10.2 115d -9.8 115e -10.5 115f -9.1 115g -8.9 115h -9.1 115i -9.8 115j -10.3 115k -9.8
Figura 27: (A) Modo de ligação do composto 115e no sítio ativo da AchE. (B)
Comparação entre a donezepila (verde) e o composto 115e no sítio ativo da AchE.
O modo de ligação do espiro (115e) é mostrado na Figura 27A, além da interação com o resíduo Trp84, que é parte do sítio catalítico da enzima, há também outras importantes interações (Figura 27A), o átomo de oxigênio do sistema cíclico de 5 membros da espiro age como aceptor de ligação de hidrogênio com o resíduo Tyr121. Outra ligação de hidrogênio envolvendo a porção éster do composto com o resíduo Tyr334 também é observada, e também existe uma interação adicional entre o grupo benzodioxol com o resíduo Gly118. Estes resíduos são parte característica da linha de resíduos aromáticos do sítio ativo da enzima. De acordo com a literatura, estes resíduos estabilizam o estado de transição na hidrólise da acetilcolina,149
enzimática. Em uma comparação com o docking da donezepila (Figura 27B) pode- se notar uma sobreposição parcial entre o espirociclo e o fármaco, os grupos N-benzil da donezepila e benzodioxol do composto (115e) interagem com a Trp84, entretanto apenas a donezepila interage com Trp279. Estas observações sugerem que os espirociclos podem ser novos candidatos à outras interações no sítio ativo, e a diversificação estrutural deve auxiliar em descobrir o quão significativas vão ser as respostas na atividade enzimática devido à estas interações.
4.4 Conclusões e perspectivas.
Este capítulo apresentou o primeiro estudo envolvendo a aplicação biológica de espirocicloexadienonas na inibição da acetilcolinesterase. Os ensaios validaram o efeito destes compostos modulando a atividade da enzima, que é um importante alvo terapêutico no tratamento do mal de Alzheimer.
Foram encontrados 6 compostos (hits) que inibem a AchE com IC50 variando
entre 0,12 e 12,67 uM. Os estudos de docking molecular e cinético indicaram que o composto 115e é um inibidor misto, mostrando interações em resíduos de aminoácidos presentes no sítio ativo e na parte periférica ao sítio catalítico enzimático. Tendo identificado estes novos análogos (hits), futuros estudos focando a descoberta de novos análogos mais potentes podem ser realizados através de ferramentas de química medicinal. Os resultados referentes ao estudo descrito neste capítulo já foram submetidos à publicação. Adicionalmente, a confirmação estrutural de um dos compostos dessa classe foi determinada por difração de raio-X e os resultados foram publicados no período Acta Crystallographica, em 2015.150
CAPÍTULO IV
5. Uso de compostos 1,3-dicarbonilados na síntese de ciclopenta[b]indóis e avaliação da atividade anti-tumoral desses heterociclos contra o câncer de mama triplo negativo.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a expectativa de vida da população tem aumentado consideravelmente, ultrapassando a faixa etária dos 70 anos de idade.151 Concomitante a isto, doenças como os distúrbios
neurodegenerativos e cardiovasculares, a diabetes e o câncer apresentam-se cada vez mais frequentes, despertando incessantes preocupações no âmbito mundial quanto à prevenção e ao tratamento.152 Dentre estas, o câncer destaca-se por
ocasionar elevado número de mortes, podendo alcançar 17,0 milhões de óbitos/ano, até o final de 2030.151 Por conseguinte, um dos principais desafios da ciência atual
está focado em estudos que permitam a compreensão molecular dos mecanismos que induzem o câncer153 e no desenvolvimento e/ou descoberta de novas substâncias
que apresentem propriedades quimioterápicas que erradiquem ou que impeçam a proliferação desta enfermidade (Figura 28).154,155
Figura 28: O câncer no mundo e as estatísticas gerais dessa doença.156
O câncer caracteriza-se pela multiplicação desordenada de células anormais, capazes de invadir outras estruturas no organismo e iniciar um processo denominado de metástase.154,155,157,158,159 Quando o tumor se apresenta como um foco inicial de
proliferação anormal ou de neoplasia, ele é tratável e com bom prognóstico de cura (Figura 29– A e B). No entanto, a detecção do foco cancerígeno ainda nesta etapa nem sempre é possível, sendo detectado posteriormente após início do processo de metástase. Quando este se inicia, o tratamento e cura apresentam maiores dificuldades. Nesta etapa, as células anormais, que antes se nutriam apenas por
difusão do líquido intersticial, passam a serem vascularizadas, adquirindo a capacidade de invadir as lâminas basais, de adentrar à corrente sanguínea ou linfática (Figura 29 – C, D e E) e, posteriormente, de alcançar outros tecidos do corpo criando novos focos metastásicos e se difundindo por todo o organismo (Figura 29– H).157
Figura 29: Representação de um processo de metástase: A Foco de célula
neoplásicas; B Multiplicação de células neoplásicas nutridas por difusão do líquido intersticial; C Início da vascularização; D Invasão da lâmina basal pelas células anormais; E Entrada na corrente sanguínea ou linfática; F e G Fixação; H Invasão a outros tecidos do corpo. (Adaptado)157
Quanto a sua origem, ainda há muitos fatos a serem explanados, principalmente os relacionados com as diferentes classes de genes responsáveis pela regulação do crescimento e proliferação celular que, em condições normais, regulam e orientam as diferentes etapas do ciclo de crescimento, de proliferação e de morte celular. Por conseguinte, os genes supressores de tumor atuam inibindo o crescimento e a proliferação celular, enquanto que os proto-oncogenes estimulam a multiplicação desordenada de células, característica de um foco tumoral. Ainda, há os genes que regulam e condicionam a apoptose e a mobilidade celular. Assim, estas diferentes classes de genes, quando expostos à alguma anormalidade, podem se tornar potenciais precursores de um foco tumoral.160,161,162
O câncer é um problema de saúde pública mundial e requer opções de tratamento que vão desde procedimentos mais invasivos, como a cirurgia e a irradiação, até o uso de fármacos antitumorais.163,164 Assim, a quimioterapia
apresenta-se como uma alternativa bastante promissora ao tratamento e à cura do câncer, com uma vasta opção de quimioterásinals específicos (e não específicos) aos diferentes tipos de linhagens tumorais atuantes nas diversas fases do ciclo celular.
No entanto, apesar da reconhecida eficácia, os tratamentos com os quimioterásinals mais modernos também incluem lesões e morte às células sadias (devido aos seus mecanismos de ação de inibição de etapas do ciclo celular) o que nos remete, mais ainda, a busca pelo quimioterásinal ideal, que aja com baixas dosagens da droga, apresente elevada especificidade ao foco de ataque e com baixos ou nenhum efeito colateral para o paciente.155,165
Os quimioterásinals atualmente estão classificados de acordo com a sua atuação no ciclo celular, 155,166 podendo ser:
Ciclo-inespecíficos: os que atuam nas células que estão no ciclo proliferativo ou em repouso na fase G0 (exemplo: mostardas nitrogenadas);
Ciclo-específicos: os que atuam somente nas células que se encontram em proliferação (exemplo: ciclofosfamida);
Fase-específicos: os que atuam em determinadas fases do ciclo celular, como o metotrexato (fase S), o etoposídeo (fase G2), a vincristina (fase M) e a colchicina (fase M).167
Além disso, há também outro nível de classificação que remete ao mecanismo de ação de cada quimioterásinal, dos quais podemos citar (Figura 30): os agentes
alquilantes (ex. mostardas nitrogenadas, compostos que atuam impedindo a
separação dos dois filamentos do DNA na dupla hélice); os agentes antimetabólicos (ex. fluorouracila; compostos que afetam as células inibindo a biossíntese dos componentes essenciais do DNA e do RNA, impedindo a multiplicação e as funções normais da célula); e os inibidores mitóticos (ex. colchicina, paclitaxel, alcalóides da vinca rósea – vincristina, vimblastina –, compostos que atuam na formação da tubulina, proteína fundamental à formação dos microtúbulos, que estão associados, entre outras coisas, à divisão celular).155,168,169,170
Figura 30: Agentes antitumorais alquilantes, antimetabólicos e inibidores mitóticos no
tratamento do câncer.
Dentre os quimioterásinals fase-específicos, os inibidores mitóticos são os que apresentam o melhor prognóstico para melhora no perfil antitumoral. Estes compostos atuam paralisando a mitose na fase de metáfase (fase M),171,172,173,174 devido as suas
ações na tubulina (proteína formadora dos microtúbulos).175,176,177,178,179 Estes
microtúbulos constituem-se de polímeros longos formados basicamente de -tubulina e -tubulina, o que lhe confere o tamanho e a rigidez necessários para guiar o ciclo celular. Assim, a associação destes quimioterásinals as tubulinas influenciam diretamente na formação dos microtúbulos (Figura 31), afetando diretamente o seu papel no ciclo celular. Devido a isto, durante o ciclo, os cromossomos têm sua migração impedida, o que ocasiona a interrupção da divisão celular e, consequentemente, proliferação celular (Figura 32).163,180,181,182,183,184,185
Figura 31: Quimioterásinals antimitóticos (vimblastina, colchicina e paclitaxel)
ligando-se aos microtúbulos em regiões diversas. a) Vimblastina, b) colchicina e c) paclitaxel e suas associações às tubulinas constituintes dos microtúbulos. (Adaptado de Jordan e Wilson, 2004).183,186
Figura 32: Células de osteossarcoma humano (U2OS) em diferentes fases do ciclo
celular com e sem adição de fármacos antimitóticos. Os microtúbulos são mostrados em vermelho, os cromossomos em azul e os cinetocoros em verde. a) Na ausência de inibidores mitóticos, ocorre total migração dos cromossomos até o equador e formam a placa metafásica; em seguida, b) na anáfase, os cromossomos duplicados se separam e migram em direção aos pólos do fuso para formar duas células filhas (c). d) Na presença de Paclitaxel (10 nM); (e) Vinflunina (50 nM) – um alcaloide da vinca –, os cromossomos não migram totalmente ao equador para formação da placa metafásica, interferindo diretamente no bom funcionamento do ciclo celular e, assim, a célula tumoral não se prolifera. (Adaptado de Jordan e Wilson, 2004).183
A colchicina (122, Figura 33) é um quimioterásinal bastante potente, mas o seu uso no tratamento do câncer é limitado devido a sua elevada toxicidade. Esta substância é um alcaloide isolado de plantas do gênero Colchicum,187 e atualmente,