São Paulo que gosta de apreciar uma festa typica, a capricho, aqui realizada pelos seus antepassados, - seus irmãos de sangue – por certo irá nas noites de 23, 24 e 25 do andante ao campo da Portugueza de Esportes, junto ao Monumento, festejar São João com disposição e animo forte. E não se arrependerão. (A PORTUGUEZA..., 1933, p. 9)
A ideia de uma ligação especial entre brasileiros e portugueses, do ponto de vista histórico, cultural e mesmo espiritual, era um expediente comum tanto para as associações como para os grandes jornais. Em nossa perspectiva, a ideia de luso-brasilidade possui uma dupla dimensão. Em seu sentido mais delimitado trata-se, como veremos adiante, de uma ideia intelectualmente elaborada e propagada com particular intensidade a partir dos anos 1930, cuja articulação se deu principalmente em torno da noção de luso-tropicalismo de Gilberto Freyre49. Em outro sentido, de ordem mais processual e fluida, podemos entender a luso-brasilidade como a enunciação de uma identidade que se constrói hifenizando-se (Lesser, 2001, 2015) e que, ao mesmo tempo que busca se fixar enunciativamente, transita de acordo com as diferentes exigências da vida cotidiana. Nesse segundo sentido, a primeira concepção de luso-brasilidade, elaborada pelos intelectuais portugueses e brasileiros, presentes nos textos jornalísticos e na pompa da oratória dos clubes, não é senão um dentre outros substratos que compõem o terreno onde ocorrem as práticas ligadas às dinâmicas identitárias da colônia.
49 A adesão política do Estado Novo português à formulação de Freyre, ainda que sem mencioná-la
diretamente, viria a se realizar apenas nos anos 1950. O pensamento do autor, contudo, já se encontrava em circulação nos meios intelectuais brasileiros e lusitanos desde as suas primeiras publicações sobre o tema (CASTELO, 1998).
Lesser destaca, nesse caminho, que os imigrantes e seus descendentes abraçavam tanto a imagem de uma nacionalidade brasileira como aspectos de sua etnicidade pós- imigratória, utilizando-se de “símbolos nacionais múltiplos, mutáveis e muitas vezes contraditórios (2015, p. 23). Dialogavam, de certo, com uma formulação mais ou menos estável e coesa de luso-brasilidade, mas adequavam-na às suas necessidades concretas e simbólicas do dia a dia, reformulando tática e dinamicamente as bases de sua própria identidade. Monteiro (1987, 1994) afirma algo semelhante em sua análise dos luso- americanos em Danbury, Connecticut, nos Estados Unidos. Embora a problemática da luso-brasilidade seja dotada de uma particular especificidade, as reflexões do autor são proveitosas a nós no sentido de reforçar a ideia de que não é possível ler a identidade imigrante a partir de uma chave rígida, apriorística.
Para Monteiro, cada imigrante adota uma estratégia particular na sociedade onde se instala. Alguns integram-se, apagando traços de sua origem, e outros manobram sua etnicidade como outra forma de integração ou mesmo de resistência. Sua situação é ambivalente: estão entre dois mundos, entre duas culturas, entre dois Estados. Por um lado, podem escapar de ambos. Por outro, podem não sentirem-se pertencentes a nenhum. De qualquer modo, essa situação não é dipolar, e envolve também interlocuções regionais em ambos os espaços. Assim, não haveria uma identidade hifenizada absolutamente coesa, senão nas formulações teóricas, literárias ou nos discursos oficiais do Estado português. Entretanto, isso não significa dizer, em nosso caso, que os sujeitos imigrantes não recorressem também ao imaginário nacional de Portugal, adotando para si valores e crenças difundidos pelos intelectuais, pela imprensa imigrante e pelos consulados no Brasil. Embora não seja possível estabelecer um automatismo determinante entre as proposições discursivas de uma luso-brasilidade e a vida efetiva dos imigrantes, isso não as torna menos importantes ou menos impactantes dentro da realidade em que vivem.
Sendo nossas fontes principais compostas por excertos de jornais, não nos propomos aqui a esgotar qualquer debate no sentido de delimitar rigidamente como se identificava o luso-brasileiro em São Paulo. Entendemos, na linha dos autores citados, que essa identidade era dinâmica, e portanto visamos aqui analisar alguns elementos com os quais ela dialogava, a partir de enunciados vindos das associações – por seus discursos e atividades – e das proposições próprias presentes nos textos que as abordavam nos jornais de grande circulação. Analisemos, para iniciar a discussão, o tema de uma solenidade nos primórdios do Portugal Clube, por ocasião da visita do cônsul de Portugal em São Paulo, Sr. José Augusto de Magalhães:
A seguir, foi servido um magnifico “lunch”, tendo brindado o sr. Consul de Portugal os srs. Germano Martins, Paulo Abrantes e dr. Azambuja, todos em volta do mesmo thema, ou seja, da necessidade de uma forte confraternização entre todos os membros da grande família luso-brasileira. (PORTUGAL..., 1922b, p. 4)
A ideia de uma família luso-brasileira, de uma relação de parentesco entre dois povos ou países, aparecia desde antes da formulação do luso-tropicalismo freyreano nos anos 1930 e 1940. Como destaca Mendes (2011) na interpretação das mudanças jurídicas em relação ao imigrante português em vários períodos no Brasil, a retórica dos “laços de sangue” entre portugueses e brasileiros já estava presente em diversos discursos desde o século XIX, sendo apropriada e renovada no início do século XX por intelectuais e diplomatas. Especificamente nos anos 1920, há o surgimento de diversos autores que defendiam a luso-brasilidade e o reforço dos laços da comunidade luso-brasileira, pensamentos que encontrariam lugar privilegiado de expressão notadamente durante a coexistência do Estado Novo no Brasil e em Portugal (SANTOS, 2010). A afirmação desses laços, vinculados ao passado colonial, à cultura, à religião e, principalmente, à língua portuguesa, encontrava espaço nas programações das associações portuguesas de São Paulo e em suas reverberações na imprensa. Revisitemos um trecho de reportagem de 1930, na qual o jornalista do Correio Paulistano descreve suas impressões acerca de uma solenidade do Clube Português, para a inauguração do busto de Camões, que contou com a presença do ilustre português Nuno Simões:
Era o pulsar do coração lusitano, acolhedor, grande, generoso. Era, para sermos mais fieis, o pulsar do nosso proprio coração, pois, podemos dizer, que as expressões "portuguezes" e "brasileiros" são synonimas, dizem a mesma cousa: uma grande raça que fala a mesma lingua "em que Camões, no exílio amargo, chorou o amor sem brilho e o genio sem ventura...” (SENTINDO..., 1930, p. 4)
Encarar portugueses e brasileiros como expressões sinônimas, partes de uma mesma civilização, era um dos pilares do pensamento luso-tropicalista de Gilberto Freyre. Nas primeiras obras em que trabalha o tema, Casa Grande & Senzala, de 1933, e mais amplamente em O Mundo que o Português Criou, de 1940, Freyre constrói uma imagem essencialista do povo português. Em decorrência de sua situação indefinida entre Europa e África, bem como do convívio dos ibéricos com mouros e judeus ao longo de séculos, o luso seria historicamente predisposto à mestiçagem, à mobilidade geográfica, à adaptabilidade climática e à maleabilidade cultural. Essas características estariam
presentes também nos brasileiros e nas demais colônias portuguesas, estruturando um “mundo” dotado de unidade de sentimentos e de cultura.
Como era de se esperar e, dado o teor essencialista do pensamento de Gilberto Freyre, não observamos em nossas fontes uma adesão permanente dos clubes e associações ao discurso de uma luso-brasilidade unitária, que tornasse “sinônimos” a condição brasileira e portuguesa. O que é possível notar, e isso se expressa em múltiplas ocasiões nas páginas dos jornais – como já afirmado, com fronteiras pouco nítidas entre o que é narrativa da imprensa e narrativa das próprias associações –, é o recurso discursivo a esse imaginário pelos jornalistas ou pelos expoentes da comunidade lusa. Essa aproximação intensa entre Brasil e Portugal parecia cumprir determinadas funções nas falas ali presentes, tais quais legitimar determinada empreitada associativa, reiterar a condição não perigosa do português como imigrante ou mesmo reforçar determinados laços políticos construídos localmente. No caso da Casa de Portugal, já em seus momentos inaugurais, era possível vislumbrar nas falas do Dr. Rebelo Gonçalves – um dos membros da comissão organizadora da instituição – a ideia de uma ligação fraterna e étnica entre portugueses e brasileiros, povos de uma mesma raça50.
Queira frisar no seu jornal que a "Casa de Portugal", vae ser absolutamente lusitana na organização, na vida interna e na direcção, como importa aos seus principios e á sua finalidade essencial, há de mostrar-se, todavia, bem luso- brasileira em tudo aquillo a que obriguem os laços historicos, as affinidades ethnicas e a hospitalidade que nos concede São Paulo, confirmando assim, em varios sentidos o titulo formoso que já lhe deu um paulista illustre - o qualificativo de "Solar da Raça". ("A CASA..., 1935, p. 1)
No Clube Português, em solenidade para celebrar o 27º aniversário da República em Portugal, a fala do jurista e jornalista brasileiro Ibrahim Nobre ecoa, ainda de maneira mais explícita, o imaginário de que brasileiros e portugueses compartilhem do mesmo coração. Muito do tom presente em suas palavras e destacado pelo Correio Paulistano deriva das experiências de solidariedade que Nobre, constitucionalista paulistano51,
50 A palavra raça é polissêmica e pode ser entendida de diferentes formas de acordo o momento histórico e
com o interlocutor que a utiliza. Nos discursos que estudamos aqui, o uso da palavra raça para destacar as semelhanças entre brasileiros e portugueses aproxima-se mais da cultura e da história do que de um componente genético demarcador de superioridade ou inferioridade. Lembremos que, mesmo nos debates do movimento higienista brasileiro do período, era predominante a visão de “raça” enquanto algo que poderia ser melhorado por intervenções de educação, saúde e cultura, não se tratando, ao contrário de outras tradições do campo, de demarcar diferenças entre brancos e negros, por exemplo (GÓIS JUNIOR, 2003).
51 Ibrahim de Almeida Nobre (1888 – 1970) foi escritor, jurista e jornalista. Foi um importante personagem
do movimento constitucionalista, tendo sido preso por Vargas e posteriormente exilado em Portugal, de onde só retornou em 1934.
vivenciou durante seu período de exilado em Portugal, em 1932. O orador estabelece uma ponte simbólica entre os portugueses em Portugal, os imigrantes lusos em São Paulo, o ideário da fraternidade luso-brasilidade e a causa constitucional encabeçada pelo estado de São Paulo.
Falou, a seguir, eloquentemente, o dr. Ibrahim Nobre, que se demorou na analyse dos liames que nos ligam á patria de origem. Teve o orador uma phrase feliz: "Não me é difficil falar de Portugal; basta escutar meu coração de brasileiro." Conta ao auditorio o que viu em Portugal após o exilio de 1932. Palmilhou todo o seu territorio, encontrando, em cada canto, um sorriso de amizade e conforto. (O 27º..., 1937, p.2)
A ideia de que as associações e clubes dos imigrantes portugueses promoviam o bem geral da população local, englobando tanto os lusos como os brasileiros, aparece também em diversos excertos fazendo referências às atividades das várias instituições citadas nesta pesquisa. Em texto d’A Gazeta, que exaltava a chegada de Enio Juvenal Alves à presidência da Portuguesa de Esportes, o movimento discursivo de vai-e-vem entre os “povos irmãos” promove, desde a estrutura do texto, a mistura dos dois elementos, sugerindo uma proximidade quase indistinguível entre eles.
A energia moça, napoleonica por assim dizer de s. s., muito tem feito já pela symphatica phalange cujo nome lembra a gente lusitana, nossos irmãos pelo sangue, nossos leaes amigos nos campos esportivos. Si bem que a Portugueza, de S. Paulo, tenha em seu seio genuinos brasileiros. São, na maioria, filhos destas plagas tropicaes.
[...]
É assim que a modesta phalange lusitana comprehende o progresso. Eleva-se e põe em destaque acentuado o esporte na terra dos bandeirantes. (MUITO..., 1930, p. 10)
Mais do que “irmãos pelo sangue” e “leaes amigos nos campos esportivos”, os portugueses de São Paulo, por meio de suas práticas associativas, eram colocados também como agentes de um importante intercâmbio cultural e intelectual, destinado a trazer progresso e orgulho à cidade e, em última análise, ao Brasil. Fosse elevando e dando destaque ao esporte paulistano, ou figurando como importante polo de debates da alta cultura, as instituições recebiam um tratamento majoritariamente elogioso na imprensa, sem suspeições de enquistamento ou de prejuízo aos interesses nacionais. Os clubes e associações portuguesas, portanto, eram também espaços que interessariam aos brasileiros.
3.2 “Foram ouvidos os hymnos dos dois paizes irmãos”
Isto, dentro de uma directriz e de um programma que não é somente o promover as elegantes noitadas que tem oferecido aos seus associados e ás mais altas camadas sociaes de São Paulo. Patrocinar iniciativas patrióticas e caritativas, trabalhar em pról de um nacionalismo inteligente e são, bem como difundir as cousas portuguesas no Brasil constituem as suas máximas cogitações. Fazendo realizar em seus salões festivaes dansantes com trajes regionais portuguezes, recitaes de arte luzitana, e, mais, procurando tornar maiores os laços fraternaes de amisade entre os portugueses e brasileiros de São Paulo, esse club desenvolve producente actividade. Este tem sido o caminho realizador trilhado pela elegante associação desde a sua fundação. (CLUB..., 1929, p. 4)
Há diversos aspectos que são levantados pela imprensa a respeito das práticas realizadas pelas associações lusas. O sentido de uma fraternidade luso-brasileira como parte do programa das instituições aparece já nos anos 1920, e se intensifica no decorrer da década seguinte. No excerto acima, por exemplo, são destacadas as diretrizes que, para além da oferta de divertimentos, compõem o programa do Clube Português: patrocinar iniciativas patrióticas e de caridade, trabalhar por um nacionalismo inteligente e são, difundir a cultura portuguesa no Brasil e, por fim, reforçar os laços fraternais de amizade entre os lusos e os brasileiros de São Paulo. A elegante associação, além disso, oferecia suas atividades não só aos associados, mas também “ás mais altas camadas sociaes de São Paulo”, o que reforçava seu prestígio e sua função distintiva, útil aos imigrantes e às elites locais. De característica declaradamente luso-brasileira, portanto, tal qual o Portugal Clube que, já em 1926, tinha descrito como elemento central de seu programa “o entrelaçamento de portugueses e brasileiros” (PORTUGAL-CLUB, 1926, p. 4).
Por ocasião da visita do embaixador Martinho Nobre de Mello a São Paulo, em 1933, o Correio de S. Paulo publica uma página especial em homenagem à comunidade portuguesa na capital, ressaltando logo de início as figuras representativas da colônia e suas principais associações “como elementos primordiaes que são do estreitamento das relações entre a nossa patria e a patria portuguesa” (A AMIZADE..., 1933, p. 3). No trecho em que é abordado o Clube Português, o teor de outras publicações se repete:
O Clube Portuguez, adquiriu em São Paulo, a justificada fama de centro de arte e de cultura.
Effectivamente, ha razões de sobra para o considerarem assim. O trabalho educativo dessa instituição, com os seus movimentos nitidamente culturaes e artísticos, tem influido sobremaneira, no estreitamento das relações existentes entre os portuguezes e de certo modo, até entre os brasileiros.
É nos seus salões que os filhos dos dois povos se reunem para trocas as suas manifestações de affecto e principalmente, para melhor aprender a amar a sua
patria, porque o Clube Portuguez, sobre ser um grande centro de estudos servido por uma das mais ricas bibliothecas da capital, é também um grande de centro de civismo onde se cultua o amor a Portugal e ao Brasil. (Ibid.)
Continua o jornalista, escrevendo em seguida sobre o vizinho Portugal Clube:
Por esse motivo, só temos em vista os fins patrioticos do Portugal Clube, onde a alta sociedade paulista, de permeio com os elementos da colonia portugueza, tem mantido a mais perfeita communhão de ideas, na elevação do nome de Portugal e das cousas portuguezas.
Nem outra poderia ser a finalidade de uma instituição aristocratica, por onde têm passado as mais brilhantes figuras de Portugal e do Brasil. (Ibid.)
O Clube Português, centro de arte e cultura, realizaria um trabalho educativo e de estreitamento entre os portugueses da colônia e também deles em relação aos brasileiros. Além disso, se configuraria como um grande centro de civismo, local onde se cultivaria o amor a Portugal e ao Brasil. O Portugal, por sua vez, aristocrática instituição que eleva, na comunhão de ideias entre portugueses e brasileiros, o nome de Portugal e as coisas portuguesas em São Paulo. Ambos os clubes são descritos como ambientes por onde circulam e entram em comunhão os dois povos, representados por brilhantes figuras. Destaca-se, assim, a representação de um intercâmbio luso-brasileiro baseado na troca de conhecimentos, na difusão cultural e artística, no oferecimento de atividades prestigiosas e distintivas que produziriam bons frutos para a colônia e para a cidade.
Evidente que, na menção das virtudes luso-brasileiras dos dois clubes vizinhos, pouco se falava de suas atividades esportivas devido às suas características predominantemente artísticas, culturais e recreativas. Não se vê, ao menos de maneira direta, a associação entre as competições de suas equipes de esgrima e o debate da fraternidade entre lusos e brasileiros. Entretanto, ao olharmos para os excertos da grande imprensa em relação à Associação Portuguesa de Desportos, cujo caráter era eminentemente esportivo e centrado no futebol, é possível identificar um lugar particular do esporte no quadro do intercâmbio luso-brasileiro. Em texto d’A Gazeta, o jornalista destaca o papel da Lusa na sociedade brasileira.
É desse modo que a phalange da gente lusitana se propõe a elevar, cada vez mais, na patria brasileira, o valor technico e moral do esporte. O esporte regenerador das fibras lassas e dos espíritos quebrantados.
Cultuando os jovos esportivos construiremos o alicerce da geração nova que ahi vem, despontando victoriosa dentro deste gigante da America! (UM BRAVO..., 1930, p. 1)
No contexto brasileiro dos anos 1930, o esporte já havia se consolidado dentro de uma perspectiva de fortalecimento físico e moral da nação, como uma prática benéfica aos jovens e a toda a sociedade. Nesse sentido, a Portuguesa é, como vemos no excerto, colocada como contribuinte desse processo civilizacional do Brasil, uma força lusitana que alicerçaria as novas gerações paulistanas e o progresso do país através do valor técnico e moral do esporte. Esse sentido de um clube de portugueses que atuaria em benefício de São Paulo e do Brasil não era mobilizado apenas pela imprensa, mas também pela própria Lusa e, possivelmente, até mesmo por órgãos oficiais, como o governo do estado de São Paulo. Por ocasião da compra de um terreno na Avenida Tereza Cristina, no Ipiranga, onde se objetivava construir a nova sede da Lusa, a associação publicou no Correio Paulistano uma nota com agradecimentos e suas pretensões de projetos.
A directoria agradece, reconhecida, a todos aquelles que a ajudaram, nesta primeira phase, e aproveita a occasião para tornar publica a sua gratidão para com o governo do Estado de São Paulo, isentando-a de imposto de transmissão do immovel adquirido, o que equivale dizer do interesse e ajuda do governo em pról da educação e cultura physica no Estado.
[...]
A Associação Portugueza de Sports espera, dentro em breve, poder dotar a cidade de São Paulo com installações dignas do logar que occupa no sport continental [...]. (ASSOCIAÇÃO... ,1929, p. 9)
As novas instalações – que nunca seriam efetivamente construídas, culminando com a venda do terreno em 1942 – seriam, nos termos do comunicado, um patrimônio não da associação, mas da cidade, como elemento de contribuição para a educação e cultura física no Estado. Construía-se, pela via associativa, a imagem de um imigrante que seria praticamente brasileiro e, além disso, contribuiria para o crescimento da nação. Especificamente ligado a São Paulo, cabe lembrar, como já apontamos anteriormente, que os clubes e associações portuguesas – assim como muitos outros, de fato – participariam dos esforços conjuntos durante os combates de 1932 em favor da causa constitucionalista. Nesse sentido, o discurso da luso-brasilidade também foi modulado ocasionalmente para vincular-se a uma ideia de solidariedade política voltada ao estado de São Paulo. A visita do esgrimista olímpico português João Sassetti52 à cidade de São Paulo, em 1935, é recebida com festas pela colônia portuguesa. São realizadas visitas nas salas de armas do Clube Português e do Portugal Clube. No Correio Paulistano, o ilustre visitante era chamado de “um grande amigo dos exilados” (UM
52 João Vicente de Freitas Branco Sassetti (1892 – 1946) representou Portugal nos Jogos Olímpicos de
“AZ”..., 1935, p. 9), por ter cooperado “grandemente para minorar os sofrimentos dos brasileiros exilados em razão da jornada de 32” (UM CAMPEÃO..., 1935, p. 8). O roteiro de solenidades e atividades durante a sua visita era detalhadamente exposto nos jornais e, entre almoços e passeios nas associações, o esportista que tantos paulistanos ajudara em