S ituation actuelle : profil en travers type et synoptique
V.3. CONTEXTE ENVIRONNEMENTAL
Entender a língua conforme a perspectiva bakhtiniana implica entender a língua como interação, pois, nas palavras de Voloshinov/Bakhtin (2004, p. 123, grifos do autor), a língua não “é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico da sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações.”. A realidade da língua é social, e se a palavra é assinalada pela ideologia, os usos que fazemos da língua estão atrelados à mudança ideológica. Assim, podemos dizer que a língua é assinala por uma sócio- historicidade que a determina e lhe imprime dinamismo.
A percepção da língua como sistema de formas fixas, associada a uma visão estruturalista, leva à ideia de que a língua é transmitida de um sujeito ao outro, como, se ao nascermos, recebêssemos a língua pronta e acabada; todavia, “a língua não se transmite; ela dura e perdura”, e evolui em um processo ininterrupto; “os indivíduos não ‘adquirem’ a língua materna; é nela e por meio dela que ocorre o primeiro despertar da consciência.” (VOLOSHINOV/BAKHTIN, 2004, p. 108), dessa forma, a consciência do ser desperta envolta na consciência do outro com o qual compartilha a mesma língua (como interação). Bakhtin (2003c) assinala que tudo o que nos diz respeito, inclusive nosso próprio nome, penetra em nossa consciência através da palavra do outro, revestido pela entonação que o outro lhe confere e pelo tom emotivo dos seus valores.
Voloshinov/Bakhtin não nega a existência de um sistema na língua, entretanto, segundo o autor, reduzi-la a um sistema de normas constituiu um erro e abstrai da língua seu dinamismo, sua natureza interacional e sua determinação sócio-histórica. Nas palavras de Voloshinov/Bakhtin (2004, p.92), “A consciência subjetiva do locutor não se utiliza da língua como de um sistema de formas. [...] O sistema da língua é o produto de uma reflexão sobre a língua, reflexão que não
procede da consciência do locutor nativo e que não serve aos propósitos imediatos da comunicação.”. Ao se servir da língua, o autor visa a satisfazer às suas necessidades enunciativas reais, o que faz, levando em conta o ponto de vista do seu interlocutor. Entretanto, em nenhum momento ele (autor) pensa a língua como conjunto de sinais estáveis passíveis de serem decodificados por seu interlocutor, ao contrário, o autor reconhece e utiliza a forma linguística como “signo sempre variável e flexível”, passível de ser compreendida por seu interlocutor em um contexto concreto específico, particular de cada enunciação, enunciação essa entendida como “produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados.” (VOLOSHINOV/ BAKHTIN, 2004, p. 112)
A língua constitui-se, então, na relação entre duas realidades - sistema e natureza interacional - e sob a influência de forças unificadoras (centrípetas) e diversificadoras (centrífugas) (BAKHTIN, 1998). Se, por um lado, a língua evolui na esteira do plurilinguismo social e histórico conectado às forças centrífugas e estratificadoras, por outro, subsiste na forma de um sistema de base, unificado pela ação das forças centrípetas (BAKHTIN, 1998).
Bakhtin (1998, p. 82) afirma que a estratificação e a contradição (a pluralidade de acentos) na língua significam a estática e a dinâmica da vida da língua: “ao lado das forças centrípetas caminha o trabalho contínuo das forças centrífugas da língua, ao lado da centralização verbo-ideológica e da união caminham ininterruptos os processos de descentralização e desunificação.”
Nessa perspectiva, Voloshinov/Bakhtin (2004) sugere uma ordem metodológica para o estudo da língua que coaduna com a ordem em que a língua sofre mudanças, ou seja: as relações sociais evoluem, levando, por sua vez, a comunicação e interação verbais a se modificarem; as quais, a seu turno, provocam a mudança das formas dos atos de fala, que, em consequência, leva à mudança das formas da língua. Nessa perspectiva, a ordem metodológica para o estudo da língua deve assim se configurar:
1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza.
2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados [enunciados], em ligação estreita com a interação de que constituem elementos, isto é, as categorias de atos de fala [gêneros do discurso] na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal.
3. A partir daí, exame das formas da língua na sua interpretação linguística habitual. (VOLOSHINOV/BAKHTIN, 2004, p. 124)
A estratificação da língua ocorre, segundo Bakhtin (1998), movida por diversas forças, dentre elas: a estratificação da língua em gêneros, a estratificação profissional da língua, a estratificação social (classes sociais) da língua. A primeira é determinada pelos “organismos específicos dos gêneros”, uma vez que os diferentes elementos da língua (semânticos, sintáticos, etc.) se “adequam aos pontos de vista específicos, às atitudes, às formas de pensamento, às nuanças,e as entonações” dos gêneros (BAKHTIN, 1998, p. 96). A segunda, que pode ou não coincidir com a primeira, é determinada pela espoliação das possibilidades intencionais da língua pela orientação intencional (apreciação concreta) que se vincula aos diferentes campos de atuação profissional do ser humano e que vão determinar a estratificação da língua no que tange à significação objetal e à expressividade. A terceira, vinculada às classes/grupos sociais, apesar de “autônoma e específica”, pode coincidir com as demais, sendo determinada pela “distinção dos âmbitos expressivos e de sentido”, ou seja, por “diferenças padronizadas de acentuação e de atribuição de sentido aos elementos da língua.” (BAKHTIN, 1998, p. 97).
Além disso, todas as visões de mundo socialmente significativas e as manifestações verbais de importância social podem ter sua intenções refratadas em elementos da linguagem, os quais adquirem “nuanças de sentido precisas e tons de valores definidos.” (BAKHTIN, 1998, p. 97).
Entender a língua em sua realidade concreta significa, portanto, perceber seu caráter móvel, determinado pelos usos sociais a que está sujeita. Essa percepção implica o fato de que a “consciência linguística do locutor e do receptor” não pode se resumir à configuração da língua como sistema de formas, mas sim se vincula à “linguagem no sentido de conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular”. Bakhtin (199723) entende a língua, em “sua integridade concreta e viva”, como discurso.
A noção de língua-discurso (interação) se diferencia da noção de língua- sistema, principalmente porque, enquanto o discurso materializa as necessidades enunciativas concretas do autor, as quais são de natureza social; o sistema é resultado de uma reflexão que fazemos sobre a língua, reflexão essa que, nas
palavras de Voloshinov/Bakhtin (2004, p. 92) “não procede da consciência do locutor nativo e [...] não serve aos propósitos imediatos da comunicação.”. Nessa perspectiva, a língua vive e se modifica, ao longo da história, não no sistema linguístico ou no psiquismo individual dos falantes, mas como discurso, através da interação social (VOLOSHINOV/BAKHTIN, 2004).
O discurso se constitui na orientação sobre o seu objeto, no qual se encontra com os já-ditos, e sobre o discurso da resposta antecipada (o discurso-resposta futuro); como assevera Bakhtin (1998, grifos do autor), “Estudar o discurso em si mesmo, ignorar a sua orientação externa, é algo tão absurdo como estudar o sofrimento psíquico fora de realidade a que está dirigido e pela qual ele é determinado.”. Essa dupla orientação do discurso determina sua natureza dialógica.
Ao refletir sobre a orientação do discurso em relação ao seu objeto, Bakhtin (1998) assevera que aquele (o discurso) já o (objeto) encontra “desacreditado”, avaliado, “contestado”, “iluminado” pelo discurso do outro (os já-ditos), ou seja, todo discurso encontra o objeto a que se refere envolvido por discursos alheios que se desenvolveram acerca do mesmo objeto. Assim, “A concepção que o discurso tem de seu objeto é dialógica” (BAKHTIN, 1998, p. 89), porque construída no confronto, no diálogo, com o discurso alheio.
Ainda, o outro influencia o discurso a partir de sua posição como interlocutor. No dizer de Bakhtin (1998, p. 89), “Todo discurso é orientado para a resposta e ele não pode esquivar-se à influência profunda do discurso da resposta antecipada.”. De fato, ao construir o seu discurso, o autor adentra o terreno delimitado pelo horizonte apreciativo de seu leitor/ouvinte, terreno este que percebe (estima) com maior ou menor grau de precisão. É a partir da maneira como estima (antecipa) a reação- resposta do interlocutor, que o autor constrói o seu discurso (BAKHTIN, 1998). O ouvinte/leitor, ao entrar em contato com o discurso alheio, mantém para com ele uma atitude “de natureza ativamente responsiva” (BAKHTIN, 2003b, p.271); seu horizonte axiológico (do leitor/ouvinte) baliza a apreensão que ele elabora durante o processo de audição/leitura desse discurso e operacionaliza sua compreensão, a qual é “prenhe de resposta”. O processo de compreensão se dá de forma ativa na confrontação entre o discurso do outro (autor) e os outros muitos discursos que constituem já-ditos para o leitor/ouvinte, logo, compreensão e resposta “estão fundidas dialeticamente e reciprocamente condicionadas, sendo impossível uma sem a outra.” (BAKHTIN, 1998, p. 90).
Assim, a dialogicidade interna do discurso assinala o vínculo entre o discurso e o discurso do outro em duas dimensões igualmente importantes: a do objeto, ou seja, na construção do objeto do discurso; a do interlocutor, na antecipação da resposta do outro.