• Aucun résultat trouvé

P aysage et perception

Dans le document Objet de la concertation (Page 52-63)

O discurso materializa-se no enunciado, entendido em Bakhtin (2003b, p. 274) como “real unidade da comunicação discursiva”. Por sua vez, cada enunciado, como elo da cadeia da comunicação verbal, orienta-se tanto no sentido dos enunciados já-ditos e socialmente compartilhados, como no sentido dos enunciados prefigurados, para conformar-se a um determinado projeto discursivo, corporificar uma intenção comunicativa específica e possibilitar a realização desse projeto e a materialização dessa intenção. A intenção comunicativa, “o querer-dizer” do autor, consubstancia-se em um projeto discursivo que determina a totalidade do enunciado: suas fronteiras e sua amplitude, bem como o tratamento exaustivo do objeto do sentido a que se vincula e o gênero que balizará sua elaboração (BAKHTIN, 2003b). É em função do outro que o autor define seu projeto discursivo e

molda o enunciado para que possa refratar seu pensamento de maneira a provocar em seu auditório social uma dada atitude-responsiva. De fato, o próprio enunciado do autor é, por si só, uma resposta a outros enunciados que o antecederam e guarda estreita relação com aqueles enunciados que se dão no âmbito da mesma esfera, isso porque “O centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo.” (VOLOSHINOV/ BAKHTIN, 2004, p. 291). Bakhtin (1998, p.125) refere-se à enunciação realizada como se essa constituísse “uma ilha emergindo de um oceano sem limites, o discurso interior. As dimensões e as formas dessa ilha são determinadas pela situação da enunciação e por seu auditório [e sua orientação sócio-histórica].”.

Como aponta Bakhtin (1997), toda palavra evoca contextos em que conviveu previamente, e que remetem a significados a eles vinculados; assim, as palavras emprestam ao enunciado um dinamismo intrínseco. Entretanto, ao penetrarem em um dado enunciado, as palavras são reacentuadas de acordo com o projeto discursivo do autor e com base em seu modo de apreensão da realidade, fazendo com que cada enunciado seja um evento único e inalienável. De fato, todos os nossos enunciados, logo, nossos discursos, são “pleno[s] de palavras dos outros, de um grau vário de alteridade ou de assimilabilidade, de um grau vário de aperceptibilidade e de relevância. Essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos, e reacentuamos.” (BAKHTIN, 2003b, p. 295).

Como Bakhtin (2003b) ressalta, é importante assinalar que o enunciado não constitui um mero aglomerado de palavras, nem uma unidade de ordem gramatical, tal como a oração; o que lhe dá totalidade é a materialização do intento discursivo do autor de tal forma que permite, ao outro (inlocutor) a possibilidade de respondê- lo. O acabamento relativo do enunciado (relativo porque não há como definir-lhe fronteiras fixas, como por exemplo, um ponto final que determina o fim de um parágrafo) é sinalizado pela alternância dos sujeitos no processo da comunicação verbal. De fato, “Quando ouvimos ou vemos, percebemos nitidamente o fim do enunciado, como se ouvíssemos o ‘dixi’ conclusivo do falante.” (BAKHTIN, 2003b, p. 280, grifo do autor).

Bakhtin (2003b, p. 280, grifo do autor) evidencia que a conclusibilidade do enunciado pode ser compreendida como “uma espécie de aspecto interno da

alternância dos sujeitos do discurso; essa alternância pode ocorrer precisamente porque o falante disse (ou escreveu) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições.” De fato, o acabamento do enunciado pode ser percebido pela possibilidade de resposta, a qual se relaciona a três fatores: (1) o tratamento exaustivo do objeto do sentido; (2) o intuito discursivo (querer-dizer do autor); e (3) as formas típicas de estruturação do enunciado, ou seja, os gêneros do discurso.

O tratamento exaustivo do objeto do sentido vincula-se a cada esfera específica da comunicação verbal, sendo mais pronunciado nas esferas em que os gêneros do discurso são mais padronizados, e mais variável nas esferas mais criativas, em que os gêneros são menos padronizados. A rigor, o objeto do discurso é inesgotável, entretanto, ao se configurar como tema de um dado enunciado, ele fica sujeito a um acabamento relativo que se relaciona com o intuito discursivo do locutor (BAKHTIN, 2003b). Esse último (intuito discursivo) determina o “todo do enunciado, o seu volume, sua amplitude, suas fronteiras.” (BAKHTIN, 2003b, p. 281) e, de certo modo, o gênero do discurso em que esse será estruturado. A “seleção” do gênero é balizada pelas especificidades de cada esfera da comunicação, pelas necessidades de cada temática específica, pelas relações entre os interlocutores (posição social, grau de proximidade), etc. As particularidades do gênero do discurso (ao qual se molda o enunciado) são de fundamental importância para orientar os interlocutores na percepção do acabamento do enunciado. Nas palavras de Bakhtin (2003b, p. 283)

Nós aprendemos a moldar nosso discurso em formas do gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, adivinhamos um determinado volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso), uma determinada construção composicional, prevemos o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em seguida apenas se diferencia no processo da fala.

Além da conclusividade (acabamento do enunciado), e da alternância dos sujeitos falantes (que delimita as fronteiras do enunciado), o enunciado apresenta uma outra característica marcante: a expressividade. Bakhtin (2003b) assinala que a importância e intensidade com as quais a expressividade marca o enunciado variam em função da esfera da comunicação a que ele se vincula, todavia, não há enunciado absolutamente neutro.

A entonação expressiva, que representa um dos recursos mobilizados pelo autor para expressar sua relação emotivo-valorativa em relação ao objeto do seu discurso, não existe no sistema da língua, porém assinala o enunciado; isso porque “só o contato do significado linguístico com a realidade concreta, só o contato da língua com a realidade, o qual se dá no enunciado, gera a centelha da expressão.” (BAKHTIN, 2003b, p.292). Bakhtin (2003b) afirma, mesmo, que se uma palavra isolada é proferida com uma dada entonação expressiva, ela passa a ser um enunciado completo, ainda que composto por apenas uma palavra. Outrossim, a expressividade não está atrelada apenas à relação do autor com o objeto do discurso, mas também com seus interlocutores e com os enunciados já-ditos que permeiam a esfera da comunicação em que o enunciado se materializa, na medida em que cada enunciado constitui uma resposta a outros enunciados que o antecederam; nas palavras de Bakhtin (2003b, p. 298, grifo do autor), “A expressão do enunciado, em menor ou maior grau, responde, isto é, exprime a relação do falante com os enunciados do outro, e não só a relação com os objetos do seu enunciado.”.

Além disso, o enunciado não pode ser concebido em separado da situação social de interação a qual lhe é constitutiva. De fato, o enunciado se articula sobre dois eixos que se interceptam: a dimensão verbal (sígnica, materialidade semiótica) e a dimensão extra-verbal (não sígnica). Rodrigues (2005), ao falar sobre a dimensão extra-verbal do enunciado, menciona seus três elementos constitutivos: (1) horizonte espacial-temporal, (2) horizonte temático e (3) horizonte axiológico. O horizonte espacial-temporal refere-se ao espaço e tempo do enunciado; o horizonte temático a seu objeto e finalidade; o horizonte axiológico à atitude valorativa dos interlocutores perante aquilo que é dito/escrito. Voloshinov/ Bakhtin (2004, p. 113, grifo do autor) esclarece que “A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação”, ou seja, o enunciado é socialmente orientado.

Essas reflexões fazem-nos entender porque adotar o enunciado e não a oração como ponto de partida para a interação, para a construção de sentido e para a compreensão da língua numa perspectiva sócio-histórico-interacionista. A oração carece, justamente, de uma completude de sentido, que só se pode verificar no enunciado. Como lembra Bakhtin:

Uma oração absolutamente compreensível e acabada, se é oração e não enunciado constituído por uma oração, não pode suscitar atitude responsiva: isso é compreensível mas ainda não é tudo. Esse tudo – indício de inteireza do enunciado – não se presta a uma definição nem gramática nem abstrato-semântica. (BAKHTIN, 2003b, p. 280, grifo do autor).

As discussões a respeito da natureza do enunciado nos remetem às discussões sobre a natureza do texto, que procuraremos explicitar ao longo da próxima seção.

Dans le document Objet de la concertation (Page 52-63)

Documents relatifs