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Consultation citoyenne

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3 RÉSULTATS

3.4 Consultation citoyenne

A Bíblia inicia com uma ação em andamento – a Criação. O autor de Gênesis diz que, no princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava vazia, havia trevas cobrindo o abismo e o espírito de Deus pairava sobre as águas. No primeiro dia, Deus criou a luz e a separou das trevas, distinguindo o dia e a noite. No segundo dia, Deus criou um firmamento para separar as águas e o chamou de céu. No terceiro dia, Deus fez surgir o continente, separando terra de água, e o fez encher-se de ervas e árvores frutíferas. No quarto dia, Deus criou um luzeiro para o dia e outro para a noite, o sol e a lua, assim como as estrelas. No quinto dia, Deus criou as grandes serpentes do mar, as aves aladas e os seres vivos que rastejam e os abençoou dizendo para serem fecundos e se multiplicarem. No sexto dia, Deus criou os animais domésticos, os répteis, as feras e, finalmente, o homem. O sétimo dia, por fim, Deus abençoou e santificou, e então descansou.

Conforme indica Jack Miles, Deus: “fala para si mesmo, mas não sobre si. Ele nada diz sobre quem é ou o que pretende, e suas palavras são abruptas, sem nenhuma intenção de comunicar nada a ninguém, muito menos explicar nada, mas simplesmente decretar.” (MILES, 2009, p.38).

Deus dedicou sete dias para a Criação do mundo: seis dias de trabalho pesado e um dia de “contemplação”, descanso. Qual seria a razão de todo esse trabalho duro? Quando Deus diz “Façamos o homem à nossa imagem, como nossasemelhança”, ou seja, com indicativo de plural, quem estava ao seu lado? Não

seria ele o Criador de tudo quanto existe? Quem seria esse alguém em sua companhia?

Deus é reservado em suas maneiras, mas o que ele está escondendo? Ouvimos que fala no plural “nós”, que diz “nossa” imagem e queremos saber mais. [...] O texto fala de Deus no masculino e no singular. E se esse Deus tem uma vida privada ou mesmo, por assim dizer, uma vida social entre outros deuses, ele não nos admite nela. Ele parece estar inteiramente sozinho [...] (MILES, 2009, p.41).

Na tirinha abaixo, Carlos Ruas apresenta um outro deus, alguém a quem o Deus YHWH é subordinado. Esse outro deus vem cobrar, tal como um patrão rígido, a criação de uma “raça superior” e dá a Deus o prazo de sete dias para a conclusão (ou melhor, início) da obra.

Imagem 2 – No principio

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/128-no-principio-tiras-que-deveriam-ter- sido-postadas-anteriormente/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

Dessa maneira, o ponteiro do relógio começa a marcar.

Imagem 3 – No princípio 2

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/129-no-principio-2/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

Fazendo referência à personagem Samara do filme O Chamado32, Carlos Ruas mostra Deus recebendo a sinistra ligação que lhe confere sete dias de vida. Uma vez consciente das limitações da vida e de sua fragilidade corpórea, o homem tenta, através do humor, driblar a morte.

O riso relaciona-se, assim, com a tragicidade da vida, mas também com a capacidade de distanciamento: o prazer de pensar, o gosto do engano e a possibilidade de subverter provisoriamente, através do jogo, a condenação à morte e tudo aquilo que a representa (DUARTE, 2006, p.51).

Ao contrário do Deus-opressor difundido pela cultura ocidental, Deus é quem está sendo oprimido. O cartunista, com seus traços suaves e simples, retrata a face frágil do Deus que é, no primeiro momento da história, “uma mistura de força e fraqueza” (MILES, 2009, p.42). Não apenas o próprio desenho “fofinho” remete essa fragilidade ao leitor, como também os diálogos interrompidos, o riso desconcertado e o temor diante daquele que está acima.

Vladimir Propp afirma que o humor “é aquela disposição de espírito que em nossas relações com os outros, pela manifestação exterior de pequenos defeitos,       

32O Chamado (The Ring – 2002) é um filme de terror americano dirigido por Gore Verbinski e com

roteiro de Ehren Kruger. A história, que é uma regravação do filme japonês Ringu (que por sua vez é baseado no romance de mesmo nome de Koji Suzuki), fala de uma repórter que descobre uma fita de vídeo amaldiçoada pelo espírito de uma garotinha, Samara Morgan, que telefona para todos que assistem ao vídeo e anuncia suas mortes no prazo de sete dias. 

nos deixa entrever uma natureza internamente positiva”(1992, p.152) e que este nasce de uma inclinação benevolente. Ele ainda defende a ideia de que o riso é possível apenas quando não há repulsão daquilo (ou daquele) que se ri. Se não há repulsão, pode-se dizer que há até mesmo certa identificação.

Emergidos em uma sociedade patriarcal e capitalista, os homens e as mulheres do século XXI têm se deparado constantemente com alguma imagem opressora, seja no ramo profissional ou afetivo. Essa questão, a qual Carlos Ruas se apropria sabiamente, faz com que o leitor se identifique cada vez mais com o personagem e aí que reside o humor. Se até o Deus Todo-Poderoso que oprime a raça humana também é oprimido por alguém, por que não rir?

Na próxima tirinha, Deus está criando o mundo no escuro, até que se dá conta de que era necessário algo para iluminar a obra. Quando finalmente ordena que haja luz, seu sentimento de genialidade logo cede lugar à frustração ao perceber que tudo o que havia criado estava bagunçado.

Imagem 4 – No princípio 11

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/468-no-principio-11/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

Apesar do defeito de distração, Deus estava trabalhando em todos os detalhes de sua obra, estava dando o seu melhor, assim como o homem tenta diariamente. Seu plano estava organizado, porém, Deus só se dá conta de que ele poderia ser mais bem executado com a ajuda de outro fator, no caso a luz. Seu

defeito é posto de lado, pois não transmite ao leitor um sentimento de repulsa, mas de certa identificação pela “natureza internamente positiva”.

Na tirinha seguinte, há outro defeito. Num primeiro momento a Terra era uma superfície plana que terminava diante de um abismo. Deus observa seu projeto em execução de maneira imparcial, e assim permanece mesmo quando a caravela cai no abismo e se despedaça. Deus apenas faz as devidas anotações para mudanças posteriores, murmurando para si mesmo que o trabalho será mais difícil do que o esperado.

Imagem 5 – No princípio 4

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/320-no-principio-4-tiras-que-deveriam-ter-sido- postadas-anteriormente/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

Ainda que o defeito de imparcialidade de Deus possa incomodar aquele que leva tudo ao pé da letra, novamente há uma identificação do leitor com a “natureza internamente positiva”, o que torna o defeito irrelevante e enquadra Deus no que Propp chama de “riso bom” – aquele que, se não provoca o riso em si, provoca um sorriso involuntário de simpatia e aprovação.

Pode acontecer, por exemplo, que os defeitos sejam tão irrelevantes a ponto de suscitar em nós não o riso, mas o sorriso. [...] No quadro geral de uma avaliação positiva e da aprovação, um pequeno defeito não provoca condenação, mas pode, ao contrário, reforçar um sentimento de afeto e simpatia (PROPP, 1992, p.152).

Uma vez que os laços afetivos são reforçados e aquele de quem se ri conquista a simpatia daquele que ri, um possível sentimento de repulsa é completamente descartado. Na maioria dos casos, o “riso bom” é também “acompanhado por um sentido de afetuosa cordialidade” (PROPP, 1992. p.153), o que acaba reforçando o sorriso.

Conforme é visto na próxima tirinha, enfim Deus se apropria de sua experiência com a caravela e constrói um muro ao redor da Terra para que não haja outra queda rumo ao abismo. Aqui seu defeito de imparcialidade é “perdoado” em virtude de sua atitude de fazer melhorias no projeto. Alegre e motivado, ele chama o outro deus, avisando-o de que a obra estava concluída e pergunta-lhe se havia ficado satisfeito. De pronto, a resposta é negativa. Como se não bastasse, o outro deus pede ao Deus YHWH que tente fazer outro projeto. Indignado, Deus recolhe sua obra, enrolando-a e jogando-a fora. Agora com o formato de esfera, o outro deus emite uma interjeição que revela uma possível mudança de opinião. A Terra estava pronta.

Imagem 6 – No princípio 6

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/322-no-principio-6/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

A reação de Deus é incisiva. Jack Miles baseando-se nas contradições descritas ao longo de todo o texto bíblico, diz que “o Senhor Deus sempre foi intermitentemente desconcertante, irritante, inconsistente ou arbitrário”(2009, p.32), assim como é possível constatar no quarto e quinto quadrinho.

Imagem 7 – No princípio 15

Fonte: Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/566-no-principio-15/>. Acesso em: 10 abr. 2016. 

Depois de finalmente ter concluído um projeto que agradasse ao outro deus, o Deus YHWH agora tinha a missão de nomear as mais de dez bilhões de espécies de animais. Cansado de ser oprimido pelo outro deus, ele decide reagir. A trama bíblica “começa quando Deus sente o desejo de uma autoimagem” (MILES, 2009, p.33).

Uma vez que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, ao desejar uma autoimagem, o Criador cria outro tipo de criador: não alguém para auxiliá-lo, mas alguém que possa fazer o trabalho por ele. O diálogo é desnecessário, uma vez que a imagem da conta da mensagem.

De fato, no princípio, Deus não sabia o que estava fazendo. Apresentado por Carlos Ruas como um sujeito oprimido que acaba por fazer as coisas certas através de atos reativos e muitas vezes imaturos e inadequados, aqui “o riso surge quando deparamos com manifestações exteriores de vida espiritual, que escondem interiormente uma substância que lhes é inadequada” (PROPP, 1992, p.154). Ainda assim, esta não causa repulsão ao leitor, uma vez que aquele de quem se ri conquista a simpatia daquele que ri através da identificação deste com a “natureza internamente positiva”.

Vladimir Propp (1992, p.156) afirma que estudiosos como Henri Bergson negam a possibilidade do riso bom, uma vez que o coração é anestesiado e o

homem se torna cruel e alheio às desgraças do próximo; enquanto que outros, como Stephen Leacock, acreditavam que o humor deveria ser benigno e não cruel, apesar de admitirem a existência de uma alegria maldosa, primordial e diabólica. Para o estruturalista russo, ambos, Bergson e Leacock, estão equivocados. Afinal, pode o riso ser moral ou amoral? Não seria ele uma manifestação da simples alegria de viver? Aparentemente nem Deus sabe.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Eli. E o divino se faz verbo: conjunções entre símbolo e metáfora. In: Estudos da Religião. Universidade Metodista de São Paulo. Pós Graduação em Ciências da Religião,v.1, n.1, mar. 1985. São Bernardo do Campo: Umesp, 1985. DUARTE, Lélia Parreira. Ironia e Humor na Literatura. Belo Horizonte: PUC Minas, 2006.

MAGALHÃES, Antonio. A Bíblia como obra literária. Hermenêutica literária dos textos bíblicos em diálogo com a teologia. In: Deuses em Poética. João Pessoa, 2008, p. 13-23.

MILES, Jack. Deus: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. (Edição de Bolso).

MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. Trad. Maria Elena O. Ortiz. Assumpção. São Paulo: Unesp, 2003.

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