3 RÉSULTATS
3.5 Élaboration d’une définition consensuelle
Imagem 2 – Paixão de Cristo, Rafaello Fonte:http://4.bp.blogspot.com/-
cSrVB8uoQHo/S7AlfTpYx5I/AAAAAAAAAP0/QreE9IqSXaE/s1600/25+Ra ffaello+-+Crucifixion.jpg.
Em primeiro lugar, cabe aqui uma rápida explicação para o termo Idade Média. De acordo com o historiador Hilário Franco Jr, em seu livro A Idade Média - Nascimento do Ocidente, seria difícil delinear exatamente quando começa ou termina a Idade Média, mas em termos gerais, podemos dizer que vai desde o princípio do século IV até meados do século XVI de nossa era. Além disto, o historiador delineia “blocos” de estruturas (pensamento, forma de governo, religião, etc) que são razoavelmente semelhantes entre si, subdividindo a Idade Média em: Primeira Idade Média (princípios séc. IV- meados do VIII); Alta Idade Média (meados séc. VIII - fins X); Idade Média Central (início séc. XI - fins XIII); e Baixa Idade Média (início séc. XIV - meados XVI). De certa forma, podemos traçar em termos gerais a “evolução” deste período a partir das tendências que a Igreja adquire em cada época, pois, de acordo com o historiador:
Num primeiro momento, a organização da hierarquia eclesiástica visava à consolidação da recente vitória do cristianismo [Primeira Idade Média]. A seguir, a aproximação com os poderes políticos garantiu à Igreja maiores possibilidades de atuação [Alta Idade Média]. Em uma terceira fase, o
corpo eclesiástico separou-se completamente da sociedade laica e procurou dirigi-la, buscando desde fins do século XI erigir uma teocracia que esteve em via de se concretizar em princípios do século XIII. Contudo, por fim, [na Baixa Idade Média] as transformações que a
Cristandade conhecera ao longo desse tempo inviabilizaram o projeto papal e prepararam sua maior crise, a Reforma Protestante do século XVI (FRANCO JUNIOR, 2001, p.89, grifo nosso).
De certa forma, é possível afirmar que do período que compreende a Primeira Idade Média até o final da Alta Idade Média, houve grandes discussões sobre a “humanidade” de Cristo, isto é, se ele era completamente Deus, completamente homem, ou se uma mistura de ambos. Esta foi uma das maiores discussões dos hermeneutas e exegetas bíblicos (entre si e contra si) durante muito tempo, e creio que continua ressoando. Mas, o nosso enfoque aqui é outro. De acordo não só com o historiador, mas também de acordo com o Mestre em Teologia, Pe. Rui Manuel Matos Cantarilho40, a partir da Idade Média Central, há uma crescente humanização de Jesus, devido a diversos fatores sócio-políticos, e também concernentes à própria Igreja Católica. No que concerne à Igreja, podemos citar a ordem monástica de Cister, fundada em 1098 na Borgonha por Roberto de Molesme. Esta ordem criticava o “modo de vida luxuoso dos clunaciacences”, que em um primeiro momento foi uma ordem monástica seguidora dos preceitos beneditinos (também de simplicidade), mas que ao longo do caminho acabou se corrompendo. A ordem de Cister fez importantes contribuições para a espiritualidade medieval, tendo em vista que outras vertentes “mendicantes” ou “pregadoras da pobreza”, como os franciscanos, buscaram seguir seus preceitos, embora estes não tenham se estabelecido nos mosteiros, mas no seio da comunidade, exercendo grande influência na mentalidade da população. De acordo com Cantarilho,
40Cantarilho obteve seu título de Mestre em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa -
Faculdade de Teologia - em 2012, por meio da dissertação “A paixão de Cristo na espiritualidade medieval: Lignum Vitae e Meditationes de Passione Iesu Christi”.
[...] podemos afirmar que a espiritualidade franciscana prolonga a espiritualidade cisterciense com novos matizes de popularidade e de gozo espiritual, de simplicidade, de elevação a Deus pelas criaturas. Se a espiritualidade de Bernardo [de Claraval] era para monges, a
espiritualidade de Francisco era para todos os cristãos. Se Cister era
caracterizada por um rigorismo forte, que valorizava a fuga mundi e o desprezo das criaturas, o Franciscanismo apresentava rasgos mais
humanos e optimistas e juntava o desprezo do mundo ao amor fraterno por todas as criaturas. Contudo, ambas as espiritualidades são
eminentemente cristológicas, fundadas na devoção ao Verbo Encarnado e à humanidade de Cristo41 (CANTARILHO, 2008, p.10-11, grifos nossos).
Quanto aos fatores sócio-políticos que se misturam com os religiosos, podemos trazer o argumento do historiador Hilário Franco Jr. Este aponta que
A grande síntese disso tudo [deste período] talvez tenha sido o desenvolvimento do individualismo, com a conseqüente passagem da família patriarcal para a família conjugal e a correspondente valorização da mulher e da criança. Foi nas cidades que despontaram novos valores
sociais, opostos aos coletivistas (interdependência das ordens) e machistas (predominância do clero celibatário e dos guerreiros). Na realidade, esse fenômeno social era reflexo e origem de um conjunto mais amplo de transformações, de uma revalorização do ser humano.
Sua melhor expressão — ou ponto de partida?, esta importante questão continua insolúvel — era uma crescente humanização da imagem de
Cristo. A própria popularidade que Deus Filho ganhava em relação ao
Deus Pai era significativa nesse sentido: a ela correspondia um recuo
dos poderes tradicionais, uma ampliação dos direitos dos vassalos frente ao senhor feudal (FRANCO JUNIOR, 2001, p.131-132, grifos
nossos).
Conforme apresenta Cantarilho é a partir de São Francisco de Assis que surge a “devoção autêntica à dolorosa Paixão e Morte de Cristo” (2012, p.12). Mas, somente no século XIII é “que se começa a viver com nova intensidade a Semana Santa e que têm início as representações dialogadas da Paixão42” (CANTARILHO, 2012, p.12). O autor também explica que,
Uma das expressões mais evidentes desta devoção passionista foi a mudança verificada no calendário eclesiástico, ao serem reconhecidas como solenidades muitas das formas de devoção de influência franciscana, que surgiram por meio da meditação pessoal dos mistérios revelados e do contacto pastoral com o povo cristão.
Neste contexto surgem também as explicações alegóricas da Missa, como renovação do sacrifício da Cruz, num esforço por encontrar no desenvolver do acto litúrgico as cenas da Paixão e Morte do Redentor.
Cada gesto do celebrante, cada atitude ou palavras, adquirem um correspondente valor simbólico, recordando passo a passo, e com extremo
41 Cf. VILLOSLADA, R., Historia de la Igreja, p. 759. (Nota retirada do texto original.)
42Cf. AUBERT, R.; KNOWLES, M. D.; ROGIER, L. J.Nova história da Igreja. p.160. (Nota retirada do
detalhe, as cenas, surgindo um alegorismo místico-simbólico e dramático como chave interpretativa dos ritos litúrgicos43 (CANTARILHO, 2012, p.13 - grifo nosso).
Ainda de acordo com esse autor, é a partir do século XIII que a “iconografia do Crucificado passa a ser a parte mais importante da Paixão” (idem, p.14), isto é, alguns dos símbolos passam a ser representados em imagens, como anjos recolhendo o sangue do Senhor; a disposição do túmulo de Cristo ou seu Enterro; e também
Associadas ao Crucificado e ao Enterro vão surgindo as representações do Ecce Homo, do Varão das Dores, de Jesus carregando a Cruz; desenvolvem-se também as personagens relacionadas com a Paixão, como a Virgem Maria e São João, quer de pé junto à cruz, quer no momento do descimento, reclinados sobre o corpo chagado de Cristo44 (CANTARILHO, 2012, p. 14).
Agora que temos uma base de como surge a ênfase na paixão de Cristo, podemos ir adiante em nossas comparações. Nosso próximo passo concerne às visões e reflexões da freira alemã Anne Catharina Emmerich a respeito da paixão de Cristo e que inspiraram o filme de Gibson. Abordaremos o tema rapidamente.
43AUBERT, R.; KNOWLES, M. D.; ROGIER, L. J. Nova história da Igreja. p.282. (Nota retirada do
texto original).
44Cf. JIMÉNEZ, R. T. Notas para uma reflexión. p. 468. (Nota retirada do texto original.)
“VIDA, PAIXÃO E GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO DE DEUS.45” ASMEDITAÇÕES DE ANNA CATHARINA EMMERICH (1820-1823)
Imagem 3 - Anna Catharina Emmerich Fonte:
https://sp.yimg.com/ib/th?id=OIP.Mdc557873587ec88768c0f6d08b ddf6feo0&pid=15.1.
De acordo com o resumo de sua vida que encontramos no livro sobre as suas meditações, Anna Catharina Emmerich era filha de camponeses pobres, além de ter nascido e recebido o batismo no dia 08 de setembro de 1774. Desde oinício de sua infância, a (futura) freira teria frequentemente sido “assolada” por visões de seu Anjo da Guarda, além do menino Jesus e de sua mãe, a Virgem Maria. Aos dezesseis anos, trabalhando como criada na casa de um parente camponês, pastoreando rebanhos, teria ouvido “ao longe o toque lento e sonoro do sino do Convento das Anunciadas, em Coesfeld” (p.7). Ao ouvi-los, sentiu-se “tão fortemente enlevada com a voz daqueles sinos, que lhe pareciam mensageiros do Céu, convidando-a para a
45Disponível no site: <http://www.amormariano.com.br/wp-
content/uploads/AnnaCatharinaEmmerichVidaPaixaoGlorifica%C3%A7%C3%A3oCordeiro.pdf> Último acesso em: 01 dez. 2015.
vida religiosa e tão grande lhe foi a comoção, que caiu desmaiada e foi levada para casa, onde esteve, por muito tempo, adoentada” (p.7)
Sua vida é marcada tanto pelo trabalho árduo - a fim de economizar para a vida monástica - quanto pelas caridades que fazia. No entanto, é só em 1803 que a jovem, agora com 29 anos, consegue seguir sua vocação e entrar para o convento. No final de 1811 o Convento é obrigado a fechar suas portas, mas ela só se retira no ano seguinte. No outono de 1812, Jesus Cristo aparece a ela novamente e lhe entrega um crucifixo, o qual ela aperta firmemente ao peito e, após isto, fica com sua marca. Além desse, outros estigmas aparecem na freira após novo encontro com o Salvador crucificado, no qual ela teria pedido para compartilhar suas dores. Após o acontecimento vir a público, conforme explica o resumo,
Em Março de 1813. O Vigário de Duelmen, Pe. Rensing encarregou dois médicos, os Drs. Wesener e Krauthausen, como também o confessor, de fazerem um exame das chagas, que freqüentemente sangravam. Os autos foram mandados à autoridade diocesana de Muenster, a qual enviou o Rev. Pe. Clemente Augusto de Droste Vischering, mais tarde Arcebispo de Colônia, o deão Overberg e o conselheiro medicinal Dr. von Drueffel a Duelmen, para fazerem outra investigação, que durou três meses. O resultado foi a confirmação da verdade das chagas, da virtude e também o reconhecimento do caráter sobrenatural do estado da jovem religiosa (EMMERICH, 2004, p.10).
Após a confirmação da veracidade de suas “chagas”, a freira foi visitada pelo poeta e escritor Clemente Brentano (1778-1842), o qual redigiu suas visões. De acordo com D. Manuel Clemente46, Bispo auxiliar de Lisboa e especialista em História da Igreja, a visita ocorreu em Setembro de 1818, o escritor ouviu seus relados e;
Foi passando depois a escrito as revelações da vidente sobre a vida de Cristo, fixando-se também em Dulmen. Anotava o que ela dizia no dialecto de Vestefália, transcrevia para alemão corrente e apresentava o resultado a Ana Catarina. Com esta colaboração de Brentano, publicou-se em 1833 A dolorosa paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo as meditações de Ana Catarina Emmerich. Brentano preparou também para publicação A Vida da Santíssima Virgem Maria, só impressa em 1852, já depois do falecimento do escritor. Com os manuscritos deixados pelo mesmo autor, publicou o redentorista Schmöger, de 1858 a 1880, os três tomos da Vida e morte do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo segundo as visões da bem- aventurada Ana Catarina Emmerich (que teve em 1881, nova edição revista e ilustrada).
46 apud As visões da mística alemã Ana Catarina Emmerich. Disponível em: <
É importante notar que as visões da freira foram publicadas por terceiros, e que muitas delas foram consideradas heréticas. Apesar disso, a freira foi beatificada no final 2004 pelo falecido Papa João Paulo II.