Chapitre 3- Dépôt électrolytique d’étain sur le collecteur de
I- 3-2 Confinement dans une matrice hôte : SnO 2 , SnS
“Caminhos são feitos no caminhar” Miguel de Cervantes
Tomando a epígrafe acima - escrita por Miguel de Cervantes no célebre livro “Dom Quixote de La Mancha” – passo a abordar nesta seção os “caminhos que realizei no meu caminhar” para a realização desta investigação. Caminhos e “descaminhos” que foram se efetivando ao longo do próprio debruçar sobre o objeto e as vidas dos sujeitos pesquisados.
Para a realização desta pesquisa, acabei por optar em não me filiar a um referencial teórico-metodológico fixo, que “guiasse” toda a investigação do início ao fim. Assumo, para efeito de realização deste trabalho, que realizei uma espécie de “flânerie”38 de procedimentos de investigação, buscando “capturar” e ser “capturado” pelo “deslocar-se” dos sujeitos. O que não me isenta, não me exime, em meio a uma “pluralidade teórica”, de uma necessária “vigilância epistemológica” no diálogo entre as teorias e os procedimentos de campo. É com esse espírito que apresento a seguinte metodologia da investigação.
Esta pesquisa contou com três fontes de material empírico, a saber: a observação de campo, as entrevistas semi-estruturadas e a análise de dois suportes letrados presentes nos ônibus que circulam em Belo Horizonte – os “Quadros de Horários” e
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Flanêrie trata-se da prática derivada do flanêur, personagem que surge em contrapartida à ordem social e política da burguesia presente a partir da monarquia de 1830, com toda sua operosidade comercial e bancária. Portanto, trata-se de um personagem que subverte o programa determinista e utilitário da cidade com sua atitude de voyerismo despreocupado. Como os boêmios, ambos ociosos, são figurações da instabilidade, de deslocamento permanente, da desordem, os “ciganos do espírito”. (cf. MATOS, 2010). “Pode-se dizer que o flanêur é preguiçoso, mas são os ociosos, observou Francis Ponge, que movimentam o mundo. Os outros não têm tempo algum”. (op.cit., p.288). Assim, se assumo o termo bricolagem pra dizer de uma experiência de pesquisa como alguém que faz uma montagem, faço também a metáfora do flanêur para dizer do processo de construção do objeto e da metodologia da pesquisa, processo este que não partiu de um referencial teórico a priori com base em uma lógica linear, pragmática e instrumental, mas que foi no olhar voyerista do cruzamento das diferentes e divergentes “ruas das ciências humanas” com as “avenidas das vidas dos sujeitos” que o “itinerário da investigação” foi de fato se constituindo: “caminhos feitos no caminhar”, como na epígrafe de Cervantes citada anteriormente.
o “Jornal do Ônibus”. Cada um destes procedimentos com seus respectivos alcances e restrições para se ler a realidade investigada.
O movimento da pesquisa de campo aconteceu a partir de contato com adultos trabalhadores, estudantes do Projeto de Educação de Trabalhadores (PET). Tal projeto de Educação de Jovens e Adultos situa-se na região do Barreiro, região da cidade de Belo Horizonte que possuía, no ano de 2000, 262.194 habitantes39. A observação de campo foi construída a partir de minha re-aproximação junto ao cotidiano dos trabalhos do PET, uma vez que sou professor deste projeto desde agosto de 2002. A aproximação junto aos estudantes se deu mediante conversa anterior junto aos demais professores do projeto, cujo apoio foi imprescindível para a realização da investigação. Para a realização da observação, que teve duração de abril a dezembro de 2008, foi estabelecida uma convivência prévia de cerca de seis semanas junto aos estudantes do referido projeto no espaço-tempo das aulas, para então se fazer a apresentação e o convite à pesquisa de campo. A apresentação da pesquisa ao coletivo de estudantes, pertencentes a várias comunidades da região do Barreiro permitiu, entre outras coisas, construir condições de segurança para mim e para os voluntários, uma vez que os motivos da minha presença nas referidas comunidades, bem como as intenções de acompanhar as pessoas (em especial as mulheres) eram de conhecimento público.
Tal movimento de aproximação, guardadas as devidas proporções de tempo, foi inspirado na investigação realizada por Norbert Elias; John Scotson (2000), na qual ambos se aproximaram de uma dada comunidade a partir da inserção dos mesmos no campo da docência40. Cabe dizer que Norbert Elias trabalhou na comunidade
investigada (denominada com o nome fictício de “Winston Parva”) também como professor de um programa de educação para adultos, fato este que inspirou também a minha escolha dos sujeitos da pesquisa e a forma de contato/aproximação.
39 Fonte: Censo Demográfico IBGE 2000. Disponível em: <http://www.pbh.gov.br>. Acesso em: 24 set. 2009. Vale ressaltar que a cidade de Belo Horizonte possui cerca de 2,4 milhões de habitantes, dividida em nove regiões administrativas.
40 Cabe dizer que as investigações de campo destes autores acerca das dimensões sociológicas daquilo que eles denominaram de estabelecidos e outsiders, aconteceram em um período de três anos.
Feita a aproximação e a aceitação dos voluntários da pesquisa41, esta se consistiu
na realização de acompanhamentos dos seus deslocamentos urbanos, predominantemente envolvendo os deslocamentos entre local de trabalho e local de residência.
A construção dos “acompanhamentos” de pesquisa foi feita a partir da disponibilidade dos sujeitos, com os quais sempre se agendavam previamente as datas para sua realização. Dou essa denominação de acompanhamento uma vez que tal observação participante era composta por estar junto ao sujeito em praticamente todos os momentos do dia, exceto nos seus devidos locais de trabalho. Encontrava-me com cada um dos sujeitos assim que eles saíssem de casa (independente do horário) até o seu retorno à região do Barreiro, sendo reservado um dia inteiro de observação dedicado para cada sujeito pesquisado.
Uma vez que minha presença não é neutra, passo de certa forma a também compor o cotidiano dos sujeitos pesquisados. A apreensão do lugar que minha presença exerceu sobre este cotidiano é feita a partir de entrevista semi-estruturada. Entre as questões desta entrevista procuro captar o olhar dos sujeitos sobre como a pesquisa lhes afetou em seu cotidiano.
Como já mencionado em outro ponto deste texto, o momento da pesquisa de campo acabou por se desdobrar na mudança do objeto de investigação, que acabou por sofrer uma inflexão. O objeto de pesquisa, que tratava dos processos de formação
nos usos cotidianos do transporte coletivo passa a tratar a dimensão
educativa/formativa da experiência dos deslocamentos urbanos pela cidade de Belo Horizonte e Região Metropolitana.
41 Em anexo consta o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), aprovado no primeiro semestre de 2008 pelo Comitê de Ética da Pesquisa da UFMG (COEP-UFMG) e apresentado a todos os alunos do PET, possíveis sujeitos voluntários da pesquisa. Entre os elementos principais colocados no protocolo estão o sigilo das pessoas envolvidas na pesquisa; o agendamento prévio e o acompanhamento dos deslocamentos urbanos apenas em datas e situações permitidas pelos sujeitos; o direito ao cancelamento parcial ou total da investigação em qualquer momento por parte da vida do pesquisado; a disponibilidade do pesquisador para esclarecer a quaisquer pessoas do círculo de convivência do pesquisado (família, cônjuge, entes queridos, colegas de trabalho, etc.) a natureza dos acompanhamentos e das entrevistas realizadas.
Para que se processasse esta mudança do objeto de investigação, alguns elementos foram fundamentais. O primeiro deles foi aquilo que chamo aqui de “força da empiria”. Os sujeitos concretos da pesquisa não apenas “pegam ônibus”. Precisam caminhar até o ponto; caminhar do ponto de desembarque até o seu destino quer seja este a sua casa ou seu trabalho. Precisam, muitas das vezes, prescindir do transporte coletivo, seja por questões de ordem financeira, seja pela questão da própria ineficiência da oferta de transporte. Também se valem de outras formas de se deslocar ao longo da pesquisa, como em alguns casos o metrô e mesmo o automóvel. Desta feita, o deslocar-se no ônibus (forma predominante de transporte coletivo de Belo Horizonte) está em um contexto mais amplo de múltiplas formas de se deslocar: ora substitutivas e concorrenciais, ora complementares. Há, portanto, uma pluralidade das formas de se deslocar por parte dos trabalhadores de Belo Horizonte. Percepção esta que me fez rever o objeto e as formas de trilhar os “itinerários” da investigação.
A observação participante restringiu-se aos deslocamentos envolvendo, em sua quase totalidade, os tempos de trabalho. Não desconsiderando os deslocamentos (ou a ausência deles) existentes na situação de não-trabalho, busquei apreender este espaço-tempo de vivência/experiência dos sujeitos – assim como suas percepções acerca do mesmo – a partir da realização de entrevistas semi- estruturadas.
Neste processo, algumas escolhas e renúncias tiveram que necessariamente ser efetivadas pelo pesquisador. Talvez a decisão mais difícil da pesquisa foi aquela de não se observar os deslocamentos nos “tempos de lazer” / “tempo livre” 42 dos
sujeitos. Tal decisão se deu por entender que tal tipo de acompanhamento envolveria um alto grau de intimidade e inserção na vida privada destas pessoas, naqueles tempos que de antemão se mostravam para mim como os mais escassos do cotidiano de suas vidas. Julguei que a insistência nesta observação poderia implicar em um desgaste e/ou indisposição para os demais acompanhamentos e para a própria seqüência da investigação. Outro elemento que interferiu nesta
42 Entendendo, conforme Marcellino (1987) que em verdade não existe “tempo livre, mas sim “tempo
disponível” – já que o mesmo é um tempo condicionado aos tempos do trabalho – sustento ainda sim a nomenclatura “tempo livre” nas referidas entrevistas por entender que a mesma se aproxima mais da linguagem cotidiana dos sujeitos pesquisados, uma “categoria nativa”, por assim dizer.
escolha seria a presença quase certa de outros entes queridos (família, amigos, etc.) que poderiam sentir constrangimentos, uma vez que não construí com os familiares e amigos dos pesquisados o mesmo tipo de vínculo para a realização da investigação. Mesmo entendendo que poderiam ser fornecidos elementos importantes de contraste das formas de deslocamento nos vários tempos da vida dos sujeitos, optei por suprimir esta modalidade de observação nos tempos do não-trabalho por avaliar que tal procedimento poderia ser bastante “invasivo” para com as pessoas envolvidas.
As reflexões acima também balizaram as escolhas acerca da forma de registro das observações. Sustentei o uso do diário de campo como ferramenta de registro das observações dos acontecimentos, falas, discursos e práticas ao longo dos percursos percorridos. Registro este que era feito apenas após o término do acompanhamento, em local distante da presença do pesquisado. Este procedimento foi adotado com base nos mesmos princípios e impressões em relação ao possível caráter invasivo da observação. A presença de uma câmera de vídeo registrando as falas, paisagens e ações ao longo dos percursos (em especial dentro do ônibus) poderia, a meu ver, gerar também uma situação de constrangimento e inibição dos sujeitos pesquisados. Algumas viagens, no entanto, tiveram gravação de áudio dos sons dos percursos, esta feita nos últimos acompanhamentos com mini-gravador digital e com expressa anuência dos voluntários pesquisados.
Os registros das viagens não possuíam um roteiro “a priori” do que deveria ser observado, processo de delimitação este que foi se dando na seqüência das incursões durante o campo. Neste sentido, inspiro-me em Rockwell (1989, 2009) acerca da importância, na pesquisa etnográfica, de “registrar tudo”, na perspectiva de deixar ser afetado pelo campo, ainda que sob um recorte/delimitação em função de um problema de pesquisa. Nas palavras da autora
Em um sentido, a abertura remete ao olhar com o qual nos aproximamos do campo. Recordemos que o processo normal de observação é seletivo: selecionamos em função de categorias prévias – sociais e teóricas – sobre a situação a que nos aproximamos. A tendência habitual é eliminar da vista tudo que se supõe irrelevante. Por isso, na tradição etnográfica se insiste em observar tudo, ainda que de fato seja impossível. A tarefa de observação etnográfica não procede de um momento em que se vê
“tudo” a outro em que se definem coisas para observar, e sim ao contrário. Inicialmente, a seleção inconsciente é um obstáculo para a observação e é um obstáculo para ver mais. Isto se consegue, em princípio, mediante a abertura a detalhes que ainda não encaixam em nenhum esquema e também atendendo aos sinais que proporcionam as pessoas da localidade e que indicam novas relações significativas. Assim, paulatinamente, a experiência nos leva a “abrir o olhar”: permite observar novos elementos e distinções importantes. (ROCKWELL, 2009, p.54, grifos da autora).43
Relação de “abertura do olhar” que, por sua vez, muda a relação com os referenciais teóricos de suporte
A etnografia, como procedimento de pesquisa, não requer a definição inicial de um modelo teórico acabado que funcione como “marco”, ou seja, que delimite o processo de observação, exigência, por exemplo, das pesquisas quantitativas e experimentais, nas quais a “operacionalização” das variáveis é necessária. Dado o vínculo estreito entre observação e análise, a definição de categorias teóricas de diferentes níveis vem se construindo no processo de pesquisa etnográfica. (ROCKWELL, 1989, p. 49)
Outro ponto importante trata-se do necessário diálogo entre a perspectiva dos sujeitos se deslocando com os processos sociais e culturais mais amplos envolvendo a questão urbana. A esse respeito, Fonseca (1999) adverte para os riscos de se tornar o estudo de caso como algo genérico, portanto fora das relações sociais. A autora propõe descobrir a relação sistêmica entre os elementos da vida social como o real sentido que os etnógrafos usam a observação participante, de maneira que
a abertura da antropologia para a possibilidade (e não o fato) de ‘outras lógicas’, de outras dinâmicas culturais, serve como arma contra a massificação e, em alguns casos (onde o método acerta seu alvo), pode transformar o diálogo de surdos em comunicação (op.cit, p.66).
Com base no exposto a autora vai apontar cinco elementos que constituem essa perspectiva de pesquisa na educação, a saber: o estranhamento (marcado muitas vezes pela perplexidade no encontro com o “outro”); a esquematização (pela interseção de diversas categorias sociais); a desconstrução de modelos e premissas (formados na cultura do pesquisador); a comparação de lógicas culturais e a
43 Tradução livre do pesquisador. Todas as citações em língua estrangeira sofrerão o mesmo procedimento.
construção de modelos alternativos. Ainda que não dialogando com todas as
premissas da autora, aproprio-me de sua reflexão para de dizer que os deslocamentos dos quatro trabalhadores em questão não estão isentos dos processos sociais mais gerais, em especial no que tange às condições de mobilidade urbana e de vida nas grandes cidades brasileiras.
Nesta mesma linha de raciocínio, Montes (2000) opera uma analogia dos grupos urbanos a um arquipélago, em que as distinções e isolamentos comportam uma lógica submersa que formata (tal qual as plataformas subterrâneas interligadas de cada uma das ilhas que emerge) os diferenciados grupos e práticas sociais na cidade, o que permitiria distinguir uma antropologia DA cidade de uma antropologia
NA cidade. Magnani (2000), por sua vez, vai afirmar que “recortar um objeto ou tema de pesquisa na cidade não implica cortar os vínculos que mantém com as demais dimensões da dinâmica urbana, em especial, e da modernidade, em geral”. (p.20).
Ainda que não me sinta autorizado a definir esta pesquisa como uma pesquisa etnográfica no sentido mais canônico do termo, tomei o conjunto de reflexões acima como mote para minha incursão em campo, entendendo que determinadas posturas, procedimentos/ferramentas e perspectivas advindas da etnografia poderiam me auxiliar na empreitada da investigação.
Cabe afirmar aqui que, em função desta construção, o primeiro deslocamento do sujeito pesquisado já se constituía em meu segundo deslocamento44, o que
implicava toda uma sensibilidade em torno de expectativas, ansiedades, receios, dúvidas em torno da melhor forma de efetivação da pesquisa. Assim como eu, as pessoas envolvidas na pesquisa não ficaram impassíveis diante desta nova situação. Uma vez que tal situação implicou a co-presença de pessoas de forma regular, foi inevitável a interferência da minha presença nas relações que os sujeitos experimentavam em seus deslocamentos urbanos.
44 Nas datas da observação participante, da minha residência (situada à época no bairro Buritis, Região Oeste de Belo Horizonte) ia para a região do Barreiro sempre de táxi, uma vez que optei em não residir em nenhum dos quatro bairros em que moravam os sujeitos pesquisados. Opção que por sua vez possui seus limites e possibilidades na apreensão da trama da vida urbana e dos deslocamentos dos sujeitos, já que a pesquisa constituiu-se, de certa forma, em um campo “em movimento”.
A situação da pesquisa de campo, aliada à convivência prévia no Projeto de Educação de Trabalhadores (PET) acabou por gerar situações de conversação nas viagens dos sujeitos. Longe de inibir os sujeitos da pesquisa de seus interesses em falar durante as viagens, acabei por recolher e sistematizar nas notas de campo estas falas, geralmente espontâneas (raramente eu “puxava o assunto” da conversa) sobre os mais diversos assuntos durante a viagem. Para tanto, acabei por incorporá-las ao material de pesquisa, nomeando-as de narrativas NO deslocamento (falas que se davam durante as viagens) e narrativas DO deslocamento, aquelas nas quais o próprio deslocamento é o assunto/tema de discussão. Vale lembrar que, em relação a estas últimas, também integram falas espontâneas de outras pessoas encontradas no decorrer dos trajetos dos sujeitos principais da investigação.
No que tange às narrativas DO deslocamento, ou seja, aquelas nos quais o próprio deslocar-se dos sujeitos é o assunto da discussão, temos em geral a discussão acerca das práticas do deslocamento, bem como as condições concretas do transporte coletivo como um todo. No que tange àquelas falas que denominei de Narrativas NO Deslocamento, estas apresentaram um conjunto diverso de temáticas. Entre elas, as várias denominações e nomeações da cidade pelos sujeitos, as narrativas acerca das regiões de violência, o cotidiano das aulas do PET, as narrativas de seus próprios projetos pessoais, entre outros assuntos. Importante dizer que, também de minha parte, os períodos de observação por vezes me capturaram a dizer de mim para os sujeitos: meu trabalho como professor, minhas práticas de “tempo livre”, meu cotidiano, etc. Deste modo, não consegui “distanciar- me” dos sujeitos em deslocamento com parâmetros de total “neutralidade” e “impessoalidade”, tão pressupostos e demandados em alguns matizes de pesquisa em ciências sociais.
Após o período da observação participante (composta por vinte datas de acompanhamentos, distribuídos entre os quatro sujeitos pesquisados) realizei um conjunto de entrevistas semi-estruturadas individuais, entrevistas estas com cerca de duas horas de duração cada. A partir deste instrumento busquei apreender elementos que não foram possíveis de serem apreendidos na pesquisa de campo: a história de vida dos sujeitos e como cada região da cidade lhes tocou em suas vidas; as diferenças entre deslocar-se com ou sem a presença do pesquisador pela cidade;
as apropriações e deslocamentos do bairro e da cidade nos tempos do não-trabalho; os percursos de formação no mundo do trabalho; seus projetos e aspirações para a sua vida pessoal e profissional. Entrevistas estas que busquei colocar em diálogo com as falas e depoimentos dados durante o deslocamento pela cidade. Tive como propósito analisar os pontos de complementaridade, aglutinação, tensão e contradição entre o vivido e o narrado, de forma que fosse possível obter um panorama de como esta experiência urbana do “se-deslocar” constitui a formação humana dos sujeitos.
Investigar “os sujeitos se movimentando” implica por conseqüência o reconhecimento do meu “me-movimentar” enquanto pesquisador: meu deslocar física e corporalmente “EM DIREÇÃO AOS” e “PELOS” percursos construídos pelos sujeitos da pesquisa. Mas também implica falar do “deslocar do olhar” ao longo da investigação: “deslocar” este que diz respeito aos “trânsitos” pelas diversas produções teóricas, ora de maneira “instrumental”, ora de forma “contemplativa”. Eventualmente tal “trânsito teórico” se fez também como um “flanêur”, ainda que na “contramão” diante de certos princípios que se colocam hoje para a produção do conhecimento acadêmico. Produção esta infelizmente – para usar uma linguagem adorniana – cada vez mais “administrada” por uma lógica burocrático-institucional.