1.3. Social identity theory
1.3.3. Conditions that enhance or inhibit social identity salience: The role of motivation and the social context
Ao levar em consideração a totalidade do ser social no processo de investigação científica desse fato singular – o movimento de desenvolvimento da capoeira, procuramos explicitar criticamente e autocriticamente, no nível da consciência, os seus nexos e determinantes históricos que constituem toda a sua concreticidade específica.
Ao explicitar as contradições existentes no movimento de desenvolvimento da capoeira e suas possibilidades de superação a partir de ações interessadas, o fizemos balizados pelos argumentos de Freitas (2000, p. 71), que nos diz: “o cerne do procedimento metodológico diz respeito à construção, no pensamento, do desenvolvimento das contradições presentes na prática, incluindo suas possibilidades de superação”.
Este estudo teve, portanto, uma dupla objetivação. Além da análise do fenômeno investigado, contém uma possibilidade de ação na realidade a partir das contradições presentes na capoeira que se expressam no seu processo de internacionalização e na sua inserção no contexto educacional formal e não-formal.
Tentando escapar das pretensões de neutralidade na investigação científica, ele está sintonizado com o que afirma Minayo (2000, p. 93), quando diz que “ninguém coloca uma pergunta se nada sabe da resposta, pois então não
114 haveria o que perguntar. Todo saber está baseado em pré - conhecimento, todo fato e todo dado já são interpretações, são maneiras de construirmos e de selecionarmos a relevância da realidade”.
Isto não significa que já sabemos, de antemão, a resposta definitiva do que perguntamos. Se assim fosse, uma investigação científica não teria sentido algum. Um método eficaz deve conter em si a propriedade de encontrar o que, hipoteticamente, não se procura. É por isso que as perguntas científicas devem partir de uma realidade concreta, à medida que, segundo Kosik (1976, p. 13), para se compreender a realidade deve-se começar pelo concreto, pela “coisa em si”, mas ela se manifesta imediatamente ao homem. “Todo agir é unilateral, já que visa a um fim determinado e, portanto, isola alguns momentos da realidade como essenciais àquela ação, desprezando outros, temporariamente” (Kosik, 1976, p. 19). Assim, um inventário não rigoroso pode desembocar em análises positivistas que confundem realidade com coisalidade. Por exemplo, em economia política, para analisar uma determinada sociedade, começa-se pela população que é a base e o sujeito do ato social de produção de um todo. Mas a população, segundo Marx, é uma abstração caso não se leve em consideração as classes sociais de que se compõe, e “essas classes serão ‘ocas’, se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital etc.” (Marx, 1983, p. 218). Para a compreensão da “coisa em si”, torna-se necessário fazer, portanto, um détour, ou seja, um desvio para entender que “a realidade não se apresenta aos homens, à primeira vista, sob o aspecto de um objeto que cumpre intuir, analisar e compreender teoricamente” (KOSIK, 1976, p. 13), mas como o campo “em que se exercita a sua atividade prático-sensível, sobre cujo fundamento surgirá a imediata intuição prática da realidade” (op.cit., p. 14). A compreensão das coisas e da realidade implica em
115 assumir a consciência do fato de que existe algo susceptível de ser definido como estrutura da coisa, essência da coisa, “coisa em si”, e de que existe uma oculta verdade da coisa, distinta dos fenômenos que se manifestam imediatamente. O fenômeno é um dado que existe tanto na realidade quanto no cérebro, portanto, é preciso, a partir de um desvio que alie ciência e filosofia, desmoronar o mundo da aparência, o mundo da “pseudoconcreticidade”, já que este, por sua vez:
é um claro-escuro de verdade e engano. O seu elemento próprio é o duplo sentido. O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo, a esconde. (...) O fenômeno indica algo que não é ele mesmo e vive apenas graças ao seu contrário. (...) Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a “coisa em si” se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde (...). Se a aparência fenomênica e a essência das coisas coincidissem diretamente, a ciência e a filosofia seriam inúteis (Kosik, 1976, p. 15-17).
O pensamento dialético não nega a existência ou a objetividade dos fenômenos, mas questiona a sua pretensa independência, fixidez e naturalidade. Entretanto, a destruição da pseudoconcreticidade é apenas uma faceta da dialética materialista histórica. “Para que o mundo possa ser explicado criticamente, cumpre que a explicação mesma se coloque no terreno da práxis revolucionária” (Kosik, 1976, p. 22). Ao contrário da pseudoconcreticidade, o mundo da realidade é
o mundo da realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade
devém. (...) A destruição da pseudoconcreticidade significa que a
verdade não é nem inatingível, nem alcançável de uma vez para sempre, mas que ela se faz; logo, se desenvolve e se realiza (Kosik, 1976, p. 23).
Para desmontar o mundo da pseudoconcreticidade da capoeira, tratada aqui como uma construção cultural, procuramos ir para além das aparências que os dados empíricos demonstram. Aliás, convém destacar que o empirismo, via de regra, contém um ontologismo ingênuo por esboçar apenas uma visão periférica do fenômeno investigado e, quando realçado por preciosismos intelectuais, pode resultar em armadilhas das mais fantasiosas aventuras livrescas.
116 É por isso que, para atingir os nossos objetivos formulados inicialmente, o materialismo histórico e dialético constituiu-se numa abordagem teórico- metodológica adequada para a nossa empreitada de investigação. Primeiro, por permitir a identificação de nexos internos entre o particular e o universal, a partir do seu movimento histórico, ou seja, entre a prática pedagógica e o projeto histórico. Segundo, pelas aspirações de futuro que ele advoga, a partir das possibilidades de transformações no/do modo de produção e controle social a serem implementadas por um vasto e criativo movimento de massas articulado, intimamente, com todas as lutas sociais que auspiciam um futuro melhor para além da ditadura do capital.
O materialismo histórico-dialético, para ser compreendido em sua globalidade, precisa ser concebido como unidade entre ontologia, gnosiologia e lógica, ou seja, como unidade entre a dialética objetiva do processo histórico de desenvolvimento do gênero humano, fruto do trabalho, a dialética histórica dos processos de conhecimento da realidade pelo ser humano e, finalmente, a dialética também histórica dos processos de pensamento humano. Segundo Minayo (2000, p. 65),
enquanto o materialismo histórico representa o caminho teórico que aponta a dinâmica do real na realidade, a dialética refere-se ao método de abordagem deste real. Esforça-se para entender o processo histórico em seu dinamismo, provisoriedade e transformação.
Embora estivéssemos interessados, de imediato, na descrição e na explicação de processos que ocorrem na prática pedagógica com a capoeira, tínhamos a consciência de que eles teriam que ser vistos a partir de uma perspectiva mais ampla. Nesse sentido, vozes foram dilatadas, sobretudo as dissonantes, conflitos foram estimulados em vez de serem removidos ou pacificados, fragmentos multivocais foram considerados na dinâmica da ação comunicativa que procurou dilatar o local e reduzir o global. Procurando interagir o
117 político, o econômico, o social e o ideológico, conceitos foram articulados, desarticulados e rearticulados, levando-se em consideração tanto a conjuntura quanto as contingências.
Nesse jogo investigativo, procuramos incorporar, em nossas possibilidades de análise, a polifonia tanto do objeto quanto do método, proporcionando à pesquisa uma abordagem policêntrica e polifônica, que relega as formas dualistas do pensamento binário (natureza - cultura, corpo – mente etc.) e se recusa, veementemente, a colher elementos denominados “originários” ou “nativos” no fluxo plural de sincretismos e dissonâncias.
Não foi nosso objetivo investigar a origem da capoeira. Essa investida já foi realizada por outros autores como Soares (2001) e Pires (2001), dentre outros. Ao explicitar as leis que determinam a transformação, ou seja, o desenvolvimento do fenômeno investigado, procuramos fugir de perspectivas essencialistas, puristas, nacionalistas, normatizantes e exotizantes. Percebíamos, no desenrolar do processo investigativo, que essas leis não dependiam da nossa vontade, da nossa consciência e das nossas intenções, em particular, entretanto, contraditoriamente, influenciavam nossa vontade, nossa consciência e nossas intenções.
Por mais complexos que fossem os nossos esquemas de investigação, eles não conseguiriam explicar o fenômeno em todas as suas particularidades. Mas isso não nos afligiu, à medida que já havíamos aprendido que todo e qualquer fenômeno constitui-se numa síntese de múltiplas determinações. Por isso, através das possibilidades metodológicas utilizadas nesta investigação, procuramos explicitar as regularidades do mesmo, ou seja, as leis responsáveis pelo seu desenvolvimento histórico.
118 Aprendemos, com essa vivificante experiência, que a perspectiva de análise cartesiana simplifica, decompõe, desmonta o todo em partes elementares, presumindo existir uma transparência nos fenômenos sociais, mas não consegue explicar o complexo dos mesmos. A aderência pragmática aos fatos imediatamente dados, exclui da concepção de conjunto certas conexões efetivamente existentes, sendo que uma pretensa fidelidade aos fatos conduz a reedições vulgares de empirismo (Lukács, 1979).
Nessas “veredas abruptas”, encontramos empecilhos para elaborar o nosso método de exposição, apesar de alertas sobre a dificuldade de se abordar a dialética como método de pensamento, à medida que ela rejeita qualquer formalismo em sua própria exposição. Para Freitas (2000, p. 74), “a dialética parece algo que só pode ser vivenciado, daí a dificuldade de uma apresentação formal sobre ela e, também, a dificuldade para apreendê-la”.
Tentando escapar de idealizações, não abdicamos, durante todo o processo de investigação, de um conteúdo concreto (o movimento histórico da capoeira), tal como sugere o método dialético. Considerando que existe uma distinção entre a matéria e a consciência, no sentido de que a primeira tem existência independente da segunda e constitui a base do conhecimento humano, o nosso método de investigação consistiu, primeiramente, na representação do empírico. Representação não é o conhecimento do empírico, é apenas o primeiro passo para a sua apreensão em forma de conceito. Trata-se, para Marx (1983), de um ato cognitivo inicial, confuso e caótico, mas que já permite a formulação de conceitos simples. Esse processo de abstração analítica vai progressivamente assimilando conceitos simples e determinações abstratas e, provisoriamente, destaca a parte do todo. Para o materialismo histórico dialético, as representações,
119 mesmo que permitam conhecer determinados atributos do objeto, não conseguem captar os nexos internos, o movimento do real, o geral e o singular. Os traços essenciais captados podem ser confundidos com os individuais e aparecer em forma casual e particular.
A investigação iniciou, portanto, a partir do concreto vivido, pois o ideal, para Marx (1999, p. 28), “não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado". Em outras palavras, o materialismo histórico não nega o ideal, pelo contrário, toma-o como um fato real (material) e tenta compreendê-lo a partir das suas condições de existência.
O passo seguinte do método de investigação foi a passagem do abstrato à totalidade concreta geral – o concreto pensado, que consistiu na ênfase das relações da parte com o todo, num caminho inverso ao realizado pela abstração. Esse movimento é um processo permanente com continuidades e rupturas. Segundo Wachowicz (2001, p. 37):
o processo científico do pensamento, no método dialético, começa na abstração que resultou da busca das determinações do real. Embora essa busca tenha iniciado pela observação imediata e a representação do real, este não é tomado como ponto de partida, mas apenas de referência para a abstração. (...) O pensamento parte não de um imediato unilateral, mas de uma síntese de determinações encontradas na representação do real, como uma totalidade real. Ou seja: o pensamento começa sobre um todo, a que Marx chama de abstrato, constituído de relações gerais e determinações simples e parte para o concreto, constituído de relações múltiplas e determinações complexas. A totalidade permanece durante todo o processo como categoria metodológica. O concreto é mais complexo que o abstrato, por isso o método começa no abstrato e eleva-se até o concreto (...).
Esse processo de construção da totalidade concreta implica eliminar, via abstrações e generalizações, aspectos particulares do fenômeno para “ver” o essencial, o fundamental, que agrega dialeticamente o lógico e o histórico. “A investigação lógica mostra onde começa o histórico, e o histórico completa e pressupõe o lógico” (Kosik, 1976, p. 60). A totalidade é, portanto, a essência, porque
120 deixou de lado aspectos específicos, factuais, sem desprezar a riqueza do real, isto é, sua contraditoriedade e multiplicidade de significados. Compreender e explicar a totalidade implica numa indagação sobre a sua gênese e as “fontes internas do seu desenvolvimento e movimento” (Kosik, 1976). Essa concepção “genético-dinâmica” de totalidade foi destacada por Marx em suas análises sobre o capitalismo.
Segundo Kosik (1976, p. 58-59):
O ponto de vista da totalidade concreta nada tem de comum com a totalidade holística, organicista ou neo-romântica, que hipostasia o todo antes das partes e efetua a mitologização do todo. A dialética não pode entender a totalidade como um todo já feito e formalizado, que determina as partes (...). A totalidade não é um todo já pronto que se recheia de um conteúdo, com as qualidades das partes ou com as suas relações; a própria totalidade é que se concretiza e esta concretização não é apenas criação no conteúdo, mas também criação do todo.
Assim, para que atingíssemos o conhecimento concreto da realidade do fenômeno investigado, foi preciso fazer o “caminho de retorno” (Marx) em direção à totalidade. Entretanto, desta vez, o mesmo já não consistia numa representação caótica do todo, mas sim, numa rica totalidade de determinações e relações diversas. Ou seja, numa totalidade histórica, permeada de contradições, pois “totalidade sem contradição é vazia e inerte, as contradições fora da totalidade são formais e arbitrárias” (Kosik, 1976, p. 60).
Enfim, a totalidade do fenômeno investigado somente pode ser entendida como movimento e desenvolvimento das relações recíprocas entre o particular e o geral, materializados pelas ações de sujeitos históricos reais que, no processo social de produção e reprodução da vida, concretizam o infinito processo de “humanização do homem”.
Diferente da totalidade estruturalista, que resulta da combinação de estruturas autônomas, cujos frutos da atividade humana são desligados da atividade
121 em si, manifestando uma “falsa totalidade”, a totalidade materialista constitui a criação da produção social do homem, ou seja, a práxis humana objetiva.
Como pontos de apoio do conhecimento, as categorias, mo materialismo histórico-dialético, são resultado da atividade criadora do investigador, e seus conteúdos devem coincidir com a essência da realidade investigada, sensivelmente distinta dos fenômenos, “chegando mesmo a contradizê-los, já que eles não coincidem com sua essência” (Cheptulin, 1982, p. 18).
Minayo (2000) distingue as categorias em “analíticas”, “empíricas” e “operacionais”. As analíticas operam como ferramentas no processo de desvendamento das relações essenciais e “podem ser consideradas balizas para o conhecimento do fenômeno nos seus aspectos gerais. Elas mesmas comportam vários graus de abstração, generalização e de aproximação” (ibid., p. 94). As categorias empíricas e operacionais operam como ferramentas para captação das contradições no nível empírico do fenômeno.
Nesse sentido, neste estudo, foram tomadas como categorias analíticas os processos de organização do trabalho pedagógico, a práxis pedagógica e o trato com o conhecimento da capoeira na perspectiva da construção do projeto histórico para além do capital.
Como categorias empíricas e operacionais, trabalhamos com o que denominamos de referências significativas, extraídas da “realidade” do movimento histórico-cultural da capoeira e das experiências desenvolvidas em instituições formais e não-formais de ensino e a “possibilidade” dessas experiências se realizarem quando as condições materiais se tornarem propícias.
Ao recorrermos as categorias "realidade" e "possibilidade", que desde a antiguidade são alvos de preocupação dos filósofos, tomamos como referências os
122 pressupostos de Cheptulin, que as aborda a partir de uma concepção dialética e materialista. O referido autor argumenta que:
se conhecemos a essência de uma formação material, conhecemos tanto seus estados reais, como seus estados possíveis, os que ainda não existem, mas que surgirão necessariamente em certas condições
(CHEPTULIN, 1982, p.335).
O que nos interessou foi analisar a realidade e as possibilidades de trato com o conhecimento da capoeira no currículo de formação profissional, por meio do processo de organização do trabalho pedagógico e da produção e apropriação do conhecimento, para reconhecer o que isso representa neste momento histórico.
Cheptulin (1982) considera a categoria “realidade” como aquilo que existe realmente, ou seja, “a unidade realmente existente do necessário e do contingente, do interior e do exterior, da essência e do fenômeno” (ibid., p. 340). A categoria “possibilidade” diz respeito às formações materiais, propriedades, estados, que não existem na realidade, mas que podem se manifestar, em decorrência da capacidade que as coisas materiais têm de se transformar. Realizando-se, a possibilidade transforma-se em realidade, sendo esta, portanto, uma possibilidade já realizada e a possibilidade, uma realidade em potencial.
Ao reconhecermos as possibilidades e ao admitirmos que elas se transformam em realidade, em condições determinadas, podemos interferir no curso objetivo dos acontecimentos e, mediante condições requeridas, acelerar ou refrear a transformação de possibilidades em realidade.
Uma dada formação material possui uma quantidade infinita de diferentes possibilidades (formais e reais) e, de acordo com as condições necessárias para a sua realização, elas podem ser concretas e abstratas.
Uma possibilidade concreta é a possibilidade para cuja realização podem ser reunidas, no momento presente, as condições correspondentes; a possibilidade abstrata é uma possibilidade para cuja realização não há, no momento presente, condições necessárias. Para
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que esta última se realize, a formação material que a contém deve transpor vários estágios de desenvolvimento (CHEPTULIN, 1982, p. 342).
Enfim, na passagem de um estado qualitativo a outro, a formação material jamais esgota suas possibilidades. Nesse sentido, Cheptulin (1982) faz ainda uma outra distinção a respeito da realização das diferentes possibilidades próprias a uma formação material, pois elas não agem da mesma forma sobre a essência de uma dada formação material:
A possibilidade cuja realização não modifica a essência da coisa é denominada de possibilidade de fenômeno; a possibilidade cuja realização está ligada à modificação da essência da coisa, com a sua transformação em uma outra coisa, é denominada de possibilidade de essência (op. cit., p. 344)