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3. Le conditionnement des médicaments : une source primordiale d’informations 36

3.2.1 Le conditionnement secondaire

Expostas as escolhas metodológicas, torna-se fundamental abordar e refletir acerca do tempo decorrido no terreno de investigação.

A entrada no terreno deu-se em Fevereiro de 2017, após autorização da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) para que a investigação se realizasse no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo Feminino (EPSCB). A escolha deste estabelecimento prisional como campo de estudo deveu-se exclusivamente à sua proximidade geográfica. A recolha de dados decorreu, de forma continuada, entre Fevereiro e Abril de 2017.

O trabalho de campo iniciou-se com a realização de várias reuniões com a diretora do EPSCB e da responsável pelo departamento disciplinar, com o objetivo não só de conhecer o espaço físico, mas também todas as suas dinâmicas organizacionais, visto se tratar de um espaço de reclusão onde existem um conjunto de regras e horários a serem cumpridos, rotinas institucionais, com os quais a investigação não poderia interferir.

Acerca dos primeiros dias no terreno, e como referido por Gomes & Duarte, (2016):

primeiro estranha-se, depois entranha-se. Nos primeiros dias, todos os procedimentos de segurança, os muros altos, as grades, os portões a fecharem-se por detrás de mim, ao contrário do que seria suposto, eram geradores de uma certa insegurança, no entanto com o tempo esta sensação foi cessando, e este espaço que no início me era estranho foi-se tornando familiar.

Definidos os limites dentro dos quais o estudo poderia decorrer, passou-se à seleção da amostra, e uma vez que nos métodos qualitativos as amostras não se pretendem aleatórias, mas intencionais, eram requisitos de seleção do grupo de análise: ter tido contacto com o sistema de promoção e proteção e/ou sistema de justiça juvenil e ter sido condenada a pena de prisão efetiva. Assim, e devido à falta de informação nos processos individuais das reclusas acerca dos seus históricos de institucionalizações foram, desde logo, distribuídos pelas várias alas do estabelecimento prisional um conjunto de questionários (cfr. Anexo 1) cujo objetivo era selecionar, de entre a população prisional total, as reclusas que em algum momento das suas vidas estiveram ao abrigo do sistema de promoção e proteção e/ou sistema de justiça juvenil.

Do total de questionários entregues – 257 - foram respondidos 159 e apenas 8 reclusas correspondiam aos critérios anteriormente mencionados, sendo que uma não aceitou participar no estudo. A amostra 1 seria, então constituída por 7 participantes que tiveram contacto com o sistema de promoção e proteção, através da medida de acolhimento residencial e 2 com o sistema tutelar educativo, através da medida de internamento em centro educativo, inclusive.

Dado o reduzido número da amostra conseguida, e apesar de no início da investigação se pretender uma amostra única, optou-se por selecionar uma segunda amostra, cujo critério de inclusão seria: ‘ter sido condenada a pena de prisão efetiva’. Esta opção, necessária para garantir uma maior fiabilidade dos resultados, implicou um reajustamento dos objetivos específicos do estudo, uma vez que se tornou necessário fazer uma análise comparativa entre as trajetórias de vida das participantes que compõe as duas amostras. Ainda que se tratando de amostras distintas, esta análise funcionou como uma estratégia de validação dos resultados.

Por uma questão de gestão de tempo, esta segunda amostra foi selecionada com a ajuda dos técnicos de reinserção social, garantindo-se assim que as reclusas selecionadas seriam capazes de responder às questões da investigação. Foram tidos em consideração critérios como a saúde mental das reclusas, comportamento prisional e a sua adesão às atividades desenvolvidas no estabelecimento prisional. Selecionaram-se 7 mulheres para manter o mesmo número das participantes da primeira amostra.

A amostra final englobou 14 mulheres.

Em termos de idade, crimes perpetrados, qualificações académicas e profissionais, a amostra foi constituída por mulheres com idades compreendidas entre os 19 e os 56 anos e que se encontravam em situação de privação da liberdade pelos crimes de tráfico de estupefacientes (N=6), ofensa à integridade física (N=2)3, furto (N = 3), escravidão (N = 1), homicídio (N = 1) e

roubo (N=3).

Em termos de qualificações académicas, a quase totalidade das mulheres não cumpriu a escolaridade obrigatória4 e em alguns casos nem sequer chegaram a frequentar (N=2). As

reclusas com atividade profissional antes da detenção eram trabalhadoras não qualificadas do comércio – feirantes (N=3) e vendedoras ambulantes (N = 1) - e da área dos serviços – empregadas de balcão e limpezas (N=5) – ou desenvolviam tarefas de operariado não qualificado (N=1).

3Em ambos os casos em concurso com o crime de roubo

Após selecionada a amostra, realizaram-se as entrevistas. As entrevistas tiveram uma duração média de 60 minutos e foram realizadas nos próprios locais da pesquisa, numa sala cedida para o efeito. A sua marcação obedeceu às contingências próprias das disponibilidades - pessoais e institucionais. Todas as entrevistas foram gravadas em formato áudio e acompanhadas por um registo de observação, onde se anotaram pequenas sínteses da conversa tida, complementos de informação ou questões a esclarecer.

Sobre o papel de investigadora, até à realização da primeira entrevista, as questões, os medos e os serás eram mais que muitos, uma vez que se tratava do meu primeiro trabalho de campo. Será que vou conseguir colocar à vontade suficiente ao longo das entrevistas para que estas mulheres falem abertamente, como pretendido, das suas histórias de vida? Será que vou conseguir transparecer imparcialidade, colocar de lado os meus próprios estereótipos? Será que vou ser capaz de questionar, e visto que muitas vezes se tratam de episódios de vida delicados, sem ferir suscetibilidades? Essencialmente, será que vou ser capaz?

Disse atá à primeira entrevista, porque na primeira entrevista percebi que seria capaz. Porque essencialmente, e ao contrário do que idealizava, aquelas mulheres não eram assim tão inacessíveis. Todas as mulheres se demonstraram disponíveis, eu diria mesmo solidárias, eu quero que consiga acabar o seu trabalho, era uma frase constante. O difícil não foi conseguir que estas mulheres me contassem as suas vidas, foi conduzir as entrevistas para os seus tópicos essenciais, o que em certos momentos não fui capaz. Não por defeito do instrumento, mas por perceber que havia nestas mulheres uma necessidade urgente de serem ouvidas, de falarem dos filhos, do dia-a-dia na prisão, das saudades de casa. Em certos momentos senti que dar-lhes voz e ouvido seria também uma forma de agradecimento.

2. Descrição dos Resultados