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O meu contato inicial com Felipe Gembroso se deu por intermédio de Shilton, da Born to Freedom. Da mesma forma que alguns outros interlocutores, como o próprio Shilton e Paulo Henrique, eu já “conhecia” Gembroso por vê-lo constantemente participando de alguns eventos – não apenas musicais – que aconteciam na cidade de Natal. Dessa forma, Shilton comentou que seria interessante conversar com ele, tendo em vista que ambos já estavam a muito tempo “nos corres” do Hardcore. Dessa forma, Gembroso e eu tivemos a oportunidade de conversarmos rapidamente em um evento (Quadrilha Hardcore) no Dosol, onde trocamos contato para marcamos um dia no qual pudéssemos dialogar com mais tranquilidade. Como durante a semana Gembroso é aluno

de wrestling77 na UFRN, achamos que seria mais conveniente para ambos nos

encontrarmos na universidade momentos antes de seu treino, próximo ao ginásio aonde treina.

A “trajetória musical” de Gembroso e o processo de formação da Psicomancia Como sempre venho procurando fazer com todos os interlocutores, perguntei lhe quais tinham sido seus primeiros contatos com a música e a consequente formação de suas primeiras bandas. Gembroso relembrou que muito do seu contato inicial teria sido em decorrência da vivência com amigos tanto da escola quanto do bairro em que

morava78. Ao ficar sabendo que um antigo amigo (Hélder) da escola tinha uma banda de

Rock que tocava covers de bandas como Nirvana79, Planet Hemp e Legião Urbana, entre

outras bandas, Gembroso teria começado a aprender a tocar baixo com outro amigo (Eduardo), surgindo, assim, a vontade de “fazer um som” com seus amigos.

Vale perceber – na fase de aprendizagem – o quanto a transmissão de conhecimento musical é muitas vezes através da oralidade e da prática em conjunto.

Mesmo aqueles que vêm de uma família com certa bagagem dentro da música80, acabam

realizando seus primeiros acordes por conta própria ou por intermédio de amigos mais próximos. Nem sempre o desenvolvimento de técnicas e habilidades em algum tipo de instrumento se dá através do ensino “regrado”, ou ainda, através de cursos e aulas, mas baseado, sobretudo, na prática e na convivência próxima a outros músicos.

Na medida em que dialogávamos, uma dificuldade ficou muito evidente: a constante chegada de companheiros de treino de Gembroso. Erámos constantemente interrompidos durante a entrevista. Algumas vezes, Gembroso chegava a perder o raciocínio e tinha dificuldade em retornar ao ponto que estávamos conversando.

Como os interlocutores têm outras atribuições cotidianas que não a música, minha

aproximação junto a eles foi por várias vezes dificultosa. Assim, a estratégia metodológica que utilizei durante todo o período de campo foi conseguir, de alguma forma, encontrá-los em seus cotidianos fora da música de forma a poder dialogar com eles, porém, muitas vezes essa alternativa se tornava falha. Como geralmente os encontrava entre seus diferentes compromissos diários, a falta de tempo disponível para diálogo limitava o meu aprofundamento dentro das temáticas que queria abordar em relação às suas experiências musicais.

Além dessa própria limitação, ainda houve diferentes percalços. Por exemplo, durante o decorrer de minha entrevista com Gembroso, em torno de sete pessoas se aglomeraram em nossa volta, inclusive, prestando atenção à nossa conversa. Todavia, essa limitação pôde, em algum nível, ser transformada em “trunfo”. A partir da interação com interlocutores “não previstos” no decorrer do campo, novas informações puderam ser levantadas. Neste sentido, ao passo que Gembroso narrava algumas de suas “histórias

78. Barro Vermelho, localizado na zona leste de Natal. 79. Banda norte-americana de grunge.

80. Caso de Paulo Henrique, que já tinha uma certa “veia musical” adquirida de gerações passadas de sua

musicais”, surgiam nomes em comum para seus companheiros que acompanhavam a entrevista, o que fazia com que criassem curiosidade sobre o que estava sendo narrado. Isso fazia com que Gembroso lembrasse de alguns acontecimentos, tornando, assim, a narrativa mais completa. Logo, durante o campo surgiram alguns antropólogos de “ocasião”, que tiravam tantas dúvidas quanto eu. Portanto, enquanto por um lado essa aglomeração dificultava o diálogo, por outro mostrou-se provedora de novas informações.

Retornando à trajetória de Gembroso e da Psicomancia, em meados do ano de 2002 teria sido o período em que teria começado a gravar alguns CDs de forma caseira, compostos por suas primeiras músicas autorais. No entanto, Gembroso comentou que como todos os integrantes ainda não tinham muita habilidade tocando seus respectivos instrumentos, suas produções iniciais teriam sido bem simples – musicalmente falando –

ou como nas palavras de Gembroso “naquele estilo bem punk rock81 de três notas só e

rápido”. Neste contexto, comentou que teriam continuado ensaiando mesmo não tendo consciência da dimensão de como se portarem enquanto banda, o que teria feito com que suas músicas, na sua visão, não tivessem boa qualidade. Entretanto, um acontecimento teria sido de vital importância para o que a Psicomancia se tornou hoje: o convite para o show da Opinião Formada.

Após esse convite, Gembroso e seus companheiros de banda teriam começado a discutir sobre qual seria o nome definitivo do grupo. Devido ao gosto compartilhado entre eles pela banda brasileira de “Trash metal” Sepultura, primeira sugestão teria sido colocar “Necromancia”, nome inspirado na música “Necromancer”. No entanto, Gembroso teria lembrado que já existia uma banda com este nome sugerindo outra nominação “então

bota Psicomancia. Por fim, ao ver qual era o significado82 da palavra, concluiu “é esse

mesmo! Bem assustador!”.