CHAPTER III. RECENT POLICY DEVELOPMENTS AND KEY ISSUES
4. Conclusions: lessons learned and way forward
São vários os elementos cartografados na manutenção da sustentabilidade dessa comunidade, no que tange ao processo de feitura da panela de barro, as relações na comunidade escolar e ao próprio território, como descrito no capítulo anterior. Vamos nos ater à ideia das várias sustentabilidades, entendendo-as como um agenciamento imerso na rede deste território.
Na preservação e conservação das fontes de matérias-primas, privilegia-se o manguezal, fonte do tanino, e o Parque Natural Municipal Vale do Mulembá-Conquista, fonte do barro, com perspectiva de esgotamento da jazida. O barreiro é a única fonte historicamente conhecida da matéria-prima.
Com a divulgação, pela mídia, e os prêmios recebidos, a velocidade da extração e a venda de panelas tende a aumentar para suprir a demanda do comércio. Alguns estudos foram feitos para saber se existia alguma outra jazida, mas a argila do Vale do Mulembá é única na região. Escavações foram realizadas para construir a estação de tratamento de esgoto que está sendo erguida numa área que pertencia ao Parque e hoje é da Companhia Espírito- Santense de Saneamento (Cesan). Esse projeto motivou a mobilização de artistas e intelectuais do Estado, em prol de embargá-la, pelo receio de haver vazamento de esgoto e consequente poluição do barro, o que paralisaria o ofício das Paneleiras, como conta o tirador de barro:
Vem geólogo, vem tudo aqui pesquisar, vem IPHAN, eles não sai daqui de dentro. O governo mandou esse pessoal vim fazer escavação, veio fazer um poço [mostra uma broca], cada lugar que furava aí, marcava com um pau e falava: ‘Aqui você pode tirar... Aqui não pode’, e marcava com uma estaca... ‘Aqui dá dois metros... Aqui dá mais...’. Fizeram isso por causa da estação de lá. Ficaram com medo deles fazer aquilo e acabar o barro... mas tem muita coisa ainda...(TIRADOR de barro). Outro elemento fundamental, retirado de forma artesanal pelo casqueiro, é o tanino, que é transportado de canoa até certo ponto do manguezal. É extraído de forma cautelosa para não matar a árvore, a Rysophora mangle. O casqueiro utiliza uma ferramenta chamada “porrete” para retirar a casca que, depois de macerada, é colocada em infusão com água na obtenção do tanino. O anelamento, ou seja, a retirada de mais de 50% da casca do tronco provoca a morte da árvore. Geralmente, as árvores são agrupadas. A morte de um elemento pode levar ao enfraquecimento das que estão ao seu lado. Isso possibilita o aparecimento de clareiras e contribui para o assoreamento em longo prazo dos canais, comprometendo a navegabilidade do canal da Passagem, que é formado pelo Rio Santa Maria de Vitória, principal aporte fluvial da região.
Como as Paneleiras dependem da preservação do ecossistema, a coleta da casca do mangue-vermelho, para extração do tanino, limita-se a uma parcela da casca. Isso permite a recomposição da espécie, fruto do programa de Educação Ambiental "Panela de Barro, uma tradição a ser mantida: estratégias para coleta sustentável da casca do mangue-vermelho", proposto e realizado pela Ufes em parceria com o Ibama, entre 1998 e 2000, como indicam as placas (Figura 31) fixadas no galpão provisório:
Figura 29 – Placas fixadas no galpão
Fonte: Produzida pela Autora durante a realização da pesquisa.
A casca madura é retirada, já que o teor do tanino é alto na árvore adulta. Há um trabalho de sensibilização das Paneleiras e dos casqueiros, para que se evitem o uso de casca verde, protegendo, assim, o manguezal e garantindo a extração continuada, como o ressalta a placa “Paneleira bem informada prefere casca madura”.
Figura 30 – Placa fixada em galpão familiar
Fonte: produzida pela Autora durante a pesquisa.
O processo de retirada do tanino ilustra bem a questão da sustentabilidade. Existe uma exploração, mas de forma adequada. A retirada da casca não afeta tanto o ecossistema, ou seja, ele recompõe, oferecendo a casca novamente depois de certo tempo. A sustentabilidade não é feita de atitudes radicais ou fundamentalistas. As práticas
sustentáveis estão em conformidade com a política de narratividade a qual a pessoa está conectada, mesmo que para uns ela pareça ser bem extrema, enquanto, para outros, é muito simples e corriqueira. Qual imagem grande parte da população tem recebido da sustentabilidade?
Estamos falando de uma adaptação, de uma conexão ao nosso ambiente físico, de uma dependência com a natureza a estilos de vida que possam pensar nos outros seres humanos, apostando na vida e não em seu detrimento para fartura de uns e miséria de muitos. A
Ryshophora mangle, a árvore, dá conta de se recompor, quando cuidados são tomados,
quando a ganância é controlada, e a árvore consegue ressurgir, entregando-se novamente à extração. Sem os cuidados necessários, morreria e levaria com ela vários indivíduos, causando um efeito em cascata de morte e trazendo inúmeros problemas. A árvore se apoia e se sustenta nas outras árvores e, na sua adequação ao novo “tronco descoberto”, ainda é capaz de dar alimento e continuar viva. Para isso, existe o conhecimento e o desejo. Sato (2011, p. 21) nos ensina que:
As comunidades detêm conhecimentos próprios, mas não utilizam a linguagem acadêmica para legitimar este saber. Há sabedoria que flui de uma relação que poderia envolver diversas formas de conhecimento, num entrelaçamento inseparável da biodiversidade com a cultura local.
Um ofício movimenta uma economia dentro um bairro. Isso gera trabalho e renda para várias famílias. As panelas são exportadas para vários Estados e países, além de movimentar a economia regional, com a venda dos pratos típicos feitos na panela de barro. As Paneleiras participam de feiras de artesanato por todo o Brasil, por terem seu ofício reconhecido como Patrimônio Imaterial.
As oficinas desempenham o importante papel de disseminar os saberes em diferentes níveis de ensino. Essa é uma das facetas da sustentabilidade cultural. A despeito de sua relevância, é notável a dificuldade das escolas em arcar com o custo das oficinas conforme confirmado por uma Paneleira: “Nós sabemos que é bom tá mostrando nosso trabalho, porque nós paramos o trabalho, já a escola municipal não têm condição de pagar, os pais, a escola não tem condição de pagar, aí não vem. Eu tenho certeza que é isso!”(PANELEIRA do galpão).
Figura 31 – Depósito de lenha em galpão familiar
Fonte: Produzida pela Autora durante a pesquisa.
O uso da madeira é outro ponto importante. Antes era retirada do próprio manguezal. Hoje a associação mantém um convênio com algumas empresas que deixam suas madeiras para serem reaproveitadas, além de carroceiros e pessoas que precisam descartar a madeira, por conta de restos de construções ou mesmo eliminação de algum objeto. O próprio aproveitamento do tanino e do barro, no bojo da sustentabilidade, hoje sofre com a terceirização dos serviços, como a extração do barro, o alisamento das panelas e até mesmo a queima.
Figura 32 – Aproveitamento do tanino
Existe uma onda de reaproveitamento de toda a matéria-prima. O que nos dá indícios que a sustentabilidade também se move pelos interesses econômicos, além dos que já foram citados, por uma aposta ético-política. A sustentabilidade também é política e, nas narrativas dos sujeitos, encontramos pistas que denunciam a ação molar e molecular das atitudes políticas de controle:
[...] quando os governos abusam um pouco do povo, aí os movimentos sociais até se separam, parece que ficam meio viciados em ganhar alguma coisa e nós vimos ali, na Panela de Barro, foi isso, uma união que tinha tudo... se lá que tem uma entidade organizada que são as Paneleiras e a Prefeitura não cumpre com a sua responsabilidade com o galpão delas, elas são um entidade organizada, imagine nós aqui, no bairro, que somos uma associação e que é uma confusão (EX-DIRETOR da EMEF JK).
[...] eu percebia elas muito frágeis. A Prefeitura vai bancar a festa das Paneleiras, nós queremos, vamos pra Prefeitura, aí vinha o governo do Estado, vamos trabalhar e vão dar um carro, vamos pro Estado... eu penso que o que falta é alguém investir, o SEBRAE, não industrializando, mas falando da segurança, do traje, da gestão, porque dinheiro entra ali, agora como é administrado: Pois o que é ganhar tanto, pois, quanto é que é preciso pra poder me autossustentar, minha família? (PEDAGOGA do CMEI JS).
Aí vem esses vereador, enfiei na cabeça deles, na hora de pedir voto vocês vêm, na hora de pedir opinião vocês vêm, mas na hora de botar no papel, para poder botar na escola, bota um dia, tem o sábado, não tem escola aberta? [sobre ensinar a fazer panelas] (PANELEIRA do galpão familiar).
As práticas sustentáveis dessa comunidade ficam invisíveis e acabam não circulando pelas escolas. Deleuze (2007, p. 213) aponta o papel da política:
Falamos de política o tempo todo por entender que no capitalismo só uma coisa é universal, o mercado e este é uma fantástica fabricação de riqueza e miséria. Não há Estado democrático que não esteja totalmente comprometido nesta fabricação da miséria humana.
A escola pode auxiliar nesse processo vivendo práticas sustentáveis. Como a escola com práticas de sustentabilidade pode promover formas mais sustentáveis de relação com a comunidade e o ecossistema nas quais está inserida? Como as crianças podem perceber a sustentabilidade em espaços que insistem em aprisionamentos e insustentabilidade? Sozinha nada fará no que tange a mudanças pretendidas. O que ela pode, então? Acender faíscas de curiosidade, de um olhar diferenciado para o que está ao redor, afetar e promover encontros que sejam potentes para a vida de uma criança e também de um professor. É por isso que, a seguir, mostrarei alguns pontos cartografados dos estudos acerca da sustentabilidade da escola, não como um modelo, mas como outra ideia possível.