As redes sociais de internet (RSIs) são plataformas de comunicação digital por meio das quais os indivíduos se conectam e interagem de modo multidirecional. Criado o seu perfil na rede, o indivíduo pode se comunicar via chat, por meio de postagens públicas, fotos, vídeos e links com outras pessoas, por um computador ou por dispositivos móveis, como celulares, tablets, etc, criando assim sua rede de relações sociais no ciberespaço. Pelas redes sociais se realiza “a promessa do perpétuo estar junto” (SANTAELLA, 2011; p. 26). Essa possibilidade interativa das redes sociais de internet configura o modo web 2.0 ou para alguns autores as Redes 3.048.
48 Santaella e Lemos propõem a divisão das RSIs de internet em três fases: as Redes 1.0, onde era possível a conexão em tempo real entre os usuários por meio de ferramentas como o ICQ e o MSN, as Redes 2.0, mais utilizadas como entretenimento e para contatos profissionais, dentre as quais se destacavam o Orkut e o My Space e as Redes 3.0 seriam aquelas cujos aplicativos são móveis, como o Twitter e o Facebook. Entretanto, as autoras consideram que hoje vivemos um momento de “entrelaçamento entre todas esse modalidades diferenciais de práticas digitais” que converge com a capacidade cognitiva humana de “enroscar linguagens e mídias na configuração de mentes híbridas”.
As RSIs podem ser estudadas a partir de diversas perspectivas a respeito do poder em rede. Talvez duas delas sejam pertinentes de ser pontuadas nesse trabalho. A primeira é a teoria do ator-rede (TAR). Desenvolvida por Bruno Latour e Michel Callon, esta teoria compreende o estudo das conexões estabelecidas por actantes que geram ação ou significado social. Actantes são os elementos, humanos ou não, que geram ação. O poder sob esta perspectiva é o de gerar ação. Para tornar este conceito mais claro, recorre-se ao exemplo de Santaella e Lemos, que se utilizam dessa teoria no seu estudo sobre as “Redes Sociais Digitais”. As autoras ilustram a concepção de rede a partir da analogia com a praia. Numa praia o sol e as pessoas são actantes em uma rede. O sol age sobre a pele das pessoas expostas a ele, bronzeando-as. Esse bronzeado pode fazer com que outras pessoas se sintam atraídas. Ou seja, tanto o sol quanto as pessoas geram ação, por isso são considerados actantes. “É a ação que faz do actante o que ele é”.(SANTAELLA e LEMOS, 2011; p. 39)
No caso das redes sociais de internet, são actantes e detém poder tanto as mídias sociais quanto as pessoas que por elas se conectam, pois a informação que delas provem leva os indivíduos a diferentes reações. Por isso, as redes sociais carregam consigo a potencialidade de inverter a lógica top down (de cima para baixo) de programação, pois a interação entre os indivíduos tende a desencadear processos de bottom-up (de baixo para cima).
“O tamanho e a importância de um ator ou de um coletivo de atores dependem do tamanho da rede que eles podem comandar e o tamanho da rede depende do número de atores que ela pode angariar. Uma vez que as redes consistem em um grande número de atores que têm diferentes potenciais de influenciar outros membros da mesma rede, o poder específico de um ator depende da sua posição dentro da rede”. (SANTAELLA e LEMOS, 2011; p. 51)
A segunda perspectiva tende a complementar a primeira. Elaborada por Foucault e posteriormente desenvolvida por Castells consiste na concepção de poder a partir da capacidade relacional. “A rede é um conjunto de nós interconectados”, sendo que uns podem ter maior ou menor importância que outros de acordo com sua capacidade de interação com os outros nós, o que lhes atribui o status de centros. No caso da vida social, as redes são estruturas comunicativas criadas pelos fluxos de mensagens entre os distintos comunicadores no tempo e no espaço. Promovendo seus valores e interesses,
os atores sociais criam e programam suas redes, difundindo diferentes valores de acordo com a especificidade de suas redes.
Uma das principais características da sociedade global é que nela o poder não está concentrado em um único ator social, mas difuso na rede. Cada rede define suas próprias relações de poder e seus objetivos. Castells caracteriza a capacidade de exercer o poder nas redes como dependente de dois mecanismos básicos: o de programação das redes e o da conexão em rede, que geram quatro formas de poder distintas: o poder de conectar em rede (networking power), o poder da rede (network power), o poder em rede (networked power) e o poder para criar redes (network-making power) (CASTELLS, 2009; p. 72).
Os atores responsáveis por esse mecanismos ocupam uma posição estratégica na rede, no entanto, não são membros de uma elite do poder, pois o exercício do poder depende integralmente das outras pessoas que constituem a rede. Se as pessoas não se conectam, a rede deixa de existir. A exclusão da rede se apresenta também como uma forma fundamental de exercício do poder. Portanto, a capacidade discursiva se faz decisiva para moldar a sociedade pelas redes de comunicação pois é ela que difundirá determinados valores na rede e fará os atores sociais aderirem a esses. Dessa forma, o autor conclui que o poder na sociedade em rede é o poder da comunicação.
“En la sociedad red, los discursos se generan, difunden, debaten, internalizan y finalmente incorporan en la acción humana, en el âmbito de la comunicación socializada construído en torno a las redes locales-globales de la comunicación digital multimodal, incluyendo los medios de comunicación e Internet. El poder en la sociedad red es el poder de la comunicación”. (CASTELLS, 2009; p. 85)
Tendo em vista esses recursos de comunicação, os movimentos sociais e o Estado, além de se utilizarem da internet para divulgar informações, começaram a disponibilizar serviços, promover debates e se organizar no ambiente online. Ademais, os blogs e redes sociais possibilitaram a formação de comunidades virtuais, onde indivíduos independentes49 com interesses comuns passaram a compartilhar opiniões.
49 Nos utilizamos do adjetivo independentes para definir os indivíduos não filiados as organizações sociais de qualquer tipo.
A primeira rede social que caiu no gosto dos brasileiros foi o Orkut, lançado no ano 2004. Por ele, era possível conectar-se e interagir com os amigos através de postagens (posts) nos murais dos perfis, pelo compartilhamento de fotos, vídeos, links e pela discussão nas comunidades virtuais, um espaço que reúne pares no que se refere a gostos e interesses. O sucesso dessa rede foi tanto no Brasil que hoje o país a domina, respondendo pelo maior número de usuários desta. O Facebook, lançado no mesmo ano, a princípio era direcionado para o mundo universitário, se tornando aberto para o público apenas a partir de 2006. Caso semelhante ao do Twitter, que embora tenha sido lançado em 2006 por Jack Dorsey, teve uma maior adesão dos internautas apenas a partir do ano de 2010.