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Já apresentamos, nas seções anteriores, a posição de Russell na discussão sobre os constituintes fundamentais da matéria. No caso da mente, até agora só mencionamos que Russell não considera a consciência como sua parte fundamental. Dissemos também que, para ele, as sensações podem ser classificadas como fazendo parte do mundo da Física ou da mente, dependendo das leis causais que são utilizadas no seu agrupamento. Logo, as sensações podem ser consideradas como as ocorrências mentais fundamentais, para Russell. Ele rejeita a divisão Kantiana dos fenômenos mentais em conhecimento, desejo e sentimento, defendendo que as sensações, incluindo imagens, dariam conta do estofo da mente; tudo mais poderia ser explicado em termos de agrupamentos dessas sensações (Russell, [1921], p. 49).

Bitbol evidencia uma diferença entre Russell e Schrödinger nesse ponto: para este, seriam fundamentais, além das sensações e imagens, o “pensamento”, culminando com a matematização do objeto físico (Bitbol, 1992, p. 45). Bitbol afirma que, apesar de Schrödinger pretender

estar de acordo com Russell (pois para ele a matéria pode ser desdobrada em eventos), sua noção de evento é mais ampla, envolvendo variedades de apreensão que vão além do momento sensível (o que o aproximaria de uma visão fenomenológica). Bitbol classifica as expectativas como “pensamento”, enquanto que preferimos vê-las como crenças, conforme explicamos na Seção 4.2, aproximando Schrödinger de Russell.

Essas ocorrências mentais de que fala Russell podem vir a funcionar como sensações, imagens, crenças ou emoções. Além disso, podem causar uma série de ações, a qual continua (caso não seja interrompida) até que um certo estado de coisas94 seja atingido (Russell,

[1921], p. 53). Ou seja, não apenas estímulos externos podem causar comportamentos, como também as ocorrências mentais podem fazê-lo. Um exemplo são as imagens, de que falaremos mais especificamente mais adiante, após listar os tipos de fenômenos mnêmicos descritos por Russell. O diagrama a seguir ilustra uma série de ações que resulta de uma ocorrência mental. Nesse exemplo, o desconforto é a sensação que inicia o processo, sensação essa que gera um desejo pelo fim do desconforto, isto é, o prazer. Uma série de ações é, então, desencadeada, visando ao estado de coisas do fim. Russell chama essa sequência de “ciclo comportamental”.

Figura 12: Ciclo comportamental

Tomemos como exemplo a seguinte situação. Suponhamos que meu computador “pifou” e preciso acessar o backup de meus arquivos on-line, mas esqueci-me da senha usada para esse propósito. Além disso, o costumeiro botão “esqueci a senha”, justamente hoje, não está

94Nesse contexto, a expressão “estado de coisas” não tem o mesmo significado

que demos na Introdução deste trabalho e que utilizaremos no Capítulo 6, isto é, da expressão do modelo atual de mundo. De qualquer forma, guarda semelhança, por referir-se a uma situação que ocorre, ou ocorrerá, no âmbito da experiência.

funcionando. O desconforto de não saber a senha e também de não conseguir o acesso gera um impasse, que me faz desejar ter essa situação resolvida. Passo a vasculhar minhas anotações e minha mente em busca de alguma dica sobre o código, em uma série de ações que, espero, levará ao propósito: lembrar-me da senha. Uma vez obtido êxito, ficarei evidentemente muito feliz, por conseguir recuperar todo o texto de minha tese feito até então!

Podemos chamar esse processo de “investigação”. Fundamentalmente, é possível estabelecer um paralelo entre este e o que ocorre no âmbito científico. É possível afirmar que a atitude investigativa do cientista é uma continuidade desse comportamento no cotidiano; o mesmo tipo de ciclo comportamental é usado nos dois casos. A ideia de continuação entre senso comum e Ciência também é recorrente entre alguns pragmatistas, dos quais as abordagens de Schrödinger e Russell se aproximam em alguns pontos. Deve-se notar, por exemplo, a semelhança com o transcurso da dúvida até a sua eliminação, em Peirce (Peirce, [1877], p. 144), bem como a adequação que os passos da investigação de Dewey parecem ter ao ciclo comportamental de Russell (Dewey, [1938], p. 76-9)95.

Em uma análise mais aprofundada, Russell afirma ainda que, nos organismos vivos, as respostas a estímulos (algo que cause desconforto, por exemplo) são em grande medida dependentes da história, isto é, do passado do organismo, podendo-se dizer que tanto o passado quanto o estímulo e a condição atual do organismo fazem parte da causa da resposta (Russell, [1921], p. 55). Em virtude dessa conexão causal com experiências passadas, ele introduz o conceito de “fenômenos mnêmicos”; a memória terá, portanto, seu papel realçado na teoria de Russell. Fenômenos mnêmicos serão importantes para melhor explicar a definição, por exemplo, de aprendizado, já que este depende de haver memória, isto é, do lembrar-se de algo que já ocorreu antes e que deve ser respondido com uma determinada ação. Além disso, a própria consciência da identidade de um sujeito depende da memória, conforme veremos na Seção 5.5.1.

As leis causais que regem os fenômenos mnêmicos sempre incluem ocorrências passadas, de forma que estes têm como causa um estímulo presente, acrescido de uma experiência passada. Segundo

95Para mais informações sobre essa abordagem da investigação, ver Cunha,

Russell, podemos classificar os fenômenos mnêmicos em quatro tipos: hábitos adquiridos, imagens, associações e elementos não sensoriais da percepção (Russell, [1921], p. 56-7). Já comentamos um pouco sobre os hábitos e também sobre as associações, na seção anterior. Antes de falar sobre as imagens, vamos nos ater ao último tipo de fenômeno mnêmico descrito por Russell. Ele explica que os elementos não sensoriais são aquelas qualidades adicionadas pela percepção, de maneira instintiva (Russell, [1921], p. 58). Trata-se do “completar” ou “ajustar” o que se percebe; por exemplo, vemos somente uma face da Lua, como um disco no céu, mas completamos essa percepção, imaginando um objeto de 3 dimensões, em formato mais ou menos esférico. Schrödinger dá atenção especial a esse assunto e trata-se, de fato, de um ponto muito importante na sua descrição da construção do objeto cotidiano. Para ele, esse complemento ocorre no momento na formação de invariantes, além de ocorrer no decorrer de toda a vida posterior do sujeito, embora já de maneira inconsciente. Para nos aprofundarmos um pouco mais nesse ponto, tomemos o exemplo, tão caro aos filósofos, de uma laranja. Apesar de só vermos uma perspectiva dessa fruta (como disco ou elipse, dependendo do ponto de vista), completamos essa imagem com o que esperamos de um objeto com esse formato, ou seja, que a parte dela que não vemos é também redonda e mais ou menos da mesma cor. Também esperamos que tenhamos uma certa sensação quando a tocarmos, por exemplo. É coerente com essas ideias que a capacidade de completar os objetos seja um tipo de fenômeno mnêmico (elemento não sensorial), já que precisamos nos lembrar, embora inconscientemente, de como fazê- lo, a partir dos invariantes que temos. Schrödinger insiste que todo o processo de formação de invariantes é um comportamento, que é aprendido; embora tenhamos a tendência a fazê-lo, a forma como fazemos é resultado, podemos dizer, de aprendizado e de contato com outras pessoas que já o fizeram. Essa interpretação é corroborada pela maneira como Schrödinger trata a noção de comportamento, quando discute a evolução humana, por exemplo. Para ele, não estamos fadados a herdar somente características genéticas selecionadas ao acaso; comportamentos são, de certa forma, herdados também. Algumas mudanças físicas exigem habilidade para adaptar-se a elas; aqueles que a adquirem transmitem esse comportamento através do aprendizado (Schrödinger, [1956], p. 111).

Ao contrário do que acreditava Schrödinger, Russell afirma que as correlações da visão com o tato e a percepção espacial não são adquiridas, mas sim instintivas (Russell, [1921], p. 58). Ou seja, para ele, já teríamos essa capacidade e a utilizaríamos instintivamente. Ver uma laranja e esperar uma certa sensação táctil seria, para ele, instintivo, não necessitando de correlações com experiências passadas. Por outro lado, em nossa interpretação de Schrödinger, todas as correlações desse tipo parecem ser aprendidas; não seria possível ter uma determinada expectativa táctil sem tê-la armazenada entre seus invariantes adquiridos. Devido ao seu caráter instintivo, correlações como essas são separadas dos hábitos na classificação russelliana dos fenômenos mnêmicos.

Um gênero importante de fenômeno mnêmico russelliano são as imagens. Russell as diferencia das sensações primitivas a partir das suas causas: sensações resultariam de estímulos externos ao cérebro, enquanto que imagens teriam as causas alojadas no próprio cérebro, sem ligação com os órgãos dos sentidos (Russell, [1921], p. 96). Isso não quer dizer que não haja uma causa física, para ele; se houver, porém, ela pode estar tão afastada ou confusa que deve ser procurada no cérebro, unicamente. Nesse caso, não se pode falar em percepção, pois esta se caracterizaria como ocorrência mental vista como aparência de um objeto externo (Russell, [1921], p. 98-9). Logo, não haveria percepção de imagens. Russell enfatiza, no entanto, que a distinção entre sensações e imagens não poderia ser tomada como de tipo, mas sim de grau. Isto é, começamos a descrever sensações como imagens quando estas parecem afastar-se da fonte de estímulos externos ao cérebro. É importante ter em mente esse detalhe, pois se trata de um elo fundamental com uma de das premissas de Russell nessa teoria, segundo a qual as sensações são o estofo fundamental da mente. Elas se diferenciam nos diversos tipos de ocorrências mentais sendo agrupadas ou vistas de maneiras determinadas.

Contrariamente ao emprego de Russell, Schrödinger chama de “percepções” as sensações virtuais. Claramente, há um uso diferenciado do vocabulário filosófico por um e por outro. Assim, as percepções virtuais, componentes dos objetos científicos de Schrödinger, poderiam ser comparados às imagens russellianas, por não guardar mais essa ligação com os estímulos externos ao cérebro. No entanto, é importante ressaltar que as imagens são mais do que isso; o conceito de imagem,

segundo Russell aí o descreve, tem também outras características. De forma semelhante, as percepções virtuais de Schrödinger têm traços que não aparecem nas características das imagens como concebidas por Russell. Para este, as imagens podem expressar desejos cuja fonte é o próprio cérebro. Podemos dar como exemplo uma imagem abstrata formada na mente de um artista; esta tem unicamente origem em seu cérebro e em nenhum estímulo externo, diretamente. Por sua vez, as percepções virtuais schrödingerianas teriam o caráter de expectativas; sua origem pode não só ser externa ao cérebro como estar em outras mentes. Nesse caso, se pareceriam mais com um outro gênero de fenômeno mnêmico: as associações. Voltaremos a essa discussão na Seção 6.1.

Um dos pontos a serem considerados é, sem dúvida, o fato de que Russell achava necessário abordar a questão da percepção de dois pontos de vista: primeiro, da Física, passando gradualmente ao da Psicologia, em seguida (Russell, [1921], p.95). A fim de esclarecer melhor o papel dos fenômenos mnêmicos na percepção, vamos apresentar o seguinte diagrama, esquematizando a descrição de Russell da percepção, do ponto de vista da Física, inicialmente (Russell, [1921], p. 95).

Figura 13: Percepção do Ponto de Vista da Física

Conforme o diagrama, a percepção de um objeto tem duas partes: uma de sensações e outra mnêmica. A parte das sensações caracteriza-se como o núcleo teórico da experiência real. Segundo entendemos, isso implica que as sensações serão o ponto de partida teórico, na síntese, em direção à formação da experiência real. Segundo Russell, a percepção, desse ponto de vista, seria uma aparência (“appearance”) desde um lugar em que há um cérebro. Essas aparências tanto produzem fenômenos mnêmicos quanto são influenciadas por eles, ao contrário das aparências desde um lugar em que não há um cérebro (Russell, [1921],

p. 95). De acordo com essa afirmação e com o diagrama, o que é percebido, para a Física, é uma composição de sensações e fenômenos mnêmicos, a qual deve ocorrer onde há um cérebro; caso contrário, não produziria esse tipo de fenômeno. Como ele está tratando somente do ponto de vista da Física, não aparece aí a questão de haver uma mente de um percebedor; no entanto, veremos que a questão aparecerá, mais adiante.

Como pudemos notar, os fenômenos mnêmicos, mesmo do ponto de vista da Física, aparecem na esquematização da percepção conforme Russell, sendo portanto parte importante dessa teoria. Além disso, afirmamos que as sensações são de certa forma encadeadas como fenômenos mnêmicos e que, para isso ocorrer, certas leis causais são necessárias. Vamos estudar melhor como são formados os fenômenos mnêmicos, para finalizar esta seção.

Conforme já discutimos, a experiência, para Russell, seria aquilo que modifica o comportamento humano, levando, por exemplo, ao aprendizado. Ou seja, a experiência consiste em um evento em que um comportamento é modificado. Já discutimos também que isso gera algo novo; portanto, a experiência seria fundamental na manutenção da vida, para Russell, e da consciência, para Schrödinger. Um ponto importante para a análise russelliana dos conceitos de “sujeito” e também de “vida” é a definição de “biografia”, da qual já falamos brevemente. Uma biografia consiste em uma cadeia de experiências; mais especificamente, em uma série de ocorrências ligadas por causação mnêmica (Russell, [1921], p. 59).

Para chegar a essas conclusões, Russell inspirou-se na explicação de Richard Semon, o qual ele considerava como o melhor autor sobre fenômenos mnêmicos que ele conhecia (Russell, [1921], p. 59)96. De

acordo com Semon, o que causa os fenômenos mnêmicos é uma diferença entre dois estados de equilíbrio de um organismo, um anterior e um posterior; haver essa diferença é sinal de que houve um evento que produziu essa modificação (para Russell, esse evento seria uma experiência), mudando o comportamento do organismo dali para a frente (o que se caracteriza como aprendizado em Russell), mudança que pode até mesmo ser herdada. Ou seja, o mnêmico é caracterizado pela mudança de estado de equilíbrio, para esse autor. A ocorrência desse tipo

96Russell não cita a referência; uma tradução para o inglês de uma obra de

de fenômeno é fundamental para o estabelecimento de biografias, além das posteriores inferências a pessoas. Podemos dizer, então, que uma das maneiras de se identificar a vida é encontrar algo que nunca permanece como está, mas está sempre mudando. Essa mudança é resultado da experiência e do aprendizado, que tem como consequência a existência dos fenômenos mnêmicos.

Sobre esse tópico, Schrödinger e Russell têm concepções parecidas e inclusive se basearam no mesmo autor97. Em “My view of

the world”, Schrödinger utiliza o conceito de mneme, de Semon, para elaborar suas concepções sobre o caráter de novidade relativo à consciência. Segundo Schrödinger, o conceito de mneme é fundamental para a diferenciação dos seres orgânicos e inorgânicos. O mneme é causado pela repetição de comportamentos, para ele. A partir da sua aquisição, as ações se tornariam mais confiáveis, mas cada vez menos conscientes. Isso estava de acordo com sua teoria de que o que é ação mecânica afunda na inconsciência. Por conseguinte, a vida se diferencia aí do que não é vivo, assim como em Russell; pela aquisição de mnemes (Schrödinger, [1964], pp. 44-9).

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