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O interesse sobre a mandioca me fez parti à procura de fontes bibliográficas, de uma literatura que versasse sobre o mundo imaginário desse tubérculo. Na empreitada das leituras, dediquei um bom tempo de minha pesquisa a garimpar a documentação histórica, literária e iconográfica nas bibliotecas do Instituto Histórico Antropológico e Geográfico do Ceará, Academia Cearense de Letras, Casa Juvenal Galeno, acervos particulares, Rádio Universitária e nos jornais locais, Diário do Nordeste e O Povo.

A pesquisa bibliográfica surgiu depois os primeiros dados etnográficos no Sítio Macaco II, sendo mais necessário procurar referências não somente empíricas, mas também construções estéticas do mundo imaginário da mandioca, como poesias, canções, meizinhas, narrativas em versos, estórias e acontecimentos. O vivido no cotidiano foi observado nas suas dobraduras do mundo em que a realidade social é insinuada, mágica, flexível e performática, quando nos construtos das palavras se criam formas sociais percebidas na edificação semiótica dos objetos.

Para isso, quis me dedicar aos universos simbólicos entremeados à cultura, elaborados e atualizados na linguagem pelos indivíduos expostos ao signo da mandioca, ajuntados seus significantes, simbólico algo se fazia recriado da imaginação popular. Assim, desejei fazer uma interpretação hermenêutica dos discursos atuantes para compreender as rotinas sociais. Observava que no jogo na compreensão dialógica24 se ocultava uma eficácia simbólica junto à retórica dos sujeitos, que se apoderava da estruturalidade dos signos, e não da estrutura semântica. Para tanto, os ditos proferidos tornavam-se atos verbais inclusos no fenômeno organizador da linguagem quando os falantes intencionavam em modelar valores às palavras.

Em coisas pensadas, faladas e interpretadas me fazia apreender que processos cognitivos podiam ser impulsionados nas tessituras do habitus social, da linguagem e da memória que se depura na “sociedade dos indivíduos25”. Movido de uma curiosidade

24 Compreender é cortejar com outros textos e pensar num contexto novo (no meu contexto, nos contexto

contemporâneo, no contexto futuro). Contexto presumidos do futuro: a sensação de que estou dando um novo passo (de que me movimentei). Etapas da progressão dialógica da compreensão; o ponto de partida – o texto dado, pra trás – os contextos passados de partida – o texto dado para frente – a presunção (e o início) do contexto futuro. (BAKHTIN, 1997, p. 404)

25 Termo usado Elias (1994) para denominar os nossos eus sociais inseridos no processo de construção da

necessária comum aos etnógrafos, me movimentei ao encontro de um mundo poético incrustado de elementos semióticos que demarcavam a mandioca como um objeto concretamente pensado. O sentido histórico dos fatos e acontecimentos suscitava-me pensar a interação dos indivíduos com seus mundos, e nisso interessou saber o que estava subscrito nas vivências insinuadas da vida cotidiana.

Em realidade, um palco social dramatizado na vida servia-me de inspiração para os registros linguísticos, eficaz ao jogo, envolvido por falácias.No caminho da pesquisa etnográfica à procura desses objetos comuns me deparei com o intercâmbio de símbolos que transitam por meio da linguagem, formando uma estética verbal sobre as coisas ditas e feitas. Segundo, mesmo, a instituição do simbólico, Cornelius Castoriadis tratará como uma necessidade dos indivíduos.

Tudo o que nos apresenta, no mundo social-histórico, está indissociavelmente entrelaçado como simbólico. Não que se esgote nele. Os atos reais, individuais ou coletivos – o trabalho, o consumo, a guerra, o amor, a natalidade – os inumeráveis produtos materiais sem os quais nenhuma sociedade poderia viver um só momento, não são (nem sempre não diretamente) símbolos. Mas uns e outros são impossíveis fora de uma simbólica. (CASTORIADIS, 1982, p. 142)

A solidão e o silêncio que nos envolvem na labuta das descobertas abstraiam-me pensar no tempo-mundo do texto que remonta e agita a imaginação do pesquisador. Nesse ponto, Ricoeur (1986, p. 159) propõe a transposição do mundo do texto para o mundo da ação e falar-nos-á que “interpretar é tomar o caminho de pensamento aberto pelo texto, pôr-se em marcha para o oriente do texto”. Dessa forma, me trouxe em um ‘mergulho hermenêutico’ ler as significações que enlaçavam as palavras de Zé Dantas e a música de Luiz Gonzaga na canção A Farinhada nas expressões populares, meizinhas, brincadeiras em acontecimentos da vida sertaneja. Tanto a música como as falas populares são elementos formadores dos discursos, isto é, na compreensão subjetivada formam mediações simbólicas em que transitam os significantes textuais da linguagem em um dado sistema simbólico.

Nas fontes pesquisadas, encontrei a mandioca como metáfora utilizada pra referenciar um mundo simbólico nos modo de falar do povo, nos mitos e nas narrativas poéticas. Como objetos pensados, elas me serviram para explicar que a linguagem é parte integrante da cultura dos indivíduos, e muito estão remanejados por fatos rotineiros da vida social, tomados em criação de sentidos sociais, de acordo com que os

atores sociais fazem demarcar seus espaços de convívios. Para tanto, em contágio do vivido se produzia uma libido26 no próprio ato de pensar e falar dos indivíduos, que me trouxe compreender o modo que os atores jogam com as palavras, dispostos a criar campos e domínio, valendo, portanto, atentar as falas junto a formações de estruturadas linguísticas predisposta a um acontecimento de poder.

O viver movimentado como palco dramatizado serviu-me de expressividade social atuante para observar conflitos, interpelações e volições. Entretanto, reivindico compreender o universo representativo nos causos da vida ordeira, indicando o que é influente e estetizado nos versos de música, simpatias e expressões populares criadas em feitura das sonoridades e plasticidades inventadas. Segundo, Ricoeur (1989), da leitura resulta uma fusão entre o horizonte do mundo do texto e o horizonte do mundo da ação do leitor, ou seja, ao ser lido, o texto é associado a algo que já se tenha sido visto, ouvido ou lido em algum lugar, e exemplo, sobre a mandioca e a poética produziriam hipertextos em realidade vivia do imaginário popular.

O que será exposto aqui é uma amostra descritiva e interpretativa do que faço demonstrar potencializado nas expressões artísticas, criadas a partir do mundo empírico, cujos sentidos englobam a objetivação das palavras e a eficácia da ação provocada por quem às professam e interagem os signos e símbolos representados de vontade formam- se crenças de desejos e interesses, criam-se subjetividades. Afinal, o que dizem as nossas palavras se não a indicação de um fazer apreendido do real, exposto as coisas inferimos valores metafóricos ao redor de nós?

O mito Mani (p. 27), e suas versões e lendas, fazem parte da cultura popular através de conhecimentos milenares foram transmitidos pela oralidade formando um legado estético-cognitivo para muitas gerações. A palavra, para os povos indígenas tem valor criado para dar sentido mais do que empírico às coisas, e assim, ela é parte de tudo concretizada em ideia da atitude poética das ações, concretamente pensadas, em forma e conteúdo não separa o ‘viver’ e o ‘pensar’. O mito e rito estão unidos heuristicamente nos sujeitos-objetos das coisas, em tudo é real, realizado nos arcos-flechas, tacape, pinturas corporais com são também nas lendas, brincadeiras, lutas e cerimônias. As

26 Traz o significado de desejo e vontade, investimento, ou jogo, e o jogo é trazido no conceito illusio em

Bourdieu, no sentido jogo social, assim; “a illusio é estar preso ao jogo, preso pelo jogo, acreditar que o jogo vale a pena ou, para dizê-lo de maneira mais simples, que vale a pensa jogar”. (BOURDIEU, 1994, p. 139).

práticas mentais, isto é, o pensado tem valor tão grande como o fazer. Entre os Yawalapíti (Alto Xingu – PA), a festa da mandioca Kukuhiru é um evento que celebra a origem do tubérculo, que é ritualizado em danças, cânticos e músicas. De outra nação indígena transcrevo um trecho do mito Maué na ação de um mundo mágico representado nas palavras, e das quais se originam os corpos que substanciam as coisas:

– Pois dança, minha sobrinha

Iveroi pôs-se a dançar no meio da sala. E logo um dos tios a “flechou”, enfeitiçando-a.

Depois, outro tio fez o mesmo; enfim todos os tios a enfeitiçaram. Iveroi caiu morta.

Do corpo dela os seus tios Mucaricariua fizeram a Mandioca.

Como a primeira Mandioca não tivesse tapioca, fizeram Tapioca do corpo do filho, que ela já trazia na barriga.

Depois fizeram o primeiro “tarubá”27

No dia em que os Muricariua beberam o primeiro tarubá nasceram todos os bichos da terra dos Maué. (PEREIRA, 1967, p. 723)

Nos arquivos fonográficos da Rádio Universitária, em Fortaleza, encontrei uma embolada, O grande poder, de comadre Fulôzinha. Sua construção narrativa é densamente elaborada numa cosmogonia do homem, da terra e do céu em representação da fertilidade e da fecundidade da natureza e do Ser humano no plantio da mandioca.

Grande Poder

(Comadre Fulôzinha)

O nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento. sei o que a terra gira com o seu grande poder

grande poder, com o seu grande poder

A terra deu a terra, dá a terra cria homi a terra cria a terra deu a terra há a terra voga a terra dá o que tirar a terra acaba com toda mau alegria a terra acaba com os sete que a terra cria nascendo em cima da terra, nessa terra de viver vivendo na terra que essa terra há de comer tudo que vive nessa terra pra essa terra é alimento

Deus corrige o mundo pelo seu dominamento a terra gira com o seu grande poder

grande poder, com o seu grande poder

Porque no céu a gente vê uma estrelinha aquela estrela nasce e se põe a seis horas quando e de manhã aquela estrela vai embora tem uma maior e tem outra mais miudinha tem uma acesa e um mais apagadinha

seis horas da noite é que pega parecer

quando é de manhãzinha ela torna a se esconder só de noite que ela brilha em cima do firmamento porque

Deus corrige o mundo com o seu dominamento a terra gira com seu o grande poder

grande poder, com seu o grande poder

O homem a planta um rebolinho de maniva aquela maniva com dez dias tá inchada começa nascer aquela folha orvalhada ali vai se criando aquela obra positiva muito esverdeada, muito linda e muito viva embaixo cria uma babata que engorda e faz crescer aquilo dá farinha pra tudo mundo comer

e pra toda criatura vai servir de alimento

Deus corrige o mundo pelo seu dominamento a terra gira com o seu grande poder

grande poder com o seu grande poder

Encontrei em outras narrativas, certos contextos diferenciados, objetos poéticos em versos criados por sentidos metafóricos que eram associados à mandioca envolvidos por práticas culturais da alimentação, no qual efeito, elementos simbólicos transitavam no imaginário das crenças das curas de males humanos revestiam-se as meizinhas através dos seus potenciais farmacológicos. O folclorista Juvenal Galeno deixa registrado no poema o Angu, comida popular conhecida entre nós, ao legado descritivo de sua utilidade no passado em curativas:

O Angu

(Juvenal Galeno)

Farinha, meus leitores Que serve para o pirão, Companheiro, no cozido,

Gostoso na refeição, Faz o angu muito usado Por profanos e doutores, Posto em cima da barriga,

Alivia a suas dores, E as dos olhos, muito agudos,

De irites provenientes, De pinhão com carriços,

Na testa dos pacientes. Com manteiga e ovos moles,

Tu és sublime, ó angu! Tua fama vem longe, Desde o índio, o homem nu.

A farinhada, registro de um acontecimento social do Sertão foi eleita nas sábias palavras dos emboladores, repentistas, poetas e cantadores nordestinos. Considero-os fazedores da cultura que utilizam de estética inventiva em conhecimentos do imaginário na criação das artes populares. A alegoria da casa de farinha se projeta em realidade nos versos que brotam sentimentos e paixões, e Luiz Gonzaga e Zé Dantas nos trazem com alegria e musicalidade em beleza letrada:

A Farinhada

(Zé Dantas e Luiz Gonzaga)

Tava na peneira, eu tava peneirando

eu tava no namoro, eu tava namorando (refrão) Na farinhada lá na Serra do Teixeira

namorei uma cabocla, nunca vi tão feiticeira a meninada descascava macaxeira

Zé Migé no caetitu e eu e ela na peneira

O vento dava sacudia a cabeleira

levantava a saia dela no balanço da peneira fechei os olhos e o vento foi soprando

quando deu um ‘redimunho’ sem querer tava espiando De madrugada nós fiquemo ali sozinho

o pai dela soube disso deu de pernas no caminho chegando lá até riu da brincadeira

nóis estava namorando eu e ela na peneira

Nessa poética há uma dialógica, fato que propõe o objeto na ação, estando construído imaginavelmente nas palavras. Observo isso disposto em algo concreto do senso comum aventurado por personagens ficcionados entremeiam o presente vivido e dão veracidade as narrativas das pelejas humanas. E na representação do simbólico pela qual emergem a linguagem poética resultará na criação intensificada das naturezas, dos objetos, sonhos e ludicidades que expressam as mitológicas da paixão fazendo criar significância à vida. Aos seus saberes dos poetas populares muitas vezes são auferidos a simples manifestações do sensível ou meras artesanias criativas, tratadas como construções lúdicas, entes do ilusório, renegado por não possuir um saber científico.

Dessa ideia, darei um passo mais largo ao que tentarei nessa escritura fazê-la em reflexão daquilo que inferimos na Cultura por meio da linguagem em reconhecimento das coisas populares. Muitas informações e saberes foram acumulados e transmitidos na cultura dos povos civilizados com a oralidade, que Jack Goody (1977, p. 35) diz que “na maior parte das culturas sem escrita, e em numerosos setores da nossa acumulação,

elementos na memória faz parte da vida cotidiana”. O que se apresenta no senso comum configura-se em um farto material linguístico socialmente modelado na compreensão do mundo deixado a nós em cultura. Afinal, o que estão expressos nas palavras quando elas criam estéticas, formas, conteúdos ou valores?

Émile Durkheim (1989, p. 511) já dizia que “cada palavra traduz um conceito”, e, portanto, os nossos construtos verbais são produtos de hábitos mentais em crenças subjetivadas nos discursos incorporados de imagens-valores aos objetos linguísticos, carreados de criações nas ações predicadas pelos sujeitos, e assim, as palavras professam o fazer de um ato pensado. Contudo, a relação que atrai o significado ao significante não pertence ao objeto da língua, como crêem Saussure e o estruturalismo unidos a tal idéia a linguagem. Nessa questão, Bourdieu (1994, p. 52) criticará o objetivismo e diz que “a linguística saussuriana privilegia a estrutura dos signos, isto é, as relações que eles mantêm entre si, em detrimento de suas funções práticas que não se reduzem jamais, como o supõe tacitamente o estruturalismo, às funções de comunicação ou de conhecimento”, e isso será importante na ideia do campo político e social.

Cabe, então, pensar a estruturalidade no qual se criam os sentidos linguísticos e sobre a estrutura disposta nos enunciados dos falantes afirmará Jacques Derrida (2002, p. 230) “eis por que, para um pensamento clássico da estrutura, o centro pode ser dito, paradoxalmente, na estrutura e fora da estrutura”; e dirá ele, ainda: “não podemos pensar uma estrutura inorganizada”. Entretanto, e não concordando com o estruturalismo linguístico, penso que o rito, como realização de um fazer, é parte da manifestação que ensejada na construção das palavras, que numa carga apoderada tendem a responder a necessidade inerente dos agentes sociais em estabelecer os domínios de uma ordem linguística.

O que então se objeta em eficácia das significações das ‘coisas ditas’ agirá junto a uma matriz modelar dos feitos do pensar e do fazer, e, pontualmente, o mito e o rito não podem ser compreendidos dicotomicamente, pois, eles estão engendrados no mesmo plano que conjectura a condição de existência do ser humano e seu mundo. De certa forma, algo me inquietava para indagar, porque então os indivíduos criam uma estética nos seus construtos verbais usando a metáfora para imprimir em atos subjetivados valores ao viver?

Ernest Cassirer (1992, p.102) mostrou interesse no ponto polêmico em que o mito e a linguagem estariam submetidos às mesmas leis espirituais de desenvolvimento, entretanto, preocupou-se com o caráter comum que ambos produzem configurações. Sobre isso, o filósofo explica que o que está possuído no pensar é posto em comum no próprio configurar, e dizia “portanto, parece que devemos partir da natureza e do significado da metáfora se quisermos compreender, por outro lado, a unidade dos mundos mítico e linguístico e, por outro, a sua diferença”. Eis porque venho indicar no lastro da desconfiança querer a mais compreender o mito como uma gênese modelar do pensamento, e nisso, definiria que nada fazemos senão ‘atribuir’, ‘configurar’, ‘inferir’ um sentido às coisas. E sobre isso, de fato, resvala quando e ao queremos imprimir significância ao mundo real em “tudo vale quanto pesa o valor” interessa-nos dizer sobre o que se mostra interessado.

Todas essas questões expostas aqui me serviram de base teórico-metodológica para aproximar o meu campo pesquisado às práticas sociais dos indivíduos na compreensão da linguagem, e dessa maneira, o que vem expresso nas coisas ditas, almejo obter entendimento do pragmatismo do viver e perderia o sentido eficaz se não constituído e unido às formas de pensar. Na casa de farinha, me revelaria muitos discursos sob um pano de fundo das interações que se formam na realidade simbólica das práticas ‘ditas e feitas’ estetizada na natureza da vida social e coletiva.

Entretanto, o caminho teórico proposto por Bourdieu (1989) respondia como a produção do pensar e aos seus instrumentos simbólicos, sendo eles instrumentos de conhecimento que operam objetivamente nas estruturas do mundo social. Em princípio, debrucei na empreitada de interpretar o que se encontrava estabelecido culturalmente em volta das estratégias discursivas observando as práticas sociais inseridas no processo de cognição inteirado pelos indivíduos. E talvez, sobre isso me daria base suficiente para verter o marco teórico no percurso da problematização do meu objeto de pesquisa sobre a intensa socialização encontrada no fenômeno da farinhada. Essa ação coletiva seria compreendida no aporte da conjunção do habitus da linguagem e da memória.

O cotidiano foi entendido nas convenções de uma cultura, e ela é alterada na ação dos indivíduos que vivem em uma sociedade28. Sobre os usos e costumes antigos

28 Sobre os fatos e a cultura Marschall Sahlins (1990, p. 8) observa que “a história é ordenada de

diferentes modos nas diversas sociedades, de acordo, com os esquemas de significação das coisas. O contrário é verdadeiro: esquemas culturais são ordenados historicamente porque, em maior ou menor

da população, há algo interessante produzido na linguagem. A palavra ‘goma’, em uma determinada situação, servia para indicar um produto, ligado ao ato de comer uma tapioca, uma broa, ou uma peta, um biscoito de sequilho.

Em outra situação comum do hábito sob o contexto diferenciado de um código cultural, a palavra ‘goma’ (signo) teria outro significado, e, portanto, ao ser verbalizada, a palavra “engomar” sugeriria um ato ou ação. As práticas, as invenções tecnológicas e a linguagem reinventam os objetos, e assim, o ferro quente em brasa era chamado de “ferro de engomar”, objeto comum de uso doméstico. Como o mundo nunca é o mesmo, as coisas vão e voltam como objetos jogados no mar, e hoje se fala “ferro de passar” e a goma não é mais usada estirar a roupa. Recordemos, então, ao passado descrito nos versos de Juvenal Galeno.

A Engomadeira

(Juvenal Galeno)

Eu sou pobre engomadeira Suado ganho o vintém...

Chamam-me as moças – formosas E os velhos querem-me bem... Ai, não é de graça!

Os velhos querem bem...

Cedo acordo e no engomado Logo a roupa vai molhar, Armo a corda no terreiro Para estende-la a enxugar... Ai, não é de graça!

Para estende-la a enxugar

Mas que calça engomadinha! Lustosa e alva a brilhar... Nem uma dobra , um cisquinho... Meu rosto posso mirar...

Ai, não é de graça! Meu rosto pode

Franklin Cascaes indica outra modinha também cantada antigamente. Nela podemos perceber o jogo metafórico na construção das palavras para falar da malícia que suscita no imaginário um fato real do dia a dia: