• Aucun résultat trouvé

Conclusion: lessons and challenges

Dans le document Development financing in Africa (Page 29-32)

Conforme o relatório apresentado ao diretor da Instrução Pública, em 1913, pelo inspetor Manoel José dos Santos Mello, o professorado das escolas primárias localizadas no interior do Estado foram receptivos em relação ao método intuitivo demonstrando interesse sobre sua aplicabilidade. Na realidade a visita do inspetor era um momento em que todos se mostravam atenciosos e procuravam relatar o melhor da instituição. Percebe-se através dos relatórios de visita que o inspetor era conhecedor dos princípios da modernização pedagógica.

Afirmava que os critérios de análise que utilizava para avaliar os professores estavam coerente com as idéias da Pedagogia Moderna, dizia que os mestres deveriam conhecer a matéria de ensino, o modo de ensinar ou seja ter metodologia adequada e saber a ocasião mais oportuna de aplicar método modernos, referia-se aos métodos intuitivo e de leitura analítico. Assegurava que “para isso torna-se precizo que o professor tenha, por pedagogia experimental, como diz Vasconcellos, o conhecimento do que não deve ensinar, mas que o habilitta a conhecer as particularidades physiologicas e psychologicas de cada aluno.”(SERGIPE, Relatório,1913:05).

Nesse documento Manoel Mello constatou que era insuficiente o número de escolas primárias e que a freqüência, apesar de não ser a esperada, era aceitável para que elas fossem mantidas abertas. Outros aspectos relevantes desse e outros relatórios estavam relacionados aos constantes pedidos de renovação ou compra de mobiliário escolar adequado às determinações das reformas. Manoel Mello se destacava quanto as suas interferências junto aos professores, principalmente em relação aos métodos de ensino, principalmente em relação supressão dos castigos físicos.

101 Analisando os textos que produziu, percebe-se que esse inspetor tinha uma concepção da educação e do movimento da Pedagogia Moderna muito próxima do que estava posto nas reformas sergipanas e do que era apresentado e discutido por Baltazar Góis, Helvécio de Andrade e Ávila Lima, professores de Pedagogia do curso normal e defensores da idéia de modernização do ensino. Nesses textos citava constantemente Pape, Carpentier, Pestalozzi, Faria de Vasconcellos, Felisberto de Carvalho, Calkins, Afrânio Peixoto, autores que também estavam presentes textos e discursos nacionais desse período.

Nos relatórios elaborados pelos inspetores normalmente eram observados as condições dos professores, materiais escolares, os métodos de ensino, as práticas escolares, o regime disciplinar, a atuação dos delegados de ensino, a criação e supressão das escolas e a localização das escolas isoladas. Não foi diferente com o relatório de Edgar Coelho.

Iniciou seu relato expressando a dificuldade de implantar as normas dos regulamentos aprovados pelas reformas, disse “a maioria da nossa gente, a cada passo, se insurge contra o actual Regulamento da Instrução”, isto porque os pais dos alunos não aceitavam certas práticas escolares e os professores estavam percebendo o aumento da evasão das escolas. Essas práticas estavam relacionadas ao canto dos hinos escolares, às marchas e a prática da ginástica. Relatou um pai ao inspetor que a professora estava colocando “seu filho a perder ensinando a marchar, a ser soldado”(SERGIPE, Relatório,1913:04). O regulamento determinava que o ensino da educação física deveria ser de “marchas na sala de aula acompanhadas de pequenos cânticos, conforme o horário. Exercícios preliminares para a formatura de gymnastica sueca. Jogos infantis.”(SERGIPE, Programa,1915:14).

Em um artigo publicado em 1912, intitulado “Assumptos pedagógicos” no jornal Correio de Aracaju, relatava a importância dos jogos ginásticos para a educação infantil. Dentre os jogos escolares que o autor citava como possíveis de serem exercitados por alunos de ambos os sexos estavam, “o gato e o rato” e as “gravatas”. Mesmo com a resistência familiar, as aulas de ginástica defendida pelo movimento da modernidade pedagógica, era justificada nesse artigo como uma oportunidade de socialização e urbanidade. Dizia o autor:

102 Os jogos gymnasticos são de incontestável vantagam sobre o roganismo das creanças, uma vez que obedeçam as precisas regras. Além do desenvolvimento físico, que favorece, concorrem para formar entre os alunos de classes diferentes o espírito de sociabilidade e de união.”(ANDRADE, 1912:01).

Outros pais alegavam que para o bem da moralidade a escola não deveria permitir que no recreio as meninas corressem ou fizessem atividades. Outros não aceitavam os cantos afirmando que a escola seria lugar de estudar e não de brincar. Os cantos era referente ao ensino de Música que estava inserido no currículo primário antes da Reforma de 1911. Conforme o programa escolar de 1915, o ensino da Música consistia em exercícios de cantos escolares escolhidos do livro Cantos Infantis de Menezes Vieira. Além desse, também eram utilizados pelas escolas sergipanas Uma hora, Os pequeninos, Cancinha, O relógio e Cara Pátria.

Isso justifica o número expressivo de artigos publicados em jornais, conferências e discursos proferidos que ressaltavam a importância da família para o desenvolvimento da educação. No artigo intitulado “O problema máximo” o professor de Pedagogia afirmava que “instruir e educar, é o máximo dos nossos deveres actuaes, e para isso necessitamos preparar o mestre primário e a família, dotar a escola e o lar dos elementos precisos para uma reforma tanto mais quanto tem de ser lenta e sustentada com ardor e enthusiasmo.”(ANDRADE, 1913:02).

Ciente desses fatos, Edgar Coelho acreditava que suas visitas não bastariam para que a reforma “remodelada pela paulista”, fosse implementada. Relatava que durante as aulas que ministrava aos professores, mostravam-se curiosos pelo ensino experimental e comprometiam-se aplicá-lo. No entanto, conforme observava a prática, concluiu que eles não aplicavam método nenhum. Assim descreveu: “Está aqui definido nestas palavras o methodo seguido pela maior parte dos preceptores do 4° distrito. Da sua cadeira grita o mestre: ‘diga a lição’, e o discípulo, chegando-se a elle, photographa machinamente o que viu no livro. Em seguida exclama: ‘vá a pedra e diga a regra...”.(SERGIPE, Relatório,1913:12).

Mas a forma com a qual as lições orais estavam regularizadas pelos programas de ensino demonstrava ainda a necessidade do método de memorização para o ensino primário. Nessa disciplina o programa determinava que os alunos deveriam reproduzir oralmente os assuntos estudados.

103 Para cada ano eram determinados os conteúdos específicos que iriam ser avaliados. Para o segundo ano, por exemplo, os assuntos estavam divididos em partes do corpo humano, partes da planta, os sentidos, educação e História. Enquanto que para o terceiro ano, as lições que deveriam ser reproduzidas eram referentes ao ensino da gramática. Talvez por isso a professora, mesmo na presença do inspetor, mantinha essa prática.

Os programas revelam a forma com a qual estavam organizados os dispositivos de avaliação, de comportamento pedagógico e as práticas de sala de aula. As mudanças metodológicas, os conteúdos, as ordens, a tentativa de uniformizar o ensino primário nos grupos e escolas isoladas são características da influência do movimento modernizador que a reforma de 1911 introduziu, mas ao analisar a constituição desss programas escolares vê-se que poucas foram as mudanças efetuadas com base na reforma de 1911.

No programa lançado para o ano de 1915 é possível identificar a morosidade da apropriação dos valores e princípios pregados pelos difusores da modernização pedagógica, principalmente em relação a adoção do método intuitivo. Ou seja, na realidade havia certas incoerências com os textos normativos, enquanto que nos regulamentos aprovavam o método intuitivo, os programas ainda determinavam o método objetivo. Talvez essas indefinições dificultassem o trabalho do inspetor.

O primeiro item do programa escolar de 1915 normatizava o programa de leitura para o ensino primário. Num momento em que os inspetores de ensino e alguns intelectuais da educação disseminavam a necessidade de aplicação do método de leitura analítico através dos jornais e das visitas feitas aos professores in loco, o programa regulamentava o método objetivo, no qual os alunos deveriam tomar as lições de pé e de frente para o professor. No entanto, algumas mudanças já poderiam ser percebidas nas práticas de leitura, era utilizada uma cartilha apoiada inicialmente em textos e sentenças e não mais em silabas e letras.

Em um artigo publicado no Correio de Aracaju, “Assumptos pedagógicos: como se ministra a leitura analytica”, o autor deu destaque para o modo como as professoras deveriam proceder no ensino da leitura analítica e a importância desse método no processo de aprendizagem. Não era um texto argumentativo, e sim descritivo das técnicas própria desse método de ensino. Essas mesmas lições eram ministradas às

104 alunas da Escola Normal. Mas adotar a leitura analítica nesse momento era ir de encontro as determinações do programa escolar, pois este afirmava que o método que deveria ser adotado era o objetivo e não o analítico.

Nos relatórios e termos de visita expedidos por Edgar Coelho, deixa transparecer que o alcance das reformas educacionais não era o esperado nas escolas do interior. No entanto, o que pode ser observado nesse texto é que as escolas adotaram os programas escolares e os livros aprovados pela reforma. Talvez as dificuldades fossem maiores em relação aplicação do método intuitivo ou experimental, como chamavam os inspetores.

Apesar das aulas, palestras e as visitas freqüentes os inspetores relatavam poucas mudanças. Assim, acreditava que o problema da educação não estava apenas na formação, atuação dos professores e na aplicação de métodos de ensino inadequados, mas principalmente na mentalidade das famílias que tinham dificuldades de aceitar uma nova escola e que cobravam dos professores os antigos métodos de ensino.

No relatório elaborado por Adolpho Ávila Lima, bacharel em Direito e professor de Pedagogia, foi possível perceber que suas observações e interferências eram mais incisivas, principalmente na conscientização dos professores quanto ao uso de livros escolares, posturas pedagógicas e métodos avaliativos.

Ávila Lima estudou Humanidades e depois foi transferido para a Bahia onde cursou a faculdade de Direito. No último ano do curso deixou a Bahia e foi terminar seus estudos em Recife, recebendo nesta cidade o grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais, em 1910. Apesar da sua formação, atuou por muitos anos no campo educacional como inspetor e como professor de Pedagogia do curso normal do Atheneu Sergipense. Essa escolha proporcionou-lhe certa distinção, tanto por causa de sua formação quanto pela oportunidade que teve para construir um capital social e cultural satisfatório. Ele lutou pelo reconhecimento de suas capacidades e conhecimentos adquiridos com o objetivo de consolidar sua posição no campo educacional sergipano.

105 Fig.03: Adolpho Ávila Lima. Aracaju. s/d. Autoria não identificada. Fonte: Acervo da BPED.

Nas suas atividades de inspeção tinha como finalidade avaliar as habilitações profissionais das professoras, a organização pedagógica de cada um dos estabelecimentos educativos, verificar se eram cumpridas as exigências dos regulamentos de ensino e se as práticas escolares estavam de acordo com os princípios da Pedagogia Moderna. Assim, seus relatos demonstram os cuidados com a implementação dos programas escolares, principalmente o que foi aprovado

Os relatos encontrados nessas impressões de visita permitem compreender a forma com a qual os princípios da Pedagogia Moderna foram apropriados pelos inspetores. Conforme Chartier(2001) a apropriação indica o que os sujeitos sociais normalmente fazem com o que recebem e que o resultado dessa recepção permite a circularidade do conhecimento apropriado. Assim as produções desses inspetores permitem perceber as incompreensões produzidas entorno desse movimento no campo educacional sergipano. Não só em relação as dificuldades de difusão e de aceitação dos novos princípios pedagógicos, mas da real aplicação dessas idéias já impostas de forma legal através dos regulamentos gerados pelas reformas educacionais.

Nos termos de visita emitidos por Ascendino Argollo vê-se que a ênfase dada por esse inspetor estava sempre relacionada ao uso dos métodos de ensino. No entanto,

106 não foi possível identificar nenhum desses relatos no qual as professoras estivessem aplicando o método intuitivo. Sempre os relatava como método socrático associado ao experimental. Apenas em 1916, quando visitou a escola regida por Leonor Telles de Menezes, afirmou que as práticas aplicadas nessa instituição estava de acordo com os princípios da Pedagogia Moderna. Dizia o relatório “os trabalhos escolares são executados com muita ordem e rigorosa disciplina, de maneira que os exercícios e outros processos de ensino moderno traduzem as justas e promissoras esperanças do methodo intuitivo”.(SERGIPE, Relatório...;1916:01).

Sempre que iniciava os relatos afirmando a importância das idéias da Pedagogia Moderna, afirmava que “...com o tempo, sejam preenchidas essas necessidades, para que, com mais firmeza e efficácia, tenham logar as medidas reclamadas pela pedagogia moderna, realizando assim o ideal do método experimental e dos princípios basilares da sciencia educativa”.(SERGIPE, Relatório...;1914:08). Talvez esse fato seja um reflexo de que a reforma, enquanto lei, tinha uma ação inexpressiva, principalmente em relação ao método.

Raramente encontra-se nesses relatos escolas primárias isoladas que tivessem todos os materiais requisitados pelo regulamento da instrução. Normalmente os materiais mais citados eram a cartas de Parker e os planisférios para o estudo da Geografia. Através desses relatórios é possível imaginar como estavam dispostas as escolas primárias isto porque descrevem não só as práticas, mas os mobiliários escolares.

107 Fig.04: Termo de visita de Ascendino Argollo.

Fonte: Acervo do APES. Fundo Educação.1924.

Os inspetores, desse modo, foram um dos veículos pelos quais as idéias de modernização pedagógica foram difundidas, na realidade essa era uma das funções que regulamentavam suas atividades. Pelo que os relatos de visita permitiram entrever, cabia-lhes inspecionar, mas também divulgar e tirar as dúvidas sobre as novas metodologias de ensino, sobre a necessidade de inclusão de novas práticas escolares como a ginástica, o canto dos hinos escolares, sobre as formas avaliativas, sobre importância das noções de higiene. Mas os resultados apontados pela maioria dos inspetores demonstravam que a sociedade não estava pronta para aceitar as mudanças que as reformas propunham.

108 CAPITULO III

AS REFORMAS EDUCACIONAIS E A CONSTRUÇÃO DA TRAJETÓRIA DA

Dans le document Development financing in Africa (Page 29-32)