4 . Approche bioécologique de la faune Vertébrée
CONCLUSION GENERALE
Construído no Céu(1893)
[Sub-Coelum: A Sky-Built Human World]
Addison Peale Russell
(1826-1912)
Membro do Partido Republicano, Addison Peale Russell desempenhou cargos públicos no Ohio até se dedicar por inteiro à escrita, publicando sete obras, de entre as quais se destaca Sub-Coelum, publicada num contexto de depressão económica nos Estados Unidos da América. Nesta narrati- va especulativa, sem enredo nem personagens, o narrador heterodiegético descreve com grande pormenor as características, os hábitos e os costumes de uma sociedade constituída por homens e mulheres inteligentes, respeitadores, genuinamente amigáveis e felizes. É de notar que os mé- dicos são mulheres e que muitos homens trocaram de lugar com as mulheres, passando a exercer, com gosto, as tarefas domésticas. Na ordem social imaginada por Russell, impera o bom senso e a sabedoria, preza-se muito a individualidade, as horas de trabalho foram reduzidas e não existem riqueza e pobreza extremas. O texto revela uma tendência moralista, sendo que vícios como ál- cool, tabaco e jogo foram eliminados, embora se encontre algum humor no facto de se ter banido da sociedade hábitos como ressonar, assobiar e tocar os sinos, e se incentive a domesticação dos esquilos e o treino dos porcos para comerem com mais moderação.
No país imaginário Sub-Coelum, cozinhar é uma arte nobre e executada na perfeição, existin- do até jornais gastronómicos. No extenso índice da obra, que apresenta uma lista de 146 tópicos, identificam-se de imediato duas temáticas fundamentais: a ligação da moral à alimentação e a importância de uma boa digestão. Por conseguinte, nesta utopia, a alimentação é indispensável ao bem-estar da comunidade e, mais do que satisfazer o apetite, as refeições proporcionam mo- mentos de sociabilidade e civilidade. Importa sublinhar que a alimentação tem efeitos diretos na saúde e no comportamento da população, como se pode verificar nos trechos selecionados. O leitor é também informado do uso de utensílios ricamente decorados, como facas e colheres, bem como da existência de alimentos desaconselhados, como o porco, e totalmente proibidos, como os fritos. Apesar da referência a alimentos químicos e à aplicação da ciência química nas cozinhas, que assim se tornavam laboratórios, o autor/narrador não explicita quais são esses alimentos nem dá pormenores sobre a sua produção.
Iolanda Ramos
saboreava o guisado e provava as costeletas, e a dona da casa perguntava ao seu cristal de Veneza se já não teriam demora os pés de galinha. [...]
Carta X
[...] Eram por isso vulgaríssimos os dentes sujos e ruins, e as maxilas desdentadas.
Daí graves embaraços para a vida orgânica, que, pela deficiente trituração dos alimentos, co- meçou a elanguescer e a decair, como árvore desfrondada pelo temporal. [...]
Imagina como seriam laboriosas as digestões dos pratos de resistência, nos bufetes do Teatro Aéreo, ou a deglutição dos chifres, com que o Estado alimentava o funcionalismo. As complei- ções depauperavam-se prematuramente, a mocidade tornou-se uma lenda, e quem chegava aos trinta anos atingia a decrepitude.
Como consequência natural, a debilidade orgânica arrastava consigo a debilidade moral, intelec- tual e estética. […]
[...] O povo portugalense, esse ficara a pão e laranja, mas pão caríssimo, e laranja detestável. Depois… Já te contei o resto.
atribuídos a maus pequenos almoços, tal como as benfeitorias eram atribuídas a bons jantares. O cozinheiro filosófico justificava os comportamentos e as boas cores. Bochechas rosadas contavam a sua história. A palidez era uma censura e era muito rara. As sombras da melancolia surgiam em poucas faces. Era crença generalizada que a maioria das doenças era causada por comida má ou malcozinhada e que poucas das que eram remediáveis não resistiriam a uma dieta adequada. Mui- tas vezes o médico antes de escrever as suas receitas informava-se sobre a economia da cozinha. O padre, antes de administrar consolo ou absolvição fazia a mesma coisa. Os tribunais, ao julgar cri- minosos, procediam a inquéritos semelhantes e, como resultado, havia muitas vezes atenuações ou comutações de penas. Os legisladores sentiam-se em dívida para com as sugestões de cozinheiros. Os moralistas eram liberais tal como eram gastronomicamente sensatos. O porco era considerado responsável por muito do que era mau no mundo, com exceção do porco assado. Os leitões, algo mais pesados do que um capão, eram objetos relativamente aos quais o génio se manifestava. Os bons sucos destes animais chegavam às fontes da sensatez e permaneciam na mente tal como no palato, incitando-a a reflexões generosas. Também o peixe, o alimento por excelência do cérebro, utilizava e explorava até à exaustão as possibilidades da ciência culinária. Nunca uma pinga de água entrava num exemplar da tribo espinhosa depois de a faca ter cumprido a sua tarefa. Os sucos na- turais eram todos preservados – cada partícula. Banquetes exclusivamente de peixe, com imagens ictiológicas a toda a volta, não eram acontecimentos raros. Eram simpósios de inteligência e elo- quência. O pão era feito com o máximo da perfeição. Os pães eram aglomerados de cristais doces. A luz brilhava através deles. Eram fabulosos. Os alimentos mais vulgares transformavam-se em maravilhas de sabor pela maneira como eram cozinhados e servidos. A forma como os frutos, em particular, eram apresentados era uma verdadeira tentação. A anona, a maçã cremosa norte ameri- cana, era considerada a mais excelente de todas as frutas. Amadurecendo na árvore e caindo sobre as folhas, apanhava um gosto a terra e a céu que era como ambrósia. Era a suprema delícia e era comida com toda a delicadeza. Não havia nada tão saboroso, diziam; nada que não fosse cozinhado, certamente. A faca para lhe tirar a pele tinha diamantes incrustados. A colher com que se comia era do ouro mais puro, de uma feitura elegante e requintada. Um pouquinho de cada vez bastava, cada átomo do qual subia até ao sensorium. Meia hora era considerado um tempo demasiado breve para saborear esta obra-prima da natureza – a sua textura cremosa inimitável e inultrapassável. Os belos pomares deste Fruto do Paraíso eram o triunfo e o orgulho da pomologia. [...]
Mel Saudável
[...] As sugestões do apiário e os seus produtos eram recursos regulares para a mente e para o corpo. Nenhum alimento era considerado mais saudável, em certas condições, do que o mel. Os órgãos respiratórios e pulmonares beneficiavam com ele e o seu uso livre era considerado por muitos como um preventivo seguro da tuberculose. Casos bem definidos desta temida doença não existiam ali e este facto era justificado em parte pelo uso generalizado deste doce produto. O oximel era aprovado como medicamento desde tempos imemoriais.
O Jantar de Cada Dia
O jantar de cada dia era um acontecimento de monta em todas as famílias. Jantava-se à tarde, cedo, já que as horas de trabalho e de negócios não eram muitas. A regra para a sua preparação era esquecer as preocupações do dia e, na medida do possível, pôr de lado qualquer ansiedade. Dedicava-se-lhe muito tempo, de forma a apreciá-lo plenamente. Não que a população fosse es- pecialmente devotada à comida; preferiam as civilidades e socialidades à satisfação do apetite. A limpeza era particularmente observada, tanto nas pessoas quanto nos hábitos da mesa. Espe- rava-se de todos que fossem pontuais e o conforto e o prazer dos outros eram tidos em atenta consideração. Cada um tomava o seu lugar sem pressas nem desordem. O serviço era organizado e por categorias – os alimentos quimicamente idênticos eram servidos em conjunto. As mesas eram almofadadas de modo a limitar o barulho dos pratos. As peculiaridades pessoais de gosto eram ignoradas ou não mencionadas. Fazer barulho a comer era escrupulosamente evitado. Para tal bastavam os porcos, diziam, não eram precisos os homens. A rapidez também não era aprecia- da, pela mesma razão. Uma atitude esfaimada era ofensiva. O mesmo acontecia com quantidades excessivas. A saciedade era tão criticável quanto a voracidade. Os pratos servidos, o seu custo e preparação não eram elaboradamente discutidos. Jantar era uma coisa diferente e mais impor- tante do que alimentar-se. Incluía tudo aquilo que era civilizado e generoso. Os melhores impul- sos eram encorajados e as ideias mais animadas debatidas. A ironia não era aceite quando à custa dos bons sentimentos. O bom humor era um requisito para um bom jantar – um molho melhor, se possível, do que a fome. As palavras não eram tiradas da boca de outros, interromper era falta de educação. Os temas introduzidos tanto quanto praticáveis eram elevados, mas não acima de uma gama mediana. A expressão de opiniões era encorajada, mas sem, como observámos antes, grande precipitação ou volubilidade. Discursar ou falar de um modo professoral era uma violação das boas maneiras à mesa. [...] Os aniversários de homens e mulheres ilustres eram selecionados e especialmente celebrados em sua honra. Era preparado um jantar um pouquinho melhor do que o habitual, sendo suficiente um prato extra ou um alimento adicional. Era escolhido um convi- dado especial para partilhar e animar o repasto com o seu melhor humor. [...]
Moral e estômago
Cozinhar era uma arte nobre em Sub-Coelum e era executada na maior das perfeições. Não ces- savam de experimentar e os melhores resultados eram de vez em quando anunciados nos jornais gastronómicos. A invenção de um novo prato conferia distinção, quase semelhante à descoberta de um novo planeta. A química era tão persistente e engenhosamente aplicada que as cozinhas se tornavam laboratórios. Cozinhar mal era pecado e trazia opróbrio ao pecador. Este extraordinário interesse na arte devia-se bastante à opinião prevalecente de que a moralidade era em grande parte uma emanação do estômago e que os homens eram bons e saudáveis conforme a boa alimentação que recebiam. Exemplos curiosos e maravilhosos eram recolhidos como prova. Os crimes eram
E Se...? Narrativas Especulativas Sobre Alimentação e Sociedade – Uma Antologia Série Alimentopia