Podemos encontrar discursos convergentes nos dois grupos focais quando falam que a educação superior deveria ser encarada como um direito e não como gasto pelo governo federal. Nesse mesmo sentido, os estudantes observaram que é preciso que a DDS deixe de percebê-los como parte do problema e serem enxergados como pessoas que usam e são os maiores conhecedores de todos os problemas, porque são eles que acessam e precisam lidar com as burocracias todos os dias.
Houve relatos relembrando da verdadeira missão do PNAES, que segundo os estudantes, não é feito apenas para fornecer valores financeiros: “é dever da Universidade promover a diversidade, garantir a inclusão e a permanência das pessoas. Em relação à DDS, existem responsabilidades que ultrapassam os serviços de, a cada semestre, abrir edital, incluir as pessoas selecionadas pós edital, os selecionados receberem seus pagamentos, sem se preocupar com a saúde mental dos estudantes”. Nesse sentido, os estudantes salientaram que a missão do PNAES vai além do fornecimento de bolsas, lembrando da importância da saúde mental e da necessidade de proporcionar uma estrutura física com profissionais adequados e atendimento facilitado.
5.3.2 Gestão
Podemos inferir pelos relatos que a UnB não apresenta um atendimento de assistência estudantil diferenciado para os estudantes negros e indígenas. O tratamento é feito de forma igualitária para todos os estudantes. O fenômeno central, que apareceu repetidamente nas entrevistas é o de que, a DDS e a Ouvidoria não possuem ações específicas para trabalhar junto aos alunos participantes da
assistência estudantil. Por outro lado, essa é uma demanda recorrente nos dois grupos focais, já que muitas das histórias relatadas precisam de, no mínimo, um acompanhamento mais próximo de como está a saúde mental dos estudantes.
Os relatos durante as oficinas corroboraram com as hipóteses levantadas no início deste estudo, em que existe a necessidade de a DDS ter um espaço de escuta para o beneficiário dos programas de assistência estudantil a fim de obter um melhor entendimento sobre as carências dos procedimentos e processos.
Podemos encontrar na coleta de dados, relatos de alguns problemas de gestão. A DDS/DAC, por exemplo, não tem estatísticas da demanda reprimida, ou seja, daqueles estudantes que pleitearam a assistência estudantil, mas não foram contemplados. As estatísticas apresentadas giram em torno daqueles estudantes que conseguiram acesso aos programas. Porém, segundo os relatos, é primordial se escute quem não conseguiu ser selecionado pelo programa. O estudante que não conseguiu também precisa de acolhimento, ou pelo menos de monitoramento.
Além disso, podemos observar nas entrevistas a dificuldade que a gestão possui para avaliar os programas do ponto de vista do aluno. Não existem procedimentos claros que proporcionem um feedback sobre a política de assistência estudantil por parte dos participantes.
5.3.3 Estrutura
É preciso ressaltar que, segundo os relatos, houve uma melhora das instalações, da estrutura física da DDS e do sistema informatizado, que agora proporciona aos estudantes a matrícula via internet, evitando que aqueles que moram fora do Distrito Federal tenham que se deslocar de suas cidades de origem apenas para efetuar a matrícula. Quando a matrícula ainda era presencial, há casos de estudantes que tiveram que permanecer em Brasília entre o período da matrícula até o início das aulas, tendo que arcar com os custos. Pelos relatos dos estudantes, isso já causou muitas desistências mesmo antes do aluno entrar para a UnB.
Por outro lado, segundo relatado, ainda há muitas reclamações por parte dos estudantes sobre problemas de funcionamento da plataforma online, como queda do sistema e desaparecimento de dados já preenchidos.
Segundo relatado, a própria estrutura física precária do CCN é um impeditivo para que ele se transforme em um núcleo de ensino, pesquisa e extensão. Para
eles, isso também impede que o CCN ofereça um melhor acolhimento para os estudantes negros e amplie suas ações junto aos departamentos de ensino.
5.3.4 Demanda
Segundo o diretor da DDS, o auxílio mais procurado pelos estudantes é o auxílio alimentação. O segundo mais procurado é o auxílio socioeconômico, mais conhecido como bolsa permanência. O terceiro mais procurado é o auxílio moradia (pecúnia). O quarto mais procurado é o auxílio moradia (CEU). O quinto mais procurado é o auxílio transporte e por último, o auxílio creche.
Segundo os estudantes, um grande avanço na gestão da UnB foi a disponibilização, já no ato da matrícula, do auxílio alimentação para o estudante selecionado pela assistência estudantil. Da mesma forma acontece com o auxílio transporte. Para eles, isso otimizou bastante o processo.
Podemos observar que a importância dos programas para cada estudante depende do período acadêmico. Logo no acesso, o auxílio alimentação e o auxílio moradia (pecúnia) são os programas mais valorizados. No entanto, para a permanência, o auxílio socioeconômico ganhou destaque nos relatos.
5.3.5 Acesso
Segundo os relatos, existe a necessidade da UnB divulgar melhor as regras de acesso à assistência estudantil, tanto em relação ao envio de documentação (via sistema SAEweb), quanto externamente para a comunidade, mais precisamente para os estudantes de ensino médio de escolas públicas que não conhecem a possibilidade de estudar em uma universidade pública com ajuda da assistência estudantil.
Podemos observar as dificuldades dos alunos no acesso aos programas, seja por causa do sistema, seja pela dificuldade de interpretar os editais, seja pela falta de documentos comprobatórios, como é o caso dos indígenas. Ainda de acordo com os estudantes, um dos problemas para acesso é a falta de orientações nos editais, tanto por parte da UnB como do Cebraspe.
O diretor da DDS falou do interesse futuro em contar com os estudantes para a elaboração dos programas como, por exemplo, na construção dos editais de
seleção, por meio da discussão coletiva sobre as dificuldades encontradas no sistema ou no envio da documentação necessária. Uma das grandes oportunidades provenientes dessa inovação poderia ser a disseminação do conhecimento para outros estudantes com as mesmas dúvidas, agilizando o processo.
O acesso aos programas é um complicador para que o estudante em vulnerabilidade consiga estudar na UnB. Segundo os relatos, com exceção do auxílio alimentação, os demais programas demoram, aproximadamente, de 3 a 6 meses até que os estudantes tenham acesso. O tempo necessário para a avaliação socioeconômica ainda é considerado demasiado pelos estudantes.
Segundo os relatos, ainda que os critérios de seleção sejam objetivos, os estudantes imaginam existir critérios subjetivos os quais desconhecem. Nesse sentido, os estudantes cobram uma maior fiscalização no processo, já que, segundo eles, é normal estudantes que moram na Casa do Estudante (CEU) possuírem automóveis próprios. Para eles, existem indivíduos que estão em situação de maior vulnerabilidade e não são assistidos pelos programas.
5.3.6 Permanência
Em todos os momentos da coleta de dados, a questão da permanência foi predominante. Em uma Universidade que oferece um número cada vez menor de vagas, ficou clara a preocupação dos estudantes em se manterem na UnB. Segundo eles, apesar do valor do auxílio moradia (pecúnia) estar desatualizado, esse é, na maioria das vezes, a única forma desses estudantes continuarem os estudos.
Para diminuir os problemas da vida acadêmica e melhorar o acompanhamento das disciplinas cursadas, os estudantes sugeriram a formação de monitorias específicas, dentro dos departamentos de ensino, para atender os participantes da assistência com dificuldades de aprendizagem.
Percebeu-se pelos relatos que a falta de acolhimento acarreta, muitas vezes, crises de pertencimento sobre o espaço que esses estudantes estão ocupando na Universidade. Isso acaba provocando a formação de grupos de resistência. Os estudantes são levados, muitas vezes, a não se verem nesse espaço da Universidade. Um dos motivos apontados é a falta de representatividade de pessoas negras em lugares de destaque na Universidade, como os de professores e diretores dos departamentos.
Podemos observar que, muitas vezes, pela falta de atuação da UnB, as ações de melhoria ficam a critério da organização e do envolvimento dos próprios estudantes em grupos e coletivos. Existem programas como, por exemplo, o Programa Afroatitude ou as reuniões semanais organizadas pela COQUEI com os estudantes indígenas, que geram discussão e engajamento, visando atender às demandas desses grupos. Dessa forma, os estudantes podem construir espaços físico e simbólico de identidades negra ou indígena e de convivência universitária. São ações afirmativas de permanência e de resistência cultural desses estudantes dentro da UnB.
A COQUEI e a COQUEN são consideradas coordenadorias destacadas pelo acolhimento e representação desses estudantes em suas demandas e negociações de conquistas junto à DDS/DAC. Nesse sentido, o CCN e a Maloca possuem um papel simbólico na defesa dos direitos e interesses de estudantes indígenas e negros junto à UnB. São espaços de discussão identitária e de reflexão. Podemos inferir pelos relatos que os espaços físicos de convivência desses estudantes são definidores do fortalecimento do sentimento de pertencimento, do acolhimento e da permanência.
O medo de perder a Bolsa Permanência, subsidiada pelo MEC, foi um dos fatores mais destacados durante a oficina com estudantes indígenas. Entre os estudantes negros, as dificuldades na permanência estão ligadas ao preconceito sofrido e a baixa renda familiar. Essas são as grandes dificuldades enfrentadas segundo os relatos. De acordo com as narrativas criadas, podemos inferir que, por morarem, na maioria das vezes, na periferia do Distrito Federal, por terem estudado em escolas públicas, por sofrerem racismo e discriminação, durante o crescimento, na vida acadêmica e no mercado de trabalho, esses indivíduos são mais propícios ao adoecimento mental dentro das universidades.
Em relação as novas exigências para permanência nos programas de assistência estudantil, houve relatos de suspensão dos auxílios pelo fato do estudante estar cursando o número mínimo de créditos, como, por exemplo, no trabalho de conclusão do curso (TCC). Para os estudantes, casos como esse precisariam receber uma avaliação particular, assim como os casos de adoecimento mental. É preciso que a DDS possa avaliar qual o número de disciplinas que esse estudante, em específico, tem capacidade de suportar durante um momento de vulnerabilidade.
Segundo os relatos, a pecúnia da moradia, no valor de R$ 530, é insuficiente para custear o aluguel dos estudantes, e por isso, muitos precisam trabalhar informalmente para complementar a renda, já que uma das exigências para conseguir a assistência é que o estudante não esteja empregado.
Podemos analisar que a questão do elitismo x massificação acaba se transferindo de alguma forma, para dentro das relações sociais no espaço universitário, seja nos problemas de acolhimento, geralmente provocados pelo preconceito contra negros e indígenas, seja na forma de tratamento diferenciada, que acabam culminando em problemas de desempenho, evasão e principalmente, no adoecimento mental desses estudantes. Outro problema encontrado nos relatos é a falta de empatia de alguns professores para compreender a realidade dos estudantes negros e indígenas.
Os relatos apontam para a falta de comunicação entre a DDS e o estudante cotista. Segundo os estudantes, a comunicação acontece apenas anualmente, nos períodos de renovação do estudo socioeconômico, via e-mail.
5.3.7 Saúde Mental
Segundo os estudantes, um dos principais fatores para evasão, baixo rendimento e perda de bolsas é a falta de monitoramento sobre a condição da saúde mental dos participantes da assistência estudantil. Para eles, a meritocracia adotada para avaliar quem continua ou não na assistência estudantil não é a melhor escolha para tratar de questões relacionadas à vulnerabilidade. A DDS alega que a queda do orçamento destinado à assistência somada ao aumento da demanda são os principais responsáveis por esse novo critério para seleção, que é mais rígido em relação ao desempenho acadêmico e tempo de duração do curso para o estudante participante.
De acordo com alguns relatos, a grande questão é que a DDS defende basicamente a meritocracia, ou seja, es exigências para permanência na assistência estudantil giram em torno do mínimo de créditos, das notas e do número máximo de semestres na Universidade. Para esses estudantes, a saúde mental não é avaliada.
Outra reclamação relatada é a suspensão das bolsas sem prévio aviso por parte da DDS, o que causa transtornos inesperados aos estudantes. Existe a demanda dos estudantes para que seja avaliada a saúde mental antes de qualquer
suspensão dos programas. Segundo relatado, a UnB precisa levar em conta que a falta de rendimento acadêmico do aluno pode ser ocasionada por uma situação mais grave de vulnerabilidade, seja ela econômica, mental ou social.
Entre os estudantes negros, a questão do racismo é a principal causa de adoecimento mental. Os relatos mostraram que ainda não existe por parte da UnB um acompanhamento próximo, de prevenção, quando falamos de saúde mental do estudante participante da assistência. Quando existe algo nesse sentido, é uma reparação, após o estudante apresentar uma série de problemas. A demanda recorrente é que a UnB realize ações de prevenção.
Nesse aspecto, os relatos dos estudantes alertam para o fato de a UnB não suprir a demanda, quando falamos de tratamento da saúde mental, seja pelos psicólogos disponibilizados pela DDS, seja pelo encaminhamento ao Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos (CAEP/UnB).