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Conclusion du Chapitre 2

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Chapitre 2 : Présentation des techniques utilisées

2.3 Conclusion du Chapitre 2

O espaço da ação, um retângulo com cerca de 20 metros quadrados, delimitado com fita crepe, faz alusão à casa e também lembra isolamento, prisão, limitação, solidão. Não há nenhum outro elemento em cena, exceto um objeto embrulhado para presente, à frente, do lado direito de quem assiste. No interior deste lugar, praticamente vazio, vemos uma mulher comum, sem nome, igual a tantas outras, mais ou menos na faixa dos 50 anos de idade. Não há dúvida de que se trata de uma mulher dos tempos atuais, porém, nada em sua aparência permite identificar com precisão sua profissão ou classe social. O figurino é simples: calça e camisa em tons neutros.

Foto do autor do trabalho. Fonte: acervo pessoal.

Um presente é um objeto afetivo por natureza. Presentear e ser presenteado é um ato simbólico da maior importância que acompanha a humanidade desde os primórdios. Lembremo-nos dos sacrifícios ofertados aos deuses pelos povos antigos a fim de lhes aplacar a fúria, ou como forma de agradecimento por uma boa colheita. Presentes sempre acompanharam ocasiões especiais na vida das pessoas, como nascimentos, aniversários, noivados e casamentos. Chefes de estado trocam agrados entre si como sinal de cordialidade e boas intenções.

Atualmente, há uma infinidade de datas comemorativas que são intensamente exploradas pelos departamentos de marketing das empresas ansiosas por vender seus produtos. Um presente envolve uma profusão de sentimentos contraditórios, tanto por parte de quem oferece quanto para quem recebe. Nem sempre é motivo de satisfação. Dependendo das circunstâncias, pode ser algo bem desagradável.

Cena 1:

Ela abre o pacote e demonstra certa decepção ao verificar que se trata de uma panela, mais precisamente um caldeirão de tamanho médio. O objeto panela, no imaginário coletivo, tem conotações positivas e negativas; está associado ao preparo da comida, algo essencial à

manutenção da vida; e por extensão, aos prazeres relacionados à alimentação, etc., mas pode também remeter às tarefas domésticas, geralmente extenuantes, repetitivas e não reconhecidas socialmente, exercidas pelas donas-de-casa. Em uma sociedade patriarcal e conservadora como a nossa, tornar-se uma dona-de-casa, até bem pouco tempo atrás, era praticamente um destino inevitável para a maioria das meninas. Aquelas que se recusassem, enfrentariam, por certo, enormes barreiras e dificuldades na vida, além de variados graus de preconceito e discriminação. Afinal, como diz o ditado popular, de cunho profundamente machista, “lugar de mulher é na cozinha”. Infelizmente, apesar de todas as lutas e conquistas alcançadas nas últimas décadas pelas mulheres, sabemos que o cenário pouco mudou para uma grande parcela da população feminina.

A mulher abre a tampa da panela e descobre, surpresa, que dentro dela há um lençol. Nesse momento, a cena adquire um tom surreal, com o auxílio da iluminação e da trilha sonora. Lentamente, ela retira o tecido de dentro da panela. Este momento simboliza um mergulho da personagem em seu próprio inconsciente. As imagens seguintes são fragmentos de memórias, sonhos e fantasias; breves momentos de uma trajetória de vida. Feliz, a mulher dança e brinca com o lençol; transforma-o em peças de figurino. Ela revive suas fantasias de adolescente, quando sonhava em ser uma modelo famosa; desfila em uma passarela imaginária, faz poses para fotógrafos invisíveis, etc. (Figuras 43 a 46).

Figura 43 – Transformações do objeto lençol.

Foto de Bruno Augusto. Fonte: acervo pessoal

Figura 45 - Transformações do objeto lençol.

Foto de Bruno Augusto. Fonte: acervo pessoal

Figura 46 - Transformações do objeto lençol.

O trabalho das modelos, assim como o das cantoras e atrizes famosas, é cercado por uma aura de glamour, devidamente reforçada e constantemente alimentada pela mídia, que as transforma em símbolo dos valores mais caros à sociedade de consumo: prestígio, riqueza, fama e reconhecimento. A realidade, contudo, é bem diferente. Tais profissões são duras, difíceis; a instabilidade e a incerteza quanto ao futuro são regras. A maior parte das profissionais é mal remunerada; bem poucas atingem aqueles objetivos. No entanto, sabemos que tornar-se uma celebridade é o sonho da vida de muitas garotas, que veem nesse horizonte uma chance de escapar de uma existência medíocre e sem perspectivas. Às vezes, acontece um choque de realidade. No final da cena, o lençol converte-se em um bebê recém-nascido. (Figuras 47 e 48). A gravidez é uma questão-chave na vida da maioria das mulheres na atualidade. Tornar-se mãe pode ser um sonho e ser encarado como uma benção para muitas; para outras, ao contrário, pode ser a causa de muita tristeza e sofrimento. A imagem sugere o fim das ilusões e a entrada da personagem na vida adulta, com seus pequenos e grandes problemas, frustrações e responsabilidades.

Figura 47 – Maternidade.

Foto de Bruno Augusto. Fonte: acervo pessoal.

Figura 48 – Maternidade.

A mulher inicia uma discussão acalorada com o objeto panela, que neste momento, para nós, simboliza o homem/marido/principio masculino. (Figuras 49 e 50). É muito comum associarmos pessoas a objetos materiais e vice-versa. Os objetos que pertencem ou pertenceram a alguém parecem impregnados da energia daquela pessoa. Exercem um estranho fascínio. Em se tratando de alguém famoso, uma pessoa pública, justifica-se até mesmo sua exposição em um museu a fim de que todos possam apreciá-los e sentir aquela energia. Processo semelhante se dá quando ganhamos um presente de alguém. Inevitavelmente, associamos o objeto à pessoa que nos presenteou. Neste momento da peça, a panela reveste-se de uma segunda camada de sentido. Não é mais apenas um objeto funcional, passa a incorporar também a figura do marido ausente.

A personagem fala em uma língua inventada, irreconhecível para o público, exceto em alguns raros momentos. Com isso, queremos trazer o tema da incomunicabilidade, da incapacidade de muitos em ouvir e compreender o outro. Apesar disso, fica claro que se trata de um acerto de contas. Percebe-se que sua vida ao lado daquele homem não tem sido fácil. Dirigindo-se diretamente ao público, ela conta, em sua língua de estrangeira no mundo, que por muitos anos foi agredida e passou por todo tipo de humilhação. Revoltada, ela chega mesmo a revidar as agressões e a ameaçar o objeto panela/homem. No entanto, a cena termina com a personagem sentada, em uma atitude de desânimo, como se não houvesse nenhuma solução no horizonte.

Figura 49 – Diálogo com a personagem/objeto.

Figura 50 - Diálogo com a personagem/objeto.

Foto de Bruno Augusto. Fonte: acervo pessoal.

Cena 3:

É como se a violência masculina retornasse com mais força ainda, após o movimento anterior no qual a mulher ensaiou uma tentativa de enfrentamento da situação em que se encontra. A trilha sonora e a iluminação em tons mais sombrios contribuem para criar um ambiente que lembra um pesadelo. Ela segura a panela e inicia a ação de lavá-la. O movimento começa lento, a expressão é distante, como a reviver antigas lembranças. Em um certo momento, ela deixa a panela no chão e prossegue com o movimento, agora como se lavasse a si própria. A cena remete à obrigação social que pesa sobre as mulheres, de se apresentarem sempre bonitas e bem vestidas.

Após essa toalete imaginária, ela se observa em um espelho invisível e espanta-se diante de sua imagem gasta e envelhecida. Revoltada, desfere tapas em seu próprio rosto, o que pode ser entendido como uma alusão às agressões sofridas na companhia do marido, mas também uma autopunição. Ela grita, se contorce, faz caretas, baba; ou seja, desconstrói radicalmente a imagem estereotipada da mulher, bela e feliz, sugerida na primeira cena; mostra um lado que, normalmente, não queremos ou fingimos não ver: a mulher destruída, derrotada. Segue-se um longo silêncio. Em seguida, a atriz retoma a panela e passa a manipulá-la de várias maneiras, sugerindo que o objeto tem vida própria, movendo-se independentemente de sua vontade. (Figura 51).

Figura 51 - Objeto opressor.

Foto de Raique Moura. Fonte: acervo pessoal.

O objeto surge, então, sucessivamente, como um fantasma a atemorizar a mulher, depois passa a persegui-la, como se houvesse assumido o controle dos movimentos. Em seguida, converte-se em um peso sobre suas costas, imagem que remete à opressão histórica sofrida pelas mulheres desde sempre. A personagem tenta, desesperadamente, livrar-se dela, sem sucesso.

Completamente exausta, a mulher coloca a panela na cabeça, como se fosse uma máscara. (Figura 52). A personagem tornou-se uma coisa, sem identidade própria. Converteu- se, ela mesma, em um objeto. Grita, pedindo socorro, porém, ninguém a escuta. Encolhe-se em um canto do palco. Um homem vestido em traje social entra, pega o mesmo lençol do início e embrulha a mulher, transformando-a em um enorme “presente”. (Figura 53). A luz se apaga lentamente. A imagem final reforça a ideia da redução da mulher à condição de objeto, pois remete à panela embalada como presente do início. Sugere também que a tragédia se repetirá, ad infinitum.

Figura 52 - Objeto panela como máscara.

Foto de Raique Moura. Fonte: acervo pessoal.

Figura 53 – A personagem termina “embrulhada para presente”.

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