5 B2C Market-Segment
7 Concluding Remarks and Future Trends
Com o intuito de conhecermos e analisarmos as táticas de ensino desenvolvidas pela professora Ana ao explorar os aspectos linguísticos, nos dispomos a observar 10 aulas ministradas por ela, durante os meses de outubro e novembro de 2009.
Assim como Elieci, após as investigações e a entrevista empreendida com a mestra, pudemos concluir que as suas práticas eram resultados, sobretudo, de
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experiências acumuladas no decorrer dos anos de exercício de sua profissão docente e das trocas de ideias com os colegas em momentos formais e informais, no ambiente de trabalho. As declarações da mestra no depoimento a seguir, apontam alguns dos subsídios em que ela se apoiava para construir e desenvolver as suas aulas:
“Para construir as minhas aulas, eu me baseio na minha turma, no nível que ela se encontra, assim, mesmo tendo conhecimento dos conteúdos que são próprios da 4ª série, eu não sigo eles, eu primeiro vejo a realidade da turma pra ver o que eu vou trabalhar com os alunos.
A minha prática é fruto do retrato que eu tenho da minha turma, da realidade da minha turma... É, com certeza, fruto das minhas experiências de anos anteriores, porque coisas que inicialmente eu achava que davam certo, passar por cima, atropelar, não dá certo.
Minha prática é fruto de estudos. É fruto de uma formação que eu tive, né? É fruto de trocas de experiências com os colegas. Eu acho assim, que é o conjunto, não dá pra dizer que é só por isso ou por aquilo, porque se eu resolvo adotar determinada prática, é com base nas leituras que eu já tive, que já fiz, com base nas práticas que eu vou construindo todos os anos. Às vezes a gente pega cada turma e diz: “Meu Deus, já tô aqui há 2, 3 anos e sempre fazia assim e com essa turma foi diferente”.
As conversas com os colegas é muito importante, ver a prática deles também, porque de repente você pode fazer de um jeito e você vê que não tá dando certo e teu colega tá fazendo de outro jeito que tu não conhecias e tu diz: “Eu vou testar daquele jeito pra ver se surte um efeito bom.”
Podemos perceber que assim como Elieci, as colocações da mestra dialogam com as afirmações de Chartier (2007) de que as práticas dos professores são frutos, sobretudo, do “ver fazer” e “ouvir dizer” entre colegas de profissão.
Ana discorrendo, ainda, sobre os subsídios que permeiam a construção e desenvolvimento de suas práticas, disse acreditar que o professor se fazia como tal, no dia-a-dia da sala de aula, através das experiências e experimentos vivenciados por ele no processo de ensino e aprendizagem. Ela afirmou também que a faculdade
não ensinava ninguém a ser professor, mas apenas habilitava-o a exercer a profissão:
“A sala de aula é uma coisa que eu gosto e continuo aprendendo. Cada ano é uma experiência nova! A gente fazer uma licenciatura num quer dizer que a gente é professor, a gente tá habilitado “para”, mas a gente se faz professor no dia-a-dia da nossa prática, da nossa sala de aula, não que as coisas que a gente aprenda na faculdade não sirvam, servem! Mas as coisas não acontecem daquela forma, arrumadinha, bonitinha, tá entendendo? Então você tem que ir sentindo a realidade, trabalhando de acordo com aquela realidade e chegando onde você, enquanto professor, pega preparação e sabe aonde o aluno deve chegar. É na prática que a gente vai aprendendo, na troca de experiências com outros colegas... é o dia-a-dia, entende?”
Como podemos perceber no trecho final da fala da professora, suas colocações acerca das dinâmicas que muitas vezes envolvem o fazer pedagógico (o “agir na urgência e o decidir na incerteza”) corroboram com as ideias de Perrenoud (1997) quando afirma que:
Ensinar significa, por vezes, reagir “com grande precisão” perante situações imprevistas e “sair delas” sem muitos prejuízos. Significa no melhor dos casos tirar partido do imprevisto para atingir o fim desejado. Ensinar significa agir rapidamente, com urgência, em face a uma situação complexa, mal conhecida ( p. 107; 1997).
Ainda no decorrer da entrevista Ana nos informou que possuía dias específicos para o ensino de Língua Portuguesa em sua classe, e acrescentou que preferia explorar cada eixo da língua, separadamente. Assim, a sua carga-horária estava dividida da seguinte forma: as segundas-feiras destinavam-se ao trabalho com a leitura e interpretação de textos; as terças e quartas-feiras, para a exploração da gramática e dos aspectos ortográficos, respectivamente, e o trabalho com a produção de textos, por sua vez, afirmou ela, acontecer nas segundas-feiras posteriores a uma segunda-feira em que tivesse sido trabalhado um texto novo.
A mestra justificou a sua opção pelo trabalho com os eixos de ensino em dias separados, declarando:
“Pra mim é uma questão de sequência didática. Não dá pra eu trabalhar com tudo, dar tudo, é... não dá pra dar tudo na segunda ou dar tudo na terça, então eu prefiro dividir.
Eu acho que assim, dividindo um dia pra leitura, outro pra gramática, outro pra ortografia e outro pra produção de textos, os alunos aprendem melhor. Agora eu faço tudo a partir de um texto que eu tenha trabalhado na leitura. Nem sempre dá pra trabalhar com os eixos de forma articulada.
Eu tento fazer o máximo que posso esse tipo de organização, porque eu acho interessante. É mais conveniente do ponto de vista pedagógico, pra você não ver tantos textos e o menino ficar com a cabeça louca.”
Como podemos observar no depoimento de Ana, ela disse acreditar que o trabalho com cada eixo em dias separados garantia um melhor aproveitamento dos mesmos, por parte dos alunos. Percebemos, ainda, que ao justificar seu ponto de vista, ela apresenta o texto como sendo o “gerador e articulador” do trabalho com e
entre os eixos de ensino:
(...) Eu gosto muito de trabalhar com o texto, então tudo pra mim tem que partir de um texto, ou até mesmo pode ser um contexto que não seja um texto escrito, mas pode ser um texto falado. Então, sempre no início da semana eu trabalho com um texto, aí faço a leitura silenciosa, a leitura compartilhada, a exploração oral daquele texto, a exploração por escrito, a observação da escrita das palavras, a exploração da interpretação por escrito. Então, a partir do texto, estudamos a ortografia, a gramática, a própria análise da língua, né?”
Mesmo tendo em vista que os eixos didáticos possuem suas especificidades, é preciso observar que nenhum deles se constitui numa atividade à parte, pelo contrário, eles estão em constante relação, e devem se entrelaçar com o objetivo de romper com a artificialidade quanto ao uso da linguagem que se instaura na sala de aula, oportunizando assim, a aquisição e o domínio efetivo da língua padrão tanto na modalidade oral como escrita (SOUZA, 2009).
Embora informados de que Ana separava um dia específico da semana para trabalhar os conhecimentos linguísticos, optamos por realizar observações em todos os dias que afirmou destinar para o ensino de língua materna, porque acreditávamos que ela poderia abordá-los de forma articulada aos demais eixos didáticos, ainda que não fosse de forma planejada e/ou sistemática.
Assim, no decorrer das investigações, nossas hipóteses ora se confirmavam, ora eram refutadas como mostra o quadro a seguir, o qual dispõe de uma breve descrição das aulas ministradas pela professora e nos permite conhecer, de forma mais detalhada, a construção de sua rotina:
Quadro 4: Rotina - Professora Ana
DATAS DIAS DA SEMANA DESCRIÇÕES DAS ATIVIDADES
05/10/2009 Segunda-feira 1) - Leitura do poema “As borboletas” (Vinicius de Moraes) – extraído de um livro didático e exploração de alguns aspectos linguísticos.
- Produção coletiva e, posteriormente, individual de poemas com exploração de alguns aspectos gramaticais: ortografia, sinônimo e pontuação – atividade em papel ofício.
07/10/2009 Quarta-feira 2) - Leitura da poesia “A casa” (Vinicius de Moraes) –
extraído de um livro didático e exploração de alguns aspectos linguísticos;
- Produção coletiva e, posteriormente, individual de poemas com exploração de alguns aspectos gramaticais: ortografia, sinônimo e pontuação – atividade no caderno.
13/10/2009 Terça-feira 3) – Adjetivo e grau comparativo (leitura da anotação escrita no quadro, classificação, regras e usos);
- Exercício escrito sobre adjetivos.
19/10/2009 Segunda-feira 4) - Leitura deleite do poema “Canção dos tamanquinhos” – livro de literatura “Ou isto, ou aquilo” (Cecília Meireles);
-Trabalho com os graus do adjetivo (classificação, regras e usos)
- Exercício escrito sobre os graus dos adjetivos.
20/10/2009 Terça-feira 5) - Leitura do livro de literatura “Bom dia, todas as cores” (Ruth Rocha) e exploração de alguns aspectos linguísticos.
- Trabalho com o dicionário;
- Exercício escrito a partir do dicionário com exploração de alguns aspectos gramaticais.
23/10/2009 Sexta-feira 6) - Verbo (leitura da anotação escrita no quadro, classificação, regras e usos);
- Exercício escrito sobre verbos
27/10/2009 Terça-feira 7) - Conjugações e tempos verbais (leitura da anotação escrita no quadro, classificação, regras e usos);
- Exercício escrito sobre conjugações e tempos verbais.
30/10/2009 Sexta-feira 8) - Infinitivos dos verbos (leitura da anotação escrita no quadro, classificação, regras e usos);
- Exercício escrito sobre os infinitivos dos verbo.
03/11/2009 Terça-feira 9) - Leitura de imagens a partir de histórias em quadrinhos
- Produção de texto com as gravuras seqüenciadas da história (atividade xerocada) e exploração de alguns aspectos linguísticos.
06/11/2009 Sexta-feira 10) - Leitura, interpretação de texto “O homem e a cobra”;
- Exercício escrito de interpretação do texto lido.
O quadro nos ajuda a perceber mais claramente que apesar de Ana ter afirmado trabalhar os eixos de ensino separadamente, esse fato não aconteceu na maioria das situações em que observamos sua classe. O que houve, na verdade, foi um enfoque maior dado a um determinado eixo, em detrimento de outro, segundo os objetivos pretendidos por ela naqueles momentos.
Ainda de acordo com as informações exibidas no quadro, verificamos que a mestra abordou todos os eixos de ensino durante os dias que estivemos em sua sala de aula e que desenvolveu uma rotina de trabalho diversificada, elegendo as
práticas de leitura e exploração dos fenômenos linguísticos, como prioridades na fabricação do seu cotidiano escolar. O trabalho envolvendo a exploração do primeiro eixo mencionado se fez presente em todas elas que ministrou e a segunda, por sua vez, foi explorada em 9 do total de aulas que nós investigamos, correspondendo a um total de 90%.
Essa dinâmica desenvolvida pela docente pode ser melhor visualizada no gráfico exibido a seguir, o qual traz informações acerca dos eixos didáticos explorados pela docente, durante a nossa coleta:
Gráfico 2 – Eixos explorados – Ana (em percentual)
Segundo os dados apresentados, o trabalho coma oralidade e a produção de textos ocuparam ambos 30% das aulas que nós acompanhamos aparecendo, na maioria das vezes, de forma articulada ao ensino dos demais eixos didáticos.
É importante enfatizarmos que do total de aulas em que a mestra explorou o trabalho com a análise linguística, 4 delas destinaram-se quase que exclusivamente ao ensino dos conteúdos gramaticais (adjetivos e verbos), sendo esses abordados na perspectiva da gramática tradicional normativa.
O fato de a mestra destinar um espaço bem maior ao trabalho com a análise linguística para o ensino dos conteúdos da gramática normativa aparece como um reflexo do que ainda tem sido o ensino do Português nas instituições brasileiras, conforme já discutimos no decorrer desse estudo.
Embora o discurso vigente sobre os objetivos para o ensino da língua materna na sala de aula aponte para o desenvolvimento da capacidade tanto oral como escrita do usuário da língua em situações reais de uso, a maior parte do tempo destinado para o ensino de LP tem sido voltado para atividades com enfoque nos exercícios de memorização, treino e classificação das categorias gramaticais estudadas, a partir de palavras e frases soltas, ausentes de significados (LEDUR, 1996). A opção da mestra por esse modelo de ensino parece refletir, ainda, à ideia que tem sido disseminada ao longo dos anos da história do ensino de língua nas nossas escolas: “saber português é saber gramática”.
Como já colocamos anteriormente, concordamos com o pressuposto de que é função da escola ensinar a norma padrão e criar condições para que ela seja aprendida, a fim de possibilitar ao indivíduo a sua participação de forma plena na sociedade na qual está inserido (PCN/LP, 1997), porém acreditamos que esse não deve ser objetivo da escola, mas o de garantir ao indivíduo o acesso à escrita e aos discursos que se organizam a partir dela. (BRITTO, 1997).
A discussão a que nos propomos aqui não versa sobre a questão que tem gerado grande polêmica e deixado a maioria dos professores de língua em dúvida se devem (ou não) ensinar a gramática na sala de aula, mas sobre o “como” e “pra quê” ensiná-la (GERALDI, 1997; BRITTO, 1997; TRAVAGLIA, 1997). Colaborando com essa discussão, Mendonça (2006a) coloca que a AL não elimina da sala de aula o trabalho com os aspectos gramaticais, pelo contrário! Ela engloba, entre outros aspectos (discursivos e textuais), o estudo dos mesmos, porém num paradigma diferente, pois que a concepção de língua e de seu ensino, bem como os objetivos a serem alcançados são outros.
Assim como Elieci, a mestra também disse sentir-se confusa quanto à forma mais adequada para abordar os conteúdos da gramática e acrescentou que sentia necessidade de participar de formações continuadas que pudessem esclarecer suas dúvidas sobre como deveria articular o seu ensino aos demais eixos didáticos. Vejamos essa inquietação vivida pela mestra, na transcrição do seu relato, a seguir:
“Eu não sei se eu faço a coisa certa, não sei se eu entendendo a finalidade da língua e consigo aplicar na funcionalidade. Eu não sei
se estou colocando em prática aquilo que eu acredito, entende? A leitura, a escrita, é importante? É! A gramática também é importante!
O indivíduo não está conhecendo a Língua Portuguesa? Eu acho que o indivíduo deve conhecer gramática, sim! Pra interagir melhor, escrever melhor, falar melhor, se comunicar melhor de uma forma geral, né?
Eu confesso que eu não sei se faço o casamento perfeito dentro do que eu acho, eu tenho dúvidas como as coisas devem acontecer sequencialmente (referindo-se a articulação entre os aspectos gramaticais e os demais eixos didáticos), mas eu posso dizer que eu acho importante os alunos aprenderem gramática como forma de ajudá-los a interagir melhor.”
Com a finalidade de conhecermos de forma mais detalhada, as práticas de ensino construídas pelas professoras Elieci e Ana, deter-nos-emos, a seguir, em analisarmos minuciosamente os conteúdos selecionados pelas mestras e consagrados ao trabalho com a análise linguística, no decorrer de nossas observações em suas classes.