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Conception et réalisation de l’outil de mesure de microforces

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Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo. 49

Uma forma de não-monogamia, também conhecida como troca de parceiros.

50“A suposição [assumption] de que é possível, válido e valioso [worthwhile] manter relações íntimas, sexuais e/ou amorosas com mais do que uma pessoa” (Haritaworn, Lin, & Klesse, 2006, p. 518). Para mais detalhes, consultar (Meg Barker & Langdridge, 2009; D. Cardoso, 2010, 2011).

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Usa-se, a pedido explícito da própria organização, a grafia oficial, com todas as letras minúsculas; segue-se o mesmo princípio na sigla.

A rede ex aequo (rea) é a única associação formal de jovens LGBTI (e, mais recentemente, apoiantes) em Portugal. De acordo com as informações disponíveis no seu site52, a rea existe informalmente desde Janeiro de 2002, tendo sido legalizada em Setembro de 2003. Recebe actualmente apoio do IPDJ, estando também integrada no Conselho Nacional da Juventude, entre outras associações organizativas de âmbito nacional e internacional.

A pessoa escolhida pela organização para ser entrevistada foi a Cátia Gonçalves, à altura parte da Direcção da rea e actualmente suplente da Direcção, com 27 anos (Anexo 3). Salvo indicação em contrário, todas as citações apresentadas abaixo nesta sub-secção são retiradas da entrevista realizada.

De acordo com Cátia, a compontente online é fundamental para o papel da rea. Porque existe um grande potencial de isolamento de jovens LGBT53, especialmente em zonas menos urbanas do país, e sendo importante a criação de espaços mais seguros e de apoio contra a discriminação, a rea desde sempre tentou apostar na criação de “pequenos grupos de trabalho por todo o país”. Porém, e face à impossibilidade de manter o número de pessoas necessárias nos projectos locais, a internet assume um papel fundamental dentro dos métodos da organização, para suplementar aquilo que não pode ser feito localmente: “a base online é o principal forte da associação para comunicar com os membros e com os associados”.

A forma mais icónica de o fazer foi através do Fórum da rea, criado a 5 de Abril de 2003, de acordo com Cátia: “pensámos que era uma boa forma de divulgar e de receber as pessoas, e quebrar o isolamento, nem toda a gente tem a possibilidade de se deslocar, seja por motivos económicos ou seja porque têm receio de explicar aos pais”. O Fórum serve então como criação de um espaço seguro – ideia essa que, de resto, se repete várias vezes ao longo da entrevista e é uma componente importante de muito do activismo existente, especialmente ao nível dos Direitos Humanos. Para este fim, existem sub-fóruns dentro do fórum principal organizados geograficamente, e onde geralmente participam apenas pessoas da região designada.

Porém, a conversa ou debate não são as únicas coisas que se podem fazer nessa plataforma. Cátia menciona a possibilidade que qualquer pessoa tem de “participar […]

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https://www.rea.pt/quem-somos/ 53

de uma forma activa ou não”: esta figura da participação passiva, longe de ser um oxímoro, tem que ver com o papel de repositório que um fórum (e a sua função de busca, bem como o facto de várias páginas estarem disponíveis ao público sem a necessidade de inscrição) pode ter. Daí Cátia mencionar um conjunto variado de práticas que entram dentro da participação, seja ela activa ou passiva: “consulta”, “ajuda para criar os momentos de partilha”, “partes lúdicas, como pequenos jogos”. “A ideia não é fazer as pessoas participarem em tudo, mas fazer participar naquilo que se sintam mais seguras e que lhes suscite mais interesse”.

A rea pensa-se, através do testemunho de Cátia, de uma forma que espelha a visão ocidental contemporânea do que é a juventude: enquanto um espaço de transiência e passagem, um espaço liminar que serve um propósito de empowerment para um grupo específico de pessoas com necessidades concretas que não podem ser supridas de outra forma (ou só dificilmente o podem), e que se encaixa numa visão de etapas, confirmando a literatura existente (Szulc & Dhoest, 2013): “Existem várias etapas […]. A associação não quer que a pessoa esteja sempre presente porque precisa de ajuda! Nós queremos que a pessoa esteja presente quando precisa de ajuda, e se sentir à vontade para continuar presente que continue a frequentar outros tópicos”. Um pouco depois, comentando sobre os grupos locais que têm encontros presenciais: “a pessoa precisa de ajuda, a pessoa vai; a pessoa já não precisa de ajuda, nós cumprimos a nossa parte. Temos menos membros? Eu não vou pensar que é mau, vou pensar que é bom, vou pensar: nós cumprimos o nosso objectivo e a pessoa não precisa mais de nós”.

As novas tecnologias não são, no entanto, vistas como intrinsecamente boas para o funcionamento da organização, e as transformações nos padrões de utilização e dificuldades sentidas pelos jovens acabam por operar como uma faca de dois gumes. De um lado está o Google (“eu fui, procurei no Google, como toda a gente, praticamente”) como amplificador da visibilidade do trabalho da organização mas, de outro, uma preocupação com a falta de literacia para os media ou em questões LGBT que podem dificultar essa mesma visibilidade. Cátia comenta o espanto que sente quando percebe que existem jovens (presumivelmente LGBT) que não sabem da existência da rea: “Como é que é possível? Há internet!”; “para nós é uma admiração”; “ou a pessoa nunca procurou ou a pessoa viu ali um nome estranho, pronto, ‘rede ex aequo’ para muitas pessoas é estranho e tipo, pensou, «Oh meu Deus! Isto é Latim!», não sei…”.

As redes sociais são também vistas como um desafio, na medida em que “cada vez mais com o impacto das redes sociais as pessoas acabam mais por optar por Facebook’s, Hi5’s e Twitter’s e isso tudo, e acabam por descurar um pouco, não do Fórum [da rea], mas dos fóruns em geral”. Isto requer um constante trabalho de adaptação a estas mudanças tecnológicas, algo que também parece criar algum atrito entre as tendências e práticas dos utilizadores por um lado, e a perspectiva funcionalista que a rea tem em relação às capacidades técnicas dos fóruns, por outro. “A associação tem uma página no Facebook que usa mais a nível divulgativo”, diz Cátia, e depois: “Okay, redes sociais, nós temos que dar o braço a torcer e apostar mais no Facebook, e temos apostado e tem tido uma grande adesão” (cf. Capítulo III.4, o uso das redes sociais para comunicação um-para-muitos é bastante frequente).

Ainda assim, a rea continua a apostar na especificidade do formato do fórum, recolhendo feedback dos seus utilizadores e procurando “melhorar a nível de imagem do próprio fórum, para ser mais apelativo”; na ocasião desta entrevista, não tinha ainda sido criado um grupo oficial da rea que poderia servir para comunicação entre várias pessoas e formação de comunidades ou, pelo menos, a expressão do que Wellman (2002) chama de “individualismo em rede”. De acordo com Cátia, o Facebook torna difícil criar o tipo de espaço que se pretende criar no fórum da rea, atendendo às especificidades acima mencionadas, embora também pareça haver alguma incerteza ou falta de exploração dos limites do Facebook enquanto plataforma em si mesma: “Queremos criar um ambiente de convívio, mas queremos acima de tudo que esse ambiente seja seguro. E nós para isso temos que assegurar que conseguimos garantir essa segurança. E no Facebook não sei se há possibilidade de fazer isso. Ter alguém a moderar ou a bloquear determinadas coisas”.

As funções de moderação dos grupos de Facebook são pensadas como sendo menos evidentes ou menos fortes do que num fórum, e o Facebook tenta fazer com que os seus utilizadores se identifiquem com os seus dados legais ou ‘reais’ (o que, neste caso, pode trazer problemas a alguns jovens): fica comprometida a missão da rea e a sua capacidade de fornecer essa mesma função de garantia, da existência de um espaço seguro para jovens alvo de discriminação.

A entrevista a Cátia deixa entrever uma organização cronológica que separa o ‘antes’ do fórum, do ‘agora’: “antigamente no tópico de ajuda, quando uma pessoa punha uma dúvida ou um desabafo, vinha sempre logo alguém comentar. E às vezes

eram muitas pessoas ao mesmo tempo a comentar a mesma coisa, e agora não é tão imediato, a própria resposta em si acaba por demorar mais tempo”. Cátia não sabe se isto corresponde a uma mobilização para as redes sociais, a uma maior liberalização da sociedade portuguesa que viria diminuir o número de problemas a reportar, ou uma combinação de ambos os factores. Porém, é clara a distinção entre dietas mediáticas sempre em evolução, o que levanta a questão sobre como estão os jovens abrangidos por esta investigação a operacionalizar a internet enquanto recurso de suporte pessoal.

Para além de fornecer apoio e entreajuda através da partilha de experiências pessoais e do debate no fórum, a rea vê-o como um sítio onde os jovens podem conhecer pessoas interessantes ou por quem se venham a interessar. Porém, e com o intuito de manter um espaço seguro, existem regras sobre o contacto que pode ou não ser feito publicamente: “ em tópicos não se pode marcar encontros, tudo o que seja encontros [é] para ser feito por mensagens pessoais”.

É também através da internet que a rea recebe pedidos de colaboração para estudos, entrevistas e outras formas de intercâmbio de conhecimentos que, depois de devidamente vetados, são retransmitidos aos jovens que fazem parte da rea via mailing

list, funcionando esta assim como um nexo de acesso à investigação sobre um grupo

minoritário, sendo os resultados depois publicados ou referidos no site54. O uso de sobre é propositado: de acordo com Cátia, nenhum estudo até ao momento da entrevista tinha tentado trabalhar com a organização na definição das problemáticas de investigação ou abordagens de campo55.

Através do fórum, e para além dele, a rea fornece também outros recursos virados especificamente para a comunidade LGBT e que têm que ver com a área da saúde (física e mental): disponibilizar, por exemplo, uma lista de profissionais de confiança, uma vez que o risco de serem atendidos por um profissional de saúde que seja homofóbico é o que impede alguns jovens de recorrer a serviços necessários. Também existem outras listas: de filmes interessantes, ou outros recursos de cultura popular que possam quebrar a sensação de isolamento e fornecer aos jovens as

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O presente autor é co-autor de um dos artigos científicos actualmente listados no site e, de acordo com o pedido da rea, a presente Tese irá eventualmente ser também listada lá, em reconhecimento e contributo do apoio dado à investigação.

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Para a realização do presente estudo, e como será referido adiante, no respectivo Capítulo, procurou-se o feedback da organização sobre os termos e questões orientadoras da investigação, mas nenhum pedido ou recomendação específica foi recebida.

referências culturais que mais dificilmente poderão adquirir, em virtude da heteronormatividade mediática.

A rea foca-se também na identificação de componentes negativas: o Observatório de Educação LGBT recolhe, online e de forma anónima, denúncias de situações de discriminação em meio escolar, publicando depois um Relatório.

A presença da rea não se faz sentir apenas online: para além de dinamizar actividades culturais pontuais, como ciclos de cinema ou actividades de rua, como organizar um dia de ‘Abraços Grátis’56

, existe também um programa chamado “Educação”, em que se recrutam, através da internet, jovens voluntários que recebem formação como formadores, estando depois capacitados a corresponder aos pedidos que a rea recebe para intervir em escolas (e outros espaços), geralmente no contexto de iniciativas de Educação Sexual57; decorreu também o projecto Inclusão, com intervenções de sensibilização em meio escolar e académico, e também junto de profissionais de saúde, para combater a lésbigaytransfobia nestes vários espaços.

Os grupos locais encontram-se também listados no site da rea, e constituem uma das principais preocupações da organização, bem como um dos principais pontos de convergência entre o fórum e as actividades físicas: “nós pedimos às pessoas mesmo para irem lá dar o testemunho para incentivar outras pessoas a irem. E o fórum serve também para isso, ou seja, para a pessoa sentir que não é única, que não está sozinha, que existem mais pessoas assim”. De facto, segundo Cátia, até a experiência de ir a um encontro de jovens LGBT pode ser algo difícil ou que gera ansiedade, visto como algo potencialmente perigoso: “às vezes as pessoas não vão porque pensam: «Ai, é a minha primeira vez, e como é que aquilo é? E depois se aquilo não corre bem? Ou se depois estão lá pessoas e que vão olhar, e ou porque eu sou assim ou sou assado.»”

A rea é uma organização que se foca tanto em mobilizar os recursos da internet para quebrar o isolamento social e geográfico como em fazer intersectar esses recursos com iniciativas no terreno. Graças às rápidas mudanças no panorama comunicacional em que os jovens se movem, e à sua aposta num tipo de plataforma que está, cada vez

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A oferta, na rua, de abraços a qualquer pessoa que passe e assim os queira, como forma pacífica e positiva de apostar na visibilidade de grupos discriminados de forma somática, afectiva.

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É de notar que, segundo Cátia, as alterações curriculares que acabaram com iniciativas como a Área- Projecto nas escolas básicas e secundárias corresponderam a uma diminuição do número de solicitações feitas à rea o que, na prática, se traduz numa Educação Sexual menos inclusiva e menos socialmente transversal.

mais, a cair em desuso em comparação a outras redes sociais que vieram, no geral, integrar funções sociais antes adscritas aos fóruns, a rea está actualmente a trabalhar para se redefinir e procurar lidar com os desafios de plataformas que não consegue controlar mas que têm vindo a ser cada vez mais centrais na vida dos jovens portugueses: 97% dos jovens em Portugal que têm perfil numa rede social referem o Facebook, vindo o Instagram em segundo lugar, com 19% (Simões et al., 2014, p. 2). Ocupa, porém, um lugar único por entre os recursos disponíveis para a comunidade LGBT mais jovem e tem, não só graças ao financiamento do IPDJ mas também ao esforço de multiplicar as suas vias de financiamento e de trabalhar de perto com a comunidade, conseguido sobreviver por entre uma conjuntura desfavorável. Ao mesmo tempo, pela sua existência e funcionamento, contradiz a estereotípica imagem de uma juventude alienada e incapaz de participar politicamente na sociedade onde está.