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: Le concept sur la valeur perçue

A Congregação das Irmãs Franciscanas do Coração de Maria tem sua história ligada à Ordem Terceira Franciscana, quando uma mulher, Antônia de Macedo, tivera a seguinte inspiração:

Anda na minha mente, Rosa Cândida, uma ideia que não sei se será de Deus ou tentação. Desejava arranjar uma casa onde, morando com algumas irmãs terceiras, pudéssemos, além de levar uma vida de oração e trabalhos, nos dedicar ao apostolado das almas, auxiliando os nossos capuchinhos em suas árduas missões. (PEDROSO, 1996, p.15)

A convergência das fontes pesquisadas mostrou que, como a maioria das fundadoras, Irmã Cecília possuía um relativo capital social, cuja pequena parte fora construído pela sua familiares. Seu pai, Pedro Liberato de Macedo, foi um pequeno proprietário rural e produtor de açúcar, proprietário de 21 escravos que trabalhavam em um pequeno engenho, onde se produzia uma média 400 arrobas de açúcar por ano, além de outras plantações e alguns poucos animais. Como tantos outros proprietários que se mudaram para a cidade, atraídos pelo processo de urbanização financiado pela elite, em 1847, comprou uma casa na área urbana, onde criou seus nove filhos. Além de ser produtor rural, desempenhou o cargo de secretário da Câmara Municipal, foi Juiz Municipal suplente e participou do brado republicano ocorrido em Piracicaba, em 1870. Sua rede de contatos e inserção política lhe rendeu razoável prestígio social junto aos republicanos, os quais, por ocasião de sua morte, custearam as despesas de seu funeral e o homenagearam postumamente, atribuindo seu nome a uma rua da cidade, em 1930.

Antônia Martins de Macedo, nascida 07 de julho de 1852, fora a sexta filha e a segunda piracicabana, crescendo na efervescência cultural e política de uma das principais cidades paulistas do final do século XIX. Teve acesso à formação escolar comum às moças de seu estrato social e se fez costureira, profissão que exerceu

por longos anos, mesmo depois de haver enviuvado. Segundo a tradição patriarcal, após intensa pressão, contraiu núpcias com Francisco José Ferreira, de profissão carpinteiro, mas após cinco anos de matrimônio, em 1893, ficou viúva. Teve três filhos: Rosa de Macedo Ferreira, nascida em 1889; João Macedo Ferreira, nascido em 1891 e Antônio de Macedo Ferreira, nascido em 1893. Os três ficaram com ela até 1900, quando os dois filhos foram enviados para o internato Liceu Coração de Jesus, dos Salesianos, em São Paulo, graças ao apoio econômico de um membro da elite de Piracicaba. A filha Rosa, que teria sido cega, surda e com transtornos mentais, foi conservada com ela durante toda a sua vida (PEDROSO, 1996).

Desejando destacar a santidade de Irmã Cecília, seu biógrafo buscou associar a fundação daquela organização com a retomada de uma suposta vocação religiosa existente desde a juventude e que fora reprimida. Segundo ele, antes mesmo de se casar ela teria desejado ingressar no Convento da Luz, em São Paulo, na Ordem da Imaculada Conceição, tendo sido impedida pelo pai, que lhe impôs casamento, ao que ela consentiu. Tendo ficado viúva, ela teria retomado seu projeto, quando ingressou na Ordem Terceira Franciscana e assumiu o nome religioso que a consagrou. Foi como terceira que ela teria proposto a suas amigas de viverem juntas e se colocarem a serviço dos frades. Eis, então, que procuram Frei Luiz Maria de São Tiago para que ele as orientasse (PEDROSO, 1996)68.

O conjunto de mulheres se constituiu como o mais importante capital social com o qual frei Luiz contou para atrair a atenção e o apoio da sociedade piracicabana para a execução de um projeto da sua Ordem. Ao aceitar a proposta dos frades, elas seriam incorporadas, ainda que perifericamente, na Ordem Capuchinha e seriam reconhecidas como herdeiras espirituais de Francisco de Assis. Bastava-lhes seguir fielmente as orientações dos frades. Para isso, uma característica se impunha: a organização deveria ser criada segundo as novas exigências sociais da vida religiosa oficiosa, ou seja, o exercício do apostolado. Segundo a biografia da ex- superiora, o frade teria respondido ao grupo:

68 Frei Luiz Maria de São Tiago nasceu em 26 de abril de 1862 em uma aldeia denominada San

Giácomo, nos Alpes austríacos, que posteriormente foi integrada à Itália. Professou os votos solenes na Ordem dos Frades Capuchinhos e foi ordenado padre em 1884. Em 1889 foi designado, juntamente com outros três frades, para integrar a primeira missão da Província de Trento, no estado de São Paulo, na cidade de Piracicaba, mas também foi missionário em Taubaté, para onde foi em agosto de 1898, por motivos de doença, e de onde partiu para a Itália em 1902, vindo a falecer em 24 de julho de 1910, com 48 anos (PEDROSO, 1996).

Não é loucura, minhas filhas, é vontade Deus. E até digo mais. Já tenho uma candidata para o Recolhimento. Somente a finalidade é que não está bem clara. Para agradar melhor a Deus, devem dedicar-se à caridade, acolhendo e dedicando-se a órfãs e crianças desvalidas. Desse modo, também o povo as ajudará de boa vontade. (PEDROSO, 1996, p. 15)

Interpretamos, portanto, que os dois excertos citados indicam a existência de um movimento essencialmente feminino, domesticado pelo frade. Ainda que a única forma encontrada pelo grupo tenha sido acolher a proposta do clero, ficam claras a novidade e a força de um movimento periférico que desperta o interesse da Igreja. Considerando que isso ocorreu no final do século XIX, é necessário destacar o importante papel da mulher na sociedade e na Igreja, naquele momento, percebido pelos frades como mais importante que a própria presença deles. Embora não possa ser esquecido o contexto social, altamente dominado por homens, o fato de a sociedade piracicabana reconhecer a força emergente de um grupo de mulheres, até então não oficializada na estrutura da Igreja, representava uma novidade da futura Congregação. Não fosse isso, ela não teria feito o sucesso que fez em Piracicaba. Nisso se confirma a percepção de Maria Rosado-Nunes de que a inserção das mulheres na vida da Igreja não teve a intenção de promovê-las, mas de reafirmar seu “estatuto subordinado”, como executoras de projetos eclesiásticos alinhados com a romanização (ROSADO-NUNES, 1997).

Nesta perspectiva, entendemos a condição de vulnerabilidade social de Antônia de Macedo, mulher, viúva e mãe de três filhos menores, em uma sociedade marcada pela tradição patriarcal do final do século XIX, levada em conta por ela e, talvez, até pelo frade italiano, na escolha daquele oficioso estilo de vida. É possível pensar que ela tenha associado o desejo de ser religiosa à necessidade de encontrar um abrigo institucional que protegesse a si e a seus filhos. Ademais, ambos sabiam que as congregações já estabelecidas dificilmente acolheriam uma mulher nas condições sociais em que ela se encontrava69. A solução seria tomar parte em uma organização que lhe permitisse ser mãe e religiosa. O convite do frade lhe permitiu isto.

As razões eclesiais para a fundação de uma obra caritativa podem ser buscadas em fundamentos complementares:

69 Ainda que se considere a existência de muitas viúvas que foram religiosas naquele momento de

- A Ação Social da Igreja, proposta pelo papa Leão XIII, apesar de ter sido apresentada como a dimensão social de socorro aos necessitados, o que, inclusive, foi expresso na Encíclica Rerum Novarum de 1891, deve ser entendida como a afirmação da posição política da instituição, não aceitando ser reduzida ao âmbito privado da religião, como defendiam os liberais, mas impunha-se como um organismo vivo e atuante na sociedade, o que implicava na defesa do Estado pautado em princípios religiosos católicos (NEGRI, 1994).

- Era preciso que o novo projeto desse a sua contribuição à sociedade, pois, sem isso, estaria fadado ao fracasso. Como mentor intelectual do grupo, o frade escolheu um escopo específico e diametralmente oposto tanto ao objetivo da única congregação feminina existente na cidade, que se dedicava ao ensino das filhas da elite piracicabana, no Colégio Assunção, quanto ao da Igreja Metodista, que também fundara o Colégio Piracicabano para educar os filhos dos protestantes e dos liberais, que desejavam outro estilo de educação a seus filhos. Com isso, o frade sinalizava a existência de um campo social, descoberto pelas duas escolas confessionais e pela própria sociedade piracicabana, que seria suprido através daquelas religiosas. Ao vincular o nascente grupo religioso à sua Ordem, o frei Luiz Maria de São Tiago pretendia afirmar aos liberais que ela também servia a sociedade.

- Se, na República, oficialmente, a Igreja já não podia mais receber benefícios do Estado e, para todos os efeitos, nenhuma daquelas mulheres possuía os bens necessários para estabelecer uma organização religiosa, era preciso capitalizar recursos que possibilitassem a montagem de uma estrutura mínima para acolher as religiosas. Daí a necessidade de um escopo social para que o grupo pudesse contar com apoio econômico da elite da cidade. - Por fim, era preciso que as religiosas se apresentassem como pobres. Para isso, a especificidade da tradição missionária dos franciscanos no acolhimento da pessoa humana, especialmente o pobre, foi fundamental para o sucesso da obra.

Destaque deve ser dado à última frase de Frei Luiz: “Desse modo, também o povo as ajudará de boa vontade”. A estratégia utilizada pelo frade foi construir uma representação de que aquela associação de mulheres nascia pobre e nada pedia

para si, mas para as meninas pobres. Coube ao pároco, Francisco Galvão de Barros, subscrever uma petição com a qual as futuras religiosas solicitariam doações para a construção de um asilo para meninas pobres, nomeado de Asilo [de] Nossa Mãe (MARCON, 1992)70. Os potenciais doadores podem ser divididos em dois grupos: o primeiro consistia na rede de contato pessoal de Antônia Martins de Macedo, especialmente sua família. Para garantir o apoio da sociedade, a petição já indicava que duas pessoas de uma mesma família da elite católica doariam o terreno onde seria construído o asilo71. Isso ocorreu, provavelmente, porque Maria das Dores Morato foi terceira franciscana e uma das fundadoras do Asilo. Além de seu empenho pessoal, ela conseguiu fazer com que outros membros de sua família ajudassem a nascente organização religiosa (Jubileu Áureo das Irmãs Franciscanas do Coração de Maria, 1940).

O segundo grupo agia de forma mais direta, pois compunha uma diretoria administrativa, formada pelas esposas dos “homens bons”, que garantiriam nada faltar ao Asilo (Jubileu Áureo das Irmãs Franciscanas do Coração de Maria, 1940). Secundado pelo apoio da elite piracicabana, em menos de dois anos, o grupo conseguiu a doação de dinheiro suficiente para construir um prédio com duplo uso: abrigo para as órfãs e convento para as religiosas, que assumiram a administração da obra (MARCON, 1992). Para demonstrar que a estratégia dos frades fora acertada, Scremin (2009) destacou que o Jornal Gazeta de Piracicaba, assumidamente republicano e anticlerical, e que tantas vezes criticou a atuação dos frades trentinos, divulgou apelos para sensibilizar a sociedade a efetuar doações em favor do Asilo72, chegando a publicar os valores das doações e estampou os nomes

70 No Dossiê consta uma declaração que indica haver 11 títulos diferente para denominar o Asilo de

Nossa Mãe. Da mesma forma que as mudanças no nome da Congregação, as principais justificativas são as mudanças canônicas e as civis. Desde 1952 o Asilo é denominado de LAR ESCOLA CORAÇÃO DE MARIA NOSSA MAE (MARCON, 1992, IV, 113-114).

71 Consta na subscrição que Manoel Morato e Maria das Dores Morato contribuíram com dois

terrenos no valor de Rs 10:000$000. Nos documentos reunidos na Dossiê verificamos que a doação de Maria das Dores foi verbal, pois ela só foi registrada em 1898, dois anos depois da subscrição (Primeiro Tabelionato da Cidade de Piracicaba, Livro 141, fl 65, apud MARCON, 1992, IV, 117-118). Ela mesma doaria um segundo terreno ao Asilo em 1906 (Primeiro Tabelionato da Cidade de Piracicaba, livro 171, folha 59, apud MARCON, 1992, IV, 119-120).

72 Em agosto de 1896, o jornal publicou o valor arrecadado - Rs 33.506$000 – e em outubro esse

valor chegou a Rs 39.910$000 (GAZETA DE PIRACICABA, n. 2290, de 16/08/1896, e n. 2311, de 07/10/1896, respectivamente, apud SCREMIN, 2009, p. 57).

dos beneméritos doadores, dando “ênfase a seus feitos caridosos” (SCREMIN, 2009) e, assim, enaltecer seus próprios apoiadores.

É possível aqui estabelecer uma relação com a “sociologia das relações de poder”, analisada por Norbert Elias. De um lado, o poder dos “estabelecidos” política e economicamente: a elite piracicabana, que até certo momento negava espaço para os outsiders, os frades imigrantes; de outro, de forma reversa, a força institucional que fazia desses os novos “estabelecidos”, os donos do poder clerical, os únicos capazes de dar reconhecimento ao grupo de doadores do Asilo como católicos benemerentes (ELIAS; SCOTSON, 2000).

Nesse jogo que envolvia múltiplos interesses, a associação de terceiras franciscanas assumiu-se protetora das órfãs, adotando para si essa identidade sociorreligiosa, fazendo dela o elemento-chave de sua identidade religiosa. Tal estratégia se mostrou muito profícua, pois a obra religiosa era vista com bons olhos pelo poder público e pela elite da cidade, que, além de desonerá-los de suas responsabilidades sociais, contribuiria para a formação das órfãs, futuras cidadãs sabedoras do seu lugar social e construtoras do Brasil (NEGRÃO, 2002).

A existência da petição ou subscrição demonstra que a precedência na criação do Asilo foi uma estratégia geradora das condições para que a organização religiosa, recém-fundada, pudesse levar adiante seus projetos e acolher as irmãs. Não fosse seu caráter de serviço de benemerência, a elite piracicabana não teria se interessado em ajudar um projeto eclesial, ainda mais para ser a sede de uma futura organização religiosa. Convencidas pela proposta do eclesiástico, aquelas mulheres aceitaram assumir o Asilo para meninas órfãs idealizado por ele e que seria construído a expensas da elite católica da cidade e com o trabalho dos irmãos terceiros. Em 2 de fevereiro de 1898, o Asilo estava pronto para acolher as terceiras, Irmã Cecília, Irmã Nazária, Irmã Virginia e Irmã Valéria, que se mudaram com duas órfãs para o Asilo, além dos três filhos da fundadora, os quais provavelmente se misturavam às outras crianças do Asilo (PEDROSO, 1996). A considerar o número de órfãs acolhidas como ínfimo, menor inclusive que o número de filhos da própria Irmã Cecília, é possível questionar se, de fato, naquele momento inicial, o escopo da instituição eram, realmente, as meninas pobres, pois se esperaria que já no dia da inauguração o instituto estivesse repleto de órfãs, que perambulavam pela cidade, o que não aconteceu.

Antes mesmo do lançamento da pedra fundamental do prédio, Frei Luiz tratou de dar-lhe um Estatuto, o qual foi registrado em 27 de fevereiro de 1896, tendo um pequeno excerto publicado no Diário Oficial, n. 18.492, em 01/11/1896, segundo as exigências da lei, o qual traz em seu primeiro artigo: “Com a denominação de Asilo de Nossa Mãe fica fundado, com sede e estabelecimento na cidade de Piracicaba, um instituto destinado a educar e sustentar meninas desvalidas, órfãs ou não, sem distinção de cor ou de classe” (MARCON, 1992, IV, Artigo 1º, capítulo I, p. 131). Causa impressão que, em menos de três meses de funcionamento, o Estatuto do Asilo tenha sido modificado, conforme pode ser verificado na “Ata da Assembleia Geral Extraordinária das Benfeitoras do Asilo do Coração de Maria Nossa Mãe, para adoção da Reforma dos novos estatutos”, datada de 28 de maio de 1899 (MARCON, 1992, IV). O motivo era definir que o patrimônio material do instituto permanecesse em uma organização religiosa católica.

Da comparação entre eles, destacamos três pontos:

a. Desde a primeira redação do Estatuto definiu-se que, mesmo sendo uma instituição construída pela da sociedade civil, o Asilo era “um instituto religioso” e sua diretoria seria composta por religiosas, reconhecidas como “mestras” e por leigas, reconhecidas como “benfeitoras” (ESTATUTO, 1896, Artigos 32, 10 e 23, respectivamente, apud MARCON, IV, 1992). Ele também definia que o nome para a função de diretora deveria ser escolhido dentre os membros do primeiro grupo. O fato de não ter havido manifestações contrárias das leigas se justifica pela cultura engendrada pelo catolicismo, que legitimava o que Weber identificou de “dominação tradicional”, pois, pessoa alguma ousaria contestar o status quo religioso. Todavia, o fato de o segundo Estatuto ter insistido nisso, esmiuçando-o em três artigos, parece indicar o temor de questionamentos contrários, daí a necessidade de se instaurar a dominação legal-racional, isto é, explicitar que a diretora deveria ser religiosa.

b. Em ambas as redações, os poderes atribuídos à diretora eram “amplos e ilimitados” (ESTATUTO, 1896, artigo 4 apud MARCON, IV, 1992). Pressupomos que a existência de uma diretoria teria como fundamental obrigação controlar possíveis desmandos da diretora. Apesar disso, constatamos explicitado no segundo Estatuto justamente o contrário: as

mestras e as benfeitoras, enquanto associadas, concederam amplos e irrestritos poderes à Diretora, para que ela usasse dos bens móveis e imóveis da forma que melhor lhe conviesse (ESTATUTO, 1889, artigo 5 apud MARCON, IV, 1992). Percebemos, então, que o novo Estatuto expressava a articulação política das freiras para que o poder permanecesse concentrado nas mãos da diretora de forma estatutária e, portanto, legal.

c. Para garantir que o patrimônio permanecesse sob o controle da Igreja, o novo Estatuto alterou o texto sobre uma possível dissolução da entidade. O primeiro texto definia que “os bens do Instituto (...) passarão a uma das instituições de caridade que existir em Piracicaba ou se criar no futuro” (ESTATUTO, 1986, Artigo 38 apud MARCON, IV, 1992). No estatuto reformado se lê: “No caso de extinguir-se o Asilo Coração de Maria Nossa Mãe, seus bens se devolverão à Diocese, para dele dispor o Bispo Diocesano, como entender, em favor de qualquer outra instituição pia desta Diocese” (ESTATUTO, 1899, 14 apud MARCON, IV, 1992). Dentro da lógica de nossa análise, é bastante provável que o frade dirigente tenha orientado a diretoria do Asilo a alterar o artigo sobre a dissolução dos bens, de forma a garantir que o imóvel fosse transferido à Igreja e ficasse à disposição do bispo, claro sinal da romanização e do controle do clero.

Constatamos, portanto, que o Estatuto reformado de 1899 sinalizava a institucionalização e a consequente clericalização da organização feminina. Apesar de ambos os Estatutos insistirem na distinção entre mestras (as religiosas) e benfeitoras (as leigas), perante o direito da Igreja, até então, aquela era uma associação leiga. Ainda que tais documentos tenham usado a nomenclatura “religiosas”, todas aquelas mulheres eram igualmente leigas, e, do ponto de vista canônico, eles não tinham validade alguma. Talvez, justamente por essa razão, o redator do Estatuto de 1896, frei Luiz, tenha se valido da estratégia de não explicitar esta diferença como foi feito no Estatuto de 1899, fato que teria facilitado o seu registro no Cartório como um organismo leigo. O Estatuto de 1899 se antecipava e dava um segundo e gradativo passo que definia o destino eclesiástico do patrimônio do Asilo, que nascera leigo e era gerido por uma organização leiga. Há, nele, o peso moral de que a Igreja gozava, a ponto de os funcionários do cartório não atentarem

para as mudanças ocorridas no novo estatuto, favorecendo aquelas que aspiravam tornar-se oficialmente religiosas e a própria Diocese. Vê-se, portanto, que, com o registro daquele patrimônio, a proposta do grupo leigo, orientada pelo frei, já sinalizava a institucionalização do grupo leigo, e, sendo o prédio, construído para abrigar o Asilo, transformado em convento para as freiras.

Ainda que Pedroso tenha buscado construir uma continuidade entre as ações de frei Luiz Maria de São Tiago e frei Bernardino de Lavalle, afirmando que o primeiro teria querido fundar uma congregação, a sucessão de fatos após a transferência deste para Taubaté, em agosto de 1898, indica o contrário73. Relacionado com o que já expusemos no capítulo I, é possível pensar que os próprios frades tivessem concepções diferentes sobre a vida religiosa feminina. É bastante provável que alguns tivessem opinião igual à de muitos fundadores do século XIX, não querendo que suas fundações se emancipassem, para não perderem a ascendência sobre elas. Já outros, mais romanizados, haviam internalizado a irreversibilidade do processo da conventualização do movimento congregacional74. Ainda que tal processo significasse a diminuição da ascendência da Ordem masculina sobre a sua fundação, frei Bernardino de Lavalle, especialmente, deve ter avaliado que a institucionalização da organização feminina se constituiria na única possibilidade dela continuar existindo e de sua Ordem continuar a tirar algum proveito disso. Esta era a nova realidade. Entendemos que frei Bernardino fazia parte do segundo grupo, pois uma das primeiras providências tomadas por esse frade foi modificar o Estatuto, o que ocorreu em maio de 1899, quando passou a ser o novo diretor de consciência das terceiras. Foi também este frade a conseguir que o bispo de São Paulo

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