LE SYMBOLISME ET LES SIGNES
CHAPITRE 2 : IDENTITE CULTURELLE
2.3 L’identité individuelle et le multiculturalisme
2.3.1 Le concept de culture moderne
Elysio de Moura (2005) no seu livro “Anorexia Mental” oferece ao leitor um conjunto de leituras sobre este fenómeno, salientando aspectos quer individuais, quer familiares. Questiona assim a possibilidade da Anorexia Nervosa estar relacionada com o desejo de se salientar ou captar atenções, com uma preocupação estética, um desejo de ser atraente para o sexo oposto ou um desejo de retardar o crescimento ora no sentido de garantir a protecção e apoio dos outros, ora no sentido de evitar o futuro, o amor físico, a sexualidade. Enumera ainda outras possibilidades como a Anorexia Nervosa poder ser uma reacção anti-vital disfarçada, ou seja, uma espécie de suicídio não condenável ou uma tentativa de experimentar um estado de ascese, no sentido de atingir uma sensação de levitação. Mais ainda, Elysio de Moura avança com hipóteses que envolvem os seus familiares, colocando a possibilidade da Anorexia Nervosa ser uma forma da jovem ver-se colocada num papel de privilegiada e/ou forçar os pais a volverem-se para ela, compensando-a da atenção dada privilegiadamente a outro filho, ou uma forma de vingança à família ou de aversão mal disfarçada contra a mãe e inclinação ardorosa para o pai. Coloca ainda hipóteses como a Anorexia Nervosa ser „um particular melindre‟ devido a uma atmosfera de desarmonia e discórdia familiar, uma forma de se tornar desobediente, rebelar-se contra a rotina, tacanhez, ideias antiquadas das pessoas com quem vive, uma espécie de feitio insubmisso perante a autoridade ou mesmo opressão familiar, mais particularmente uma forma de desforrar- se de imposições alimentares passadas. Curiosamente, muitos destes aspectos continuam muito actuais ainda nos nossos dias e foram desenvolvidos por vários autores posteriores.
Para além destas possíveis leituras que Elysio de Moura salienta, a Anorexia Nervosa tem ainda sido associada a características individuais como o perfeccionismo. Vários estudos têm mostrado que o perfeccionismo constitui um factor de risco e de manutenção das perturbações do comportamento alimentar (Macedo et al., 2002), quer através da análise de amostras não clínicas em que níveis de perfeccionismo elevados estão associados a níveis também mais elevados de atitudes/comportamentos alimentares anormais (Macedo et al., 2007), quer em amostras clínicas em que os doentes com perturbações de comportamento alimentar apresentam níveis mais elevados de perfeccionismo relativamente aos grupos de controlo (Bastiani, Rao, Weltzin, & Kaye, 1995). No seguimento, muitos autores encaram o perfeccionismo como uma forma de luta pela competência e eficácia (Crocker & Park, 2004), derivada de uma baixa auto-estima. Efectivamente a relação entre a Anorexia Nervosa e a auto-estima tem sido estudada, assim como o promoção da auto-estima tem sido um ingrediente de alguns modelos de tratamento para a Anorexia Nervosa, nomeadamente as terapias cognitivo-comportamentais e terapia motivacional (Surgenor, Maguire, Russell & Touyz, 2007). A auto-estima tem sido decomposta em duas dimensões: a auto-valorização (self-liking) e o sentido de mestria/competência (self-competence), estando a primeira mais dependente do contexto social e a segunda mais associada ao controlo e ao sentimento de auto- eficácia, havendo algumas investigações que evidenciam a relação de ambas com a anorexia nervosa e o aumento do sentido de competência como indicador de mudança da sintomatologia alimentar no tempo (Bardone, Perez, Abramson & Joiner, 2003). Este sentimento de controlo parece ser importante para muitas pessoas com Anorexia Nervosa, inclusivamente Zanker (2009) refere que a Anorexia Nervosa é forma de ter controlo. Segundo Vandereycken & Meermann (1984), o problema principal das PCA é o auto-controlo relacionado com o peso/forma e o medo de o perder. As pessoas com perturbações alimentares são exímias em auto-controlo e encontram-se muitas vezes no seio de uma batalha entre a necessidade de exercer controlo e o impulso para o perder. Se esta busca de controlo pode afigurar-se como um traço característico destas jovens, esta característica pode ser lida em termos relacionais. Segundo Giordano (2005), a busca de controlo sobre si e sobre o ambiente envolvente pode ser considerado como uma necessidade profunda das pacientes se perceberem como seres autónomos em relação aos outros, capazes de auto-determinação.
Assim vários autores desenvolveram leituras psicológicas da Anorexia que abandonam o olhar unicamente circunscrito para o indivíduo, para ser adoptado um olhar sobre o indivíduo em contexto (Minuchin et al., 1978). É nesta lógica que a Anorexia Nervosa passa a ser vista como um fenómeno relacional, conforme,
mergulho nas diferentes metáforas relacionais que foram sendo construídos por estes autores, olhando para o contexto familiar onde tem lugar o comportamento anoréctico, desviando a atenção das relações causais e procurando acima de tudo captar a circularidade dos comportamentos que compõem tramas familiares complexas e intrigantes.
3.3.1. A metáfora de um microcosmo familiar super-unido e caleidoscópico
Minuchin foi um dos primeiros autores a deixar a visão linear do fenómeno da Anorexia Nervosa, para defender que o diagnóstico de anorexia nervosa tanto se aplica às pacientes como ao seu sistema familiar (1978). Neste sentido, Minuchin e colaboradores (1978) afirmaram que determinadas organizações familiares estão relacionadas com o desenvolvimento e manutenção de síndromes psicossomáticas nas crianças e que os sintomas psicossomáticos das crianças têm um importante papel na manutenção da homeostase familiar. Ao estudar as famílias ditas psicossomáticas, concluiu a existência de quatro características familiares principais ao nível das suas interacções: 1) o emaranhamento; 2) a super-protecção; 3) a rigidez e 4) evitamento de conflitos.
1) Emaranhamento refere-se a uma forma extrema de proximidade e intensidade nas interacções familiares, que faz com que uma mudança num elemento ou na relação entre dois atinja os outros todos. Esta extrema proximidade torna as fronteiras entre os vários subsistemas pobres e fracas, sendo comum a intrusão dos diferentes elementos nos pensamentos e sentimentos dos outros e a não existência de espaços de privacidade, tornando-se assim difícil a diferenciação entre os elementos. Nestes sistemas existem geralmente fronteiras fortes entre o sistema familiar e o exterior, funcionando o primeiro como um microcosmo.
2) A super-protecção manifesta-se na extrema preocupação que os diferentes elementos têm relativamente ao bem-estar dos outros. Os pais são geralmente muito orientados para os filhos, colocando-os acima de todas as outras áreas das suas vidas e ao super-protegerem os filhos dificultam as suas tarefas de autonomização e os filhos parecem sentir também uma grande responsabilidade em proteger a família, algo que por vezes poderão fazer através dos seus sintomas.
3) Rigidez relaciona-se com a dificuldade destas famílias no confronto com situações de mudança, tendendo a manter a todo custo a sua homeostase familiar. Com o crescimento dos filhos, por exemplo, as regras e os padrões de
interacção com os filhos mantêm-se apesar da mudança de idade e do nível de desenvolvimento. A mudança tende a ser vista como algo ameaçador.
4) O evitamento de conflitos é algo muito característico destas famílias muitas vezes defendido como algo em nome da religião ou dos códigos de ética que os guiam ou ainda em nome da harmonia familiar. Este evitamento faz com que os problemas se mantenham sem serem resolvidos, activando consequentemente o sistema de evitamento, num ciclo recursivo sem fim. Este evitamento implica, muitas vezes, a negação do self dos elementos da família.
Para Minuchin e colaboradores (1978), estas características não podem ser vistas isoladamente como causadoras da doença psicossomática, mas antes como uma constelação de transacções que, por meio de feedback e circularidade, estarão relacionadas com o sintoma, tendo assim o sintoma um novo significado enquanto regulador do sistema familiar. O autor descreve ainda uma quinta característica destas famílias: o envolvimento de um dos filhos no conflito parental, encontrando três situações-tipo diferentes: situação 1) em que os pais incapazes de lidar um com o outro unem-se nos cuidados com a criança doente, desviando assim o conflito; situação 2) em que um conflito conjugal se transforma num conflito parental dada a dificuldade em lidar com o filho doente e; situação 3) em que um filho é recrutado pelos pais para tomar posição ou para servir de mediador, passando este a ser triangulado ou parte de uma aliança. Nestes casos, o sintoma torna-se eficiente em regular a estabilidade familiar, o que reforça a sua continuidade e os aspectos característicos da organização familiar. Da comparação de diferentes famílias psicossomáticas com famílias normais e famílias saudáveis, Minuchin apercebeu-se que as famílias com jovens anorécticas tinham determinadas características mais salientes do que todas as outras, nomeadamente, o evitamento de conflitos, o envolvimento da criança no conflito parental e a super-protecção, daí a sua descrição mais detalhada da denominada „família anoréctica‟. Assim, a Anorexia Nervosa é encarada por Minuchin enquanto produto de um sistema, composto por elementos que aprendem a ser caleidoscópicos, sensíveis às necessidades dos outros e procurando viver em função destes e da sua aprovação, não lhes permitindo diferenciarem-se uns dos outros mas garantindo a harmonia familiar.
3.3.3. A metáfora de um jogo de comunicação familiar
Para Palazzoli e colaboradores (1999), a Anorexia Nervosa pode ser entendida como o resultado de factores socioculturais específicos da sociedade ocidental,
abundância, e factores relacionados com a dinâmica familiar. Assim, Palazzoli e colaboradores (idem) descrevem o desenvolvimento do sintoma anoréxico a partir de um imbróglio familiar, que envolve uma relação aparentemente privilegiada entre a denominada Paciente Identificada (P.I.) e um dos seus progenitores, que mais não é do que uma estratégia voltada contra alguém, geralmente contra o outro progenitor, gerando-se um jogo entre o casal, em que um dos cônjuges instiga a filha contra o outro. Este equilíbrio é posto em causa quando a P.I. descobre que a razão de ter sido escolhida como elemento privilegiado na relação com o progenitor era simplesmente uma forma deste comunicar com o seu conjugue. Segue-se um jogo da díade parental, no qual está envolvida a filha anoréctica, que Palazzoli e colaboradores descrevem como um processo de 6 etapas.
Na primeira etapa, o casal entra num impasse em que um dos progenitores provoca o outro e o outro bloqueia qualquer possibilidade de interacção ou para evitar o conflito ou pelo seu autoritarismo, sendo mais frequente a primeira interacção.
Seguidamente (2ª etapa), a filha será envolvida neste jogo parental de duas formas possíveis, conforme a relação privilegiada for com a mãe (situação A) ou com o pai (situação B). Na situação A, a filha toma o partido da mãe, ao perceber o sofrimento de que a mãe é vítima, infligido pelo pai. Na situação B, a filha, geralmente a predilecta do pai, considera-o superior à mãe não aceitando a forma como a mãe trata o pai.
Com a chegada da adolescência (3ª etapa), a jovem sofre uma desilusão com o progenitor preferido. Assim, na situação A, a filha descobre que a mãe tem uma preferência por outro elemento da família, um irmão ou irmã por exemplo, e a partir deste sentimento de abandono, a futura P.I. volta-se para o seu pai, passando a tomar o partido deste e este entra num processo de instigação com a filha contra a mãe, mostrando-lhe o quanto a mãe o aborrece. Na situação B, a proximidade entre pai e filha intensifica- se, aumentando o processo de instigação contra a mãe, mostrando a filha que o pai não se deve submeter às vontades da mãe.
É neste período (4ª etapa) de “intenso mal-estar relacional que ocorre a dieta” (Palazolli et al., 1998, p. 218). Consequentemente, na situação A, a jovem procura diferenciar-se da mãe a todo o custo, através da sua imagem, seguindo o ideal de beleza socialmente veiculado. Na situação B, a jovem inicia a dieta enquanto provocação à mãe, demonstrando-lhe uma forma de protesto contra comportamentos ou atitudes da mãe que a magoaram, a si ou ao pai. Esta redução alimentar vai agravar-se, já que a mãe começa a intensificar a sua intrusão perante a dieta da filha, o pai
tenta demover a mãe mas sem grande persistência e força, o que vai aumentar a vontade da filha se opor quer à sua mãe “intrusiva”, quer ao seu pai “cobarde” que não se afirma perante a mãe.
Na quinta etapa, a filha sente-se traída por este pai pela sua incapacidade de se impor.
E, finalmente, na última etapa, este jogo familiar perpetua-se alimentado pelo poder adquirido pela filha com o sintoma que manifesta e pelas estratégias que os diferentes elementos adoptam “baseadas no sintoma” (idem, p.219), que se tornam auto-perpetuadoras do sintoma.
Com efeito, o sintoma anoréxico afigura-se enquanto um sintoma de protesto contra um dos progenitores instigado pelo outro e, posteriormente, pelo sentido de traição ou desilusão sentido em relação ao progenitor instigador, que adquire um papel fundamental no jogo parental/conjugal em que está enredado. Se inicialmente Palazzoli e colaboradores colocaram a tónica deste jogo familiar descrito em termos de uma triangulação, que se forma no seio de um conflito conjugal encoberto, com os estudos posteriores, que desenvolveram para descrever os diferentes elementos destas famílias (1999), passaram a colocar a tónica desta trama familiar na necessidade da paciente ter uma figura de referência emotiva que pudesse servir de interlocutor privilegiado no processo de crescimento. De acordo com a investigação que realizaram para descrever os diferentes elementos destas famílias concluíram que os pais apresentavam mais carências afectivas do que as mães ao nível das suas famílias de origem, tendendo a ter reacções defensivas em função desta insuficiência afectiva. Procurariam nas esposas uma figura maternal disponível, não de tipo simbiótico infantil, mas de tipo pré-adolescente, que lhes permitisse manter a sua independência mas terem a segurança das suas mulheres estarem em casa no seu regresso. As mães são descrias nesta obra como mulheres incapazes de fazer reivindicações em seu próprio nome, com uma tendência para se sacrificarem pelo outros, abdicando de fazerem coisas pelo seu próprio prazer ou simplesmente para descansarem. Assim, e novamente repescando a existência de dois grupos no início da trama familiar, o grupo A (em que a jovem teria uma relação privilegiada com a mãe) e o grupo B (em que a jovem teria uma relação privilegiada com o pai) formar-se- iam mais “em resposta a necessidades de vinculação do que de alianças e coligações oferecidas/aceites pela paciente” (Palazzoli et. al., 1999, p. 181), necessidades essas importantes para as jovens darem continuidade ao seu processo desenvolvimental. Todas estas interacções familiares ocorreriam de forma quase invisível, não perceptível a olho nu, apenas captado por um olhar “mais microscópico”, já que segundo estes autores, “os dramas destas famílias em sua maioria nada mais
sintomas” (Palazzoli et al., 1998, p.125). Não sendo esta trama verbalizada espontaneamente, caberia ao terapeuta fazer o sistema falar, “emprestar-lhe voz e
palavras, reconstituir as suas premissas e fazer com que o seu sentido emerja” (idem).
3.3.4. A metáfora da invisibilidade social
Para Michael White (1983), a Anorexia Nervosa pode ser entendida no contexto de determinadas crenças rígidas e implícitas presentes em determinadas famílias. O autor sugere que certos aspectos deste sistema de crenças determinam uma vulnerabilidade à Anorexia Nervosa em certas filhas, uma vulnerabilidade com frequência activada pela pressão social de imagens idealizadas de mulheres (White, 1994, p.113). Destes estereótipos deriva a ideia de que a mulher só pode ser apreciada pelos outros e por si própria se se mostrar dependente, se submeter ao ideal de magreza e se assumir como função preocupar-se em garantir a alimentação correcta aos outros, especialmente aos membros da família. Contudo, conforme afirma o autor, apenas uma pequena percentagem de jovens desenvolve uma Anorexia Nervosa, apesar da grande maioria estar exposta a estas premissas sociais. Concluiu então que existem outro tipo de crenças intergeracionais (White, 1983), nomeadamente:
1) A valorização da lealdade, que se revela na crença de que qualquer comportamento que não seja para o bem dos outros ou orientado para a tradição familiar é um acto egoísta ou traidor.
2) A definição de um papel específico para a mulher, que se traduz na expectativa que esta seja sensível, dedicada e sacrificada. Este papel é muitas vezes especificamente esperado de uma determinada filha, aquela que será mais vulnerável a desenvolver anorexia nervosa.
3) A presença da crença de que conseguem ver através dos outros (“insightfulness”), que consiste no facto destas famílias acreditarem que conseguem ver para dentro dos outros, ou seja, acreditam ser capazes de saber as verdadeiras motivações e intenções por detrás do comportamento.
Assim, perante o sintoma da Anorexia Nervosa os pais sentem-se inadequados acreditando que não foram suficientemente compreensivos ou apoiantes mas, ao mesmo tempo, ao ver o desconforto que a filha lhes traz acreditam que tem a ver com o facto da jovem com Anorexia Nervosa ter pouca preocupação com eles, o que faz com que oscilem entre extremos de indulgência e hostilidade. Da mesma forma, a jovem anoréctica vê inadequação e impotência nela própria mas também vê os pais como pouco compreensivos, o que faz com que também as suas atitudes em relação
aos pais sejam ambivalentes. Este poder de “leitura” ou visão não rompe com a união do sistema, pelo contrário, ao cegar a família relativamente à natureza e consequências do seu sistema de crenças, vai encorajar os membros a ficarem ainda mais ligados e enredados em transacções de auto-censura e culpabilização. Em suma, para Michael White (1994) estão presentes nestas famílias ciclos de culpabilização/auto-censura, em que cada membro entra em interacção com determinadas crenças ou premissas sobre o problema que inspiram soluções que não trazem alívio, gerando-se uma contradição na jovem entre crenças como por exemplo “ser para os outros” e aspirações de “ser independente” (acompanhadas de culpa) que degeneram no paradoxo da doença de “descobrir-se a si mesma perdendo-se” ou “encontrar-se a si mesma desaparecendo”, ou seja, a metáfora da invisibilidade social como forma de seguir a tradição familiar. Assim, a Anorexia Nervosa deixa de ser vista como um mecanismo de desafio e rebelião, para passar a ser uma forma da jovem abdicar de si em prole da família. Perante a impossibilidade da jovem aspirar à sua independência, auto-realizar-se, sentir-se dona de si própria, a jovem opta pela invisibilidade social como forma de ser leal, cumprir o seu papel de mulher e ser em função dos outros sem crítica (White, 1994). Os sintomas da Anorexia nervosa tornam- se portanto sintomas de desaparecimento, sendo esta a solução mais viável para lidar com a culpa. Assim, não só a jovem mas toda a família se tornam vítimas das suas próprias crenças (White, 1983).
3.3.5. A metáfora da luta pela igualdade entre vencedores e vencidos
Valeria Ugazio (2001), partindo da pista de Sluzki e Verón (1971) de que há experiências de significado precoces responsáveis pelas perturbações mentais, que seriam, por sua vez, o resultado de padrões específicos de interacção familiar, descreve o contexto familiar generativo dos transtornos alimentares. Para Ugazio estas famílias interagem segundo uma polaridade semântica crítica entre o vencedor, aquele que tem “iniciativa/controlo/voluntarismo” e o derrotado, aquele que mostra passividade/docilidade. Nestas famílias há portanto quem é mais e quem é menos, quem ganha e quem perde, quem tem êxito e quem é vencido. Já que é esta confrontação competitiva que regula as relações, a definição da relação entre os membros das famílias é particularmente instável, e em consequência são também inseguras as identidades dos membros. Nestas famílias quem se encontra na posição de “perdedor” não aceita a rendição, uma vez que implicaria admitir: “eu sou a minha própria derrota”. Assim, quem fica nesta posição, se não tem possibilidade de vencer os vencedores, define a sua própria derrota como um sacrifício pelos outros. Dado que
lugar a uma superioridade ou inferioridade, torna-se perigoso nesta famílias a diferenciação entre os elementos, já que as diferenças não estão ao serviço da cooperação, pelo contrário, servem para afirmar a própria superioridade em relação aos outros membros do grupo ou são um indício do próprio fracasso. Para cada membro só restam duas possibilidades: ou adequar-se aos outros membros ou opor- se, sabendo que ao conformar-se com as expectativas dos outros significativos significa para o sujeito ser passivo, perder e sobretudo sentir-se estranho e derrotado e opor-se significa ser activo, ganhar, contudo equivale a ser rejeitado, implica perder a confirmação do outro e consequentemente o sentimento da sua própria individualidade. Quanto mais aumenta a recursividade deste circuito, mais o conformar-se aos outros se percebe como passividade, derrota, abuso e violação da própria identidade pessoal e opor-se, uma vez que incentiva uma escalada simétrica com os outros significativos, comporta a perda de confirmação pelos outros, algo