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Para que os elementos de uma imagem se agrupem significativamente, a função composicional é fundamental, pois ela é responsável pela integração entre os elementos representacionais e interacionais. Assim como a metafunção textual da Linguística Sistêmico Funcional de Halliday (1994), que fornece elementos para a análise da materialização dos significados no texto oral ou escrito, por estar relacionada a questões de coesão e coerência intra e extralinguística, a metafunção composicional nos permite analisar a lógica dos elementos representados nas imagens, pois ela se refere aos significados obtidos através da “distribuição do valor da informação ou ênfase relativa entre os elementos da imagem” (UNSWORTH, 2004, apud NOVELLINO, 2007, p. 53). Para Kress e van Leeuwen (2006) “a integração de diferentes modos semióticos é o trabalho de um código abrangente cujas regras e significados fornecem ao texto multimodal a lógica de sua integração”43.

Esses autores afirmam que há dois códigos de integração entre os modos semióticos: o modo da composição espacial, na qual texto e imagem são copresentes, a exemplo de pinturas, capa de revista e anúncio publicitário; e o modo da composição temporal, na qual tempo e imagem são copresentes, a exemplo de filmes, música e dança.

Tanto as composições espaciais quanto as temporais podem ser analisadas por três sistemas inter-relacionados: o valor da informação, a saliência e o enquadramento, pois mesmo imagens dinâmicas precisam ser pausadas para uma possível análise. Para esta pesquisa analisaremos imagens estáticas, logo composições espaciais.

Kress e van Leeuwen interpretam o valor da informação a partir da orientação dos processos de escrita e de leitura na cultura ocidental, na qual a escrita ocorre da esquerda para a direita, e a leitura de cima para baixo. Logo, no eixo horizontal de uma imagem, que corresponde ao processo de escrita, os elementos posicionados do lado esquerdo representam informações dadas, já conhecidas do observador, e os elementos posicionados à direita representam o novo, a informação desconhecida ou não completamente aceita pelo observador, ou ainda algo dado que precisa ser notado. Já no êxito vertical, que corresponde ao processo de leitura, Kress e van

43 The integration of different semiotic modes is the work of an overarching code whose rules and meanings provide the multimodal text with the logic of its integration.

Leeuwen (2006, p. 186) nos dizem que “a parte superior tende a fazer algum tipo de apelo emotivo para nos mostrar "o que poderia ser"; a seção inferior tende a ser mais informativa e prática, mostrando-nos "o que é"”44. A informação posicionada na parte

superior é chamada de ideal e na parte inferior é chamada de real.

Figura 22 - Valor da informação – Dado x Novo

O dado é a informação já conhecida e o novo é a informação que devemos prestar atenção.

44 The upper section tends to make some kind of emotive appeal and to show us ‘what might be’; the lower section tends to be more informative and practical, showing us ‘what is’.

Fonte: Denny, 2012

https://noticias.bol.uol.com.br/fotos/imagens-do-dia/

2014/02/06/ charges-sobre-calor-no-brasil.htm#fotoNav=12

Descrição: Cartum em fundo cinza com

chamas amarelas espalhadas na parte inferior. À esquerda, o diabo. Personagem vermelho, com chifres, um rabo ponte agudo e um garfo na mão direita (informação dada). Ele olha furioso para um grupo de três homens e uma mulher que chegam gotejando suor (informação nova). O diabo diz: “Hey! Que isso? Que invasão é essa?”. O homem à frente do grupo, apontando para cima, responde: “Lá em cima tá muito quente! A gente veio refrescar um pouco!”

IDEAL

REAL

Fonte: Livro Novas Palavras, volume 2, 2013, p. 183. https://sempreviva.wordpress.com/2011/04/10/

dengue-se-voce-nao-cuidar-o-bicho-vai-pegar/

Figura 23 - Valor da Informação – Ideal x Real O ideal é “o que poderia ser”, e o real é “o que é”.

Descrição: Cartaz de combate à

dengue. No centro, a imagem do Aedes Aegypti, o mosquito da dengue, cortada por uma linha vermelha. Ao redor dessa imagem, em letras amarelas sobre contorno vermelho, na parte de cima (informação ideal): “DENGUE: se você não cuidar”, e na parte de baixo (informação real), “o bicho vai te pegar!”.

Elementos localizados no centro das imagens são chamados por Kress e van Leeuwen de centrais e são considerados núcleo da informação, pois eles detêm os elementos que os rodeiam, chamados marginais. Esses elementos apresentam valor subserviente e de alguma forma dependem dos elementos Centrais.

Conforme informado anteriormente, todas as unidades de análise referentes ao valor da informação foram utilizadas nas descrições das imagens do corpus de análise desta tese.

Quanto à saliência, independentemente de onde os elementos são colocados numa imagem, este efeito pode criar uma hierarquia de importância entre eles, selecionando alguns como mais importantes e merecedores de mais atenção do que outros. De acordo com Kress e van Leeuwen (2006, p. 201) “o dado pode ser mais saliente do que o novo, por exemplo, ou o novo mais saliente que o dado, ou ambos podem ser igualmente salientes. E o mesmo se aplica ao ideal e real e ao centro e margem”45.

O enquadramento ou estruturação tem a ver com a conexão entre os elementos da imagem. De acordo com Kress e van Leeuwen (2006, p. 203), “quanto mais forte for o enquadramento de um elemento, mais ele será apresentado como uma unidade de informação separada”46, mais destaque é dado para sua

individualidade em relação aos outros elementos. Ao passo que “a ausência de enquadramento enfatiza a identidade do grupo”47. O enquadramento pode ser

marcado por linhas reais, espaços em branco entre elementos, descontinuidade de cor, etc.

45 The Given may be more salient than the New, for instance, or the New more salient than the Given, or both may be equally salient. And the same applies to Ideal and Real and to Centre and Margin. 46 The stronger the framing of an element, the more it is presented as a separate unit of information. 47 The absence of framing stresses group identity.

No organograma a seguir, apresento a metafunção composicional e suas unidades de análise:

Figura 24 - Significados Composicionais

Fonte: Adaptado de Cardoso (2008, p. 70)

A seguir, apresento um quadro com as categorias da metafunção composicional e seus respectivos desdobramentos:

Quadro 4: Resumo das unidades da metafunção composicional de Kress e van Leeuwen (2006) VALOR DA INFORMAÇÃO

É estabelecido pelo posicionamento dos elementos dentro da composição visual. CENTRALIZADO

Esses elementos são considerados núcleo da informação, pois detêm os elementos que os rodeiam, chamados Marginais. Os elementos Marginais apresentam valor subserviente e de alguma forma dependem dos elementos Centrais.

CIRCULAR TRÍPTICO CENTRAL-MARGINAL

Os elementos não centrais em uma composição centralizada são colocados acima e abaixo e para os lados do Centro, e outros elementos podem ser colocados entre as posições polarizadas.

Ocorre quando um elemento é colocado centralmente com informações acima e abaixo ou em qualquer lado dele. O elemento central tem um papel mediador ou pode ser o foco central da outra informação.

O tríptico pode ser simplesmente uma sequência de atividades, ou quadros, como em uma história em quadrinhos.

Em composições centro e margem, como no tríptico, é o elemento central que dá o significado aos outros elementos em torno dele. Neste tipo de composição, o elemento central é normalmente uma fotografia, diagrama ou ícone, que transmite significado simbólico imediato. Ele será a característica mais saliente na composição, devido ao tamanho ou ao fato de estar em primeiro plano.

POLARIZADO

Não há elementos no centro da composição.

Kress e van Leeuwen interpretam o valor da informação a partir da orientação dos processos de escrita e de leitura na cultura ocidental, na qual a escrita ocorre da esquerda para a direita, e a leitura de cima para baixo, logo no eixo horizontal de uma imagem, que corresponde ao processo de escrita, os elementos posicionados do lado esquerdo representam informações dadas, e os elementos posicionados à direita representam o novo. Já no eixo vertical, que corresponde ao processo de leitura, a informação ideal está na parte superior e a real na parte inferior.

DADO-NOVO IDEAL-REAL

DADO são os elementos colocados à esquerda da imagem. São apresentados como algo que o observador já conhece, como um ponto de partida familiar e acordado para a mensagem.

NOVO são os elementos colocados à direita da imagem. São apresentados como algo que ainda não é conhecido, ou talvez ainda não tenha sido acordado pelo observador, portanto como algo para o qual o observador deve prestar especial atenção.

IDEAL são os elementos colocados na parte superior, pois tendem a fazer algum tipo de apelo emotivo e a nos mostrar "o que poderia ser".

REAL são os elementos colocados na parte inferior da imagem, pois trazem informações mais informativas e práticas, mostrando-nos "o que é".

SALIÊNCIA

Refere-se a ênfase maior ou menor que certos elementos recebem em relação a outros na imagem, ou à importância hierárquica. Faz com que eles chamem mais a atenção do observador. A importância é construída através da intensificação ou suavização de cores, contraste, brilho, superposição, entre outros artifícios. (FERNANDES; ALMEIDA, 2008, p. 24)

ESTRUTURAÇÃO ou ENQUADRAMENTO

O enquadramento tem a ver com a conexão entre os elementos da imagem. De acordo com Kress e van Leeuwen (2006, p. 203), “Quanto mais forte for o enquadramento de um elemento, mais ele será apresentado como uma unidade de informação separada”48, mais destaque é dado para sua individualidade em relação aos

outros elementos. Ao passo que “A ausência de enquadramento enfatiza a identidade do grupo”49. O

enquadramento pode ser marcado por linhas reais, espaços em branco entre elementos, descontinuidade de cor, etc.

Fonte: Elaborado pela autora com base nas unidades de análise da metafunção composicional de Kress e van Leeuwen (2006).

Como é possível concluir, A Gramática do Design Visual, de Kress e van Leeuwen vê as imagens como uma composição de elementos que podem ser analisados individualmente, mas que, assim como a linguagem, só têm significado quando são integrados, ou seja, o significado visual das imagens é determinado pela forma como seus elementos constitutivos (imagem e texto), são organizados para transmitir a mensagem que o produtor da imagem deseja comunicar ao observador.

Com base nisto, esta tese tem como objetivo propor parâmetros sistemáticos para a elaboração de audiodescrição de cartuns e charges nos livros didáticos digitais, com base nos pressupostos da Gramática do Design Visual (GDV), para que as audiodescrições contemplem o significado visual a partir da forma como texto e imagem se organizam para significar.

48 The stronger the framing of an element, the more it is presented as a separate unit of information. 49 The absence of framing stresses group identity.