5.2 Changing Phases
5.2.3 Barriers for Phase Termination
Cartum em fundo preto. No centro da imagem, dois pequenos anjos de túnica amarela, asas e auréolas marrons, estão sobre uma nuvem. À direita deles, também sobre a nuvem, um senhor gordo, de túnica amarela, barba e cabelos cinza e gorro marrom, olhando para os anjos. No canto esquerdo, distante da nuvem, vê-se o planeta Terra. O anjo da direita olha para o senhor e diz “Por que não a chama de “árvore da sabedoria?” Isso os afastaria dela!”, sua fala aparece dentro de um balão. O anjo da esquerda observa o planeta.
4.5. NATUREZA MORTA
A figura 34 traz uma charge publicada no livro Novas Palavras (2013).
A charge ilustra a questão do desmatamento, através de um quadro exibido ao público numa exposição, cuja tela mostra uma sequência de árvores cortadas sob o título de Natureza Morta de autoria do IBAMA, órgão que deveria evitar o desmatamento. Esta charge se encontra na seção Da Teoria à Prática, Volume 1, do livro Novas Palavras (2013). A atividade do livro é composta por duas charges, esta de Lailson e outra de Henfil, apresentada aqui na seção 4.1.2, deste capítulo. A atividade propõe 3 perguntas, das quais a primeira pede que os alunos façam uma relação entre as duas charges, a segunda se refere a esta charge e a terceira se refere à charge de Henfil, cujo enunciado é:
Figura 34 - Natureza Morta
Fonte: Livro Novas Palavras, volume 1, 2013, p. 222. Lailson – Natureza-Morta
Observe atentamente as duas charges abaixo:
São apresentadas as duas charges e, em seguida, os alunos devem responder às seguintes questões:
Agora responda aos itens de a a c.
a) Quanto ao objetivo, qual é o ponto em comum entre as duas charges? b) Existe um estilo de pintura chamado de “natureza-morta”, cujos quadros
representam objetos inanimados (frutas, flores, pequenos utensílios domésticos etc.). Veja esse exemplo:
Na charge de Lailson, a expressão “natureza-morta”, sob o quadro, ganha uma conotação irônica. Explique porque.
c) Na charge de Henfil, a inscrição “ordem e progresso” também adquire conotação irônica? Justifique.
Sabendo-se da importância das PcDV terem acesso rapidamente ao conteúdo da imagem para que possam acompanhar texto e imagem, acredito que a composição (metafunção composicional), deveria ser a primeira função a ser abordada na descrição dos elementos/participantes da imagem, pois ela direciona o “olhar” do observador para os elementos descritos de acordo com seu valor informacional. Assim, após a identificação do gênero imagético, a proposta de leitura teria como ponto de partida o homem, pois é ele que faz a ligação entre o quadro e a placa, ou seja, ele reage ao ver a imagem de uma floresta devastada, cujo autor é o órgão que deveria protege-la.
Para que as PcDV pudessem compor a imagem mental, após a orientação do “olhar” do observador, a audiodescrição deveria lhes oferecer as mesmas informações que os videntes absorvem imediatamente ao ver os elementos/participantes representados na imagem. Essas informações devem ser passadas pela descrição do homem que observa a obra, seguida da descrição do quadro maior e da leitura da
Descrição: Pintura a óleo de Paul Cézanne.
Sobre uma mesa de madeira, uma cesta de maçãs verdes e vermelhas, à esquerda, algumas maças espalhadas na mesa sobre um pano azul claro, uma garrafa preta junto ao cesto e um prato, à direita do cesto, com frutas amarelas dentro.
placa embaixo do quadro. Assim, a leitura seria do canto direito para o centro, partindo da informação real para a informação ideal, e voltando para a informação real, a placa. Com o objetivo de mapear a composição desta imagem, a figura 35 mostra todos os elementos que compõem a charge, assim como a ordem em que, segundo a GDV, as informações deveriam ser apreendidas.
Na charge acima temos informações nas posições ideal e real. As informações ideiais são os quadros e as informações reais são a placa com o título e o autor da obra e o homem que contempla o quadro maior. A charge parece propor uma reflexão sobre o que o ser humano está fazendo para evitar a destruição das florestas.
Apesar do destaque dado ao tamanho do quadro central em relação ao tamanho do homem, ele é a ponte entre o quadro e a placa. Por essa razão pensamos que, em termos de descrição da composição, a ordem ideal para a AD, segundo a GDV, seria: homem - quadro maior - placa.
No que diz respeito à representação (metafunção representacional), o cartum representa um processo de reação do homem em relação ao quadro. O homem seria o reator, a direção do seu olhar forma um vetor direcionado ao fenômeno que é o quadro. (Vê Figura 35).
Do ponto de vista da metafunção interacional, o contato que o reator, nesse caso o homem, estabelece com quem contempla a charge (o observador) é de oferta, pois este se apresenta de perfil, olhando para o quadro e não na direção do observador, o
Figura 35 - Mapeamento de Natureza Morta segundo a GDV
qual não cria nenhuma relação visual com o participante, que é oferecido como objeto de contemplação.
A imagem se apresenta numa perspectiva subjetiva, ou seja, da maneira como o produtor quer que o observador se relacione com os participantes representados na imagem. O homem é mostrado de perfil, num ângulo oblíquo, que impõe maior distanciamento entre ele e o observador, que não se envolve com o que é retratado.
No quadro sinótico 9, é possível observar os elementos que compõem a imagem, a partir das metafunções composicional, interacional e representacional.
Quadro 9: Análise da charge Natureza Morta, segundo a GDV.
METAFUNÇÃO Composicional Valor da Informação Centralizado (Tríptico) (onde)
Real: Do lado direito da imagem, um homem Embaixo do quadro maior, uma placa com
o nome da obra
Ideal: No centro da parede, entre quadros
menores, um quadro grande
Interacional
Contato
(faz o quê/como)
Distância Social Perspectiva (de onde)
Oferta: Um homem de perfil observa o quadro Impessoal: Descrição dos quadros e do homem Subjetiva: Descrição do homem de perfil. Representacional Processo Narrativo Reação (o quê/quem) (faz o quê/como) Reator: O homem
Vetor: A direção do olhar dele Fenômeno: O quadro
Fonte: Elaborado pela autora
Para que a PcDV tenha as informações necessárias para responder à primeira e à segunda questões propostas pelo livro, uma AD segundo a GDV deveria priorizar o homem, o quadro maior e a placa, nesta ordem (metafunção composicional). Começando pela descrição da posição do homem, passando à descrição da composição do quadro, seguida da descrição das frases que estão na placa (metafunção interacional), e a forma como ele se relaciona com o quadro (metafunção representacional), apresentando o máximo de informações possível (o quê/quem, faz
o quê/como), para que a questão da maneira como o ser humano está lidando com o
desmatamento, tema da charge, possa ser apreendida pela PcDV.
Portanto, para construir um texto narrativo da audiodescrição de forma a facilitar a construção da imagem mental desta charge pela PcDV, as informações devem ser apresentadas conforme as metafunções composicional, interacional e representacional, nesta ordem.
4.5.1. Análise da AD do Mecdaisy a partir da GDV
Agora veremos, como a AD do Mecdaisy poderia ser analisada a partir das considerações da subseção anterior. Antes, vejamos a AD atribuída à Charge:
Pintura. Numa exposição de arte, diversos retratos de um homem expostos, e um homem observa o maior quadro, o de tocos de árvores de uma floresta devastada. No título do quadro, “Natureza Morta, autor: IBAMA”.
Na AD acima as informações não são descritas de acordo com o valor informacional dos elementos/participantes da charge, conforme proposto na análise anterior. Pois, ao contrário de iniciar a descrição pelo homem, informação real na composição, a audiodescrição do Mecdaisy inicia pela descrição dos quadros, que são elementos secundários na composição. Em seguida a AD apresenta o homem e, por fim, o quadro, que, de acordo com a análise acima, deveria ser o segundo elemento descrito. A placa que identifica o quadro é o último elemento descrito, tal como sugerido pela análise da GDV. Porém, o conteúdo da placa é descrito como sendo o título do quadro, mas não é informado à PcDV em que posição da imagem esse título se encontra.
Assim, a sequência de descrição das informações que deveria ser apresentada à PcDV para uma melhor apreensão da imagem é homem-quadro maior-placa, e a audiodescrição do Mecdaisy apresenta quadros menores-homem-quadro maior- placa.
Para além do fato das informações serem apresentadas numa ordem que desconsidera seu valor informacional na composição, nenhum dos elementos descritos apresenta referência espacial. Sobre os quadros menores, que são descritos como retratos de um homem, é dito apenas que eles estão expostos numa exposição de arte. Sobre o homem e o quadro maior é dito apenas que o primeiro observa o segundo. E o título do quadro é lido também sem qualquer referência sobre seu posicionamento na imagem. Com base nesta AD, a PcDV não tem informações sobre a posição dos elementos/participantes na imagem, logo a imagem mental resultante da AD do Mecdaisy pode não corresponder à imagem real.
No que diz respeito ao gênero imagético, ao definir a charge como uma pintura, a AD do Mecdaisy pode levar a PcDV a acessar conhecimentos sobre obras de arte, que é um gênero com características totalmente diferentes da charge, e assim colocar
a PcDV em desvantagem em relação ao vidente, para quem a identificação do gênero imagético pode ocorrer no primeiro contato com a imagem.
Em seu Relato livre, a PcDV-3 relatou falta de informação para a construção a imagem (Vê Apêndice G):
Eu acho que [...] existe um detalhamento maior né, porque assim, eu não sei como é que está essa natureza morta, porque só tá falando do homem que observa e são diversos, aí há uma confusão de diversos homens, depois aparece um homem que observa o título natureza morta, e eu não sei como é que tá essa natureza morta, que natureza morta é essa [...]. Então ela poderia até ser sintética como ela é né, mas ela não dá elementos pra construção.
4.5.2. Proposta da AD com base na GDV
Considerando análise de Natureza Morta, proponho a seguinte AD para a charge em questão:
Charge colorida. Numa exposição de arte, à direita, de perfil, um homem calvo, de óculos e terno azul observa um quadro grande que está entre quadros menores na parede. Este quadro mostra o céu na parte superior e a terra coberta por troncos de árvores cortadas na parte inferior. Logo abaixo dele uma placa com o nome da obra: “Natureza Morta, autor: IBAMA”.
A audiodescrição tem início com a identificação do gênero ao qual pertence a imagem para que os alunos se ambientem e acessem conhecimentos específicos sobre este gênero. Em seguida, as PcDV terão acesso aos elementos/participantes da imagem na sequência proposta pelos procedimentos de análise descritos acima, para que possam se apropriar da imagem e assim tenham meios de lograr êxito nas questões propostas pelo livro, que se baseiam na apreensão da imagem.
Os elementos/participantes da imagem são descritos na sequência orientada pela composição da imagem, com suas respectivas localizações. Temos, então, o homem, o quadro grande e a placa, que nesta ordem representam as informações Real, Ideal e Real, respectivamente. O homem está do lado direito da imagem; o quadro grande localiza-se no centro da parede, entre quadros menores; e a placa logo abaixo do quadro grande.
Após a localização, os elementos/participantes são descritos de forma a contemplar as informações das unidades de análise das metafunções interacional e representacional. A unidade de análise contato, da metafunção interacional, será
apresentada pela informação de que o homem está de perfil observando o quadro grande, portanto ele não olha para o observador da imagem; a unidade distância social será apresentada pelos detalhes na descrição dos quadros e do homem, que só é possível porque ele é mostrado de corpo inteiro, numa distância de impessoalidade; e a unidade perspectiva será apresentada na descrição do homem de perfil, indicando um ângulo horizontal oblíquo, que impõe um distanciamento entre o observador e o participante.
A informação referente à representação desse participante (metafunção representacional) na imagem será apresentada na audiodescrição pela reação que marca a relação do homem com o quadro.
Em seu Relato livre, a PcDV-3 achou que a AD da MAIE apresenta mais elementos para a construção da imagem, conforme sua fala no Relato Livre (Vê Apêndice G):
É essa apresenta maiores detalhes né, aparece o terno do homem, aparece o que ele está contemplando né, que é a ênfase aí no quadro maior com o céu e a terra coberta por árvores né, com o título natureza morta. Essa tá melhor né, [...] essa apresenta mais elementos pra construção né.
Ainda em seu Relato Livre, a PcDV-3 chamou a atenção para a diferença na definição dos gêneros imagéticos nas duas ADs.
Me chama atenção a questão da primeira diz que é uma pintura e agora diz que é uma charge né, e aí o elemento cômico né, não sei se o elemento cômico tá nessa charge aí com a questão da ironia implícita né, no sentido de que aparece o céu e a terra né, a terra com vegetação, e a questão do título, da natureza morta, [...] me parece que há uma diferença enorme da charge para pintura né, até mesmo na linguagem, na composição, nas pinceladas, no traço cômico da charge né, e há realmente essa diferença aí de semiótica de percepção visual mesmo.
O enunciado da questão se refere à imagem como uma charge, no entanto a AD do Mecdaisy a define como pintura. Tal definição pode levar a PcDV a acessar conhecimentos sobre obras de arte, que é um gênero com características totalmente diferentes da charge, e assim colocar a pessoa com deficiência em desvantagem em relação ao vidente, para quem a identificação do gênero imagético pode ocorrer no primeiro contato com a imagem.
Em seu Relato Guiado, a PcDV-3 preferiu a AD da MAIE, de acordo com as seguintes avaliações: apresenta mais clareza; as informações se apresentam de forma mais lógica para a construção da imagem; facilitou a construção da imagem mental; permitiu perceber a ação de cada personagem; causou maior envolvimento com a imagem, pois forneceu mais elementos para sua construção.
O participante declarou que a AD da MAIE não deixou clara a questão da devastação, ao contrário da AD do Mecdaisy.
[...] nessa imagem a gente não consegue perceber, nessa segunda, que não há devastação né, eu não sei se há, dá a entender que não né. As árvores estão cortadas né, mas esse corte não dá a ideia de morte né. [...] porque esse corte aí poderia tá no sentido de poda né, no sentido mais de arrumação desse ambiente né, então há toda uma sutileza verbal aí. (Vê Apêndice G)
Considerando a importância da compreensão da devastação representada no quadro que o homem observa na exposição, já que este é o tema principal da charge, que mantém relação direta com o título, pensamos que substituir o verbo cortar pelo verbo decepar, pode intensificar o sentido negativo proposto pela charge e assim resolver a questão da “sutileza verbal” sugerida pela PcDV-3, conforme apresentado no roteiro elaborado a seguir.