“A Canoa” Saberes diferentes
Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para o outro, e em uma dessas travessias, estavam um advogado e uma professora.
Durante a travessia, o advogado pergunta ao barqueiro: – Meu caro barqueiro, você entende de leis?
– Não senhor, não entendo nada sobre leis – responde o barqueiro. E o advogado, compadecido comenta:
– É uma pena. Você perdeu grande parte da sua vida! O barqueiro pensa, reflete, mas nada responde.
81 A professora então, muito simpaticamente entra na conversa:
– Senhor barqueiro, o senhor sabe ler e escrever? – Também não sei senhora – responde o remador.
– Ah, que pena – lamenta a mestra – Você perdeu grande parte da sua vida! O barqueiro novamente pensa um pouco, sorri, mas nada responde.
Mas eis que subitamente uma onda muito forte vira o barco. O canoeiro, então preocupado, grita e pergunta:
– Vocês sabem nadar???!!!
– Não! – Ambos responderam rápida e desesperadamente.
– Que pena! – Gritou o barqueiro – Vocês perderam toda uma vida! “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.
(PAULO FREIRE, 1987, p.68).
O texto ‘A canoa’, de Paulo Freire, nos leva a refletir sobre a valorização de todas as pessoas com as quais temos contato, pois cada uma delas tem algo diferente para nos ensinar. Nós acreditamos que a integração das tecnologias digitais nas escolas públicas ser(á)ia mais fácil com a colaboração entre professores, pois o trabalho em equipe pode ser a somatória para enfrentar as dificuldades recorrentes da integração das tecnologias digitais no ensino e aprendizagem.
Para Valente (1999, p.37), “o maior obstáculo para a adoção de computadores nas escolas é a falta de capacitação prévia dos professores para saber como utilizar esta nova ferramenta de trabalho e, principalmente, como introduzir o uso do computador no currículo”. Socializar os saberes, trabalhando em equipe (TARDIF, 2012), compartilhando as diferentes habilidades que cada um possui em prol da aprendizagem de nossos alunos, pode ser um avanço na integração das tecnologias digitais na educação escolar. Ainda que a escola pública seja um ambiente de ensino e colaboração, poucos professores estão dispostos a trabalhar em equipe (CANDAU, 2003) com os seus colegas de profissão. Segundo Tardif; Lessard (2009, p. 53), “se a experiência de cada docente que encontramos é bem própria, ela não deixa de ser também a de uma coletividade que partilha o mesmo universo de trabalho, com todos os desafios e suas condições”.
E quando se trata da integração das tecnologias digitais na educação escolar há uma transformação do processo de aprendizado de forma mais complexa e engessada, de maneira que os alunos se deparam com grande diferença entre integração e usos diferentes das tecnologias digitais por um professor e outro. A integração das tecnologias digitais nas aulas dos professores pode ser potencializada se passar por trabalhos em parceria com outros professores, valorizando a habilidade e o saber que cada professor possui.
82 o trabalho coletivo reforça a possibilidade de êxito das iniciativas individuais através da possibilidade de partilha, da troca de experiência, da reflexão conjunta e realimenta a disposição do professor que se dispõe a fazer ruptura com a prática pedagógica dominante.
A integração das tecnologias digitais toma outro sentido e favorece o ensino pelo fato de que há um processo de facilitação de trabalho causado pelo atendimento das necessidades coletivas, ou seja, o diálogo, a ajuda do colega de profissão que compartilhou seu saber, suas habilidades com o outro que tinha uma dificuldade especifica na integração das tecnologias digitais em suas aulas.
Tardif (2012, p. 52) entende que é “através das relações com os pares e, portanto, do confronto entre saberes produzidos pela experiência coletiva dos professores, que os saberes experienciais adquirem certa objetividade”, proporcionando aos professores da escola pública maior confiança em sua competência e a possibilidade de êxito na integração das tecnologias digitais em suas aulas.
O autor Tardif (2012) ainda afirma que o saber dos professores é plural e temporal, uma vez que é adquirido no contexto de uma história de vida e de uma carreira profissional, ou seja, ensinar supõe aprender a ensinar, aprender progressivamente os saberes necessários à realização do trabalho docente através da experiência profissional e pessoal do professor. São levados em consideração os conhecimentos que ele aprende sozinho em sua atividade e os que ele aprende com seus colegas de profissão durante sua carreira.
Consideramos aqui o professor pesquisador como aquele que investiga e estuda seu campo de atuação e que produz conhecimento e o socializa com outros profissionais da educação. Candau (2003) ressalta que, na formação continuada desenvolvida na escola em que se trabalha, a troca dessas experiências poderia enriquecer os saberes docentes e propiciar uma prática profissional reflexiva, por meio da identificação dos problemas e das sugestões de como resolvê-los. É importante ressaltar que, no mundo da tecnologia digital, a prática é fundamental para um bom desenvolvimento do trabalho, pois a tecnologia digital se atualiza constantemente e o professor, com a ajuda e a contribuição dos outros professores, tem que estar sempre atualizado às novas tendências digitais.
Nesse sentido está se tornando cada vez mais evidente, no que diz respeito à integração das tecnologias digitais pelos professores em suas aulas, que o grupo de professores que atua na escola precisa contribuir para que ela também seja um local de formação. No cotidiano se aprende, desaprende, reestrutura-se o aprendido, fazem-se descobertas, portanto, é nele, na maioria das vezes, que se aprimora a formação. Candau (2003, p.57) salienta que:
83 [...] objetivo não se alcança de uma maneira espontânea, não é o simples fato de estar na escola e de desenvolver uma prática escolar concreta que garante a presença das condições mobilizadoras de um processo formativo. Uma prática repetitiva, uma prática mecânica não favorece esse processo. Para que ele se dê, é importante que essa prática seja uma prática reflexiva, uma prática capaz de identificar os problemas, de resolvê-los, e cada vez as pesquisas são mais confluentes, que seja uma prática coletiva, uma prática construída conjuntamente por grupos de professores ou por todo o corpo docente de uma determinada instituição escolar. (Grifo nosso).
Com base nos apontamentos da autora, ressaltamos a importância para os professores da reflexão em conjunto sobre os conteúdos ministrados, integrando as tecnologias digitais, a forma como se integra, a postura perante os alunos. O que cada um pensa sobre as políticas públicas de inclusão digital é imprescindível para que se chegue à produção de um saber fundamentado na experiência de cada professor que atua integrando essas tecnologias digitais na escola.
Assim, os professores, em conjunto com suas equipes, podem minimizar muitos dos problemas e dificuldades recorrentes ao trazer as tecnologias digitais para a sala de aula, uma vez que uma das características da formação em serviço é a de possibilitar o contato com experiências e reflexões vivenciadas pelos participantes, no caso os professores. A solução dos problemas presentes nas práticas profissionais fica mais fácil se houver reflexão de uma equipe. Assim, pensamos que uma equipe de professores, trabalhando juntos, pode melhorar a qualidade do processo de ensino e aprendizagem nas escolas públicas.