• Aucun résultat trouvé

Composantes d’un programme intégral de sécurité

A narrativa de Os Vendilhões do Templo parte da história contida no Evangelho de São Mateus e São João sobre o encontro do vendilhão com Cristo e o processo de estigmatização dele ao longo do tempo, assim como a sua evolução em fantasmagoria quando

é inserida na história do Brasil, um movimento que Scliar destaca em meio a um processo de interseção cultural composta no tema da obra, porque está inserida também na construção da História Colonial do Brasil. Na linearidade de publicação da trilogia do autor, o romance é o segundo, sucedendo a narrativa sobre a escritora da Bíblia e antecedendo a história sobre a fundação da tribo da Judeia. Assim, se destaca pela continuidade temática de história bíblica retirada do Evangelho, e em que o Cristo dela é o humano, e mesmo sendo não-linear em relação ao tempo cronológico, revela a natureza cíclica da concepção temporal na cultura judaica, descontinuamente. Os saltos da ruína aqui se destacam, são visíveis e, claro, passíveis de resgate no tempo. O que se destaca, portanto, é o contínuo movimento, a transformação, tanto de suas personagens no interior do texto, como da estrutura que liga o romance aos outros dois de igual temática.

Estruturalmente, a narrativa é dividida em três: a primeira traz um narrador onisciente descrevendo o encontro do vendilhão, personagem central contido nas outras duas, com Cristo em seus últimos dias e os efeitos desse encontro na vida e no espírito dele; a segunda, temporalmente distante da primeira e dos dias atuais, narrada também em terceira pessoa, situa a narrativa numa missão jesuítica no sul do Brasil no século XVII e conta a história da catequização dos índios guaranis e a fundação do povoado que viria a ser a cidade; a terceira, narrada em primeira pessoa e situada nessa cidade fundada pelo padre Nicolau, se passa no ano de 1997, é a história de um grupo de amigos relembrando os episódios da época da escola que envolve a representação de uma peça sobre o episódio da expulsão dos vendilhões por Cristo da sinagoga e a morte do ator que representou o vendilhão.

No início da primeira narrativa, a personagem do vendilhão decide se mudar com a família para Jerusalém, abandonando a terra, que já não dava o lucro necessário, devido principalmente às altas cobranças do Império Romano. Sem saber com o que trabalhar, recebe ajuda de um vizinho também agricultor que se mudara anteriormente, e aprende a praticar o comércio da venda dos pombos para sacrifício às portas do Templo. Tendo aprendido rapidamente, começou logo a lucrar e comprava artigos para a sobrevivência da família e também objetos de luxo, dentre eles, um espelho, algo raro para a época: ―O espelho era tão grande que à mulher causou espanto e até indignação: para que precisamos de uma coisa dessas? Não sabes que a vaidade é um pecado?‖ )SCLIAR, 2006, p. 25). Presente também nas outras duas narrativas, o objeto reflete a relação com a vaidade: ―Uma disposição [a vaidade] que minha irmã desobedecera, ao obter [...] um pequeno espelho redondo, o espelho no qual agora se olhava [...]. Por que não me haviam dito antes que eu era tão feia?‖ )SCLIAR, 2012, p. 18;21); ―[...] meu pai dizia que era coisa de vaidoso, de gente leviana. Mas Laila tinha sim,

um espelho, e o que eu via ali fazia meu coração bater mais depressa. Deus, eu era linda (SCLIAR, 2008, p. 145).

O espelho também pode inferir a temática das obras em que a interpretação de histórias bíblicas confere aos romances a característica de midrash agádigos e reflete um dos elementos da continuidade relacionada à metáfora, enquanto releituras de um texto por outro. A relação entre as obras possui continuidade temática, pois são releituras de histórias bíblicas, bem como estrutural. Na primeira, há uma narrativa de primeira pessoa à época da corte de Salomão inserida numa história contemporânea — há estruturalmente, duas narrativas paralelas. Na segunda, o contraponto entre dois pontos de vista de dois professores de história na contemporaneidade projeta duas narrativas de primeira pessoa sobre a descendência de Jacó, em que Shelá e Tamar ganham voz — há estruturalmente, três narrativas, em que o narrador de terceira pessoa dá voz a dois outros narradores de primeira pessoa. Na terceira, há três histórias temporalmente distantes sobre a transformação do vendilhão do Templo unidas pela sua diluição na contemporaneidade no contexto do Brasil atual — enquanto estrutura, nesse último romance há também três narrativas. Portanto, ao definir os três romances como midrashim agádigos (OLIVEIRA, 2005), há a transposição temática e temporal da interpretação textual, imperativo da cultura judaica, que trabalha os textos na ordem da interpretação, da exegese, da releitura e da recepção, e o resgate disso por Scliar, por unir a esse tema questões de ordem de continuidade, de ruína, de arquivo, e naturalmente, releitura.

Voltando a Os Vendilhões do Templo, com os lucros crescendo, o vendilhão se perguntava se ―não seria um pecado antecipar triunfo e riqueza, sobretudo num momento em que a pobreza se alastrava e a opressão crescia?‖ )SCLIAR, 2006, p. 39). Apesar de o local onde a prática da venda dos pombos ser santo, ele possuía a consciência de não prejudicar ninguém. Já bem sucedido nas vendas e contando com a ajuda dos filhos (o primeiro, chamado de Silencioso, aprendia a ler e a escrever), há o encontro dele com o Pregador: ―Brilhavam, aqueles olhos, brilhavam intensamente: era o olhar do místico, do rebelde, porém mais intenso, mais impressionante que o olhar do místico ou o olhar do rebelde‖ )SCLIAR, 2006, p. 70):

Um silêncio impressionante, inusitado naquele barulhento lugar. Todos os olhares voltavam-se para o recém-chegado. Calado, imóvel, ele fitava o vendilhão do Templo, que, confuso, amedrontado mesmo, não sabia o que fazer, o que dizer. [...] Tomado de súbita e espantosa fúria, o homem:

— Nas Escrituras Sagradas está escrito: ―a minha casa é casa de oração‖ — bradou —, mas vós fizestes dela um covil de ladrões! [...]

―Covil‖? o vendilhão não sabia bem o que era, mas ladrões, aquilo se referia a ele? Por quê? O que tinha roubado, para ser dessa maneira acusado, não, acusado não, insultado? [...]

Mas antes que pudesse pedir satisfações, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o homem, com surpreendente força, pegou a mesa e virou-a, derrubando no chão as gaiolas de pombos e as moedas. E em seguida, sacando de sob a túnica uma espécie de chicote feito de cordas, pôs-se a distribuir golpes a torto e a direito — no vendilhão e em outros vendedores (SCLIAR, 2006, p. 71-72).

A passagem do Pregador, chamado de Mestre, abalou o vendilhão. A associação da sua atividade com roubo deixou-o perplexo e humilhado, e a chicotada recebida também. A demonstração por Jesus da prática instaurada no Templo como roubo mexeu com o vendilhão moralmente, e ele se reconhece ignorante tanto da presença do Mestre quanto do que ocorria a seu redor. Anteriormente acusado de falsificar as moedas de troca, ele demonstra desinteresse e indiferença com os assuntos gerais em seu redor:

— E o louco de ontem, Velho? Que coisa, hein? [...] Que me dizes? [...]

— Nem todos o consideram louco — respondeu, escolhendo bem as palavras. — Alguns acham que ele é um mestre de justiça. Que tem poderes. Dizem que descende do grande rei Davi. Outros dizem até que é o Messias.

O vendilhão do Templo recuou, assombrado. Em primeiro lugar, por causa da atitude do Velho, de inesperado respeito ao Pregador. Depois, pelas hipóteses levantadas [...].

— Filho de carpinteiro! Era só o que faltava, um filho de carpinteiro querendo ser o Messias (SCLIAR, 2006, p. 81).

O vendilhão se mostra incrédulo sobre o que houve a respeito do Pregador e o Velho conta a ele sobre os milagres de curar pessoas, dividir o pão para alimentar a multidão, e a pregação sobre a distribuição dos bens para os pobres. A referência aos ladrões do Templo leva o vendilhão enfim a considerar que pudesse haver uma prática suspeita de compra e venda instaurada em sua volta, mas se mostra indiferente, só queria trabalhar e receber o que viesse como lucro: ―Quanto à corrupção... Talvez existisse. O vendilhão não sabia nada a respeito nem queria saber, não era de sua conta‖ )SCLIAR, 2008, p. 88).

A volta do Pregador à sinagoga surpreendeu o vendilhão, as pessoas o ouviam deslumbradas: ―Pouco interessado no que o homem dizia, o vendilhão observava as pessoas: via rostos extasiados, via olhos cheios de lágrimas, via crença, via devoção, via esperança (SCLIAR, 2008, p. 89).

Adiantou-se uns passos e estendeu a moeda ao Pregador. Por um momento, se olharam — e o vendilhão do Templo sentiu um calafrio. Teve a certeza de que, naquela simples mirada, o estranho personagem tinha descoberto tudo a seu respeito, seu presente, seu passado, seu futuro, seus planos, seus desejos, suas mágoas, suas raivas. E o fazia com uma expressão zombeteira, como se dissesse: tudo isso, a

riqueza a que aspiras e o sofrimento por que passaste, é nada, como é nada essa moeda, apesar de seu valor.

O Pregador voltou-se para o homem que o interpelara, mostrou a efígie na moeda, perguntou de quem era.

— De César — foi a perplexa resposta.

— Então — arrematou o Pregador — dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (SCLIAR, 2006, p. 95).

O vendilhão sentiu mais uma vez humilhação, por seu trabalho ultrajado e a ―contaminação‖ da mão do Pregador nas moedas de seu trabalho. A fúria cresceu nele quando o filho sai de casa para seguir o Mestre. Num momento mais tarde, ele se mostrou indignado quando soube da fúria do Pregador contra os escribas, e da sua relação com as pecadoras e adúlteras. A reação de incredulidade do vendilhão em torno das histórias sobre o Mestre, como era chamado, vem aos poucos sendo substituída por outros sentimentos:

— Dizem que os sacerdotes e as autoridades estão tratando disso. O problema – [...]. — [...] já que insistes... O problema é o testemunho. Eles precisam de testemunhas que o acusem no tribunal [...]

Estava sim, perturbado com a proposta que o homem lhe fizera. Paradoxo: até pouco antes, só pensava em vingança. Agora, que tinha meios para tal, recuava (SCLIAR, 2006, p. 105-106).

Ele temia uma reação dos seguidores de Cristo. A prisão e morte, porém, de Jesus, deixou o vendilhão com um sentimento diverso: ―Se em algum instante tinha pensado que aquela visão lhe daria vingativa alegria, enganava-se. O que se apossou dele foi o horror [...]. O vendilhão do Templo sentia na própria carne a dor daqueles ferimentos. Eu não tenho culpa, repetia-se‖ )SCLIAR, 2006, p. 122).

O encontro do vendilhão com o Cristo crucificado e a visão que o deixa horrorizado é o início da identificação daquele com este. O salto para o outro (OZICK, 1996, p. 312) previsto por Ozick faz sentido no momento em que o vendilhão sente na carne o sofrimento do Cristo (SCLIAR, 2006, p. 122); o processo metafórico da identificação com a alteridade nessa passagem é tão evidente quanto importante, pois nela está contido todo o processo histórico da construção metafórica de identificação e da estigmatização do vendilhão no vendilhão do templo, construída pejorativamente, ao mesmo tempo em que se inicia o movimento da transformação do Cristo humano da narrativa no Cristo divino, o Absoluto. Pode-se dizer, então, que são movimentos que retiram de duas pessoas o seu caráter humano, conferindo-lhes outras qualidades: de um lado, o vendilhão, já anônimo, move-se a uma personagem estigmatizada, um tipo; de outro, tem-se o início da divinização do Cristo, outrora retratado pelo narrador em seu aspecto humano e histórico.

O encontro também com o judeu errante e o que ele lhe contaria, deixou o vendilhão de novo atônito:

Dirão que o crucificado morreu para nos salvar, e quem não quer ser salvo? Neste mundo de sofrimentos, a nova fé despertará esperança para todos, para ricos e pobres, especialmente para os pobres que o Império escravizou. Essa religião já não girará em torno de um Deus único que funciona como pai severo, imprevisível; ela introduzirá suaves mediadores, a Mãe, o Filho. E seus adeptos criarão imagens que a ti jamais ocorreriam; por exemplo, o espírito divino será visto como um pombo... — Um pombo? — O vendilhão do Templo arregalou os olhos.

— Um pombo, sim, mas não como os teus. Não te iludas: a nova religião não sacrificará pombos [...]. Sacrifícios, não mais.

— Não pode ser [...]. Uma religião sem sacrifícios? E como os fiéis expiarão sua culpa?

— Pela oração. Pela penitência. Será uma religião de amor (SCLIAR, 2006, p. 133).

O perdão como graça divina, que liberta quem concede e alivia de uma culpa quem é perdoado, como observa Derrida em ―O que é uma tradução relevante?‖ )2000), ganha força no momento em que a questão do fim do sacrifício de animais no Templo se revela: não mais os haveria, pois Cristo se sacrifica para a remissão da culpa dos homens, e dá início a um novo ritual baseado na oração, no perdão, na caridade. Onde Ozick considera o sacrifício de Isaac uma questão metafórica — que ao se afastar do altar do sacrifício, foi o último por não ter sido levado a efeito — esta se literaliza no sacrifício divino do Cristo. Mas esse mesmo processo metafórico se verifica ao se internalizar o perdão como graça, por o sacrifício se configurar numa nova forma. A metáfora se refere também ao estigma do vendilhão do templo identificado com a avareza do comércio.

Daquele mesmo errante, o vendilhão herdou o cravo que prendia a mão direita do crucificado: ―— Mas tu sabes que eu tinha raiva dele. — Sei. É por isso. Aprenderás a amá- lo‖ )SCLIAR, 2006, p. 139). O processo de identificação do vendilhão com o crucificado é, portanto, completo, e no caso, inscrito na carne, encarnado, onde se verifica também a metáfora, o salto para o outro. O cravo que ganhou de Ahsverus, nessa contextualização, pode ganhar uma conotação totêmica, de aproximação entre o vendilhão e o Cristo. Apesar de na teologia do judaísmo a relação com o totem ter sido internalizada, qualquer proximidade com objetos exteriores foi abolida na evolução da religião, e em substituição instituiu-se o estudo da Torá, o universo propriamente constituído da palavra de Deus (FREUD, 2014), pode estar contida nessa sequência de cena uma concepção desse cravo como totem, que aproxima o vendilhão do Cristo; assim como pode estar contido também o movimento para o início da santificação deste, que até então, tinha sido apresentado somente na abordagem histórica, em sua construção humana.

O vendilhão apoiou a ponta do cravo sobre a palma da mão esquerda. Era aguçada, a ponta; tão aguçada que, apenas com um pequeno esforço ele perfurou a pele. A dor irradiou-se para o corpo inteiro, mas era uma dor benéfica, uma dor que ele recebia com humilde alegria. O sangue que lhe brotava da mão brilhava à luz da lua. Lambeu-o, sentiu o gosto adocicado. Era o gosto do seu sangue? Ou era o sangue do crucificado que, misturado ao seu, agora tinha dentro de si? O errante tinha razão: estava para sempre preso àquela lembrança [...]. Noite após noite, teria diante de si o Crucificado. Noite após noite o veria, com tremendo esforço e dor, arrancar a mão do cravo que a prendia na cruz para apontar-lhe um dedo sangrento, acusador. Essa visão o acompanharia até a morte; não, até depois da morte. Ela estaria incorporada às obscuras fantasias de seus descendentes [...] até que alguém se entregasse, com fé e coragem, à produção de vendilhões do Templo, um empreendimento que não é isento de conseqüências (SCLIAR, 2006, p. 142).

Nessa construção se justificaria o salto histórico entre o contexto em que o Cristo foi morto nessa primeira narrativa, de Jerusalém no século I da Era Comum para o Brasil Colônia na segunda, numa aldeia indígena em situação de catequização, no século XVII, decorridos mais de mil e quinhentos anos de Cristo morto, o catolicismo já firmado ao longo dos séculos, e em contexto da Reforma e da Contra-Reforma, e, claro, em certa medida devido a muitas perseguições e imposições religiosas, como o texto demonstra.

Através da ideia de Derrida nesse texto supracitado sobre a tradução que atua como uma reelaboração, assegurando duas sobrevidas, em que eleva o significante em direção ao sentido e conserva a memória do corpo primeiro — ―Mas talvez, uma tradução seja consagrada à ruína, a essa forma de memória ou de comemoração que se denomina ruína; a ruína talvez seja sua vocação e um destino que ela aceita desde a origem‖ )DERRIDA, 2000, p. 21), — as duas outras narrativas se constroem em identificação com a primeira, baseadas na figura do vendilhão (que aparece imerso na história do Brasil retratada por Scliar nesse romance) e na relação com os pombos, como um processo de continuidade. A característica da ruína enquanto latência está contida nesse trecho de Derrida e recupera o sentido descrito por Freud em O mal estar na civilização sobre as camadas topológicas em sua possibilidade de recuperação; a investigação da origem em torno da estigmatização do vendilhão e da santificação do Cristo, pelo vendilhão em contato com o cravo, encontra nessa descrição de Derrida um ponto de sustentação, pois os dois textos seguintes contidos no romance de Scliar recriam essa história, garantindo a sobrevida, nas palavras de Derrida, dos três textos contidos no romance, portanto.

Há que se considerarem as ruínas descritas, latentes, que convergem para a sustentação da continuidade presente no texto de Scliar, daquela descrita por Agamben, apontando para o testemunho, o que salta, e também por Benjamin que indicia a decadência, o fim; nesse último

modelo, essa degeneração poderia estar contida na estigmatização ocorrida ao longo dos anos na figura do vendilhão, no sinônimo presente com a prática do comércio como usura e avareza. Mas, por outro lado, indica também a presença, descrita por Benjamin, da ruína como messiânica, ao trazer o oprimido ao centro da narrativa, os vencidos da história, e por recuperar a origem do evento que causou a estigmatização do vendilhão no vendilhão do templo, assim como consta no texto de Zilberman (2010). O tempo messiânico aqui se forma na sua realização literal, que é o tempo do Messias, e seu encontro com o vendilhão e o início do processo que o identificaria como o vendilhão do templo, pelos contadores da história do Mestre, assim chamado, e também pelas muitas interpretações, várias delas identificando pejorativa e preconceituosamente, o vendilhão, ou o comerciante, com o usurário e avarento. Salvas as interpretações teológicas em torno de Jesus, profeta ou messias, o vendilhão foi testemunho de sua paixão, morte e também daquilo que o movimentaria em torno de uma aura sagrada, representada pelo cravo.

Além disso, há nessas passagens mais de uma maneira de identificação de continuidade temática. Nelas estão contidos o processo do estigma que transforma o vendilhão no vendilhão do templo, que poderia ser associado historicamente a uma certa forma de corrupção, à prática usurária e à avareza, como uma forma primordial da acumulação capitalista, e do judeu errante com a dispersão dos judeus pelo tempo e espaço. De um lado, a avareza e a usura metaforizadas no judeu que exerce o cargo de comerciante, e de outro, a errância como castigo pela morte do messias; essas metáforas são histórica e discursiva e negativamente construídas. Regina Zilberman no texto ―Do estigma à liberação: representações dos judeus na Literatura brasileira‖ )2010) faz um levantamento da representação das personagens judaicas dentro da literatura brasileira e interpreta o encontro do vendilhão com o Cristo e com o judeu errante — as palavras proféticas de Ahsverus ―Tu serás visto como figura desprezível, a imagem da ganância‖, ―o teu vender e o teu comprar serão sempre lembrados com repulsa‖, ―aparecerás como uma figura abominável‖ )SCLIAR, 2006, p. 134) — como um resgate sobre a interpretação em torno dessas duas personagens e como colaboração para a tentativa de liberação dos preconceitos em torno delas pelo seu autor.

A partir da leitura da autora sobre O homem Moisés e a religião monoteísta (1939), de Freud, fica evidente a continuidade temática e estrutural presente nesse romance de Scliar sobre a teoria freudiana daquele livro. De acordo com a autora, ―Scliar por meio de seu romance, complementa a teoria de Freud, ao retomar o mito a partir do qual o psicanalista construiu sua tese sobre o monoteísmo ocidental‖ )ZILBERMAN, 2010, p.78). Freud nesse

livro, o último do autor que terminou sua escrita na Inglaterra fugindo da ocupação nazista avançada pela Áustria, amplia a sua teoria das neuroses individuais para a neurose coletiva na fundação da religião monoteísta. Sua intenção foi observar a origem da neurose na fundação da religião para buscar entender por que os judeus não perderam sua unidade e também a de desvendar o porquê das perseguições sofridas pelo seu povo ainda no século XX, da qual foi vítima e testemunha. Através da comprovação de evidências contidas na escrita e reescrita do texto bíblico do Êxodo, e também de textos interpretativos, Freud elaborou algumas teses com a intenção de embasar seu ponto de vista, dentre as quais se destacam: 1) a naturalidade