Em Os Lyricos Romanticos, Fidelino de Figueiredo inaugura a sua participação na Revista de História, no que concerne à escrita da e sobre a História da Literatura. Esta reflexão, ocorrida nos primeiros meses de 1912, constitui a primeira publicação, parcelar e dedicada a um tema específico, da História da Literatura Romântica, cuja versão ampliada e total teve edição em 1913, fora do periódico, e foi continuada no ano seguinte, através da História da Literatura Realista. Ambas precederam a investigação que culminou na História da Literatura Clássica. A inversão discursiva da diacronia parece sugerir que, de algum modo, existe uma retroprojecção na leitura fideliniana segundo a qual o posterior subverte a sequência lógica e linear e cria os predecessores. Todavia, esta perspectiva deve ser matizada, daí a necessidade de enquadramento.
O pensamento de Fidelino de Figueiredo sobre o Romantismo Português envolve e concita o classicismo. O autor procura instilar no seu estudo uma visão panorâmica e integradora, abordando e defendendo a tradição lírica da Literatura Portuguesa, destacando os precursores clássicos de Garrettt e Herculano, que considera os mais importantes líricos Românticos Portugueses. Cita e estuda, em seguida, Os Líricos do Trovador e considera que, de certa forma, prenunciam a decadência que a época do escritor supostamente encarna.
Os precursores clássicos do Romantismo escolhidos foram: Anastácio da Cunha e Tomás Gonzaga; Filinto Elísio e Bocage. O estudo conferiu importância e peso
932 Estas categorias são referidas por Rosa Maria Goulart, que propõe: «Fora, portanto, do historicismo do século XIX,
é noutras dimensões que se movem as tentativas de historiar a literatura, sendo diversos os princípios por que se rege tal empreendimento e múltiplos os factores que pretende integrar para uma mais completa perspectiva do fenómeno literário na sua dinâmica evolutiva. Isto também obriga a História Literária a repensar os conceitos que manuseia (…)» (In Rosa Maria Goulart – Literatura e teoria da literatura em tempo de crise. Braga: Angelus Novus, 2001, p. 32). Este ponto de vista teórico não impede, antes reclama, que se implique uma maior e mais flexível amplitude conceptual à análise do historicismo oitocentista, encarado enquanto objecto de estudo, para apreendê-lo nas suas múltiplas facetas, sem desvirtuar o seu carácter idiossincrático.
933 Para uma análise teórica do contexto em História Literária, vide: Vítor Manuel Aguiar e Silva – Texto e contexto na
história literária. In História (s) da Literatura, actas do Primeiro Congresso Internacional de Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas. Coimbra: Almedina, 2005, pp. 21-28.
Para este especialista, o conceito de contexto compreende duas vias. A primeira, de natureza etimológica, assinala a origem na palavra latina «contexus», que designa as relações organizadas que se tecem no interior do discurso. Nesta perspectiva, o contexto equivale ao co-texto e opera no interior do texto. Por outro lado, num sentido amplo, já ao longo da segunda metade do século XIX, porém, a palavra “contexto” passou a ser utilizada com o significado de “conjunto de circunstâncias nas quais se insere um texto”.
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distinto aos escritores enunciados. Na caracterização fideliniana do primeiro, ressaltou a originalidade, a sinceridade, a análise psicológica o racionalismo, mas criticou a respectiva despreocupação com o público. A referência ao segundo resulta lacónica, não existe sequer notação biográfica mínima apenas se sublinha o apego ao amor e à verdade. Sobre Filinto Elísio, o director da Revista de História parece alinhar por uma descrição que indicia o reconhecimento de um papel reduzido do literato para a afirmação do género em estudo. Elísio é encarado como um Thierry de menor monta, sem a expressão sócio-cultural atribuída ao francês. Fidelino confere maior relevância, dentre todos, a Bocage. Traça-lhe um perfil biográfico, contaminado por uma matriz romântica. Refere uma vida de aventuras, percorrida por irrequietude procurada. Na escrita do setubalense, o estudioso divisou certas características, mais de temperamento do que estilísticas: a versatilidade, a incerteza, a veemência poética. As novidades que o crítico reputou de grandes no trabalho de Bocage foram o pessimismo e o tratamento de temas históricos nacionais. Os sonetos transcritos por Fidelino de figueiredo pretendem demonstrar o predomínio de uma dimensão religiosa e espiritual sobre as epístolas de teor racionalista.
Quanto a Grarrett, o director da Revista de História aponta o seu poema Camões como a primeira obra romântica portuguesa; pela invocação da saudade e pelo intuito nacionalista. Por seu turno, o drama Dona Branca mereceu referência por introduzir a História na Literatura, como fizeram Taine ou Chataubriand: Em Herculano, o estudioso distinguiu o esteticismo, herdado de Lemartine e o gosto pela biografia e pela manifestação de inteligência alegadamente provenientes da influência de Vigny. De Berger, o poeta português mimetizou o relevo conferido ao sentimento e à balada popular. Fica implícita a sobriedade de Herculano, aliada à convicção do ensaísta, segundo a qual Garrettt protagonizou o Romantismo de forma modelar. Em 1844 surgiu O Trovador, no qual participaram, entre outros, Rodrigues Cordeiro ou João de Lemos. Para o autor de Os Lyricos Romanticos, os trovadores eram medievalistas ou contemplativos. Preferia os segundos. Considerava, todavia, que O Trovador enfermava de prosaísmo excessivo e de falta de emoção. Esta publicação foi encarada como prefiguração da decadência e queda do Romantismo Português, devidas, segundo Fidelino de Figueiredo: à prevalência criticada da emoção sobre a Reflexão; do formalismo face a uma dimensão psicológica e crítica. O director da
Revista de História ressaltou, como exemplos, a alegada falta de propensão de Garrett
para as lucubrações filosóficas, em desprimor de maior tendência para a estética; a pretendida superficialidade de Castilho. Fidelino de Figueiredo admitiu que, após a morte de Soares de Passos, em cujo lirismo descortinou a artificialidade na imitação das teorias de Laplace com ambição científica o Romantismo estiolou, apesar da
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esperança trazida pelo Manifesto de Antero de Quental, publicado em 1865 e dotado de espírito crítico e pelos primeiros estudos histórico-críticos de Mendes Leal e Rebelo da Silva.
Em Os Lyricos Romanticos, Fidelino de Figueiredo utilizou um acervo documental assente em excertos da poesia lírica portuguesa, convertidos em exemplos das suas teses e de uma argumentação assertiva e dedutiva, permeável à interpenetração do estudo da vida e da obra dos autores seleccionados, em função de categorias teórico-críticas previamente determinadas. Para a História Literária fideliniana, evidenciada no artigo em estudo, a autenticidade, a genialidade e a
originalidade eram instrumentos fundamentais, conforme demonstrou na reflexão
sobre o trabalho de Anastácio da Cunha, mas subordinavam-se à defesa da Nação como carácter distintivo da Literatura, concretizado pelo romantismo garrettiano. Ainda do ponto de vista metodológico, a síntese e a comparação foram práticas correntes, esta última patente na distinção dos classicismos francês e português, o primeiro ligado aos salões nos quais se movia a aristocracia; o segundo aberto ao sentimento e à emoção, preconizados já na lírica de Camões, Cristóvão Falcão e Bernardim Ribeiro, que os conjugavam com o equilíbrio e o sentido de proporção ao nível formal.
No estudo fideliniano, parece impor-se uma causalidade de teor não determinista na exposição em diacronia dos escritores, mas no final resulta explícita uma ideia presente desde as primeiras linhas, de modo subtil. Tal como para a Geração de 70 e sobretudo Antero de Quental, Fidelino de Figueiredo preocupa-se com o conceito de decadência, aplicando-o à literatura portuguesa para a qual convoca um organismo menos mecanicista do que o de Spencer e um pouco mais próximo das abordagens de Taine, que cruza os indícios biológicos com a procura da prova.
A memória histórica presente nos textos literários transcritos é manipulada como instrumento da memória historiográfica Fidelino de Figueiredo converte aquela que coincide com o desenvolvimento e apogeu do lirismo romântico – num exemplo a activar em tempos de uma Primeira República, impregnada pelo signo da decadência, sob o qual supostamente vive nos seus primeiros anos: «Ao momento, em que presenceamos alguns symptomas de transformação social, transformação que naturalmente influirá sobre a arte, é opportuno analysar a influencia duma outra transformação social, a do constitucionalismo, sobre um ramo da arte litteraria, a poesia lirica: então estava-se ainda na vizinhança de um grande phenomeno politico- social, a revolução francêsa, e de um grande phenomeno litterario, o romantico, ainda que determinado em grande parte por aquela (…). Não succede assim agora; a republica foi uma nota discordante no concerto geral da Europa, onde a formula política deixou de ser discutida, e a sua significação é principalmente nacional e
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particular, como opção de um povo por uma bandeira, que promettia honestidade, ordem e progresso.em vez de paralysia apathica e de dissolução. Tambem litterariamente, como politicamente, nao ha decidida corrente de gosto, apenas se prevê que dentre as ruinas do naturalismo renascerá o idealismo, (…) essa poesia, toda percorrida de anseios metaphysicos, que procura o valor da vida, parece a solução provisoria ao velho antagonismo entre imaginação artística e o espírito scientifico e filosófico. Não se pode porém prever que trilho seguirá a poesia
portuguesa, a deixar-se influir pelo novo estado moral (…). Não será, todavia, fora de opportunidade, perguntar o que foi em poesia essa outra inovação que se chamou romantismo? E será totalmente uma inovação? É a vez de perguntar se no romantismo português houve precursores»934.
Estas afirmações possuem um cunho programático. Delas avulta uma concepção do fenómeno literário como reflexo e resultado de coordenadas políticas e sócio-culturais de uma época, por esta ordem, dado que aquelas influíram no curso destas. O nacionalismo de Fidelino reveste-se de características que implicitamente o aproximam da aplicação do principio dos estados soberanos ao caso português, como consequência da adesão ao respectivo processo histórico. Essas circunstâncias não impedem ou anulam uma conjugação com o princípio das nacionalidades, enquanto instância correctiva dos governos da República, denunciados por Fidelino de Figueiredo.
O estudioso concretiza uma atitude polémica, judicativa, na sua escrita. Envolve- se e empenha-se social e politicamente, sobretudo através da investigação e usa-a como veículo propulsor de uma ideologia. Prolonga, pela expressão de cariz subjectivo, um espírito romântico, de cujo pathos comunga. Encara o Romantismo como corrente literária, mas não se cinge a uma visão dele que valorize elementos epistemológicos, em desfavor de uma intenção problematizadora que toma os factos enquanto emblemas de esforços de teor moralizador, estético.
A noção de verdade que pode depreender-se do discurso de Líricos
Portugueses, deriva da desmitificação de princípios ideológicos com tradução a nível
literário e da afirmação de outros, em substituição dos criticados. Este diálogo entre as teses que Fidelino de figueiredo defende e aquelas que se contradita tem implicações ao nível da construção da cientificidade. No texto em análise, o conceito de História adoptado contempla as circunstâncias socío-políticas coevas. O ensaísta, pensador de matriz humanista ao nível da expressão formal dos raciocínios, utiliza o seu presente como ágora e tribunal, no qual lê o passado à medida dos seus interesses e ideias, que condicionam a priori a consideração dos factos e eventos.
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Quanto à noção de Literatura plasmada no artigo em análise parece filiar-se numa abordagem que equaciona a validade do literário, que não perde de vista um lastro cultural das belas-letras mais amplo e de raiz humanista, mas centra-se nas propriedades estéticas do texto, automatizando-as. Contudo, os factos literários expressam valores extra-linguísticos, de índole psicológica − correlatos da personalidade conjecturada dos escritores − que caucionam ou acolhem modos de pensar de colectivos ligados às élites mas respeitam critérios de beleza que os exprimem. A História da Literatura praticada por Fidelino de Figueiredo em Líricos
Românticos centra-se num período literário, o Romantismo, que contempla várias
correntes – ainda que sejam apagadas em nome de uma ideia dominante quase hegemónica – materializando, de modo lato, uma época histórica. Do ponto de vista periodológico, a teoria do ensaísta repudia a consignação do Romantismo como ruptura que instaure um corte com o Classicismo.
Pelo contrário, defende a relação íntima entre ambos, que não dilui autonomias mas respeita laços de dependência. Inversamente, as manifestações eventualmente designáveis por tardo-românticas, vitalistas, ou simbolistas, de cariz metafísico, parecem desvalorizadas, sem serem rejeitadas, em nome de uma solução de compromisso entre idealismo e naturalismo, que as supere de outro modo935.
Figueiredo trabalha a dimensão temporal com base numa perspectiva genética que incorpora a sucessão de épocas. Tem em conta, pacialmente, a perspectiva de Herder e a relativização sob a forma de enquadramento histórico de Schlegel, embora se exima a citá-los. Convoca, sem designá-la nesses termos, a noção de influência: «Teremos, primeiramente, de assentar no conceito a incluir neste termo: precursores. Em litteratura ou são precursores todos aquelles escriptores que sem disso terem consciência clara, ou sem verem o seu alcance critico, fizeram arte já com alguns caracteres da futura escola literária, ou são precursores sommente aquelles que, expressamente previram todo o problema, sentiram a transformação do gosto e lhe deram expressividade litteraria, ainda que a iniciativa morresse, sem continuidade immediata. No primeiro caso, o romantismo português tem alguns precursores de possivel influencia; no segundo, se exceptuarmos algumas breves reflexões de criticos, não tem precursores»936
Nesta noção de precursores concretiza-se a irrupção da História Literária, entendida como dimensão teórica, aplicada sob a forma de recurso reflexivo, em auxílio da descodificação do percurso de História da Literatura.
935 José Carlos Seabra Pereira, na sua tese de doutoramento, considera o Romantismo um mega período que alberga
as correntes literárias citadas.
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A noção de género pode ser lida como instrumento pelo qual perpassa e no qual repousa parte do Espírito Histórico na versão fideliniana. Em Os Lyricos Romanticos defende-se uma perspectiva da lírica que ultrapassa a consideração de um conjunto de regras e técnicas de funcionamento de um grupo de textos portadores de afinidades formais e estéticas, e estende-se a uma posição filosófica, ideológica ou política. Mais do que a manifestação de sentimentos, sublinha-se a liberdade de expressão: «Sendo o lyrismo a expressão livre de uma alma, de uma individualidade, é
necessário, para o seu desenvolvimento, haver um acentuado e nitido individualismo, que tanto os artistas, entre si, quanto os leitores, uns dos outros, estejam diversificados, de forma a comprehenderem o prazer de sentirem o seu eu, em todos os seus aspectos, os mais variados e os mais pessoais»937.
Pode inferir-se que Fidelino de Figueiredo utilizou a noção clássica greco-latina de Lírica, atida a critérios sintácticos ou formais, em favor da perspectiva romântica, voltada para aspectos simbólico-referenciais938.
Para Juan Carlos Goméz Alonso: «Es conocido que la Lírica se configura como género atendiendo a critérios formal-expressívos-sintáctico-retóricos, según los mdelos propuestos por la Poética Clássica y también atendiendo a critérios simbólico- referenciales si se atiende a los postulados de la Poética Romântica, dentro de la tríada clásica de la organización de los géneros literários que conocemos configurados simbólico-referencialmente a partir de Hegel»939.
Apesar das afinidades enunciadas, a discordância de Fidelino de Figueiredo para com o ponto de vista de alguns românticos alemães é notória, numa matéria que deriva do arrazoado precedente. Alguns autores, como Herder ou Jacob Grimm, procuravam as origens da nação no povo e no estudo da Idade Média. Fidelino de Figueiredo considerava que os clássicos traduziam as ideias que defendia de modo mais cabal. O historiador da literatura defendia a interpenetração entre a tradição e a modernidade. Considerava o Lirismo um género literário que permitia a defesa do individualismo, enquanto doutrina social, mas repudiava radicalizações do seu estro: «Em Portugal (…) apenas na sociedade o mais chão utilitarismo; por isso, exhausto de recursos, o lyrismo morria sem sucessão; teve porem um lento estretor (…)»940.
O autor alerta para o que considera o perigo da dissolução da lírica, encarada como expressão de ideias e modos de vida dos portugueses, posta em causa pelos
937 Ibid., p. 30.
938 Sobre as divisões do género lírico ao longo dos séculos e respectivas diferenças de critérios, vide: Juan Carlos
Gómez-Alonso – La expressividade en la lírica. In Carlos Mendes de Sousa e Rita Patrício (org.) - Largo Mundo
Alumiado, Estudos em Homenagem a Vítor Aguiar e Silva, vol. 2. Braga: Centro de Estudos Humanísticos da
Universidade do Minho, 2004, pp. 575 – 583.
939 Ibid., p. 575.
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primeiros jovens da República. A escolha do tema Os Lyricos Portugueses não foi explicitada, mas pode ter-se relacionado com a utilização do género literário enquanto instrumento cultural de denúncia.
Demonstrativo da voga temática ou do interesse por assuntos afins é o texto da autoria de António do Prado Coelho, intitulado Líricos Amorosos Portugueses, que combina o ensaio com o estudo e, como o nome indica, centra-se num tópico específico quanto ao entendimento do género em equação: o amor, ao qual Fidelino de Figueiredo se referira sem lhe conferir tanto destaque ou foros de exclusividade. A perspectiva do colega deste no Curso Superior de Letras – circunstância que explica em parte esta colaboração − comparece desde as primeiras linhas do artigo: «O amor sexual elevado é um dos mais poderosos sentimentos morais. Implicitas no fundo social do homem, as tendencias de generosidade, de altruismo, de concordia, de solidariedade extriorizam-se, no amoroso, como manifestações essenciais do sentimento erotico, inicialmente um sentimento de reconhecimento, de confiança, em disposições de outrem, veementemente activas»941
António de Prado Coelho escolhe uma categoria que extravasa o literário para aferir a relevância da Lírica. Entende o literário como instância que acolhe uma dimensão extra-linguística e prolonga, nessa medida, o procedimento fideliniano.
Prado Coelho não se refere explicitamente ao utilitarismo, mas repudia-o, dado que filia o amor numa outra linhagem, através da qual se insinuam e medem distâncias face ao seu antecessor no periódico. Ao contrário do director da Revista de
História, aquele erudito valoriza o amor erótico – desde que eivado de uma natureza
moral – e a vivência no seio de um colectivo social. No seu pensamento, o indivíduo é substituído pela pessoa: «o personalismo não deprime o valor moral do amor erotico, antes o exalta, pois que, por ele, todas as energias sentimentais, originais e independentes, do indivíduo se desenvolvem, se exercitam, visando á realização da própria felicidade, mas também operando eficazmente a depuração da alma. Não ha amor sexual, sem base fisiológica. Igualmente não o ha verdadeiro, sem base psicologico-sociológica: é esta que lhe imprime o cunho moral, a feição humana que, acima de tudo, o caracterizam»942
Parece aplicar-se ao amor o conjunto de pressupostos que Comte postulara para a evolução da sociedade943.
941 António Diogo do Prado Coelho – Líricos amorosos portugueses. In Revista de História, vol. 1, n.º 3. Lisboa: Livraria
Clássica Editora, 1912, p. 154.
942 Ibid.
943 Sobre a importância do amor na lírica e, num dos casos, na épica Camoneana ver, entre outras, duas abordagens
diferentes, a primeira, estruturalista e greimasiana, a segunda, mais recente, apostada numa análise centrada na História dos géneros líricos, em diacronia e sincronia. Respectivamente: Maria Vitalina Leal de Matos – O canto na
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Assim, Prado Coelho preconiza, em nosso entender, implicitamente que o Personalismo seu contemporâneo supera uma fase metafísica e outra teológica no entendimento do fenómeno amoroso e parece considerar que Camões, Bernardim Ribeiro ou Cristóvão Falcão foram os primeiros a aproximar-se de um arremedo difuso do Personalismo com três séculos de antecedência.Esta doutrina adoptada pelo articulista tem precursores não nomeados,944 e comunga de ideia central segundo a