Essa categoria tem como abrangência os seguintes questionamentos: a) Qual sua concepção de Universidade?; b) Qual a concepção de profissional que a Instituição em que atua deseja formar?
A partir dessa categoria pode-se refletir qual o significado de Universidade, como ela tem se desenvolvido ultimamente, quais os rumos ela tem tomado nos últimos anos em relação a formação profissional e formação de professores. Essa preocupação tem sido temática central em diversos estudos (CHAUI, 20001; APPLE, 2002, 2005; SANTOS, 2005; VEIGA, 2004, 2010) e não tem sido diferente na comunidade acadêmica no universo desta pesquisa. Os professores ao conceber o significado de Universidade refletem:
“O ensino superior tem se transformado em um ensino extremamente técnico, uma preocupação técnica e pragmática. Os cursos de graduação em geral - não reduzindo ao universo da educação física, mas também as outras áreas - a formação é voltada para a formação profissional e não poderia ser diferente. Acaba sendo uma formação profissional que acaba assumindo um caráter extremamente técnico, destituído de uma formação mais erudita, mais relacionada, uma formação humanística” (P2A).
“Eu a vejo como uma capacitação básica para que o profissional entre em uma área específica. Entretanto, não vejo que a academia de toda a formação necessária para esse profissional. É na prática que ele vai ver realmente os problemas deles e buscar soluções” (P1A).
“[...] é fazer com que o acadêmico ao chegar aqui em um nível „X‟ de conhecimento ao final ele tenha quase o alfabeto todo, eu brinco dessa forma. Ele tem que evoluir enquanto pessoa [...] Formar um profissional que seja apto em agir na própria aprendizagem, é levar o sujeito a saber aprender, além do que ele aprendeu aqui, ele continua a formação dele independente de outros cursos, mas que ele vai em busca da capacitação por si próprio, que ele seja autônomo, hoje a gente busca no caso da licenciatura o professor mais autônomo, mais crítico em relação a prática que ele desempenha” (P1B).
“Eu tenho uma preocupação muito séria com a formação profissional nossa aqui, eu acho que eles são generalistas aqui, mas meu principal medo, vamos dizer assim, é que eles não se especializem e fique generalista durante toda a sua vida profissional” (P2B).
A reflexão dos professores centra-se em problemáticas diferentes, porém todas estão relacionadas a formação do professor enquanto agente crítico com capacidade de
transformação do cotidiano da sua ação pedagógica. Enquanto o P1A e o P2B acreditam que a concepção de Universidade tem base na formação generalista, portanto o futuro profissional terá que se especializar no decorrer da sua vida profissional, o P2A contrapõe essa ideia ao centrar sua preocupação no fato de que o ensino tem se tornado pragmático em que se utilizam de recursos para a resoluções de problemas imediatos se distanciando de teorias e reflexões que fundamente suas ações, no sentido de transformação. Já o P1B apesar de não criticar esse fato, acredita que a formação é a base para que o professor a partir de reflexões evolua enquanto conhecimento e que sua especialização virá em decorrência da sua necessidade na ação pedagógica.
Acredita-se que fundamentalmente o professor durante seu processo de intervenção não deve assumir uma postura neutra - se é que essa neutralidade seja possível – portanto, o professor deverá permear o ensino por meio do compromisso que possibilite a reflexão das contradições que se manifestam no ato educativo, caso contrário será um mero reprodutor em que se mantem em conformidade as problemáticas existentes.
O P2A ao se referir a formação do professor de Educação Física pondera:
“Eu percebo que a época para reflexão, a época para pensar, tem ficado para trás, está reduzida. A educação física especificamente, tem uma trajetória no curso de graduação que privilegia ações pragmáticas, em comparação com alunos de outras áreas. Dentro das humanas, em história, serviço social, ou da filosofia, o que esses alunos fazem? É Estudar. O professor pede um texto que tem tantas páginas para semana seguinte, eles trazem lido - logicamente que tem exceções - mas, no geral trazem aquilo lido, com anotações, esse é o ofício dele, o trabalho dele é estudar, é aprender, é analisar. E o professor de educação física, faz parte da simbologia da área você se envolver com questões práticas, o aluno tá atuando como monitor da escolinha de treinamento, com estágio aqui, acolá, tá arbitrando, tá envolvido com uma série de atividades mais pragmáticas de intervenção” (P2A).
Portanto, ao se pensar em formação do professor, acredita-se que esta exige um aprofundamento maior no que tange as ações reflexivas em relação ao conhecimento. Na formação específica do professor de Educação Física a dificuldade aparentemente se torna maior, uma vez que tem essa formação mitificada nas ações que proporcionam soluções rápidas e imediatistas para os problemas que se apresentam no cotidiano da intervenção pedagógica.
Nesse sentido, uma leitura que trará reflexões, que incorpore nessa formação uma visão ampliada de sociedade, de educação e de mundo do trabalho ficará legada em detrimento do pragmatismo exigido pela demanda mercadológica atual.
O P2B ao centrar sua preocupação na formação generalista, acredita que depois de formado o professor deverá especializar-se. Sabe-se que a formação generalista está em consonância com as DCN‟s (01/02) e também com que estabelece o PPC da própria Instituição B:
A fundamentação principal para a construção da sustentação da prática pedagógica proposta no projeto é o princípio de que a representação sobre a formação do professor de Educação Física remete a idéia de que esta deve ser focada por um multiolhar, ou seja, um olhar plural. A opção por este encaminhamento foi feita porque se acredita que nos últimos anos a Educação Física está padecendo de um mal que, de uma maneira geral, acometeu as ciências no decorrer de toda a modernidade: a desenfreada busca por uma alta especialização de seus saberes específicos e intervenções no mundo (INSTITUIÇÃO B, 2004, p. 08).
Acredita-se que o “medo” do P2B não se justifica, uma vez que atualmente a preocupação se centra justamente no inverso, pois sabe-se que diante do contexto vigente, a Universidade se vê atrelada a uma formação aligeirada para que consiga dar conta das inúmeras demandas a ela atribuída. Assim, a formação de professores se torna cada vez mais especializada no intuito de conseguir adentrar mais facilmente na área mercadológica.
O Projeto da Instituição B argumenta sua escolha por uma formação generalista com base nos pressupostos de que a partir do início dos anos de 1970, os Cursos de Licenciatura em Educação Física passaram a formar seus estudantes com saberes específicos voltados à formação de um profissional com um nítido perfil de especialista, ponderando que:
Nesta fase a Educação Física passou a formar professores que se apropriava de saberes mais voltados ao mundo da saúde, da técnica e da tecnologia, o mundo extra-escolar tais como a academia de ginástica, o treinamento desportivo, a fisiologia, a biomecânica, o desenvolvimento motor e crescimento, enfim aos chamados saberes especializados (INSTITUIÇÃO B, 2004, p. 08).
Diante desse contexto acabou se firmando na área uma concepção pedagógica voltada ao cartesianismo, em que fragmenta o conhecimento, no qual passa a ser transmitido de forma parcelada, impossibilitando qualquer ação voltada para uma formação total do homem. Outro fator considerado pelo PCC da Instituição B refere-se ao fato da área de conhecimento da Educação Física no quadro do Conselho Nacional de Desenvolvimento de Pesquisa (CNPq) ter sido colocada na área da saúde. Esse fato fez com que ocorresse uma
“profunda radicalização da fragmentação que seus saberes específicos sofreram com o passar do tempo” (INSTITUIÇÃO B, 2004, p. 08). E acrescenta:
No silêncio deste discurso que se estabeleceu na Educação Física, em função da fragmentação de seus saberes específicos, ela incorporou como sendo uma verdade absoluta, portanto reificadora, a idéia de que o processo de alta especialização de seus saberes específicos que passou a desenvolver apontava para uma prática que a levaria a uma modernidade no que dizia respeito às práticas dos profissionais da área, mesmo que esta incorporação à modernidade se efetivasse tendo como base uma vasta quantidade de conhecimentos descontextualizados (INSTITUIÇÃO B, 2004, p. 08).
Nesse sentido, o que se deve considerar e compreender é que um PCC voltado para a formação do professor de Educação Física deverá possibilitar ações que busquem soluções desses problemas e isso não se atem específica e unicamente a técnica dos especialistas, pois deve-se levar em conta a velocidade em que os conhecimentos são produzidos. Dessa forma, o especialista apresenta sérias dificuldades na elaboração de estratégias que venham confrontar com essa realidade (INSTITUIÇÃO B, 2004).
Portanto, atual demanda prima por profissionais que atendam aos desafios da sociedade contemporânea no enfrentamento de questões como informação versus conhecimento, condições humanas de sobrevivência, desemprego e reconfiguração do trabalho. Faria Junior (1992) apesar de acreditar que a formação não é um processo neutro no trato das desigualdades sociais, pois está articulada às mais variadas formas e reflexões em que contém princípios de autoridade, legitimação e controle, alerta que deve-se ficar atento no sentido de não se traduzir como certo que a formação do professor garantirá essas reflexões.
Nesse sentido, a formação de professor não deve se vincular ao imobilismo, a Universidade deverá ser um ambiente - que apesar das contradições inerentes a ela – proporcione o debate e o aprofundamento das questões sociais mais amplas.