Ao retratar a disciplina de Estágio Supervisionado como componente curricular capaz de articular os saberes trabalhados na universidade com a realidade cotidiana da intervenção pedagógica, se fez salutar compreender como os professores responsáveis por essa demanda nas Instituições estudadas, compreendem as possibilidades do Estágio Supervisionado articular o processo teoria e prática.
Dessa forma, quando os professores foram questionados sobre a articulação da disciplina de Estágio Supervisionado com a realidade da escola, mais uma vez, as fragilidades pertencentes a estruturação da disciplina foram citadas. Tanto os professores da Instituição A quanto da Instituição B compreendem que essa problemática não é exclusividade do curso de Licenciatura em Educação Física, mas também das demais Licenciaturas.
Para o P1A, o ponto central dessa articulação teoria e prática perpassa pelo perfil do aluno especificamente da Instituição A, pois os acadêmicos inseridos no Curso de Licenciatura, apresenta um perfil voltada para a área não escolar, mesmo porque o currículo da Instituição A dá essa ênfase, assim segundo o P1A são poucos os acadêmicos que se interessam pela escola.
Diante dessa situação, os acadêmicos não veem o Estágio Supervisionado com uma disciplina importante e sim como uma disciplina burocrática a ser cumprida para requisito legal na obtenção do título de professor de Educação Física. O P1A, analisa da seguinte forma o grau de importância atribuído pelos acadêmicos em relação a disciplina de Estágio Supervisionado:
“Eu peguei aluno, com o modelo do estágio anterior, do ano anterior. „Mas, nem para trocar a data?‟. „Só trocou o nome?‟. „O professor vai deixar você aplicar isso?‟ Copiou e colou. Realmente ele não vê importância do estágio, a nossa maior dificuldade também esta aí, a dificuldade de transferir para o acadêmico a importância de irem a prática, mas se é uma disciplina que eles não tem como objetivo profissional, eles veem aquilo como carregando um peso [...]”
Portanto, para o P1A, se torna muito frágil a questão de articulação teoria e prática, uma vez que o próprio acadêmico não está interessado nessa situação. Nesse sentido, o
momento de se fazer a interlocução da disciplina de Estágio com a realidade da escola, torna- se um momento banalizado, uma vez que o acadêmico não consegue estabelecer esse momento com sua futura profissão.
Já a análise do P2A, centra-se na ideia de que a Educação Física, apesar de todas as suas fragilidades, continua resistindo no ambiente escolar. Apesar dos estudos concernentes a Educação Física tecer críticas severas em relação a sua atuação no contexto escolar, a Educação Física sobrevive como disciplina pertencente ao núcleo comum do currículo na escola.
Essas críticas referendadas a Educação Física escolar, faz com que o acadêmico também crie um certo distanciamento da escola, porém antes mesmo de se estabelecer que a Educação Física está descontextualizada na escola, faz-se necessário a compreensão dessa configuração por meio da história e da antropologia. Pois, para o P2A, para além das especialidades que a formação em Educação Física oferece, esta irá trabalhar essencialmente com o ser humano, e neste contexto, deve se entender que o ser humano não é universal, e sim determinado socialmente e culturalmente.
Nesse sentido, a disciplina de Estágio Supervisionado ao fazer o enfrentamento da realidade em que está inserida estabelece críticas que são consideradas superficiais, em que se estabelece um modelo ideal de currículo, planejamento e aplicação, muito distante da realidade encontrada. Portanto, impossível de se articular teoria e prática. Assim, para o P2A a reflexão deve partir da ideia de que a academia não é detentora do conhecimento e que a disciplina de Estágio Supervisionado é um momento em que se analisa as limitações tanto da academia quanto do espaço escolar, e diante de tal situação pode-se estabelecer espaço para o diálogo e as possíveis interlocuções. Dessa forma, torna-se mister o refutar da ideia de que:
“Somos detentores do saber e a escola são os selvagens que precisam ser civilizados pela nossa bíblia”. (P2B).
Os professores da Instituição B também compactuam das muitas fragilidades elencadas pelos professores da Instituição A, porém acreditam que a disciplina de Estágio Supervisionado consegue estabelecer interlocuções com a realidade escolar, pois proporciona ao acadêmico o primeiro contato do que é ser professor, inclusive oportunizando a análise de qual faixa etária gosta mais de trabalhar, quais os conteúdos que tem mais dificuldade em ministrar e isso no entender o P1B é aproximação da academia com a escola.
Já para o P2B, é muito difícil comparar a Educação Física da universidade com a da escola, pois enquanto professor do ensino superior, a prioridade é um ensino de qualidade.
Sendo assim, como aproximar a academia do contexto escolar, uma vez que a estrutura que a universidade oferece é muito distante, da encontrada na escola. O exemplo que o P2B utiliza para confirmar sua reflexão está consubstanciado no seguinte argumento:
“Aqui na faculdade temos material, espaço físico e tempo de elaboração de aula. Coisas que às vezes no colégio não é possível. Primeiro, não encontra professores preparados a repassar o conhecimento para o estagiário, segundo não encontra material, terceiro o aluno está acostumado com a educação física ser uma disciplina de folga [...]”.
No entanto, apesar dessa dificuldade analisada pelo P2B, ele acredita que a disciplina de Estágio Supervisionado contribui imensamente para a formação do professor, pois as reflexões permitidas e contempladas pela disciplina no ambiente acadêmico faz com que a Educação Física saia do seu estado de estagnação presenciado no ambiente escolar, uma vez que só o fato dos acadêmicos estarem presentes nesse ambiente permite uma mudança de rotina, por mais simples que venha ser sua intervenção.
Sabe-se que o ambiente escolar é um segmento dinâmico em constante movimento e transformação, portanto, não há um modelo pré-estabelecido que dará conta dessa demanda tão singular, com suas dificuldades estruturais, culturais e sociais.
4.3 VÉRTICE 3: QUESTIONÁRIOS: VIVÊNCIAS DA DISCIPLINA DE ESTÁGIO