II V ers un formalisme de partitions intera tives 59
9.2 Compilation et exé ution
A festa de Corpo de Deus, cuja origem remonta ao culto popular da Eucaristia em Liége no último quartel do séc. XIII, rapidamente se disseminou pela Europa
189 Bowles (1961), «Musical Instruments in Civic Processions during the Middles Ages», in Acta Musicologica, Vol. 33, Fasc. 2/4, Nova Iorque, International Musicological Society, p. 157.
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durante a centúria seguinte190, desenvolvendo teologia e liturgia próprias191, e tinha
como ponto cimeiro, precisamente, a procissão em que a hóstia era transportada192,
tornando-se mesmo na manifestação religiosa mais aparatosa da Idade Média193. De
acordo com Miri Rubin, o cortejo era o «epítome do sistema sacramental», resumindo a doutrina da transubstanciação, e perspectivando a hóstia como a renovação do sacrifício de Jesus Cristo, naquilo que seria tido como um benefício de ordem material e
espiritual194. A exibição da hóstia tornou-se, aliás, o ponto focal da missa, tanto para os
religiosos como para os leigos, para quem aquela doutrina se tornou a razão principal para assistir ao serviço litúrgico, o que se traduziu, por sua vez, numa assistência cada
vez maior195. A adesão crescente dos fiéis tornou necessário um conjunto de medidas
com vista à eficácia da doutrina, encetando-se um processo canónico que decorrerá entre os sécs. XIII e XIV, e que tornou oficial a festa do Corpo de Deus. Tendo sido instituída pelo papa Urbano IV (1261-1264) em 1264, a promulgação da Bula Transiturus sofreu um atraso devido à morte do pontífice196. A festa será confirmada no Concílio de Viena (1311), para vir a fazer parte da lei canónica em 1316, sob o papa João XXII (1316-1334), que adicionava uma procissão à liturgia, tendo aquela a função de transportar a hóstia pelas ruas da comunidade desde a igreja, e sendo organizada
localmente por cada diocese e paróquias197. Concomitantemente a estes trâmites, a
celebração gozava já de amplo sucesso um pouco por toda a Europa, para além de que se foram desenvolvendo costumes próprios relativos à passagem do Santíssimo
190 Para um resumo da história relativa às origens da festa do Corpo de Deus ver Miri Rubin (1992), Corpus Christi. The Eucharistic in Late Medieval Culture, Cambridge, Cambridge University Press, pp. 174-247, especialmente p. 182.
191 Charles Cordonier (1923), Le Cult du Saint-Sacrament; Ses Origines et son Development, Paris, P. Lethielleux, Librairie-Editeur, p. 168. Também Miri Rubin nos dá conta que o primeiro ofício para a festa, Animarum cibus, terá sido elaborado por João de Lausanne, Cf. Rubin (1992), Op. cit., p. 189. 192 Rubin (1992), Op. cit., p. 353.
193 Iria Gonçalves (1985), «As festas do 'Corpus Christi' do Porto na segunda metade do século XV: A participação do Conselho» in Estudos Medievais, 4-5, Porto, p. 69.
194 Ver nota Nº 193.
195 Edmund Bowles (1964), «Musical Instruments in the Medieval Corpus Christi Procession», in Journal of the American Musicological Society, Vol. 17, Nº 3, University of California Press, p. 251.
196 Idem.
55 Sacramento, como por exemplo o baixar da cabeça dos fiéis e a genuflexão, aliás, com
grande consequência na iconografia, tanto coeva198, como mais tardia, conforme se
verificará no apostolado patente na Custódia de Belém.
3.1.2 A procissão
A instituição da celebração do Corpo de Deus levou à produção de custódias que servem para mostrar o Santíssimo representado pela hóstia, quer seja no interior da igreja, quer na procissão que, após a missa, segue pelas ruas. A sua dupla função, de exposição e de presença no cortejo, serve, por sua vez, para que o fiel realize a
denominada manducatio per visum199, como complemento ao alimento espiritual
efectuado durante o comúnio, manducatio per gusto200. A exibição, feita deste modo,
decorre da popularidade do acto de elevar a hóstia, que, a partir do séc. XIII era já comum em toda a Europa, e a que correspondiam, como sinais exteriores de respeito, a
genuflexão e o baixar da cabeça, por parte dos fiéis201. Estas regras terão sido instituídas
em Paris, ainda antes da promulgação das festividades do Corpo de Deus, que passou a incorporá-las, assim como a prática de fazer dobrar os sinos do templo, aquando do
momento da elevação202. A consequência iconográfica deste momento, sobretudo desde
o séc. XIV, passou a ser constante das iluminuras de breviários, missais e livros de
horas203, servindo como mais um elemento justificativo da rápida disseminação, não só
da festa, como da sistematização das práticas associadas já que esta caracterização imagética vinha reforçar a planificação litúrgica e cerimonial das festividades.
198 Cordonier (1923), Op. cit., p. 160 199 Comunhão perante o Santíssimo.
200 Fernando Llamazares Rodríguez (2002), «Orfebrería Eucarística: La Custodia Procesional en España», in Gerardo Fernández Juárez e Fernando Martínez Gil (coord.), La Fiesta del Corpus Christi, Cuenca, Ediciones de la Universidad de Castilla-La Mancha, p. 126.
201 Cordonier (1923), Op. cit., pp. 143-144. 202 Cordonier (1923), Op. cit., p. 142. 203 Rubin (1992), Op. cit., p. 204.
56 A dimensão física do espectáculo, que tomava e toma lugar na Quinta Feira
seguinte ao Domingo da Trindade204, denuncia as suas origens populares pelo facto de
ser constituída pelas corporações que, desfilando, faziam-se acompanhar de um conjunto de diversões, que iam da música a encenações teatrais, para além de uma
parafernália de adereços identificativos dos diferentes ofícios205, constituindo assim o
seu lado profano206. Pelo lado espiritual, a cleresia tomava também parte no cortejo, por
meio de um séquito de religiosos que rodeava o Santíssimo207, exibido numa custódia.
Esta parte da procissão formava o seu momento mais importante e o aspecto cénico, para que contribuíam os elementos musicais que aqui nos propomos estudar, não era, de
todo, descurado208.