Chapter 7. Discussion
7.3 Piloting as the creation of replicable-credible-feasible templates
7.3.1 Comparison with best practice transfer
Para definir a importância da análise de conteúdo nesta pesquisa e para posicionarmo- nos com rigor e objetividade em relação ao referencial acadêmico que utilizamos para a análise dos dados oriundos de entrevista, procuramos o diálogo com a principal expoente deste campo de estudos: Laurence Bardin. A pesquisadora é professora-assistente do curso de Psicologia na Universidade de Paris V e trabalha os temas relacionados à interface psicologia- sociologia-comunicação de massa.
Sua obra capital, "Análise de conteúdo", ganha edição traduzida para o português originalmente em 1977. Trabalhamos nesta investigação com a edição de 2011, também veiculada pela editora 70 (Lisboa) e que apresenta conteúdo "revisto e ampliado". Expomos nesta seção as considerações acerca da historiografia da análise do discurso, a partir dos procedimentos e dos contextos de aplicação nos quais se desenvolveram as técnicas para o tratamento deste tipo de dados – oriundos dos discursos investidos de natureza psicossocial. Na seção seguinte tratamos de outros procedimentos para análise de entrevistas e desenvolvemos outros apontamentos metodológicos.
Desde o prefácio, na obra analisada Bardin salienta que a AC faz as vezes de uma "hermenêutica controlada", na qual a inferência é procedimento privilegiado para a busca dos sentidos ocultos por trás das manifestações e ações do sujeito. Na primeira parte da obra analisada – “História e Teoria" – encontramos os subsídios apropriados para discorrer sobre a caracterização do campo de estudos, bem como para distingui-lo de outras vertentes em Psicologia Social que trabalham sentidos ou simbologia nas comunicações – como faz a análise do discurso, por exemplo.
Descrever a história da "análise de conteúdo" é essencialmente referenciar as diligências que nos Estados Unidos marcaram o desenvolvimento de um instrumento de análise das comunicações; é seguir passo a passo o crescimento quantitativo e a diversificação qualitativa dos estudos empíricos apoiados na utilização de uma das técnicas classificadas sob a designação genérica de análise de conteúdo; é observar a
posteriori os aperfeiçoamentos materiais e as aplicações abusivas de uma prática que funciona a mais de meio século (BARDIN, 2011, p. 19).
Pelo retrospecto trazido no livro, as abordagens que nos referenciam no estudo da linguagem baseiam-se na constatação de que os discursos são polissêmicos, ou seja, são forjados na dialética entre diversas vozes, e a expressão dos muitos interesses articulados, intencionalmente ou não. A posição fundamental exposta na trajetória da AC é a de que a interpretação sobre o que está por trás das manifestações discursivas deve vir sustentada por procedimentos técnicos de verificação, falseamento e validação.
Em resumo, Bardin descreve no capítulo II os princípios que admite como mínimo consensual entre as pesquisas que se desenvolvem sobre os auspícios da AC. As tendências atuais são descritas a partir deste ponto, com destaque para o investimento nas estruturas sintáticas dos textos e o alargamento do campo da análise de comunicações. Aponta, de forma veemente, para a crítica à “ilusão da transparência” contida na atitude científica inspirada nas ciências exatas, recusando a “leitura simples do real” (2011, p. 34).
Desta forma, os objetivos circunscritos ao conjunto de procedimentos da AC seriam melhor definidos como: superação da incerteza e enriquecimento da leitura. As funções atribuídas a esse método definem-se como heurística e de administração da prova (BARDIN, 2011, p. 35). Para os objetivos específicos desta pesquisa, destacamos o trecho que traduz a trajetória percorrida na análise das representações expressas em entrevistas:
Quando o analista se dedica a um domínio da investigação ou a um tipo de mensagem pouco explorada, onde faltam ao mesmo a problemática de base e as técnicas a utilizar [...] aplicando de maneira quase aleatória [...] procedimentos de inventário e de classificação [...] pode fazer surgir hipóteses que, servindo então de guias, conduzirão o analista a elaborar as técnicas mais adequadas à sua verificação (p. 36)
Com isso, acompanhamos a definição proposta por Bardin de que “A análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações” (p. 37), nessa acepção não se configura um instrumento propriamente dito. Segundo a classificação dos domínios de aplicação, enquadramo-nos nos investigadores que utilizam como código e suporte oralidade na forma de diálogo (entrevista). Procuramos trabalhar com a análise da enunciação (2011, p. 218) nos termos propostos por Bardin, no qual esse tipo de procedimento favorece o tratamento de significados (temática) de forma sistemática e objetiva, fundamentado no método das categorias (taxonomia).
Por fim, registramos que escolhemos utilizar os procedimentos da AC para dar conta do desafio de identificar as associações que permitem reconhecer as forças determinantes das RS nos indivíduos. Concordamos que existe correspondência entre as estruturas do discurso e as estruturas psicossociológicas envolvidas nos processos de ancoragem e objetivação. Buscamos compreender a direção da comunicação, bem como “desviar o olhar” para sentidos ocultos na mensagem. Filiamo-nos então à linha da AC que a concebe como:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens (BARDIN, 2011, p. 48)
Seguindo esta vertente da AC, o processamento e a análise dos dados podem assumir formas variadas dependendo dos objetivos da investigação. O caminho escolhido aqui, nos termos de Bardin, apresenta-se sob a forma de análise categorial na qual “a validade é resultante de uma coerência interna entre os diversos traços significativos” (2011, p.222). Incluímos na fase de processamento: caracterização inicial do perfil dos servidores; tabulação de questionários, além de gravação e registro de entrevistas.
A análise dos dados qualitativos propriamente ditos seguiu três momentos: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados (BARDIN, 2011, p. 125). A pré-análise foi o período exploratório, em que a intuição na escolha das unidades e na formulação das hipóteses foi o procedimento privilegiado. Característica principalmente desse momento é a “leitura flutuante” (p. 126), em que a escolha das unidades respeita as regras da exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência. Em seguida, a exploração do material seguiu pela “aplicação sistemática das decisões tomadas” (p.131), o que configura o seu caráter operatório. Os quadros de resultado representaram o momento final desse processamento que, por meio da codificação e da categorização, permitiram análise descritiva e categorial dos registros.