Encadré 6. Les bases de données sur les Etats-Unis, Union Européenne et Canada
3.6. Comparaisons entre le MTRI et les indicateurs intuitifs
Fonte: Walt Disney Studios18
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Disponível em: Alice in Wonderland. Direção de Walt Disney.Walt Disney Studios, 1951.DVD.(Aplicável a todas as demais referências à adaptação de 1951)
Um salto no tempo e, em 1951, Walt Disney lança a sua adaptação a partir da emblemática obra de Carroll. Alice no País da s Maravilhas é o décimo terceiro filme de animação do estúdio, saltando da grande tela em cores vivas e vozes famosas. A protagonista é dublada por Kathryn Beaumont, que também serviu como modelo para a personagem, recebendo o papel após disputar pelo mesmo com mais de duzentas outras atrizes.
O desenvolvimento da animação começa em 1933, mas, antes disso, Disney produz dois curtas-metragens inspirados no clássico de Lewis Carroll, nomeados, apropriadamente, de Alice Comedies. Em um total de 57 curtas, produzidos desde 1923, Disney desenvolve técnicas de animação que mesclam atores reais com cenários e personagens animados, sendo Alice interpretada por Virginia Davis. O resultado demonstra para o público da época o potencial que o cinema de animação rende para uma potencial adaptação de caráter fantástico.
Não é de se espantar que a ideia de uma criança caindo em um mundo estranho e surreal como o País das Maravilhas foi capaz de gerar um grande impacto em Disney, levando-o a tentar realizar a adaptação do livro de Carroll em definitivo. Para tanto, são tomados alguns passos necessários.O primeiro foi adquirir os direitos das ilustrações originais produzidas por John Tenniel.Por volta de 1940, essas ilustrações haviam alcançado grande reconhecimento por parte do público, e produzir uma animação a partir da obra sem fazer referência a elas apresentava grande risco para a produção.
O segundo passo foi adaptar o roteiro do livro para a animação. No entanto, há aqui um problema. Como foi mencionado antes, a trama de Alice no País da s Maravilhas não possui um foco preciso, uma estrutura narrativa com uma moral exata ou um curso fechado. Basicamente, a protagonista adentra a toca do coelho, depara-se com obstáculos de natureza linguística, matemática e escolar propostos pelos demais habitantes do local, e desperta.
Apesar de haver um ―mini-objetivo‖ no adentrar do jardim da Rainha de Copas,
este é relegado por vezes pelo fio narrativo, e pela própria protagonista, que sequer encara o desfecho do mesmo como relevante.Como bem aponta o crítico de cinema Owen Gleiberman, em sua resenha Alice in Wonderland:The challenge of adapting Alice in Wonderland is this: How do you create relationships, a story, a purpose out of a tale whose prime purpose is not to have one?19(2010, p.52)
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O desafio de adaptar Alice no País das Maravilhas é este: como você cria relacionamentos, uma história, um propósito a partir de um conto cujo objetivo principal é não ter um?(tradução nossa)
A dificuldade para essa adaptação leva Disney e sua equipe a buscarem mais material para encaixar e sedimentar uma trama mais linear. Com isso, há a inserção de personagens e elementos da sequência Através do Espelho dentro da trama do filme, considerando que a narrativa dessa sequência se desdobra de maneira mais objetiva, com Alice buscando a posição de rainha em um tabuleiro de xadrez. O resultado dessa fusão é uma releitura que produz o efeito moralizante que concerne ao lema ―cuidado com o que você deseja‖. Tal inserção moralista será melhor explorada no próximo sub- capítulo.
Além da adição da moral por parte de Disney, outros elementos são costurados de forma a melhor prender os atos levemente soltos da animação. Há a inserção de personagens visando a não gerar silêncios incômodos para o público infantil alvo, a saber: a fechadura da porta do jardim, a morsa e o carpinteiro em um processo de alimentação incômodo, as criaturas peculiares da Tulgey Wood em meio às lágrimas de Alice;cada cena se esforça para conectar as desventuras da jovem protagonista à derradeira moral concebida por Disney.
O terceiro passo é recriar na animação a sonoridade dos poemas de Carroll espalhados ao longo do texto de partida. Para Disney, essa propriedade foi reescrita com a inserção de músicas entoadas pelos dubladores das personagens ao longo de todo o filme. Em um total de 17 faixas cantadas, Disney apresenta detalhes da trama, repassa os sentimentos de Alice diante das intempéries e até mesmo relê alguns dos poemas mais conhecidos de Carroll, como A Tarde Dourada e Jabberwocky. Apesar de bem produzidas, permanece para o público um sentimento de que as trilhas estão posicionadas de maneira a tentar preencher vazios providenciais de roteiro, por problemas causados pelo limitante fio narrativo já mencionado anteriormente.
Para essa adaptação, foram apagadas personagens e cenas que não poderiam ser encaixadas por motivos diversos, como o impacto da violência mencionado no capítulo anterior. Capítulos inteiros, como os que envolvem as personagens do Grifo e da Falsa Tartaruga são deixados de lado, embora as personalidades delas sejam anexadas, de certa forma, a Tweedledee e Tweedledum, personagens emprestadas da sequência de partida carrolliana, Alice através do Espelho; o Camundongo e sua aula de história são substituídos pela atuação da personagem da irmã de Alice, logo no início da animação.
Talvez a mais gritante remoção seja o caso da personagem da Duquesa, e consequentemente da empregada e do bebê. O ambiente violento no qual a Duquesa se
encontra, para Disney, pode não refletir o seu intento inicial para alcançar o público alvo. É nessa encruzilhada da escolha por um tipo específico de público que há uma variação mais proeminente com relação à obra de partida: Disney adapta para um público infantil mais cadenciado e, instintivamente, para as famílias norte-americanas que vivem os Roaring Twenties, em toda a sua efusão,tendo em vista uma lucratividade direta. Por conta dessa ideologia mercantilista, a visão do diretor precisa adaptar a obra de partida para que essa consiga ser aceita, comercializada e gere produtos dentro e fora do mercado norte-americano, embora o foco maior seja o interno. Sobre a introdução ideológica na mídia, Douglas Kellner pontua que:
A ideologia, pois, é uma retórica que tenta seduzir os indivíduos para que estes se identifiquem com o sistema dominante de valores, crenças e comportamentos. Reproduz as condições reais de existência desses indivíduos, mas de uma forma mistificada na qual eles não conseguem reconhecer a natureza negativa e historicamente construída,portanto modificável, de sua sociedade.
(KELLNER, 2001,p.147)
Lewis Carroll, por outro lado, escreve para um público sem faixa etária delimitada, apesar de a obra ter sido inspirada para a juventude, visando, em sua maioria, a agraciar o leitor vitoriano com uma paródia, que também funciona como uma abordagem satírica, relevante aos tempos vitorianos. A história de Alice pode ser lida e relida de inúmeras maneiras, e assim o foi ao longo do tempo.
Adaptar uma obra multifacetada como essa e, de certa forma, restringi-la a um determinado público como Disney o faz, revela o impacto que a produção disneyficada confere à obra de partida.Esse impacto reverbera ao longo das gerações. Embora à época do lançamento do filme, o mesmo não tenha alcançado a fama, ou até mesmo a lucratividade, esperadas e desejadas por Disney, foi através do tempo que Alice, em sua forma animada, recebeu um estatuto de ícone.
Figura 7 – Alice cai na toca do Coelho
Fonte: Walt Disney Studios
Com um olhar inaudito sobre a adaptação, vêm novos públicos e novas releituras. O filme de Disney gera brinquedos em parques temáticos, adaptações teatrais e musicais, referências em outros filmes.Mesmo tendo desapontado o próprio Disney à época de seu lançamento, segundo ele, pela ―falta de coração‖ da obra de partida,o público passa a observar a obra de partida a partir da lente da adaptação, tornando a adaptação mais icônica que a própria obra de partida para as famílias dos anos 90 do século passado. A Alice de Disney se torna um ícone da cultura popular norte- americana.
O carisma e o chamariz da adaptação disneyficada permanecem. A produção de 1951 foi uma dentre várias a serem produzidas ao longo do tempo, mas a sua influência (tanto para com o público de chegada, quanto por conta dos elementos fílmicos inerentes à mesma), continua em voga, moldando as adaptações pós-Disney.
Disney faz pela obra de Carroll muito mais do que ele mesmo poderia compreender à época do lançamento do filme, estabelecendo, inadvertidamente, traços icônicos que ecoam até nas mais recentes produções do estúdio envolvendo Alice. Tais produções serão mais apropriadamente exploradas no quinto capitulo desse trabalho.