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Comparaison du comportement dynamique d’un train double-étages à

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Chapitre II. Modélisation et éléments de validation

II.6. Eléments de validation

II.6.1. Comparaison du comportement dynamique d’un train double-étages à

A matrona do Santo Daime tanto se apresenta como Virgem da Conceição, expressão mariana de grande popularidade, como também como a Rainha da Floresta. Assim, os adeptos creem que ela trouxe para o mundo “uma doutrina da floresta”. Tal discurso é emblemático tanto no Alto Santo como no CEFLURIS, mas destacado no último.

Enquanto as comunidades do Alto Santo permaneceram, em sua maior parte, na periferia da capital Rio Branco, o Céu do Mapiá46 foi em direção ao interior da floresta47, onde a busca pela “vida natural” tornou-se agenda política e religiosa. Seguindo os passos do Mapiá, outras comunidades do CEFLURIS, como o Céu do Gamarra, também instalaram suas sedes em meio à

45 Segundo Moreira; MacRae (2011), Irineu também possuía cantos como os ícaros – solfejos –, os quais proibiu que fossem reproduzidos, afirmando que somente os hinos deveriam ser cantados pelos seus seguidores.

46 Sede da maior comunidade do CEFLURIS.

47 Também influenciou na mudança o incomodo que Sebastião sentia do projeto de modernização e urbanização da Amazônia, que transformou rapidamente a vida em Rio Branco (Goulart, 2004). Além disso, despontava a perseguição ao uso religioso do daime e da Cannabis sativa, essa última introduzida no CEFLURIS ainda nos anos 70. Como explorado por Goulart (2004), enquanto no princípio do Santo Daime, Irineu e seus seguidores foram perseguidos como “macumbeiros”, numa relação de racismo religioso, o CEFLURIS passou a ser perseguido no contexto de controle do uso substâncias psicoativas e pelo medo público da formação de seitas religiosas, nesse caso baseada no uso de uma “droga perigosa”. A crescente popularização do CEFLURIS, com a vinda de curiosos de outras regiões do país, bem como com a divulgação de livros e de reportagens sobre o culto, acendia o olhar sobre Sebastião Mota e seus seguidores.

72 natureza, buscando ainda desenvolver atividades econômicas e sociais conectadas à preservação ambiental (Assis, 2017).

Para o grupo o retorno à natureza é a concretização da Nova Jerusalém, profecia do líder Sebastião Mota de Melo. A Nova Jerusalém - que faz parte da escatologia do CEFLURIS, destacada nos hinos na afirmação da chegada do final dos tempos e do balanço - é interpretada como um novo momento, propiciado pelo Santo Daime no qual as pessoas viveriam juntas na natureza, em harmonia, formando uma “irmandade verdadeira” (Assis, 2017).

A valorização da natureza se aprofunda com a passagem do tempo, destacando-se ainda mais no período que se inicia com a liderança do ICEFLU por Alfredo Gregório48 e de outros líderes nas diversas comunidades do CEFLURIS, como Suzana Pedalino no Céu do Gamarra. Esses novos líderes destacam, em suas mensagens e em seus hinários, uma ânsia pelo contato entre a humanidade e a natureza para a chegada de um novo tempo, marcado pela restauração ambiental.

O que é que eu vim fazer neste mundo O que é que eu vim fazer aqui

Hoje é o Santo Daime o guia do plano divino Caminhando junto a Ele este é o nosso destino Redescobrindo a nossa missão

Que somos herdeiros da Virgem da Conceição Plantando sobre a Terra um Reino Celestial Onde reina a harmonia no plano espiritual Este reino a Nova Jerusalém

Onde habita o Pai Eterno e nossa Rainha também Num tempo de amor um novo céu ressurgirá A abundância, a natureza toda se recobrará E lembraremos de cada irmão

Que nos acompanha agora junto a esta missão. (PEDALINO, S., 2015, p. 67)

Assis (2017) fez inclusive uma relação entre esses desenvolvimentos históricos no Santo Daime e as mensagens promovidas pelos hinários, os dividindo em três momentos: canônico, profético e diaspórico.

No caso daimista, percebemos que nos hinários mais antigos e tradicionais é dada uma importância ímpar ao trabalho cotidiano, além de haver uma presença fundamental da santíssima trindade e dos santos católicos. Já em hinários mais recentes, é possível encontrar maiores referências a outros seres espirituais, como orixás e divindades do panteão indiano, bem como temas mais relacionados ao universo simbólico de pessoas

73 urbanas e da Nova Era. As fórmulas rítmicas usuais presentes nos hinos, contudo, permanecem praticamente inalteradas desde a época de Irineu Serra, a saber: a marcha (compasso 4/4), a valsa (3/4), e a mazurca (6/8).

Nesse sentido, os hinários não só constroem a doutrina daimista, como também funcionam como um ótimo espelho social da religião e suas fases. Para ficar somente em alguns exemplos, o hinário O Cruzeiro, de Mestre Irineu, corresponde ao que chamamos aqui de “fase canônica”. É nele que está marcada a linguagem musical e rítmica do Daime, sua ligação com o cristianismo e todos os aspectos definidores da música e ética daimista. Já o hinário O Justiceiro, do Padrinho Sebastião, corresponde à “fase profética” e à “fase experimentalista” da doutrina, assumindo um caráter messiânico e anunciando de forma escatológica o início de uma Nova Jerusalém, bem como a chegada da “Santa Maria”. Já os hinários do Padrinho Alfredo correspondem à “fase diaspórica”, dialogando com diferentes matrizes religiosas (p. ex. Umbanda, Nova Era) e utilizando de uma linguagem mais ecumênica e afinada com o discurso religioso New Age. Não à toa, um dos hinários do Padrinho Alfredo se chama “Nova Era”. Alguns daimistas inclusive consideram seu hinário O Cruzeirinho como um “grande manifesto ecológico”.

Os hinários canônicos passam a ser inclusive reinterpretados através dessa lente. O 30º hino do líder do ICEFLU, Alfredo Gregório de Melo (marcha da bandeira), expressa bem a nascente união entre Maria e a natureza:

Como é lindo este chão nossa Pátria A Floresta este jardim em flor Como é belo se ver este brilho Tão divino da luz do resplendor Com firmeza me deu esta marcha Vou seguindo e vou recebendo Tudo, tudo enquanto se pede De acordo se vai recebendo Salve, salve ó Mãe do Universo! E louvada seja Vossa festa Para todos sentir esta força Deste brilho da Rainha da Floresta Nossa Mãe, Mãe de toda pureza Mãe de Cristo, essência da flor Agradeço, ó Mãe Natureza! Com palavras do meu Beija-Flor Quero sempre brilhar nesta paz E amor desta linda bandeira Nestas cores do Rei da Ciência Que nos traz a doutrina verdadeira Vamos todos marchar meus irmãos Na doutrina de Juramidam

Peço que obedeçam o comando

74 Em contato com os novos adeptos do Santo Daime – o “povo do sul”49 e os estrangeiros, que carregavam propostas da contracultura ‒, o culto se tornou um laboratório para a vida comunitária, em comunhão com a natureza e centrada no uso ritualístico do daime.

A valorização destes aspectos pelo “povo do sul” e estrangeiro também se baseia em uma lente romantizada sobre a região amazônica, seus povos e o ambiente natural. A peregrinação para o Mapiá é especialmente relevante para os membros de comunidades filiadas ao ICEFLU, que observam a viagem até a comunidade como algo necessário para sua experiência enquanto daimistas, pois lá seria possível o encontro com as bases comunitárias e espirituais da religião a qual fazem parte. A floresta amazônica e seus povos tornaram-se entidades a serem honradas, de forma muito semelhante ao que ocorreu com a Bahia e posteriormente com a Nigéria, na África, que se tornaram focos de peregrinação para os adeptos do Candomblé que são do Sudeste brasileiro (Prandi, 1991).

Essa visão romantizada do “caboclo amazônico”, que o compreende como mais próximo à vida natural e dotado de saber imemorial, é semelhante ao que o movimento psicodélico dos anos 60 teve sobre as religiões orientais e os xamanismos indígenas. Deve ser destacada essa questão pois ela arrisca na criação de estereótipos que observam os povos tradicionais como “parados no tempo” e fazem uma absorção “palatável” de sua cultura, na qual esses povos deixam de ser agentes de suas histórias. Como colocado por Foutiou (2016), sobre os xamanismos ayahuasqueiros:

O fascínio ocidental pelo xamanismo - incluindo as plantas e substâncias psicoativas e as transformações de consciência que eles produzem - está profundamente enraizado na tradição intelectual ocidental. O interesse ocidental pela ayahuasca é uma continuação desta longa história e pertence ao seu mais recente capítulo que tem sido chamado de “renascimento psicodélico” (Joy 1992; Cloud 2007; Kotler 2010), dominado pelos temas de cura, autotransformação e o uso sacramental de alucinógenos. Essa transformação do sujeito é facilitada pelo contato com o radicalmente Outro, o pré-moderno, o espiritual, o tradicional e o sagrado. (Tradução da autora; FOUTIOU, 2016, p. 153)50

Tal interesse também pode culminar na absorção, por parte das comunidades daimistas da expansão, de discursos de gênero e práticas sexuais vistas como “mais naturais”, “saudáveis” e

49 Nome dado, êmicamente, aos novos filiados do CEFLURIS que vinham de fora da Amazônia, especialmente das regiões Sul e Sudeste.

50 Trecho original: “the western fascination with shamanism—including psychoactive plants and substances and the changes in consciousness that they produce—is deeply rooted in western intellectual tradition. The western interest in ayahuasca is a continuation of this long history and belongs to its latest chapter that has been called the “psychedelic renaissance” (Joy 1992; Cloud 2007; Kotler 2010), dominated by the themes of healing, self-transformation, and the sacramental use of hallucinogens. This transformation of the subject is facilitated by contact with the radically Other, the premodern, spiritual, traditional, and sacred.”

75 “elevadas”, pois fazem parte do contexto cultural de origem do Santo Daime. Tais discursos e práticas que envolvem, principalmente, normativas heterossexuais, baseadas em uma estrita divisão sexual do trabalho, culminam em parte dos discursos conservadores das comunidades religiosas da expansão. O trabalho etnográfico de Goulart (1996) destaca dois depoimentos que demonstram uma absorção do tipo:

O Daime me mostrou a importância dos papéis, do homem, da mulher, a importância do respeito... porque existem coisas no mundo que merecem respeito e estão totalmente desrespeitadas. A gente acaba desrespeitando a gente mesmo em nome de uma falsa liberdade, de uma modernidade... Você entra no desrespeito pelo seu próprio corpo, que é sagrado. Taí todas essas doenças que estão chegando, por um descontrole do próprio ser humano [...] tem que ter limite para gente poder apresentar a nossa verdade, para gente aprender o que a gente veio fazer aqui, neste mundo. Eu sinto que a minha cura estava relacionada com isso, com essa descoberta, com o abandono de costumes, de toda uma vida descontrolada, sem limites, e sem sentido também. (GOULART, 1996, p. 196) Você vê as mulheres daqui, os homens têm respeito por elas, porque elas se respeitam... Então, não é usar anágua ou vestido mais comprido por uma questão de falso moralismo. Não é uma coisa de repressão, mas é até espontâneo... é natural. É um outro mundo, onde as pessoas têm muito claro quais são seus papéis, porque elas conhecem sua natureza. Muito diferente da cidade, onde a gente nem sabe mais quem é homem e quem é mulher, tamanha a confusão... Aqui, não, aqui você recupera a simplicidade, a verdade [...] Antes eu não sabia o que fazer com essa energia sexual, era uma coisa totalmente descontrolada, agora já melhorou um pouco, eu me sinto muito mais equilibrada. Esse equilíbrio aumentou muito depois que eu vim para cá [...]. Vivendo mais perto da natureza você vive mais de acordo com a natureza, de acordo com as leis dela, e isso faz com que você fique mais centrado. (GOULART, 1996, p. 201)

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