Chapitre III. Corrections de profil optimales pour des réducteurs multi-étages en
III.5. Application industrielle : Optimisation des corrections sur le modèle AGB
I.1.1. Calcul de la réponse dynamique
A pesquisa etnográfica realizada no Céu do Gamarra destacou sua particularidade cosmológica dentro do universo do Santo Daime. Uma apresentação original no campo ayahuasqueiro.
Desde que a comunidade deixou de fazer parte do ICEFLU, floresceram interpretações particulares sobre o encontro entre Irineu e Maria, a fundação do Santo Daime e a própria bebida sacramental. No Céu do Gamarra o daime é reconhecido como o vinho da Rainha da Floresta e afirma-se que ele apareceu pela primeira vez como um presente de Jesus a Maria, no milagre da transformação da água em vinho e que, milênios depois, ressurgiu na floresta amazônica como um presente de Maria à humanidade, através das mãos de Raimundo Irineu Serra.
76 O Daime é um Vinho do Cristianismo da Nova Era, pois traz em si o conhecimento e a ciência da Rainha da Floresta, Nossa Senhora da Conceição.
Jesus e Maria estavam em uma festa de casamento em Canaã e como numa certa hora acabou o vinho, Maria pediu que Seu filho fizesse algo. Jesus pediu que os anfitriões trouxessem até ele odres cheios de água que então transformou em Vinho, realizando seu primeiro milagre! Esse Vinho, porém, não era um vinho comum, era o Vinho santificado pelo Amor do Cristo. Esta simbologia fundamenta biblicamente nossa Doutrina: o Vinho
Santo da Virgem da Conceição, feito a pedido dela. (Acervo pessoal da autora,
destaques nossos)
Destaco “cristianismo da nova era” pois o conceito é importante para a definição, por parte do grupo, do tempo atual, iniciado no encontro de Irineu e Maria que culminou na fundação do Santo Daime. O cristianismo da nova era é o “tempo da Mãe” ou ainda a “era da Mãe” e acredita- se que nela, Maria é a expressão de Deus, numa atualização do dogma católico de Theotókos que a colocava como mãe de Deus, mas nunca como Deus.
A concepção de uma “nova era” relaciona o Céu do Gamarra sociologicamente com o contexto religioso mais amplo – brasileiro e global – de popularização do circuito neoesotérico, ou nova era, e suas visões de mundo. Essa relação é oriunda do processo de expansão do CEFLURIS para além da Amazônia e sua entrada no contexto dos grandes centros urbanos, com o intercâmbio com a contracultura, cuja face espiritualista é justamente a religiosidade nova era.
Fenômeno religioso moderno e complexo, o circuito neoesotérico, ou nova era, relaciona- se à busca de novas formas de compreensão da espiritualidade no contexto de questionamento do status quo religioso, confluindo diversas tradições, desde as artes divinatórias às vivências xamânicas (Magnani, 2000). O sentido original da expressão “nova era” vem da astrologia e da crença, por parte dos astrólogos, da sucessão de eras no decorrer do tempo histórico. Segundo eles, o século XXI deve ser palco da abertura da “era de aquário”, sucessão da “era de peixes”. A mudança de uma era a outra é interpretada como um “momento que sempre anuncia ou acarreta importantes modificações para a humanidade.” (MAGNANI, p. 9, 10, 2000).
Do mesmo modo, o Céu do Gamarra afirma a mudança de eras, com suas dificuldades transicionais. Reproduzindo a escatologia de Sebastião Mota, o paradigma do “apocalipse” ou do “final dos tempos” é interpretado como múltiplo e não como uno e definitivo, o que é uma absorção original de um conceito chave do cânone católico através da influência da nova era. Segundo o depoimento de Fabio Pedalino, o planeta Terra já passou por inúmeros finais dos tempos, e agora passa por um novo, na instauração da “era da Mãe”51:
77 O final dos tempos já aconteceu várias vezes e é o encerramento de um paradigma civilizatório para o início de um novo. Entramos recentemente na Terceira Era que é a da Mãe de Deus, e com isso devemos esperar graduais e sistemáticas mudanças planetárias. [Quem mais sofre com essas transformações são aqueles que] não entende[m] a natureza instável da materialidade. Quanto mais a pessoa está alheia a esta lei, mais exposta está às consequências das mudanças, podendo com isso sofrer. Devemos nos lembrar que o universo se encontra em constante movimento de expansão e de contração e que a Terra, parte deste cosmos, também está em movimento. (Arquivo de campo)52.
No Céu do Gamarra a mudança de eras se baseia numa teleologia bíblica. Acredita-se numa primeira era (“do Pai”, dos patriarcas Abraão e Moisés), numa segunda era (“do Filho”, de Jesus Cristo) e na terceira e atual era, “da Mãe” (Virgem da Conceição ou Rainha da Floresta). Segundo Fabio, sabe-se até qual era procederá a era da Mãe: a “era do Espírito Santo”. Para o líder, cada era trouxe uma mensagem para a humanidade:
Os Dez Mandamentos foram os ensinamentos do Tempo do Pai, deixados para um povo rudimentar que precisava de Leis Divinas simples para guiarem suas vidas em direção ao Criador. Os Dois Mandamentos de Jesus foram para um povo que conhecia a Lei, mas desconhecia o Amor, tanto que diz: “amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. O Hinário do Mestre Irineu é para nós [no Tempo da Mãe], que conhecemos o Amor, mas precisamos vivenciá-lo. (Acervo pessoal da autora)
A mensagem trazida por Maria através de Irineu e do Santo Daime é interpretada pela necessidade de se “vivenciar o amor”. No Céu do Gamarra, a partir especialmente dos hinários dos líderes, a vivência desse amor caminha em conjunto com a valorização de Maria, da natureza, do feminino e do aprimoramento no estudo da “ciência da Rainha da Floresta”, que objetiva o estudo do mundo espiritual.
O mundo espiritual seria um plano alcançado pelo uso da intuição e da ciência da Rainha da Floresta que seria, segundo Fabio, a ciência abstrata. Para Fabio o plano espiritual é um plano que existe sobreposto ao plano cotidiano, que é o plano material. Além disso, ele se organiza por uma “razão abstrata”, onde o tempo e o espaço, como conhecidos no mundo material, não existem. Segundo o líder, a partir da consagração do daime é possível adentrar e conhecer esse plano, pela expansão dos sentidos e pelo canto dos hinos. Pela ciência da Rainha da Floresta, o estudo do mundo espiritual é um objetivo da nova era.
como uma preparação da humanidade para o final dos tempos. Eles ainda demonstram como a preparação tem diversas conotações no decorrer da história. Olhar para o final dos tempos é observar os grandes medos de um contexto histórico e geográfico. No estudo de caso, a preparação para a era da Mãe propõe um resgate do feminino e da natureza, significativo sobre a sociedade urbana moderna e os dispositivos de controle da sexualidade, definindo desejos, práticas e a concepção de saúde.
78 A ciência abstrata se utiliza, originalmente, de conceitos da física quântica, como ondas, partículas, dimensões, antimatéria. Esse uso assemelha-se ao feito por outro grupo também localizado no sul de Minas Gerais, apresentado por Camurça (2018) nos termos de aparição de uma “Virgem cósmica e energética”53. Concordando com o autor, pontuo que o uso de termos científicos
elabora uma linguagem mais afeita aos adeptos, oriundos da camada média urbana e ligados ao contexto neoesotérico.
O hino dez do hinário “Abstrato” de Fabio Pedalino dá ideia do tom do uso de termos da física quântica, assim como de concepções sobre o plano material e o plano espiritual, tal qual a necessidade de adaptação à mudança de eras e à entrada nesse tempo mariano.
Quando Deus fez os universos Começou pelo espiritual Sobreposto ao mesmo espaço Dividiu em várias dimensões Em abstrato raciocinar Saber vazios diferenciar Por derradeiro fez a matéria Primitiva densa na fusão Entre o tudo e o nada
É só frequência em concentração (...)
Bem felizes serão aqueles Que puderem se adaptar Aos elos da evolução Aceitar, amar e louvar (...)
Enquanto este caos perdurar Somente Deus para estabilizar Lentamente vai recomeçar Novas partículas vão se agrupar Mais um motivo para rezar Estando o tempo a viajar Ontem irei, amanhã que fui
Vestes de carne num sopro de luz (PEDALINO, F. 2014, 279-280)
No tempo da Mãe deve haver a proeminência da “intuição” sobre a “razão” e de aspectos “femininos” sobre “masculinos”, pois assim seria possível apreender a face feminina de Deus,
53 O grupo analisado por Camurça é a comunidade religiosa fundada em 1987 por Trigueirinho, em Carmo da Cachoeira (MG). No início, suas atividades circundavam majoritariamente preocupações ecológicas, mas em 2008 o grupo sofreu de uma reorientação “católica” a partir da visita dos uruguaios “madre” Shimani e “frei” Elias, que se assumiam como videntes em contato constante com Nossa Senhora. Os dois disseram terem sido chamadas por ela a visitarem a comunidade do Trigueirinho, onde deveria ser estabelecida a sede da ordem.
79 compreendendo a expressão total de Maria na Terra. Essa expressão total, inclusive, abrange a restauração da natureza e da saúde das mulheres que, segundo as narrativas do campo, teriam sido oprimidas por regimes patriarcais milenares.
A intuição é compreendida como uma característica feminina, em oposição e complementariedade à razão, masculina. Sua proeminência na nova era é uma forma de honrar a Rainha da Floresta e também a fortalecer, o que gera efeitos positivos também sobre as mulheres e sobre a natureza pois, como veremos na seção seguinte, elas são expressões unas de uma mesma essência: Deus Mãe.
As mulheres são consideradas como um “aparelho” privilegiado espiritualmente nesta era, por possuir os aspectos e as ferramentas de estudo desta nova era. A ligação delas com a natureza marca esse privilégio, o que torna esse discurso similar ao da wicca ou bruxaria moderna, religiosidade também apoiada no movimento nova era (Osório, 2004).