• Aucun résultat trouvé

4.3 Conclusion

5.3.2 Comparaison des techniques d'optimisation

Foram apresentadas duas metodologias descritivas da entoação nesta seção, a descrição a partir de uma abordagem sistêmico-funcional da língua (HALLIDAY, 1970; CAGLIARI, 2007) e a abordagem da Fonologia Entoacional Autossegmental-métrica

(PIERREHUMBERT, 1980). Como o objetivo desta tese é traçar comparações entre os padrões entoacionais do PB e do IA no contexto do filme Shrek (2001), considerando, portanto, os sentidos carreados por esses padrões, vale clarificar como a relação de sentidos e entoação é considerada nesta tese. Para tanto, será feita uma breve apresentação de como sentidos e entoação se relacionam em diferentes níveis de análise linguística.

Em primeiro lugar, vale destacar um apontamento constante na literatura de que há consenso nos estudos da linguagem de que a entoação carreia sentidos e, portanto, faz parte do sistema linguístico; porém, não há consenso em como definir quais unidades são distintivas para a descrição da entoação e, consequentemente, para a análise da relação entre a entoação e seus sentidos. Nesse sentido, é possível dizer que elementos prosódicos tem relação com a sintaxe, a semântica e a pragmática, como afirma Quirk et al. (1985, p. 1608 ), ao exemplificar diversas realizações prosódicas que proporcionam diferentes sentidos para os constituintes gramaticais de sentenças: “The system of stress, rhythm, and intonation operate

significantly […] over considerably longer stretches of speech, indicating degrees of connection and providing significant cues to interrelationship of grammatical, semantic, and

pragmatic units as ‘texts’.”147

Levinson (1983, p. x) no prefácio de seu livro sobre pragmática, destaca o papel da prosódia nessa área de estudo, mas aponta para as dificuldades teóricas envolvidas:

The fact is that, given the clear importance of prosodic factors in pragmatics, the area is grossly understudied. There is disagreement even about the fundamentals of how such factors should be described, whether as discrete elements or variable ones, wholes (e.g. tonal contours) or parts (e.g.

‘levels’), evidence by quite different approaches on either side of the

Atlantic. But if the way in which the phenomena are to be recorded is unsettled, the pragmatic functions of prosodic patterns are really quite unexplored.148

Em outras palavras, não há ainda um corpo teórico completo e solidificado por um número significativo de pesquisas que descreva a relação entre a entoação e seus sentidos.

147 “O sistema de acento, ritmo e entoação operam significantemente, entretanto, sobre trechos de fala consideravelmente mais longos, o que indica graus de conexão e prove pistas significativas para a inter-relação entre as unidades gramaticais, semânticas e pragmáticas como ‘textos’.”

148 “O fato é que, dada a clara importância dos fatores prosódicos na pragmática, a área ainda é grosseiramente pouco estudada. Não há concordância até com relação aos fundamentos sobre como esses fatores devem ser descritos: como elementos discretos ou variáveis, como elementos como um todo (por exemplo, contornos entoacionais) ou em partes (por exemplo, níveis); há evidências para abordagens bem diferentes nos dois lados do Atlântico. Mas se a maneira como o fenômeno deve ser registrado é incerta, as funções pragmáticas dos

Dessa forma, apresentamos alguns aspectos a serem considerados quando se aborda o papel linguístico da entoação e sua relação com os sentidos.

De acordo com Löbner (2002, p. 4-9), é possível distinguir três níveis de sentido: a) o sentido das expressões (sentido de expressões isoladamente, palavras e sentenças), b) o sentido do enunciado (sentido em um determinado contexto, considerando conceitos de verdade e referência) e c) o sentido comunicativo (sentido da expressão como um ato comunicativo em determinado contexto); sendo que os dois primeiros níveis de sentido são objeto da Semântica enquanto o terceiro é tratado pela Pragmática. No primeiro nível, o autor destaca o princípio de composicionalidade149, ideia central que embasa a Semântica, na qual o sentido lexical, mais o sentido gramatical (quando as formas das palavras são importantes para a composição semântica de sentenças) aliado à estrutura sintática da língua determinam o sentido das expressões complexas. Ainda, Löbner (2002, p. 16) conclui que duas subdisciplinas da semântica surgem a partir do exposto: a semântica lexical e a semântica das formas gramaticais.150 Dessa forma, vale notar que a entoação, sendo um elemento da gramática das línguas, pode contribuir na composição dos sentidos carreados pela língua nesse nível de análise semântica.

Cruse (2011) também faz um levantamento de como o sentido tem sido estudado em várias disciplinas, com especial atenção aos estudos linguísticos. Nesse texto, há a discussão do sentido tanto em análises no campo da semântica quanto no campo da pragmática. Considerando o propósito de descrever sentidos, Cruse (2011, p. 16) aponta para a dificuldade de fazê-lo de forma independente do contexto e de como combinar sentidos simples em formas mais complexas; assim, destaca a importância de se distinguir sentidos proposicionais151 e não proposicionais (atitude proposicional e sentido expressivo). Dessa forma, podem-se estudar os sentidos que não são dependentes do contexto (sentido convencional) que abrange todas as áreas da linguística como o léxico, a gramática e a prosódia (cf. CRUSE, 2011, p. 415) e também aspectos de sentido que precisam do contexto

149“Principle of Compositionality: The meaning

e of a complex expression is determined by the lexical meanings

of its components, their grammatical meanings and the syntactic structure of the whole.” (LÖBNER, 2002, p.

15) (“Princípio da Composicionalidade: O sentido expressivo de uma expressão complexa é determinado pelo sentido lexical de seus componentes, seus sentidos gramaticais e a estrutura sintática do todo”).

150 É importante notar que o autor inclui na subdisciplina semântica das formas gramaticais o estudo da semântica das sentenças, ou seja, “the investigation of the rules that determine how the meanings of the

components of a complex expression interact and combine” (LÖBNER, 2002, p. 16). (“a investigação das regras

que determinam como os sentidos dos componentes de uma expressão complexa interagem e se combinam”). 151 “propositions may be viewed as mental entities that correspond to potential events or states of affairs in the

world, and are true or false with respect to some actual events or states of affairs” (CRUSE, 2011, p. 6).

(“proposições podem ser vistas como entidades mentais que correspondem a eventos potenciais ou estado das

para serem tratados satisfatoriamente, em geral, estudados no âmbito da Pragmática (cf. CRUSE, 2011, p. 18-19).

A partir do reconhecimento de que a entoação pode contribuir tanto para carrear sentidos no nível semântico (sentido expressivo), assim como no nível pragmático da língua, é importante levantar a questão da complexidade nas línguas. A partir disso, a tarefa de buscar integrar as várias características da língua em diferentes níveis de análise torna-se fator essencial nos estudos da linguagem. Jackendoff (2002, p. 6) salienta que uma análise completa da estrutura de uma sentença simples é uma boa maneira para se abordar a complexidade da língua, pois nela é possível destacar as estruturas da língua: fonológica, sintática, semântica/conceitual e espacial, como pode ser visto na Figura 22.

Ao observar a figura 22, adiante, nota-se que é possível categorizar e analisar elementos discretos nos mais variados níveis, por exemplo, na estrutura fonológica da sentença “The little star’s beside a big star”, a análise linguística pode levar em conta tanto os segmentos que compõem as sílabas na estrutura de onset, núcleo e coda, como a estrutura entoacional da sentença, composta de duas frases entoacionais marcadas pelos parênteses e que permite a inserção de pausa entre esses elementos. Outros graus diferentes de análise, com diferentes unidades mínimas, são possíveis não só na estrutura fonológica da sentença como também em outros níveis de análise linguística: sintático, semântico e cognitivo.152

Vale ressaltar que resultados de análises isoladas de elementos linguísticos devem ser contrastados com os resultados de outros níveis de análise da língua, em outras palavras, os sentidos construídos pela e na linguagem advêm da convergência de determinadas características linguísticas em diferentes níveis de análise. Nesse aspecto, Jackendoff (2002, p. 14) explicita ainda que: “Generally speaking, the mapping between phonology and syntax

preserves linear order, while the mapping between syntax and meaning tends to preserve the

relative embedding of arguments and modifiers”.153 Assim, a relação entre aspectos

fonológicos, sintáticos e semânticos não é direta, daí o conceito de complexidade das línguas. Ainda com relação específica ao âmbito da fonologia, Jackendoff (2002, p. 15) afirma: “[...]

there is a mismatch between phonology and meaning, which has to be encoded somewhere in the mapping among the levels of structure. If this mismatch is eliminated at one point in the

152

O nível cognitivo é definido por Jackendoff (2002, p. 5) como: “the level at which this sentence can be

compared with the perception of the world”. (“o nível no qual esta sentença pode ser comparada com a

percepção do mundo”).

153“Em termos gerais, o mapeamento entre fonologia e sintaxe preserva a ordem linear, enquanto que o mapeamento entre a sintaxe e o sentido tende a preservar o encaixe relativo dos argumentos e modificadores.”

system, it pops up elsewhere.”154 Em outras palavras, a relação entre os elementos linguísticos de um nível de análise com outro nível e com os sentidos por eles carreados não é simples e direta.

Figura 22 - Estrutura linguística da frase: “The little star’s beside a big star”

Fonte: Jackendoff (2002, p. 6).

Halliday e Greaves (2008, p. 51) também apontam para a dificuldade de se separar a análise da entoação de suas contrapartes gramaticais e semânticas. Ao optar por descrever os

154 “Há um desencontro entre a fonologia e o sentido, que deve ser codificado em algum lugar no mapeamento entre os níveis da estrutura. Se esse desencontro é eliminado em um ponto do sistema, ele aparece em outro

sentidos carreados pela entoação como parte da gramática da língua e não como da semântica somente, os autores explicam que: “systems realized by intonation intersect with grammatical systems of the more familiar kind (those realized in wording) in precisely the same way that these intersect with each other. Thus what might be locally a simpler solution turns out to be globally much more complex.”155 Dessa forma, sua afirmação corrobora com a de Jackendoff (2002, p. 15) de que o mapeamento de estruturas fonológicas, sintáticas e semânticas não se relaciona de forma direta em todos os níveis, portanto, ainda é preciso considerar como abordar essas relações, em outras palavras, a relação entre sentido e fonologia não é campo de estudo sedimentado na academia.

Nesse curto panorama sobre o sentido e sua relação com aspectos fonológicos, é possível notar que aí reside uma área de análise a ser desenvolvida. Dessa maneira, nesta tese, devido à multiplicidade de sentidos que a entoação pode carrear, como parte do sistema linguístico, optamos por adotar o uso de glosas para relacionar os padrões entoacionais encontrados e os sentidos exercidos no contexto do corpus.

Enfim, nesta tese, o termo sentido é usado de forma ampla e pode abranger aspectos sintáticos, como, por exemplo: declarativas, interrogativas; e/ou semânticos: pedido de confirmação, pedido de atenção; e/ou pragmáticos: finalidade, continuidade. Essa tomada de posição em que não se classifica o sentido em sua relação com a descrição da entoação se deve ao fato de que o objetivo desta tese é observar as possibilidades de escolha de falantes do PB e do IA no tocante ao elemento prosódico da entoação e não descrever todos os padrões possíveis para carrear determinados sentidos. O escopo desta pesquisa, portanto, não permite uma descrição detalhada e específica dos sentidos, mas propõe a identificação de padrões entoacionais possíveis para os sentidos linguísticos, considerados de forma ampla, encontrados em determinado recorte do corpus por meio do contexto compartilhado e da comparação entre as línguas analisadas.

4.6 Resumo

Esta seção teve como objetivo apresentar as bases metodológicas para a descrição e análise do corpus desta pesquisa. A primeira questão tratada foi a coleta de dados, na qual se especificou o método de extração do material de áudio do filme Shrek (2001). Em seguida, as

155 “os sistemas realizados pela entoação se relacionam com os sistemas gramaticais do tipo mais comum (aqueles realizados no nível da frase) exatamente da mesma maneira que esses se relacionam um com o outro. Assim, o que parece ser uma solução mais simples local torna-se muito mais complexa globalmente.”

características de uma análise acústica com o auxílio do programa Praat foram apresentadas. Finalmente, a partir de um exemplo retirado do corpus, foram demonstrados os critérios relevantes para se realizar uma descrição por meio da abordagem sistêmico-funcional da entoação e depois pela abordagem proposta pela Fonologia Entoacional AM.

A partir do tipo de corpus de análise escolhido, dados não adaptados para os fins da pesquisa, e da metodologia escolhida para esta pesquisa, em que os mesmos dados são descritos segundo duas abordagens nas quais as unidades constitutivas da entoação são distintas, apresentam-se, a seguir, a descrição e a análise do corpus, com o objetivo de delinear algumas inferências sobre o uso da entoação em cada uma das línguas em análise e, também, de realizar um estudo comparativo entre as escolhas dos falantes de cada uma delas em contexto semelhante.