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COMMISSIONING OF NEW EXPERIMENTAL DEVICES

Dans le document Commissioning of Research Reactors | IAEA (Page 46-77)

Toda tradução tem uma dimensão política que se realiza, também, a partir das escolhas do tradutor, desde o momento no qual decide o texto a ser traduzido e define qual/quais função/funções essa tradução realizará na cultura de chegada. Mas, é importante lembrar que a dimensão política está distribuída nas diferentes etapas do processo, passando pelo cliente que contrata, podendo ser uma editora, uma instituição, um particular, etc. Portanto, não é possível pensar uma tradução feita no vácuo, dissociada da realidade social, política e cultural das comunidades de partida e de chegada. Ademais, quem realiza uma tradução, faz a partir de um propósito, inserido em uma determinada historicidade e, por mais que o tradutor não tenha predefinido seus objetivos com precisão, sempre haverá uma intenção, mesmo que de forma inconsciente, quando se constrói um texto para uma língua de chegada,

partindo de um texto em outra língua e que pertence a uma realidade histórica, social e cultural distinta.

Portanto, quando escolhi o monólogo Contrasto per una sola voce (1981), para traduzir para o português, eu tinha consciência de que esta minha decisão tinha como motivação, primeira e maior, trabalhar com um texto voltado para questões da mulher e pertencer ao espetáculo, Tutta casa, letto e chiesa (1977) que trouxe a atriz Franca Rame como coautora dos textos e, também, como protagonista de seis monólogos que tratavam da condição da mulher, suas desigualdades, violências e submissões. Sendo um espetáculo que até hoje é encenado em vários países, em razão das discussões que suscita em torno desses problemas, ainda, tão atuais e reais em nossa sociedade. É preciso evidenciar a triste realidade sobre a violência que sofre a mulher no mundo e principalmente, no Brasil, cujos números indicam índices assustadores: a cada 7.2 segundos, uma mulher é vítima de violência física; o assassinato de mulheres negras aumentou 54%; duas em cada três universitárias brasileiras disseram já ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário. Ou seja, enquanto este trabalho acadêmico foi produzido, inúmeras mulheres em todo o país, independente da sua condição social e racial e, também, em relação à sua condição social e racial, mas, principalmente, por serem mulheres, foram vítimas das mais diversas violências físicas, sexuais e de gênero.

Por se tratar de um texto teatral, há, também, o desejo e o objetivo de uma futura encenação com a participação de profissionais do teatro, ligados à Faculdade de Teatro da Universidade Federal da Bahia – UFBA, para que essa tradução não reste aprisionada num trabalho acadêmico, e possa cumprir sua função política e social na comunidade de chegada.

Mas, também, é preciso destacar que, nos Estudos da Tradução, há diversos casos nos quais o ato de tradução como intervenção política desloca-se do eixo de defesa às causas sociais, civis e humanitárias, para servir de instrumento violento de colonização. Ou seja, a prática tradutória posta a serviço da supremacia de uma determinada cultura dominadora sobre uma cultura colonizada. Portanto, a partir dos estudos pós-coloniais, é possível reconhecer a tradução como ato de intervenção política, mas, colocando-se a serviço de um projeto de colonização e de dominação. Assim, Kanavillil Rajagopalan, nascido na Índia, Professor Titular (aposentado- colaborador), na área de Semântica e Pragmática das Línguas Naturais da

Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e pesquisador, relata sobre a tradução como instrumento de dominação num projeto de colonização:

O encontro colonial põe em confronto duas culturas, juntamente com as línguas pelas quais essas culturas realizam sua autoexpressão, uma contra a outra. Para observadores inocentes, o encontro se dá entre duas línguas que tinham pouco ou nenhum contato entre si até aquele momento e, consequentemente, existe uma necessidade urgente de que se criem meios de alcançar um entendimento mútuo. Mas, como estudiosos começaram a perceber cada vez mais, o olhar colonial é tipicamente unilateral, assim como a necessidade de comunicação entre o colonizador e o colonizado. O primeiro está interessado em aprender mais sobre o segundo, com vistas a se preparar melhor para atitudes ou reações típicas das culturas estrangeiras. Quanto mais se sabe sobre os nativos e sua cultura, tanto mais se está numa posição privilegiada para controlá-los e manipulá-los. (RAJAGOPALAN apud ESTEVES, 2014, p. 260).

Portanto, esse processo de supremacia de uma cultura dominante sobre uma cultura dominada, por meio da língua e da tradução, não ocorre de forma natural. Nada acontece de forma ingênua, tampouco inconsciente. Tudo é construído de forma planejada e com fins bem específicos. Como exemplo de caso concreto para o que foi descrito pelo estudioso Rajagopalan, destaco um dos exemplos utilizados por Lenita Esteves (2014), para tratar da intervenção política como ato de tradução. Assim, a partir da tradutora e teórica cultural indiana, Tejaswini Niranjana, ela destaca as estratégias utilizadas pela Grã-Bretanha na colonização da Índia, traduzindo obras indianas para o inglês:

A autora desvela o intrincado raciocínio programático britânico, para o qual era preciso que as traduções fossem feitas por europeus, já que os indianos não eram intérpretes confiáveis de suas próprias leis e cultura; assim, os britânicos é que eram os indicados para proporcionar aos indianos suas próprias leis, agora “organizadas” e europeizadas. (ESTEVES, 2014, p. 261).

Diante do exemplo citado, a tradução é vista como um instrumento violento de colonização. Assim, por meio dessas traduções criou-se uma “Índia textualizada para a Europa.” (ESTEVES, 2014, p. 262).

Ainda, sobre essa temática, o tradutor norte-americano, Lawrence Venuti discute de forma corajosa e vertiginosa acerca do fenômeno transcultural implícito em uma tradução. Em seu livro, Escândalos da Tradução (2002), ele afirma que os escândalos da tradução são culturais, econômicos e políticos. Descreve e analisa as

realidades que envolve uma prática tradutória, reforçando, mais uma vez, a ideia de que nenhuma tradução é ingênua. Há, portanto, sempre uma intenção por trás de um projeto tradutório e muitos são os participantes e os envolvidos. Para Venuti (2002, p. 10) “a tradução, como qualquer prática cultural, acarreta a reprodução criativa de valores.” Isso ratifica a ideia de que numa tradução o ato político se faz sempre presente, seja com o fim de sobrepor culturas e povos, seja para transformar realidades sociais e políticas, seja para realizar trocas de conhecimentos, reconhecendo no outro um mundo a se descobrir com anseios humanitários, seja para valorizar uma cultura.

Dans le document Commissioning of Research Reactors | IAEA (Page 46-77)

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