A sedimentação é geralmente controlada por processos alógenos, os quais determinam a distribuição dos elementos deposicionais dentro de um sistema deposicional. São eles: clima, tectônica e mudanças do nível do mar e suas relações como fluxo de energia ambiental, suprimento de sedimento, acomodação e tendências deposicionais (Cartuneau, 2006). Segundo o autor, estes elementos são diretamente relevantes para estratigrafia, uma vez que controlam a arquitetura de preenchimento das bacias em escalas maiores.
79 Segundo Nichols (2009), a tectônica (soerguimento/subsidência), eustática (subida/descida do nível do mar) e sedimentação são os três fatores responsáveis pela inconstância da posição da linha de costa, onde questões sobre como e onde os fatores ocorrem, quais são suas taxas e como eles se interagem são fundamentais para a sedimentologia e estratigrafia. Ao mesmo tempo em que uma formação definida pelas suas características litológicas, provavelmente de estratos depositados em um ambiente sedimentar particular, apresentam correlações no quadro cronoestratigráfico. A quantidade de espaço de acomodação que está disponível para os sedimentos preencherem é mensurada pela distância entre o nível de base e a superfície deposicional (Jervey, 1988 apud Cateneau, 2006). Sedimentos em trânsito são depositados e preservados quando atingem locais situados abaixo deste nível e o volume compreendido entre ele a superfície deposicional. A acomodação é reduzida pela adição de sedimento para preencher o espaço ou por mecanismo tectônico ou eustático que abaixam o nível relativo do mar (Nichols, 2009). Desta forma, uma elevação relativa do nível do mar causa aumento do espaço de acomodação e transgressão marinha (Assine & Perinotto, 2001). No entanto, a magnitude do preenchimento do espaço de acomodação é dependente também do suprimento sedimentar.
Suprimento sedimentar refere-se à quantidade (ou fluxo) e tipo (tamanho do grão) de sedimento que é fornecido da área fonte para áreas deposicionais, sendo uma variável dependente também da VRNM por eustasia, da tectônica e das condições climáticas na área fonte. Clima úmido aumenta a quantidade de suprimento sedimentar devido ao aumento da eficiência do intemperismo e erosão (Cateneau, 2006).
No preenchimento sedimentar de sistemas siliciclásticos costeiros as superfícies deposicionais são inclinadas para o oceano. A relação entre a taxa de suprimento sedimentar e a taxa de VRNM controla a arquitetura do preenchimento do espaço de acomodação, ou seja, se o empilhamento dos estratos se dá de forma agradacional, progradacional ou retrogradacional (Assine & Perinotto, 2001).
80 A agradação ocorre quando os sucessivos conjuntos de fácies empilham-se verticalmente e não há migração de fácies para o continente nem para a bacia deposicional. Isto ocorre quando o suprimento de sedimentos e a geração de espaço de acomodação estão em equilíbrio (Nichols, 2009). A progradação é definida como uma construção de uma linha costeira em direção ao mar pela deposição de sedimentos de origem fluvial ou pelo acúmulo de material de praia movido pela deriva litorânea (Bates e Jackson, 1987 apud Catuneau 2006). A progradação é caracterizada por prismas costeiros que se superpõem do continente para o oceano, promovendo regressão marinha (Assine & Perinotto, 2001). A retrogradação é definida como o movimento para trás (terrestre) ou retirada de uma costa pela erosão das ondas, provocando deslocamento de fáceis em direção ao continente. Isto se dá quando a taxa de suprimento sedimentar é baixa e a taxa de elevação do nível do mar é alta, ocasionando a transgressão marinha (Catuneau, 2006).
A transgressão é definida como a migração da linha de costa em direção a terra. A migração desencadeia mudanças de fácies correspondente na mesma direção, assim como o aprofundamento da água do mar na vizinhança da linha de costa, resultando em padrões de empilhamento retrogradacional, por exemplo, fácies marinhas mudando em direção as fácies não marinhas adjacentes (Catuneau 2006). Segundo o autor, dentro do lado não marinho, na base, a transgressão é comumente indicada pelo aparecimento de influências de maré em sucessões fluviais, como por exemplo, leitos de ostras e salobros para fósseis de traços marinhos. A linha de costa irá se mover para um lugar que costuma ser terra e os depósitos de planícies costeiras serão sobrepostos por depósitos de praia (Nichols, 2009).
A regressão é definida como a migração da linha de costa em direção ao mar. A migração desencadeia uma mudança de fáceis correspondente na mesma direção, assim como, a redução da lâmina d’água do mar na vizinhança da linha de costa, resultando em padrões de empilhamento progradacional, como por exemplo, mudanças de fáceis não-marinhas em direção as fácies marinhas (Catuneau, 2006). O padrão de sucessão vertical da regressão parece ser oposto ao da transgressão: como
81 o mar se torna mais raso, tanto devido à queda relativa do nível do mar (regressão forçada) ou por adição de mais sedimento (regressão)..
A regressão normal é uma regressão marinha deposicional onde não há erosão do prisma costeiro, pois ocorre quando o nível do mar permanece constante ou com nível do mar em lenta elevação, desde que a taxa de suprimento sedimentar seja suficientemente alta para suplantar o aumento do espaço de acomodação gerado pela elevação do nível do mar. A regressão forçada ocorre quando há queda acentuada do nível relativo do mar, exposição e erosão do prisma costeiro e de parte da plataforma, transporte sedimentar bacia adentro e deposição por progradação a partir da nova linha de costa, definida pela posição mais baixa atingida pelo nível do mar (Nichols 2009, Catuneau, 2006; Assine & Perinotto, 2001).
Segundo Cattaneo & Steel (2003), a dinâmica de deslocamento do litoral, a arquitetura resultante e a espessura do depósitos transgressivos são fortemente dependente, dentre outros fatores, da herança fisiográfica (gradiente da plataforma e rugosidade). Durante a transgressão, plataforma de baixo gradiente topográfico, submetida a igual aumento do NRM, as mudanças da linha de costa ocorrem mais rápidas, além de uma área transgredida muito mais ampla, pois os sedimentos são mais amplamente dispersos, resultando em depósitos pouco espessos.
Quanto à rugosidade herdada, vales incisos que não são completamente preenchidos por sedimentos fluviais tornarão estuários na transgressão e poderão tornar-se locais de acumulação de depósitos transgressivos grossos devido ao retrabalhamento dos canais de maré de alta energia. Em um sistema barreira-laguna ocorre o recuo da antepraia ou da barreira, dispersando o sedimento erodido tanto em direção ao ambiente lagunar ou estuarino por meio de overwash ou depósitos de delta de maré de enchente, quanto em direção à antepraia e áreas offshore, onde os sedimentos são dispersados por refluxo de maré e tempestades (Cattaneo & Steel, 2003).
Em larga escala, os depósitos transgressivos tendem a se tornar mais finos para o topo, refletindo a tendência ascendente deaprofundamento general. É provável também, que durante uma transgressão os terrígenos tornam-se mais raros e os
82 componentes autigênicos mais presentes. A presença abundante de leitos de conchas (trasngressive lags) concentrado no topo da superfície transgressiva na plataforma interna para exterior por erosão da antepraia também é comum nos depósitos transgressivos (Cattaneo & Steel, 2003).